A propósito de uma voz imitando o falsete que ontem ouvi por acaso não sei já onde, lembrei-me de Norodom Sihanouk, o Rei do Camboja que, com falsa modéstia, se intitulava Príncipe. Neste mundo há homens altos e baixos, gordos e magros, robustos e frágeis sendo que em todas estas categorias há grandes homens e homenzinhos. E aqui recordo Sá de Miranda quando nos diz que:
«Homem de um só rosto, de um só parecer, de uma só fé
De antes quebrar que torcer,
Ele tudo pode ser
Mas de Côrte homem não é.»
Esta, sim, a apologia do carácter, dos homens de palavra contra os palavrosos, dos afirmativos contra os explicativos.
Pessoas cultas são as que buscam o significado dos conhecimentos herdados e lhes acrescentam valor em prol do bem- comum concebido na mais ampla consensualidade; os outros são consumidores de oxigénio. O perigo surge quando os oxigenosos, por tradição ou compadrio, ocupam cargos de chefia com as instituições a ruírem e o caos instalar-se. Foi o que aconteceu no Camboja com Sihanouk.
Mãe e aias extremamente carinhosas (em vez de pai e tutores masculinos) infantilizaram Norodom para sempre. Total ausência de postura de Estado, mexia-se em permanente competição com a ubiquidade. Para foto oficial como Chefe de Estado escolheu uma em que, ainda muito novo, traja vestes doiradas e usava uma coifa de vários patamares cujo os significados ignoro. Terá sido esta foto que levou a mulher do último Governador francês da Cochinchina chamá-lo depreciativamente de «le mignom» e foram os seus discursos atabalhoados a referi-lo como «l’imbécile». Governança «á la diable», liberdade de corrupção, povo kmehr ao abandono… mas o pior estava para vir pela loucura sanguinária de Pol Pot. Sihanouk auto-exilado junto dos seus arqui-inimigos chineses. Terror vermelho e campos de morte até que alguém matou o assassino e a Nação Kmehr se entregou à dolorosa tarefa de lamber de feridas. Nação destroçada e sem ânimo para ver que o filho de Sihanouk, antigo bailarino em Londres, não se interessa por assuntos de Estado e que o novo Governo era formado por «kmehrs vermelhos recauchutados».
Infalivelmente, a História vai repetir-se…
CONCLUSÕES
É muito perigoso fazer depender a sorte de uma Nação dos apetites genéticos de alguém – a República Portuguesa deveria ter sido proclamada em Santarém em Janeiro de 1580;
Os cargos públicos de chefia devem der preenchidos por concursos públicos referendáveis sem critérios hereditários nem compadrio.
NOTA FINAL – Está na hora de trasladarmos os restos mortais de D. António (o que fôra Prior do Crato) de Paris para Santarém onde os Procuradoras do Povo nas Côrtes de Almeirim o elegeram Rei de Portugal em Janeiro de 1580.
Quantos modelos de parafusos existem no nosso Exército? E nas nossas Forças Armadas e de Segurança? E como será em Espanha, no Reino Unido, no Canadá e na Suécia?
Num cenário internacional que exige o maior grau de prontidão operacional, não é admissível qualquer atrapalhação por causa de uma porca sueca que não se coaduna com o parafuso francês disponível naquele longínquo teatro de operações.
E outros exemplos poderiam ser citados até à náusea… com a agravante de nem todos os países da NATO usarem o sistema métrico.
Sim, a normalização-compatibilização dos equipamentos da NATO é trabalho fundamental e moroso – urgente, portanto.
A universalidade dos conceitos permite que deles tratemos em toda a parte e a liberdade de pensamento não no-lo condiciona. Eis, pois, a razão pela qual não me restrinjo a abordar temas relacionados com estas paragens enquanto por aqui ando.
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Todo o conhecimento começa empiricamente e, depois, tem dois modos de desenvolvimento:
* Pela acumulação de empirismos relacionados com o tema inicial bem como das respectivas envolvências;
* Pela generalização-teorização. Nas humanidades, o método é o da tese-antitese-conclusão, mas nas ciências materiais, segue-se a experiência-medição de resultados e, quantificação dos erros-experiencia-correção-experiência- e assim sucessivamente até que a investigação seja dada por concluída.
O método empírico oriental vs o método ocidental.
O empírico tem milhares de anos de acumulação de saberes; o método ocidental tem poucos séculos de investigação experimental com resultados verificados e homologados.
Foi da pujante investigação científica ocidental que surgiu a iniciativa humilde (???) / inteligente (!!!) de enviar cientistas aventureiros para as florestas tropicais a fim de conversarem com os xamãs para perceberem quais os princípios activos das mézinhas por ali usadas. Expurgadas as charlatanices, a indústria químico-farmacêutica encarrega-se do resto.
Na sequência desta iniciativa, seria interessante que a Ciência Ocidental se dispusesse a dissecar as Medicinas Orientais a fim de detectar o que nelas haja de interessante.
Por exemplo, seria bom que conseguíssemos sintetizar a essência do corno do rinoceronte e do marfim do elefante, assim passando a nossa indústria a fornecedora dos mercados orientais e a salvar aquelas espécies da triste situação em que se encontram.
