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A bem da Nação

«...E VÓS, TÁGIDES MINHAS...» - 10

ou

O MUNDO VISTO DA MINHA VARANDA

ou ainda

«HOC TEMPUS VINDICTA» que é como vulgarmente se diz «esta é a hora da vingança».

Vingança de quem contra quem?

De quem, já lá vamos, mas seguramente contra Mário Draghi e os «seus» juros negativos, da política desculpadora dos países sulistas, os perdulários, em desfavor dos nortistas, os frugais, do apadrinhamento dos devedores da banca em desfavor dos credores, os titulares dos capitais.

Por palavras maledicentes, esta é a hora da vingança dos aforradores de direita contra a demagogia protectora dos «coitadinhos»,  os consumidores. Pior dizendo… não digo; da mão invisível do «big brother» contra o «peão da brega». A Porta de Brandemburgo contra a Praça Sintagma.

Tudo o resto vem por acaso e muito a despropósito.

E o que é esse resto?

É «só» o Putin e os seus complexos imperialistas, a destruição física do maior fornecedor de cereais à Europa (obrigando-nos a virarmo-nos para Marrocos e para a imprescindível irrigação do Sahara), a busca de fontes energéticas alternativas (não nos esqueçamos de que não foi por falta de pedras que acabou a Idade da Pedra), a tomada (finalmente!) de consciência de que o «colonialismo XX» eufemisticamente chamado «globalização» estava a mostrar-se mais inconveniente do que proveitoso – feitiço vs feiticeiro.

Tudo, ao mesmo tempo, dá esta confusão em que nos encontramos:

  • Os juros só deixarão de subir quando a remuneração líquida dos capitais fôr confortavelmente positiva;
  • A «fronteira» dos US$ 70,00/barril de petróleo sendo confirmada como aquela a baixo da qual há um determinado número de poços exploráveis (definindo um nível determinado de oferta mundial) e acima da qual a viabilização da exploração sobe para quase o dobro do número de poços (aumentando significativamente a oferta mundial e puxando a cotação de novo para baixo), até que consolidemos a substituição dos fornecimentos russos ou os «petroleiros» russos substituam Putin;
  • Algo não muito diferente para o gás natural com os nossos amigos moçambicanos prestes a entrar na oferta mundial.

Concluindo, estamos sujeitos a uma vaga de aumento de preços (vulgar e erradamente chamada inflação) com duas origens – interna e externa – e duas causas fundamentais: 1) A necessidade de repor a remuneração líquida positiva dos capitais; 2) A especulação desenfreada que se mede pela chamada «inflação subjacente» que é a que nada tem a ver com as questões acima referidas e que em Portugal ascendeu a mais de 7% neste final de Outubro de 2022 calculada sobre o período homólogo - esta, sim, a merecer atenção no curto prazo pois que mais não é do que a vingança dos mercados opacos sobre o consumidor inocente e indefeso.

30 de Outubro de 2022

ENCONTRO DE ESCRITORES - 2bis

(…)

- E a propósito de Almada, creio que será interessante o nosso anfitrião também dar voz às escritoras. Que acham? - pergunta Almeida Garrett.

De imediato, o grande Luís anuiu mas lembrou que a sua Jau nada escrevera.

- E lá por isso, a minha D. Madalena também não. Mas tanto a tua Jau como a minha Madalena são o resultado das nossas imaginações. Não, eu sugiro mulheres escritoras, elas próprias.

- Muito bem, vamos sugerir isso ao nosso anfitrião.

Falados, D. Francisco, o anfitrião, concordou mas logo lhes pediu que intercedessem junto de S. Pedro para que deixasse as Senhoras virem até ao lado de cá.

- S. Pedro? Porquê ele e não Santa Clara, por exemplo? - replicou o chique João Baptista. – Tratando-se de Senhoras, parece mais conveniente não meter homens pelo meio, por muito Santos que sejam.

- Sim, sim! – diz o Luís – Nada melhor que a intercessão de Santa Clara para termos por cá garantida Soror Mariana, a das cartas ao francês.

