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A bem da Nação

CRÓNICAS DO BRASIL

Reminiscências.

Crónica familiar

 

                                                                                          

 

No convés as pessoas disputavam um espaço junto à balaustrada, enquanto lenta e pesadamente o navio fazia manobras para atracar no cais. Ali, o mar estava diferente, era turvo e escuro, cheirava mal. Lá em baixo, no porto, as pessoas aglomeradas agitavam mãos e lenços mostrando a sua presença. Ansiosas, esperavam o desembarque de amigos e parentes que chegavam de outros e longínquos lugares para uma nova vida recomeçar. Apesar do calor, a maioria chegava agasalhada, vinha de um clima frio, do velho continente. Havia um contraste gritante entre eles e a população local, que se vestia com roupas leves e claras. Os homens, de uma maneira geral, estavam em manga de camisa, bem à vontade. Lá de cima, minha mãe portando um sóbrio conjunto de lã azul-escuro, chapéu e luvas, no braço um sobretudo, procurava com o olhar a presença de meu pai no meio de toda aquela gente.   Foi com alegria, mas com um aperto no coração, que o encontrou vestido à brasileira. Pressentiu que dali em diante a sua vida iria ser bem diferente daquela a que estava acostumada.

 

Quando chegamos de Portugal, no verão de 1955, fomos morar na Ilha do Governador, cidade do Rio de Janeiro, naquele tempo, Distrito Federal. Era um lugar pacato e agradável, muito arborizado, cercado pelas águas limpas e sonolentas da Baia da Guanabara. Apesar do clima tropical, a brisa fresca que soprava do mar amenizava o calor abafado que a gente custava a suportar.

 

Meus pais matricularam-me numa Escola Pública que ficava mais ou menos próxima da nossa casa. Foi lá que descobri o que era ser imigrante. Já alfabetizada e com oito anos, fui para o segundo ano primário. Como lia, escrevia e fazia as tarefas com regularidade, chamei a atenção da professora que frequentemente me convocava para ir ao quadro negro. Isso despertou “ciúmes” em alguns colegas que, percebendo o meu sotaque diferente, passaram a” pegar no meu pé”. As crianças faziam chacota, arremedavam-me quando eu falava, inibiam-me. Criança, também, não percebi bem a situação. Passei a falar pouco, sempre que podia esquivava-me, evitava ser notada. Mais tarde e mais velha, entendi que para ser aceita, deveria aprender a conquistar o meu espaço e assim o respeito da turma.  Achei a solução no estudo.

 

Na minha infância, na Ilha, havia uma hora que eu esperava com expectativa e euforia. Era à tarde, após fazer os deveres de casa e tomar banho, quando íamos passear à beira-mar, que ficava no final da nossa rua. Brincávamos de pique–esconde, de roda, de pular corda e amarelinha, jogávamos bola de gude e andávamos de bicicleta. Vez  por outra dávamos espaço para algum carro passar, porque a rua naquele tempo era mais para as crianças brincarem. Mas era no final do dia, quando o Sol se punha, que a meninada assistia com excitação, sentada na beira da calçada, aos filmes que um dos pais passava, usando como tela o muro do vizinho em frente. Os filmes eram coloridos, os artistas lindos, a carácter vestidos, actuando em ambientes deslumbrantes que enchiam nossos olhos e cabeças de encantamento. Desenhos animados, Meias de Seda, Trapézio, As Minas do Rei Salomão, filmes cheios de beleza, romance e acção que nos transportavam para um mundo de fantasia. Nos dias de projecção cinematográfica a alegria na rua era geral. A agitação em frente à casa do Sr. Hugo era grande. Todos esperavam ansiosos que ele montasse aquela máquina cheia de rodas que nos levaria a um mundo de ilusão. Com tanto entusiasmo, minha irmã e eu até fingíamos não ver papai chegar do trabalho, à noitinha, para o jantar. Em certa vez,   isso nos valeu umas boas palmadas. Para ele era sagrada a hora em que nos reuníamos para a refeição.

 

Nas nossas primeiras férias ganhamos um maiô (fato de banho) de lã vermelha que entusiasmadas vestíamos para tomar banhos de mar, brincar na areia, pegar uma cor sob sol, entrar nas águas da praia da Freguesia. Pescarias nas pedras, passeios de barco, visitas ao Zoológico da Quinta da Boa Vista e ao Museu de Petrópolis, onde o simples acto de calçar e arrastar aquelas pantufas gigantescas de feltro, para não arranhar o piso de madeira, era uma aventura que provocava risos sem juízo e enriquecia nossa infância brasileira. Com o tempo vieram naturalmente as alegrias e as desilusões, os problemas e as superações. Crescemos. Perdemos o sotaque. A exposição ao Sol e às águas cariocas tornou nossa pele bronzeada, com uma cor tropical. Já não parecíamos imigrantes. No aspecto físico, pelo menos, deixamos de ser estrangeiras.

 

Maria Eduarda Fagundes

Uberaba 18/8/07

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