Saltar para: Post [1], Comentar [2], Pesquisa e Arquivos [3]

A bem da Nação

LIDO COM INTERESSE – 21

 

Título: Á descoberta de África

Autor: Martin Dugard

Tradutor: António Cruz Belo

Editores: Casa das Letras

Edição: 1ª, Abril de 2007

 

 

Trata-se de um livro de agradável leitura e que, ao contrário dos meus prognósticos, se revelou muito interessante pois o Autor enquadra as viagens de Livingstone e de Stanley na política internacional da época dando-lhe uma perspectiva de lógica imperial não se limitando à descrição das diatribes por que passa qualquer explorador.

  Bagamoyo, na actual Tanzânia, foi onde Livingstone desembarcou para iniciar a sua expedição em busca da nascente do Nilo

Logo pela capa se fica a saber que nos vamos deparar com «o relato de uma das maiores aventuras de sempre. A primeira travessia de África de leste a oeste». No entanto, os heróis do livro cruzam-se amiúde lá nas savanas e florestas africanas com portugueses pelo que esta não é de todo a primeira travessia mas apenas a primeira relatada por alguém da cultura anglo-saxónica. Por motivos diferentes que não a descoberta de ocorrências geográficas (a nascente do Nilo), os portugueses já por lá andavam e, portanto, a esses anónimos a glória do desbravamento inicial. E, mesmo assim, desbravamento para a cultura eurocêntrica do séc. XIX pois os árabes já por lá andavam no negócio esclavagista, à semelhança do que ainda hoje fazem com especial relevo no Darfur. Mas nem sequer esta perspectiva é totalmente correcta pois são conhecidas viagens de portugueses que em épocas bem mais antigas, idos do Egipto para sul a mando do Infante D. Henrique em demanda do Preste João, acabaram por atravessar todo o continente a chegaram a uma região a que os autóctones chamavam N’gola.

 

Esta referência inaugural às viagens de Livingstone e de Stanley faz-me assim lembrar a expressão do poeta alemão Hölderlin (1770-1843) que afirmava que «Somos originais porque não sabemos nada».

 Henry Morton Stanley meets David Livingstone in Ujiji, 1871. "Dr. Livingstone, presumo" - terá dito Stanley quando se encontraram em Ujiji

Na esperança de que os anglocêntricos se dêem ao trabalho de estudar um pouco mais, ficamos neste livro sem quaisquer dúvidas sobre o enorme papel que a Real Sociedade de Geografia desempenhou na definição do que foi o Império Britânico e de como estas explorações mais não tinham do que o objectivo dissimulado de afirmarem a presença britânica nos locais que Londres queria dominar. Portugal respondeu a estas viagens com as explorações de Hermenegildo Capelo e de Roberto Ivens para afirmar a posse dos territórios entre as duas costas africanas a sul do reino do Congo mas não colhe nesta apreciação referir todo o drama que foi o chamado Mapa Cor-de-rosa, a prerrogativa que Inglaterra se atribuiu de pôr e dispor sobre o que era português.

 Roberto Ivens (de pé) com Hermenegildo Capello em Iaca. Hermenegildo Capelo (1841-1917) à esquerda e Roberto Ivens (1850-1898) algures em África

Tudo o mais referido no livro é de certo modo supérfluo em relação a esta perspectiva fundamental da construção do Império Britânico com excepção da guerrilha de interesses que então existia entre Inglaterra e os Estados Unidos. É no âmbito dessa quezília internacional que surge o galês Stanley naturalizado americano a disputar o prestígio britânico salvando o herói Livingstone abandonado pelos seus pares. Esta é também uma faceta bem interessante e não fora este livro e quase dava para nos esquecermos de que esse antagonismo chegou a acirrar a política dos dois lados anglófonos do Atlântico. Quem diria nos dias de hoje que no séc. XIX Inglaterra se permitia ter uma opinião diferente da americana …

 

Lisboa, Novembro de 2007

 

Henrique Salles da Fonseca

Comentar:

Mais

Se preenchido, o e-mail é usado apenas para notificação de respostas.

Este blog tem comentários moderados.

Este blog optou por gravar os IPs de quem comenta os seus posts.

Mais sobre mim

foto do autor

Sigam-me

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2021
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2020
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2019
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2018
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2017
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2016
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2015
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2014
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2013
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2012
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2011
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D
  144. 2010
  145. J
  146. F
  147. M
  148. A
  149. M
  150. J
  151. J
  152. A
  153. S
  154. O
  155. N
  156. D
  157. 2009
  158. J
  159. F
  160. M
  161. A
  162. M
  163. J
  164. J
  165. A
  166. S
  167. O
  168. N
  169. D
  170. 2008
  171. J
  172. F
  173. M
  174. A
  175. M
  176. J
  177. J
  178. A
  179. S
  180. O
  181. N
  182. D
  183. 2007
  184. J
  185. F
  186. M
  187. A
  188. M
  189. J
  190. J
  191. A
  192. S
  193. O
  194. N
  195. D
  196. 2006
  197. J
  198. F
  199. M
  200. A
  201. M
  202. J
  203. J
  204. A
  205. S
  206. O
  207. N
  208. D
  209. 2005
  210. J
  211. F
  212. M
  213. A
  214. M
  215. J
  216. J
  217. A
  218. S
  219. O
  220. N
  221. D
  222. 2004
  223. J
  224. F
  225. M
  226. A
  227. M
  228. J
  229. J
  230. A
  231. S
  232. O
  233. N
  234. D