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A bem da Nação

OS PREÇOS DA MODA

DOS PREÇOS DA MODA

Os preços têm quatro modos principais de formação:

  • Por Decreto à moda autocrática;
  • Pela especulação, «à la Diable»;
  • Pelo confronto anónimo da oferta e da procura, à moda dos mercados transparentes;
  • Pela distorção da transparência (monopólios, oligopólios, monopsónios, oligopsónios).

Nesta síntese, não estou a considerar alterações no valor da moeda, tanto discretas como deslizantes.

* * *

O actual processo de subida generalizada dos preços (pactuemos com os jornalistas chamando-lhe inflacionista) resulta da redução dos fornecimentos russos de petróleo e gás natural e de cereais ucranianos. Todos sabemos das causas desta redução da oferta, escuso-me de repetir o que é do domínio público.

Estas novas condições dos mercados geram a busca de fornecedores alternativos e, com preços mais elevados, viabilizam jazidas até agora inexploradas e permitem o cultivo de terras até agora consideradas marginais. David Ricardo a saltar dos compêndios para a vida real. Só que a rigidez da oferta não acompanha as necessidades da procura e as consequências aí estão. Os preços continuarão a subir até que se restabeleça o equilíbrio num patamar de preços ainda desconhecido.

Admito que nós, em Portugal, possamos agora aumentar a produção de cereais mesmo que continuemos a não mexer uma palha no sentido da introdução da racionalidade na formação dos preços praticados no mercado doméstico.

E esta é a grande oportunidade para levarmos por diante a formação de preços sobre futuros e seus derivados ultrapassando com coragem as actuais condições de oligopsónio se não mesmo de monopsónio há muito vigentes.

Só que Ministro não entende esta conversa e pretende continuar a «gerir» a máquina de distribuição de subsídios mesmo que essa prática mais não seja do que um beco sem saída em que apenas se tenta assegurar a sobrevivência, mas não o progresso.

Nos nossos (portugueses) mercados alimentares, o risco está maioritariamente concentrado na oferta com a procura sempre a ameaçar que se o produtor nacional não aceitar o seu preço, há a oferta estrangeira sempre ávida de cá entrar. Ou seja, a oferta nacional tem custos nacionais e receitas ao nível do permitido pela concorrência externa. Urge criar condições que permitam a distribuição equitativa do risco por todos os intervenientes nos mercados – os da oferta e os da procura. E isto consegue-se com as Bolsas de Mercadorias, inexistentes entre nós, mas antigas de séculos nos mercados transparentes europeus e americanos.

Soluções necessárias:

  1. Instalação de Bolsa de Mercadorias, nomeadamente para cereais e carnes, com operações sob futuros e seus derivados – distribuição equitativa do risco e introdução da lógica na formação dos preços;
  2. Constituição de organismos reguladores dos preços que intervenham (comprando) e garantam preços mínimos evitando o aviltamento de mercado, combatendo picos de alta e comprando evitando picos negativos.

E assim se garantiria a transparência dos mercados com livre formação dos preços e defesa contra as grandes oscilações quer resultantes de sazonalidades quer de especulações domésticas.

O problema está em que se trataria de mexer no actual pentopsónio e, vai daí… venha a China e outros que tais.

CONCLUSÃO: Em Portugal, é urgente e oportuno mudar a «moda dos preços», ou seja, o método da sua formação.

Nota final – Sobre o funcionamento das Bolsas de Mercadorias há muita informação na Internet pelo que me escuso de a repetir aqui.

30 de Junho de 2022

ALTO E MAGRO

 

A cena passou-se há uma trintena de anos mas não a esqueci. Também não me passou a dúvida que então me surgiu.*

* * *

Estava eu sentado algures no aeroporto de Bruxelas à espera de saber qual seria a porta de embarque do vôo para Lisboa e, vindo não sei donde, um cavalheiro bastante alto e muito magro aproxima-se da cadeira vaga à minha frente do outro lado da coxia. Era preto (negro, para os complexados do «politicamente correcto»). Vestia de negro (para não voltar a incomodar os mais sensíveis). Pensei que os negros costumam vestir-se de cores garridas mas imaginei que pudesse estar de luto. Sentou-se lentamente como se fizesse cerimónia com a cadeira e tirou o cachecol. Vi-lhe o cabeção. Era Padre e trajava de luto por Cristo há (então quase) dois mil anos na Cruz.   Pausadamente, cruzou as pernas, ajeitou a calça para não fazer joelheira e vi-lhe a meia encarnada. Era Cardeal.