- Muito bem, seja! – diz o terreno D. Francisco – Vejam lá, então, se falam com Santa Clara.

E não é que falaram mesmo? E não é que obtiveram mesmo a autorização? Brilhantes! Pediu a doce Clara que dissessem onde deveriam as Senhoras aparecer e a que horas...

 

Foi então a vez do nosso amigo e anfitrião puxar pela cabeça para imaginar onde poderia ser a reunião das escritoras. Em Alcobaça não, obviamente, por ser mosteiro masculino.

Vai daí, mete-se ao caminho de Beja e procura o Convento da Conceição, das clarissas, onde residira Soror Mariana, mais conhecido por Real Mosteiro de Nossa Senhora da Conceição para falar com a Dona Abadessa. E qual não é o espanto do nosso amigo D. Francisco quando se lhe depara o Museu Regional de Beja, totalmente laicizado (não propriamente profanado), sem Abadessa nem monjas. Pede então ao contínuo de serviço à portaria que lhe obtenha um encontro com a mais alta hierarquia do dito Museu. (...) Que sim, podiam usar uma das galerias desde que no dia de encerramento semanal ao público.

No dia aprazado, postas as mesas com os recipientes de «bebidas paulatinas» (nada de bebidas alcoólicas) e bolinhos conventuais (mas dos secos para obstar a molhangas e outras besuntices), logo ficou estipulado que o que sobrasse deveria ser distribuído por critério ad hoc, ou seja, a bel-prazer de quem por ali manda. E D. Francisco, o terreno, logo foi dizendo que sobraria quase tudo pois só ele comeria alguma coisa; que as espirituosas convidadas são austeras em beberagens e comissões.

 

Só o anfitrião presente e garantido o recato por expressa ordem de extra hominis, caiu o silêncio dentro da galeria colunada e...

... conhecedora dos cantos da casa, entra serenamente à hora prevista a antiga residente no Convento, Mariana Alcoforado. Dada uma olhada calma pelos rótulos das bebidas e pelos pratinhos com bolos, ia a nostálgica e platónica apaixonada pelo Marquês de Chamilli dirigir-se a D. Francisco quando, vinda do Céu de Angola, entra Alda Lara (1930-1962) que já vinha à conversa com a moçambicana Noémia de Sousa (1926-2002). A goesa Maria Elsa da Rocha (1923-2005) foi a seguinte, mas logo seguida pela santomense Alda Espírito Santo (1926-2010). E quase se iam atropelando umas às outras ao passarem, saudosas, pelas gulodices em que já não metem dente quando todas param de espanto perante um chapéu «belle époque» esvoaçante por cima duma pele de raposa anunciando a chegada da mais bela flor que sempre se considerou esquecida, mas não espancada...

Tentando pôr fim ao sururu dos gritinhos de surpresa, beijinhos de saudades e outros salamaleques, foi a vez de o anfitrião sugerir o critério de só falar uma Senhora de cada vez. (...) que sim, que estava bem. E que seria ele, o terreno, a pôr ordem na chamada à palavra. Que sim, que fosse.

- Então, minhas Senhoras, vou pedir a cada uma que nos fale sobre uma obra que considerem importante dentre todas as que produziram. Comecemos por Soror Mariana...

- Obrigada, querido Francisco por me dar a palavra. Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, confesso perante vós, minhas irmãs e colegas de escrita, o meu sincero arrependimento por ter pecado por actos escritos, pensamentos lúbricos e terríveis omissões, tudo em favor desse malévolo francês que me enfeitiçou com lindas promessas que hoje considero escabrosas, imundas e sarnentas e que depois me desprezou com um sonoro silêncio. E foi esse silêncio que me conduziu ao desespero, à ignominiosa escrita que em França os pecaminosos tanto aplaudiram e me conduziram ao estrelato, às honras que hoje tanto me afligem. Foi em desespero que me deixei conduzir pelas vias do pecado e só porque é infinitamente bom, o Pai me perdoou no meu arrependimento e me acolheu ao seu lado direito. Hoje venho aqui perante vós reconhecer os meus erros e declarar-vos que numa próxima vida me dedicarei afincadamente ao estudo para conjugar melhor os verbos em francês. Chamilli vai pagar-mas!