Assim, com uma pomposa entrada pelo sapientíssimo campo da Epistemologia, fomos parar ao corno do rinoceronte.
O Golfo de Cádis começa na Ponta de Sagres, vai até Gibraltar, «salta» para Ceuta e vai até ao Cabo Bojador. E como a Nau Catrineta, também este tem muito que contar…
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Corria o ano de 1637 quando Filipe III de Portugal (IV de Espanha) nomeou D. Francisco de Almeida como Governador de Ceuta. Chegada a Revolução de 1640, este nomeado não reconheceu D. João IV como novo Rei de Portugal e manteve a lealdade a quem o nomeara.
Ou não estava à altura da História ou era apenas mais um traidor. … e morreu, claro! Mas Ceuta continua ainda hoje em mãos Espanholas, apesar de continuar a ostentar os símbolos da heráldica Portuguesa. Peso na consciência ou nostalgia do passado?
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Não confundir com esse Português de corpo inteiro e alma maiúscula, D. Francisco de Almeida que foi o primeiro Vice-Rei da India (1504-1509).
SUGESTÃO: Conduzamos Ceuta para o estatuto de Cidade Internacional da Paz sob a égide solidária de Portugal, Marrocos e Espanha.
Reinava D. João III quando, lá para as bandas da Córsega, o então jovem adulto D. Manuel de Sousa Coutinho foi pirateado e levado para Argel na precária condição de «alimento» do negócio do resgate de cristãos cativos em terras de Mafamede. No cativeiro, teve a companhia de um tal Miguel de Cervantes y Saavedra… um, escreveu em reconhecidas maiúsculas; o outro tem quem o recorde; um, descreveu o mundo fantasioso e inútil em que vivia a elite espanhola por contraste com o rude pragmatismo popular; o outro, não.
Depois de resgatado, D. Manuel ficou-se pelas Espanhas… até que regressou à sua Lisboa natal. Casou com D. Madalena de Vilhena, tida por viúva de D. João de Portugal, desaparecido em Alcácer Quibir. O novo casal teve uma filha que não vingou.
Grassando a peste em Lisboa, refugiaram-se em Almada instalando-se confortavelmente. Educado e activo, D. Manuel desempenhou diversos cargos de nomeação régia, mas, sobretudo, foi escolhido por três vezes pelos seus pares mesários para Provedor da Santa Casa da Misericórdia de Almada.
Mas a História nem sempre parece ser como no-la contam e …
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… neto de D. Manuel I de Portugal, a Filipe II de Espanha meteu-se-lhe na cabeça que havia de reinar em toda a Península pelo que o jovem Rei D. Sebastião era um empecilho que tinha de ser arredado. Começou por fazer com que a mãe do jovem Rei regressasse à sua Espanha natal deixando o Monarca infantil de Portugal entregue à educação ministrada por tutores escolhidos por si, Filipe II, a fim de imbecilizarem a imatura real cabeça lusa com sonhos de cruzada e glória cristã contra o famigerado Islão.
E também havia que evitar que o rapaz se virilizasse pondo mais algum herdeiro a caminho. A expedição contra moirama tinha de ser gloriosa. A força portuguesa de combate incluía a fina-flor da heráldica militar do Reino. Avisadas, preparadas e quiçá apoiadas pelos espanhóis, às forças sarracenas foi fácil atrair as nossas tropas para um atoleiro onde ficaram à mercê da adaga inimiga… quem sobreviveu rumou ao cativeiro. Só poder do Rei de Espanha conseguiria fazer as delícias dos mouros pagando-lhes um real resgaste por D. Sebastião. E, se assim foi, assim terá começado o cativeiro espanhol do Rei português. Este, sim, o cativo que interessava a Filipe II; todos os demais que servissem o negócio da moirama. O Cardeal Rei, D. Henrique exauriu as finanças da Coroa de Portugal no resgate de captivos em Marrocos. Mesmo assim houve quem penasse mais de uma vintena de anos. Terá sido o caso de D. João de Portugal que, depois de desaparecer e ter sido dado como morto, surgiu em Almada sem outro propósito que não fosse o de infernizar a vida do inocente casal. Deixou também no ar a possibilidade de tão longos cativeiros não serem de martírio, mas sim de luxo.
O próprio «Infante Santo» poderá ter-se «convertido ao Islão» passando a constituir peça triunfal dos Marroquinos. Sim? Não? Talvez!
E não bastara esta «ressurreição» de D. João e logo de Lisboa lhes surgiu um oficial da justiça requisitando a mansão para uso de importantões que fugiam da peste que matava na cidade-capital. Furioso, D. Manuel deitou fogo à casa e pôs-se a milhas. Os importantões que se aquecessem ao borralho! E os tempos passaram… Foram ao Panamá e ao Peru e voltaram a Lisboa para abraçarem a vida religiosa. D. Madalena ingressou no Convento do Sacramento, à Pampulha, assim passando ao esquecimento do mundo; ele rumou a Benfica para se fazer dominicano passando a denominar-se Frei Luiz de Sousa.
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E assim fica escrito o que João Baptista. Visconde de Almeida Garrett, não escreveu.