Semicerrei os olhos para não perturbar (muito) a privacidade de Sua Eminência e, passados poucos momentos vi que super disfarçadamente se persignara e cruzara as mãos de dedos entrelaçados. Rezava de olhos baixos. Depois de tempo que a todos poderia ser considerado de mais, o microfone chamou os passageiros com destino a Roma. Tão discretamente como de início, persignou-se, destcruzou as pernas, levantou-se lentamente, agarrou a maleta que não citei de início e lá foi…

E eu fiquei a imaginar o que traria Sua Eminência na maleta. E pus-me a imaginar: um dentífrico, uma escova de dentes, uma máquina de barbear a pilhas, um after-shave, um Breviário, uma estola roxa e uma provisão de Santos Óleos para alguma emergência. Só espero que, na precipitação típica duma emergência, Sua Eminência nunca tenha sido levada a encomendar a alma de algum moribundo com o after-shave.

 Contudo, a dúvida que me ficou até hoje é a de a saber se se pode rezar de perna cruzada ou se isso só é permitido a Cardeal. Será? Ora, sei lá!

28 de Junho de 2022

Henrique Salles da Fonseca

VIKINGS - 7

 

Dos meus textos sobre viagens facilmente se conclui que aprecio a geografia dos lugares que visito mas que a tónica acaba quase sempre por ir parar às gentes, à geografia humana.

E depois de ver gentes muito variadas, concluo que no essencial somos todos iguais mas também reconheço que somos todos diferentes: o que mais nos distingue não é a cor da pele mas sim e sobretudo, a Cultura e, dentro de cada uma, o nível cultural. As condições geográficas e as religiões condicionam e formam as Culturas e, nelas, notam-se as diferenças entre um braçal e um erudito. Numas sociedades há muitos braçais e poucos instruídos e noutras há predominância de licenciados «abrindo vagas» a indiferenciados.

 Não reconheço a existência de «povos eleitos» nem de raças superiores, reconheço, isso sim, níveis de instrução e educação mais elevados ou primários que podem facilitar (ou dificultar) o adensamento da rede de sinapses e respectivos neurónios. A responsabilidade social de um instruído é, pois, maior do que a de um iletrado.

Estes povos nórdicos são muito mais responsáveis do que os aborígenes embriegados que vi em Darwin.

E assim tenho viajado pelo mundo entre o Cabo Norte e o Cabo Hornus no extremo sul da América do Sul.

Mas, nesta viagem em grupo organizada pela «Oásis Travel», o guia do grupo – Gonçalo Lucena Barreiro – teve o cuidado de compor as mesas no restaurante de acordo com o que lhe parecia a harmonia de centros de interesse. Assim, na nossa mesa eramos três casais em que nós, os homens, eramos (e continuamos a ser) economistas e em que as Senhoras tinham (e continuam a ter) experiências profissionais e de vida especialmente interessantes. A escolha não podia ter sido mais acertada pois, para além da conversa social, em cada refeição aprendi imenso. Destaco duas realidades que para mim foram surpresa: depois de devastados pelo arrasto pesqueiro, os fundos marinhos fronteiros à Serra da Arrábida estão em pujante processo de recuperação natural;  libertada de custos fixos asfixiantes, a «Sociedade de Geografia de Lisboa» encontra-se finalmente em condições de avançar para novos vôos.

Afinal, foi no topo do mundo que viemos encontrar portugueses formidáveis.

1ª CONCLUSÃO: - Há sempre um Portugal desconhecido que espera por nós-

2ª CONCLUSÃO: - As pessoas, sim, interessam! O resto… é resto.

FIM   

Henrique Salles da Fonseca

VIKINGS - 6

 

Recordatória – estas crónicas de viagem não são um «diário de bordo» pelo que uma etapa pode dar origem a várias crónicas e uma crónica englobar várias etapas.

* * *

Iniciado o regresso e passando o Cabo Norte a bombordo, lembrei.me de que aquelas águas, se falassem, teriam muito que contar. E no Museu do Cabo lá está a história do comboio de navios aliados que durante a segunda guerra mundial furou a guarda nazi daquela rota para ir a Murmansk levar o apoio de que a URSS então precisava para atacar a Alemanha pelo Leste. Lembrei-me do Polígono Acústico dos Açores que, durante a guerra fria controlava o movimento dos submarinos soviéticos na sua passagem de Murmansk para o Atlântico e pensei no stress a que Putin está a sujeitar o mundo para, no final, ficar com uma passagem para o Mar Egeu entre a cozinha da Senhora Yasmina que mora ao lado do estáedio do Galatasarai e a retrete do Senhor Yussuf que mora naquela zona a que os gregos chamavam Calzedónia. Tanto sarilho por causa dum caneiro sujo…! E lembrei-me de Vladivostok, de Kalininegrad e dos mais incómodos que nos podem esperar só porque as costas marítimas russas são inoperacionais.