E assim se retirou para perto dos bolinhos, sem lhes tocar. Grande penitência. E na vingança confessada, lá foi Mariana «tirando bilhete» para o Purgatório se não mesmo para as brasas eternas...

 

Estava D. Francisco, o terreno, quase em estado de choque com o destino adivinhado da monja quando viu uma sombra a acenar como que a pedir a palavra. Era a bela flor da porrada.

- Sim, bela flor. Diga-nos um poema seu, por favor.

E assim foi que todas viram o tal chapéu «belle époque» dirigir-se até junto duma coluna para dali ouvirem...

 

Eu quis amar, amar perdidamente!

Amar só por amar: Aqui... além...

Mais Este e Aquele, o Outro e toda a gente…

Amar! Amar! E não amar ninguém!

 

Recordar? Esquecer? Indiferente!...

Prender ou desprender? É mal? É bem?

Quem disser que se pode amar alguém

Durante a vida inteira é porque mente!

 

Há uma Primavera em cada vida:

É preciso cantá-la assim florida,

Pois se Deus nos deu voz, foi pra cantar!

 

E se um dia me fiz pó, cinza e nada

Que fosse a minha noite uma alvorada,

Então eu soube-me perder... p’ra me encontrar...

 

E D. Francisco, o terreno, meio perdido no meio de tanta perdição, só pensava: - Ah! Grande sebenta que hás-de penar eternamente... Mas Deus é grande e perdoou-lhe. Só que deve estar ao Seu lado esquerdo.

 

Apressadamente, deu o nosso amigo terreno a palavra a alguém que lhe garantisse santidade na ex-vida terrena. E escolheu Alda que recordou o seu testamento...

 

À prostituta mais nova

Do bairro mais velho e escuro,

Deixo os meus brincos, lavrados

Em cristal, límpido e puro...

 

E àquela virgem esquecida

Rapariga sem ternura,

Sonhando algures uma lenda,

Deixo o meu vestido branco,

O meu vestido de noiva,

Todo tecido de renda...

 

Este meu rosário antigo

Ofereço-o àquele amigo

Que não acredita em Deus...

 

E os livros, rosários meus

Das contas de outro sofrer,

São para os homens humildes,

Que nunca souberam ler.

 

Quanto aos meus poemas loucos,

Esses, que são de dor

Sincera e desordenada...

Esses, que são de esperança,

Desesperada mas firme,

Deixo-os a ti, meu amor...

 

Para que, na paz da hora,

Em que a minha alma venha

Beijar de longe os teus olhos,

Vás por essa noite fora...

Com passos feitos de lua,

Oferecê-los às crianças

Que encontrares em cada rua... 

 

Comovido, D. Francisco olhou em redor e viu todas as almas do outro mundo ali presentes com nós nas gargantas e lágrimas a correr suavemente pelas nuvens com formas de rosto.

 

Engoliu em seco, aclarou a voz e convidou Noémia de Sousa a dizer o seu «Magaíça».

 

A manhã azul e ouro dos folhetos de propaganda

Engoliu o mamparra,

Entontecido todo pela algazarra

Incompreensível dos brancos da estação

E pelo resfolegar trepidante dos comboios.

 

Tragou seus olhos redondos de pasmo,

Seu coração apertado na angústia do desconhecido,

Sua trouxa de farrapos

Carregando a ânsia enorme, tecida

De sonhos insatisfeitos do mamparra.

 

E um dia,

O comboio voltou, arfando, arfando...

Oh nhanisse, voltou.

E com ele, magaíça,

De sobretudo, cachecol e meia listrada

E um ser deslocado

Embrulhado em ridículo.

 

Ás costas – ah onde te ficou a trouxa de sonhos, magaíça?

Trazes as malas cheias do falso brilho

Do resto da falsa civilização do compound do Rand.

 

E na mão,

Magaíça atordoado acendeu o candeeiro,

À cata das ilusões perdidas,

Da mocidade e da saúde que ficaram soterradas

Lá nas minas do Jone...

