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A bem da Nação

VICE-REINADO DO PRATA - DOMÍNIO INGLÊS NO PRATA - 4

                                A ANARQUIA E O CAUDILHISMO - A ÉPOCA DE ROSAS
 
 
Resumo final parte 3: A Inglaterra fez várias intervenções no Prata ou directamente ou como mediadora em questões platinas, através da acção diplomática ou pela acção da força.
 
 
A Inglaterra interferiu na questão platina por meio de pressão, durante o período confuso e prolongado anterior à Revolução de Maio. Nessa fase a Argentina formulou seu desejo de liberdade comercial, que se firmou com sua autonomia em relação à Espanha, mas Buenos Aires reservou para seu uso essa liberdade em prejuízo das demais províncias. Quando a capital argentina e suas áreas de influências, inclusive as da Banda Oriental, entraram em luta com o Brasil no momento em que este atravessava a crise da independência, a Inglaterra interferiu por mediação fazendo constar do acordo de paz, como convinha ao Brasil, mas como também lhe convinha, a abertura dos rios. Diante da força dos seus oponentes internacionais, cuja pressão crescia com o passar dos anos, Buenos Aires transige com os interesses externos facilitando a entrada das mercadorias inglesas, francesas e brasileiras. Manterá, porém, sobre as províncias, a sua primazia. A prolongada luta entre o grupo que promoveu a independência platina e as nações já constituídas, da América e da Europa, que pressionaram para a obtenção da liberdade de comércio, encerra-se por concessões externas e com a permanência da intransigência interna.  
 
As concessões externas serão falseadas com o decorrer do tempo, de tal sorte que o problema será retomado em seus termos originais e enfrentado. Nova concessão é feita por Buenos Aires, mas sem saber muito bem que rumo tomar. Essa oscilação indicava interesses em jogo e também a complexidade da formação nacional platina. Factores internos e externos estavam intimamente ligados à guerra civil, ao caudilhismo, à anarquia. O factor pertencente ao domínio exclusivo platino culminou na guerra entre as nações e uma parcela dos países envolvidos apoiaram as forças externas com o financiamento e a presença militar inglesa e francesa pesando no equilíbrio da luta. Posteriormente estes dois países abandonaram o conflito para deixar transparecer uma guerra internacional, mas na verdade tratava-se de prolongada e aguda guerra civil.
  
Essa fase de conflitos contínuos adquire o perfil da anarquia, que por sua vez gera o caudilhismo. De um lado Buenos Aires enriquecendo sempre, comerciando, auferindo lucros com pretenção de domínio nacional, formulando um modelo de nação que a tivesse como líder e para ela vivesse e trabalhasse. Era uma capital de província com evidentes contradições, porque nela residia um grupo mercantil urbano poderoso e ascendente. De outro lado, os campos provinciais ficavam entregues ao pastoreio. À proporção que os índios recuavam para o sul e para o oeste, esse pastoreio crescia sobre a capital e a ameaçava com a sua fúria anárquica.
   
Enquanto na cidade comercial adiantada a riqueza permitia uma vida ao estilo europeu, a estrutura jurídica dava início a sua organização, a força militar começava a sua profissionalização contribuindo para levar a independência a outras regiões, no campo surgia o caudilhismo nascido da anarquia económica e política. Esse movimento formava tropas milicianas e personalistas dominadas por grandes proprietários de terras e de gado. Durante a fase da competição pelo domínio dos rios, as províncias do litoral faziam activo contrabando, inclusive o de armas. Ao mesmo tempo a economia começava também a desenvolver em torno de grandes senhores de terra e de rebanhos, que reuniam os seus peões e lideravam os proprietários menos poderosos numa organização medieval na qual cada senhor comandava o seu bando armado.
 
As províncias do interior, mais pobres e enfraquecidas por causa da entrada de mercadorias no porto do estuário arruinando seu artesanato já desenvolvido e as suas manufacturas em estágio inicial devastadas pelas lutas militares da independência, geraram também os seus senhores da paz e da guerra. Esses senhores reuniam a população miserável e entravam na desenfreada e personalista competição em busca de fundos para manter-se. Nesse cenário de dispersão e fragmentação instala-se uma guerra civil continuada bem como a luta entre as províncias, a luta entre esses senhores de terras e de rebanhos, que viviam da espoliação, do saque e alimentavam a anarquia económica e a separação política.
 
As reuniões do Congresso resultavam inúteis, pois nem todas as províncias compareciam e em vão Buenos Aires ditava constituições, porque a elas os caudilhos negarão obediência e contra elas se rebelarão. É uma luta sem trégua fundamentada na competição económica de uma estrutura que não encontrava equilíbrio, que enfraquecia ainda mais as províncias do interior . Todas elas desejavam a autonomia e nenhuma buscava a solidariedade nacional como se fossem países estranhos a se guerrearem. Alfândegas interiores e guerra comercial, espoliação organizada, luta militar, competições continuadas sem resultados positivos na luta pelo poder no interior das províncias; lutas de umas contra as outras, sistemas de alianças de algumas contra Buenos Aires ou contra as vizinhas. Crimes políticos, reinado da desordem, império da força e com isso a desorganização, a separação, os exclusivismos, a barbárie sem limites. Uma única força organizada sobrevivia, embora dispersa, a dos caudilhos, dominando os territórios onde surgiam e viviam as suas milícias levando o terror e a expoliação a quem não lhes prestasse obediência ou lhe negasse o fornecimento de meios. Reinado da anarquia absoluto, despótico e irrefreável no qual todas as ideias desapareciam e a conciliação estava condenada ao fracasso. Restava o domínio da força e esta encontrou o campo aberto a todos os seus desmandos.
 
 
Continua.
Belo Horizonte, 30 de setembro de 2007.
Therezinha B. de Figueiredo 

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