Passado o Cabo e entrados no Mar do Norte, entrámos em alguns fjords imponentes mas cujas cidades pouco tinham para mostrar além de um evidente nível de conforto das populações. Umas com mais bacalhau, outras com menos; umas com mais indústria de apoio à pesca e à navegação do que outras. Mas todas a trabalhar e ninguém encostado à caridade.

Desta correnteza de visitas só aqui trago Bergen, também ela de génese hanseática e, daí, o seu nome alemão que significa montes. E, realmente, à sua volta e ela própria, tudo são montes que mergulham a pique nas águas do fjord.

Esta foi capital da Noruega até que alguém a fez mudar para Oslo. De notar que, aquando do referendo ao Regime, Bergen votou pela República e, daí, (a confirmar, p. f.), a Monarquia vencedora se tenha sentido mais confortável dali para fora.

Ser cidade com Universidade é perfeitamente banal naquele país mas fizeram-nos notar que os estudantes (do superior, presumo) correspondem a 10 % da sua população (residente, transumante? Não perguntei). Seria interessante fazer uma comparação com o que se passa entre nós. Aqui fica a sugestão/pedido a quem tenha interesse por estes temas do desenvolvimento e olhos mais operacionais que os meus.

À saída de Bergen, antes mesmo de chegarmos ao mar aberto, as nossas 95 mil toneladas baloiçaram bem e nós, à saída do restaurante, parecíamos etilizados. Mesmo quem só tinha bebido água. Afinal. O balancé foi benigno para o sono e na manhã seguinte o mar voltou a estar chão.

Avistámos uma ou outra plataforma petrolífera e, já em águas dinamarquesas, alguns parques (flutuantes???) de geradoras eólicas (centenas???).

Seguiu-se navegação serena Elba acima, desembarque e tomada do vôo de Hamburgo até Lisboa.

Mas amanhã ainda haverá uma crónica-surpresa.

(continua)

Henrique Salles da Fonseca

VIKINGS - 5

 

Do liceu, recordo que o mapa pendurado na aula de geografia mostrava que a Noruega ia por ali a cima e que, lá no alto onde acaba a terra e começa o Oceano Ártico, virava à direita até chocar com a Rússia. Também me lembro de a professora dizer que nos tempos das grandes convulsões geológicas, aquele maciço montanhoso se ter afundado e os vales terem sido invadidos pelo mar formando os actuais fjords. Se não é verdade, está bem imaginado.

Assim, saindo do fjord de Alesund (Olesund), rumámos a norte durante dois dias e duas noites, cruzámos algures o Círculo Polar Ártico (que alguém escondeu pois não o vimos),virámos à direita como mandava o mapa da professora, vimos o Cabo Norte à nossa direita e aportámos a Honningsvag  (Honningsvog por causa dotal º sobre o a que o meu teclado não tem) depois de termos avistado o repuxo de uma ou duas baleias e alguns barcos de pesca miúda. Outro navio de cruzeiros (um «Costa») fundeara ao largo e o cais foi para nós.

Naquele Verão setentrional e bem para lá dos famosos hiperbóreos (como os gregos chamavam aos frios povos germânicos), a temperatura máxima do ar estava nos 7º C, a mínima nos 6º e a brisa encarregava-se de pôr tudo a 1º C. E, mesmo assim, há venezuelanos que preferem aquilo a terem que suportar o ditador Maduro. Sim, um motorista de autocarro e uma guia eram venezuelanos. Por aqui se imagina o que seja o actual inferno na Venezuela. Mas isto foi um àparte e retomemos o fio à meada ultrahiperbórea.

Estávamos a alguns minutos e segundos para além dos 71º de latitude norte e isso fez-me pensar na responsabilidade de toda a Humanidade estar dali para baixo.

Desembarcámos pelas dez da noite para irmos ao Cabo Norte assistir ao espectáculo do «Sol da meia noite». Percurso duma trintena de quilómetros sempre a subir… renas por toda a parte, árvores por parte nenhuma. C0ntudo, a maior parte das casas são de madeira. A meio da subida… um parque de campismo cheio de autocaravanas. Junto ao parque de estacionamento do Museu do Cabo, outro parque de campismo ainda maior que o anterior. Eu, estupefacto; eles, caravanistas, talvez congelados.