 

A mocidade e a saúde,

As ilusões perdidas

Que brilharão como astros no decote de qualquer lady

Nas noites deslumbrantes de qualquer City.

 

Calado, pensou: - Aqui estão as nossas 800 toneladas de oiro, a pesada herança do Doutor Salazar.  Pensou mas calou também a verdade inconfessada por muitos dos que se dedicaram a dizer mal de Portugal mas, quando doentes, se recolhiam à nossa guarda. E nós guardámo-los e demos-lhes tudo o que sabíamos dar. E por cá morriam e também eles nos davam tudo o que tinham: a vida.

Reconhecido, Francisco apenas se limitou a dizer – Obrigado!

 

A noite ia comprida e Santa Clara mandou recado de que lá em cima já eram horas das vésperas. Que as rezassem e regressassem ao Céu.

(...)

Foram os Magos seguindo

A estrela do Oriente

E com presentes confessam

A glória de Deus nascente.

(...)

E quem não falou desta vez, falará da próxima...

 

Cumpridor, D. Francisco agradeceu às Senhoras, viu-as sair através duma parede e pensou que da próxima teria que... o quê?

 

Henrique Salles da Fonseca

«...E VÓS, TÁGIDES MINHAS...» - 9

ou

 O MUNDO VISTO A PARTIR DA MINHA VARANDA

 

Lembro-me de…

…um tal «Banco Ambrosiano» que andou nas parangonas dos jornais e de um Monsenhor americano que veio a Portugal numa comitiva papal e que acabou confinado algures sem gripe;

… o Papa João Paulo I ter sido atabafado enquanto dormia porque alguém (que por certo não queria que ele fizesse algo que se preparava para fazer) entrou (sorrateiramente?) nos aposentos papais e o fez chegar prematuramente junto do Altíssimo;

…o Papa Bento XVI ter abdicado por, segundo disse ou mandou dizer, não ser capaz de governar a Igreja com a dinâmica necessária;

…de o Papa Francisco, nas primeiras palavras que dirigiu aos fiéis que o aplaudiam pela eleição, que rezassem por ele (em vez de, como é da Doutrina, ser ele a rezar por nós);

… o mesmo Papa Francisco a recusar os aposentos papais e preferir ficar «debaixo do olho» de gente amiga numa residência gerida por quem lhe inspira segurança física.

* * *

Dá para concluir que algo anda muito mal por aquelas bandas e que colhe perguntar quem manda na Santa Sé.

Ao contrário do que nós, os vulgares, somos levados a imaginar, os Papas mandam pouco ou, talvez mesmo, muito pouco.

E se não se pode confiar nos vivos, talvez seja conveniente pedir ajuda a Agatha Christie até porque, naquela margem do Tibre deve ser fácil encontrar quem se diga acostumado a invocar espíritos benignos e, já agora, de vocação policial.

 

Outubro de 2022

Henrique Salles da Fonseca

ENCONTRO DE ESCRITORES - (6 bis)

 

Agnósticos, ateus e outros incrédulos, eis a plêiade dos que não acreditam em almas de um outro mundo. Eu também já fui desses. Até que ouvi chamar por mim já umas três vezes e abandonei aquele grupo inicial. Um dia, conto; hoje, não.

 

Esoterismo à parte, vamos ao que é exotérico. E os escritores que hoje invoco também pertenciam àquele grupo inicial mas o esoterismo deu-lhes por certo a volta e, mais dia- menos dia, desafio-os a virem até cá para conversarmos um pouco. Talvez que Santo Ambrósio volte a ser de grande utilidade. Ou São Boaventura, para não estar sempre a incomodar o mesmo.

 

Referi na crónica anterior o meu Avô. Chamava-se (ou chama-se) José Tomás da Fonseca e esteve por cá de 1877 a 1968. A sociedade portuguesa era na sua juventude predominantemente analfabeta[1] e nas terras beirãs onde lhe nasceram os dentes, os Padres tinham um enorme ascendente sobre a sociedade boçal. Querendo estudar, o meu Avô teve que ir para Coimbra interno no Seminário onde, para além do ensino secundário, fez o curso de Teologia. Mas, mesmo no final, «deu corda aos calcantes» e não tomou votos[2]. Então, muito resumidamente, assumiu como suas as duas missões que nortearam toda a sua vida: o combate ao analfabetismo adulto e o fim da hierocracia que na prática existia nas zonas rurais. Todo o cenário em que se movimentou fez dele um insubmisso, um rebelde. Mas, apesar disso, sempre foi muito afável. Eu costumo dizer dele que foi a pessoa simultaneamente mais culta e mais afável que alguma vez conheci. E dele guardo um poema que julgo traduzir a essência do que lhe andou sempre no espírito.

 

OS REBELDES

 

Eu amo a luta

E abrigo a paz no coração.

Meu credo é feito d’alma

E feito de perdão.

Vivo de bênçãos,

Como a flor vive da luz,

Pregando na montanha,

Assim como Jesus,

As delícias do amor

E a paz universal.

Baionetas para quê?

Se a baioneta é igual

À faca do assassino!

Em vez d’homens de guerra,

Camponeses lavrando

E semeando a terra…

Que eu não amo o que mata

Ao meio duma rua,

Mas o que cria um filho

Ou guia uma charrua.

E embora admire e louve

Essa mulher que foi

Ao meio de Paris

Executar um herói,

Muito mais louvo e quero

Essa mulher d’aldeia

Que vai à fonte,

Acende o lume

E faz a ceia

E abre o peito

Dando a um filho de mamar.

Corday [3] é uma tormenta,

A camponesa um lar.

Criar – eis o preceito;

Amar – eis o dever.

O nosso peito abri-lo

A todo o que o quiser:

Aos que são cegos, luz;

Aos que têm fome, pão.

Por isso é que eu abrigo

A paz no coração.

Tomás da Fonseca

in Os Deserdados, 1909

 

Era o meu Avô preferido, sobretudo porque foi o único que conheci.

 

Na crónica anterior referi igualmente o meu Tio, também ele filho do meu Avô como o meu Pai. Chamava-se (ou chama-se) António José Branquinho da Fonseca mas ficou conhecido só pelos apelidos. Esteve por cá entre 1905 e 1974. Experimentou vários estilos literários, desde o poema lírico ao romance passando pela novela, drama e poesia. Contudo, ele próprio dizia que a sua expressão natural era o conto. E digam os seus biógrafos mais eruditos o que quiserem, eu digo que ele sempre se manteve ligado ao bucolismo da sua meninice. Dentre a extensíssima obra publicada, extraio o poema que segue que é, de longe, um dos de que mais gosto:

 

CANÇÃO DA CANDEIA ACESA

 

Ainda havia luz no céu

Quando se encostou à minha porta

A sombra da noitinha

E ali se adormeceu...

 

Mas como é de uso na aldeia,

Costume tão velho já,

Ao sentir-se alguém à porta

Eu disse-lhe: - Entre quem está...

 

Entrou. Era a noite... E, então,

Eu senti bem a tristeza

Daquela gente que não pode

Ter candeia acesa.

 

Eu tenho-a, Senhor;

Eu nem sei a riqueza que tenho:

Tenho uma terra

E também uma casa

E um rebanho...

 

E, além de tudo, um amor,

A quem quero e que me quer...

E que a vontade do Senhor

A faça minha mulher!

 

 

Era o meu Padrinho de baptismo preferido, até porque não tive outro.

 

Então, para levantar uma ponta do véu relativamente ao mistério inicial do meu abandono do grupo dos agnósticos e outros incrédulos, aqui vou eu de seguida...

 

Olá!

Diz-me aqui, baixinho,

Desde quando sentes companhia

Quando os outros te vêem só.

Também vês aquela sombra

Que passa pelo canto do olho

E sentes aquele murmúrio

Junto do teu ouvido

E que os outros não sentem?

Fala-me

Daquela outra dimensão

Onde estão os nossos queridos,

Esses que por aqui vogam...