É do miradoiro do Museu que, sobranceiro ao promontório do Cabo, supostamente se pode ver a imensidão do Oceano Ártico e o espectáculo do «Sol da meia noite». Desde que aquele banco de nevoeiro o permitisse. Não permitiu e voltámos para dentro do Museu onde as lojas de bugigangas eram assediadas por turistas descoroçoados pela míngua do espectáculo natural. Nós, os avisados, fomos ao cinema ver o que o nevoeiro nos negara.

Regressámos ao navio pelas duas da manhã e ao longo do percurso de volta, os pássaros voavam, as renas pastavam e só os caravanistas dormiam à espera do Solstício de Verão que seria daí a dois dias. Fiquei sem saber se se estava a preparar alguma cerimónia druídica que justificasse tanto caravanista. Não fiz perguntas pois o pessoal venezuelano de serviço naquele autocarro não devia saber o que é um druida.

Zarpámos pelas três da manhã e demos início à viagem de regresso que nos traria do topo do mundo até às cercanias da Baixa da Banheira.

(continua)

Henrique Salles da Fonseca

VIKINGS - 4

 4

Deixados os prolegómenos lá pela foz do Elba, eis-nos a navegar em total calmaria rumo a Norte… comigo sempre à espera de um daqueles vagalhões que alguém me dissera que aparecem vindos do nada e fazem trinta por uma linha. Mas Neptuno foi benigno e, depois de um dia e duas noites a navegar, aportámos à simpática Alesund (diga-se Olesund por causa do º sobre o A que o meu teclado não inclui) que se intitula a «capital do bacalhau».

Volta pela cidade e redondezas mas a guia, sabendo que alguns dos visitantes eram portugueses, mandou o motorista do autocarro parar junto à igreja local e começou por contar a história de que o Kaiser Guilherme II (da Alemanha, claro está) gostava muito de ir até ali gozar umas férias e que, após a cidade ter sido arrasada por um incêndio, ele contribuiu para a reconstrução mandando colocar no interior daquela igreja a sua bandeira com a águia bicéfala para memória futura da sua ajuda. Interessante, sim, mas pouco nos motivou qualquer sentimento especial. E foi então que a simpática guia nos sugeriu que rodássemos sobre os calcanhares e que reparássemos no pequeno cemitério que assim passava a estar à nossa frente. Muito bem ajardinado, não muito mais do que meia centena de sepulturas muito bem conservadas… E foi então que a guia nos contou solenemente que durante séculos, os barcos portugueses (e espanhois) vinham a Alesund pescar e comprar bacalhau e que o lastro na vinda era terra portuguesa (e espanhola) a qual era descarregada naquele local para que na viagem de regresso o lastro fosse o carregamento de bacalhau. Eis como em Alesund a terra sagrada do cemitério… é portuguesa (e espanhola). Nada consta sobre se naquele pequeno e bonito cemitério está sepultado algum português (ou espanhol) mas, esta sim, foi história que ouvi com a mesma solenidade de quem a contou.

Não é importante mas achei giro.

Nota final sobre este primeiro encontro «in loco» com os vikings: as mulheres não se nos apresentaram com aquelas tranças  loiras das míticas personagens do Walhala nem os homens com capacetes de ferro ornamentados de armentío. Pelo contrário, apresentam-se com uma das mais elevadas taxas de escolaridade a nível mundial e consta que, quando nos anos 20 do século XX se encontrou um adulto analfabeto que vivia quase isolado num recanto longínquo de um destes fjords, o escândalo foi tal que o Governo caiu. Em Alesund, cidade que me pareceu relativamente pequena, há três escolas em que se ministra o secundário superior e a Universidade localiza-se a seguir ao túnel submerso que liga esta ilha ao continente.

Foi à chegada a Alesund que me lembrei de que a Noruega saudou a chegada de Portugal ao mundo da democracia oferecendo-nos um navio totalmente equipado para que pudéssemos estudar as nossas pescas: o «Noruega» que tão importante tem sido para sairmos da então reinante boçalidade. Mas os equipamentos electrónicos de apoio à pesca e à navegação continuam a ser fabricados na Noruega e não em Portugal. Porquê? Porque em Portugal os Governos não caem quando aparece um adulto analfabeto. 