Que sentimos por perto,

Vemos em penumbra,

Que amamos pelo que foram,

Que amamos pelo fumo que são,

E que vemos pelo coração.

Sim, nós sabemos

Que eles estão aí,

Que nos vêem.

Sim, eles são os nossos anjos da guarda

E sabem que nós sabemos.

Pois é isso que nos conforta.

E que venha a nós o seu reino

De pureza e de bem.

Ámen!

 

E assim me despeço. Passai todos muito bem!

 

Janeiro de 2017

Henrique Salles da Fonseca

 

[1] Em 1910, a taxa de analfabetismo adulto rondava os 90%

[2] Para saber mais, v. p. ex. em http://www.antigona.pt/autores/luis-filipe-torgal/

 

[3] Marie-Anne Charlotte Corday d'Armont (Normandia, França, 27 de Julho de 1768 - Paris, França, 17 de Julho de 1793) entrou para a história ao assassinar um dos mais importantes defensores da política do Terror (Jean-Paul Marat) instaurada em França pelos Jacobinos.

«...E VÓS, TÁGIDES MINHAS...» - 8

ou

O MUNDO VISTO A PARTIR DA MINHA VARANDA

 

Orgulho bisonho, inveja venenosa, , jactância vaidosa.

* * *

Eis três dos defeitos mais comuns

de que a política padece. E quem

diz a política, diz a sociedade em

geral. E se com o mal dos outros podemos nós bem, reste-nos a consolação de que o problema não

é só nosso, mas também perturba

outras sociedades que se dizem

mais evoluídas.

Orgulho é a recusa de reconhecer os

 erros cometidos; bisonho porque teimoso e envergonhado. A desculpa esfarrapada de que «na circunstância,

foi a decisão correcta». Ficam amiúde por explicar as tais circunstâncias.

Inveja é, tendo ou não tendo o bom, querer que o outro o não tenha. E se o activo invejado é a fama, até a calúnia serve para a iconoclasia. Um veneno social que conduz ao aniquilamento dos méritos. Ao nivelamento por baixo, à mediocridade.

Jactância é a gabarolice mais ou menos inflamada conforme a clarividência ou a acefalia da audiência arrebanhada em comício. A sublimação do peso na consciência pelos erros cometidos no passado, a estratégia de apagamento dos adversários, a «fuga para a frente».

E se estas são realidades com que n os cruzamos com alguma frequência no teatro da patologia social, tudo o que é vaidade, veneno e recalcamento,  

parece ser atraído pela política e assentar nas extremas. Que maçada!

Outubro de 2022

Henrique Salles da Fonseca

«... E VÓS, TÁGIDES MINHAS...» - 7

ou

O MUNDO VISTO A PARTIR DE LISBOA

Como se a época por que passamos puxasse ao humor, recordo a história daquele estrangeiro que, na época de Jânio Quadros, se lastimava de o Brasil estar a aproximar-se perigosamente de um buraco ao que um brasileiro descontraído lhe respondeu que não havia perigo pois o Brasil é muito grande e não cabe no buraco.

Recordo também aquela reunião de militares que preparavam um golpe de Estado com um rigoroso plano de operações na então capital federal, o Rio de Janeiro, em que no final da grande exposição pelos Oficiais do Estado Maior, um soldado fazer a pergunta «e chover?»

E se chover, vão todos para baixo do alpendre e pedem à Senhora da Aparecida que não deixe o Brasil caber no buraco.

E quando o João da Política apregoava que nos bolsos daquelas suas calças nunca entrara dinheiro ilegal, logo teve que ouvir a plateia cantar «Joãozinho tem calça nova».

Naqueles tempos já algo distantes em que o carioca da cidade podia subir ao morro e regressar são e salvo, um jornalista pediu para entrar num barraco onde estava um fulano a dedilhar um violão:

- Bom dia| Posso entrar?

-Pois não, “mermão”, entra.

- Então você mora aqui sozinho?

- Moro com meu irmão.

- E onde está ele?

- Está lá na cidade a trabalhar.

- E você também trabalha?

- Não, eu vivo.

* * * *

Assim se compreende o Brasil terceiro-mundista que domina a política do país e afoga o Brasil que mereceria lugar de destaque no primeiro mundo.

Outubro de 2022

Henrique Salles da Fonseca

EFEMÉRIDES

5 de Outubro de 1143 - assinatura do Tratado de Zamora firmando a paz entre D. Afonso Henrique e seu primo Afonso VII de Leão assim se fixando a independência de Portugal

"5 de Outubro de 1143

Quem não sabe esta data

Não é bom português"

* * * *

5 de Outubro de 1910 - passagem dos portugueses do estatuto de súbditos ao de cidadãos.

«...E VÓS, TÁGIDES MINHAS,,,» - 6

OU

O MUNDO VISTO A PARTIR DE LISBOA

 

  • «Liberdade, liberdade, quem a tem chama-lhe sua» - Vitorino, cantor português de intervenção política;
  • «Os Países lusófonos são modelo para o Colonizador» - Elias Quadros, filósofo português;
  • «Todos os seres humanos são livres e iguais em direitos e dignidade.» - art.º 1º da «Declaração Universal dos Direitos Humanos», ONU 1948

* * *

A grande pecha do Poder instituído em Portugal ao longo de muitos dos seus séculos de História foi o desprezo pela instrução pública. Honra às grandes excepções a esta regra, o rei D. Dinis (instituição da língua portuguesa e da Universidade de Coimbra), a rainha D. Maria II (instituição das Academias de Ciências e de História), a I República (instituição das Universidades de Lisboa e do Porto) e a III República (democratização do Ensino a todos os níveis).

Por causa da dita pecha e apesar das excepções, a nossa actual situação ainda se encontra afastada dos padrões da instrução e da formação nos demais países europeus.

E se isto se passou durante séculos na sede do Império, território relativamente pequeno, imagine-se o que terá sido em territórios muito maiores tais como Angola, Brasil e Moçambique… Recordemos o conflito entre Adriano Moreira (Ministro do Ultramar) e Venâncio Deslandes (Comandante Chefe das Forças Armadas em Angola) aquando da instituição dos Estudos Gerais (futuras Universidades) de Angola e de Moçambique: o Ministro queria as Universidades mas o General não as queria porque “instruir o povo era perigoso”. E se este “perigo” fez doutrina em Portugal durante séculos com os perniciosas efeitos conhecidos sobre a clarividência geral da população, imagine-se o estado de indigência intelectual a que os povos ultramarinos eram votados. Tal «mãe», tais «filhos». Por outras palavras, «os Países lusófonos são modelo para o Colonizador».

 

E, de repente, a todos foi destinada a responsabilidade das independências políticas e a responsabilidade da vida em democracia. E porque a democracia é o regime político que mais responsabilidade (individual e colectiva) exige, eis-nos, a todos os povos lusófonos, a ter dificuldades diversas na aprendizagem da convivência democrática: Partidos mais ou menos únicos, corrupção, discussão sobre pessoas e  factos em vez de ideias de política, ameaças militares, insultos favelares…

Eis por que deixei passar as eleições em Angola e no Brasil sem referências especiais. Contudo, em ambos os países há elites de elevada formação e de altos padrões éticos que parece fugirem da política. Para o pior dos males dos seus países, alheiam-se do mais que conseguem, «põem as barbas de molho» (enviam as poupanças para fora) e deixam a selva arder.

Certa vez, li um texto do Doutor Salazar em que ele dizia que o seu Governo era o melhor de todos os que poderiam existir (não me recordo se ele se referia a Portugal ou se a todo o mundo) porque era constituído pelos mais conceituados Professores universitários.

Peço a quem me lê que ignore a minha ironia na frase anterior mas que, no polo oposto, se lembre dos «frente-a-frente» televisivos entre Bolsonaro e Lula.

Perante cenas como as referidas, a pergunta é a de saber como havemos de conciliar a governação de qualidade com o voto universal. Platão respondeu em «A República».

Lisboa, 3 de Outubro de 2022

Henrique Salles da Fonseca

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