(continua)

Henrique Salles da Fonseca

VIKINGS - 3

 

Os meus leitores sabem perfeitamente o que foi a Liga Hanseática pelo que não se justifica eu vir aqui «ensinar o “Pai Nosso” ao Vigário» mas, mesmo assim, permito-me sugerir uma visita à Wikipédia a quem queira refrescar a memória. E refiro a dita Liga porque Hamburgo foi uma das suas principais cidades e porque ao longo da nossa viagem visitaríamos outras cidades hanseáticas.

O nome oficial da cidade é «Frei Hansastadt Hamburg» que traduzo por «cidade hanseática livre de Hamburgo». E porquê livre? Porque sempre se valeu por si própria, nunca pertenceu a um Principado ou «coisa» do género e ainda hoje está entre dois Estados da Federação mas não se integra em nenhum deles. Tanto quanto consegui apurar, tem representação autónoma a nível federal.

O binómio cidade<>porto (fluvial) é, como manda o conceito, indissociável e se a cidade é importante por si própria, a actividade portuária dá serventia a uma das regiões económicas mais desenvolvidas a nível mundial.

E assim foi que nos levaram por ali fora… até ao MSC «Magnifica» que estava ali todo vaidoso a exibir a sua imponente magnificência.

São «só» 95 mil toneladas de navio e mais não digo pois a Internet diz tudo, Apenas confesso que, quando lhe vi a proa – que é por onde os barcos falam – fiquei «bouche bée».

Gostei da decoração interior e fizemos o «check in» ao som de um duo ao vivo de piano e violino que nos recebeu com o «Canon» de Pachelbel, com a «Avé Maria» de Schubert e com outras suavidades que não identifiquei.

Camarote no deck 11, a bombordo, deu para nos instalarmos nas cadeiras de palhinha da varanda e irmos vendo aqueles cem quilómetros da margem esquerda do Elba até à foz. Já fora da malha urbana e industrial, uma floresta ornamentada por mansões de quem é tributado pelos escalões mais altos.

E foi a pensar na lógica e na justiça da fiscalidade directa que, já noite, nos fizemos ao Mar do Norte que nos recebeu chão.

(continua)

Henrique Salles da Fonseca   

VIKINGS - 2

Ainda não tínhamos recolhido as malas no aeroporto de Hamburgo e já eu me lembrava de Lutero que disse que «a salvação se consegue pelo trabalho» (Deus não quer madraços no Céu), de Kant cujo «imperativo categórico» afirma que toda a gente tem a obrigação ética de contribuir para o bem-comum do seu grupo social, da sua Nação e lembrei-me também de Max Weber (o «pai» da Sociologia) que pegou naqueles ditames e, conjugando-os, escreveu um livro que tenho por fundamental para se perceber os alemães, «A ética protestante e o espírito do capitalismo». Os meus leitores sabem perfeitamente conjugar estas três referências, prescindem de explicações. Lembrei-me também dos resultados obtidos por políticas benignas quando aplicadas a uma parte dessa Nação quando comparados com os homólogos resultantes da aplicação de políticas malignas à outra parte.

E assim foi que, sem saber exactamente por onde nos levavam, almoçámos numa margem do rio Auster por ali canalizado entre prédios de afável compostura.

Depois do almoço fomos dar uma volta pela cidade (que não reconheci de quando lá fui em 1959 e em 1961) e visitámos a Igreja de S. Miguel.

Um espanto, caiu-me o queixo!

Relativamente modesta por fora mas magnífica por dentro com sete órgãos de tubos (cinco visíveis e dois em segundo plano); como igreja luterana, ali apenas se veneram Deus e Jesus Cristo pelo que nem Nossa Senhora é venerada – total ausência de iconografia. Mas se disto eu já esperava, o meu espanto teve a ver, obviamente, com o que eu não esperava: na cripta repousa «apenas» Georg Friedrich Telemann, Carl Emmanuel Bach e Johannes Brahms. Caramba, um ptotopanteão da música alemã!

Mas o que mais me espantou foi aquela igreja ter como orago o «nosso» Arcanjo S. Miguel, o Protector de Portugal.

Duvido que os frequentadores habituais daquela igreja conheçam a história de S. Miguel mas daqui lhes agradeço a simpática devoção.

Nos tempos megalíticos em que ao nosso território, Portugal, se chamava Ofiuza (a terra da serpente, símbolo da sabedoria), a cultura druídica instituiu a veneração a Endovélico cujo culto perdurou até aos tempos de Viriato. Com a chegada dos romanos, o deus Endovélico foi redenominado Zéfiro e com a cristianização, àquele espírito foi reconhecido o estatuto de Arcanjo sendo então denominado Miguel. Eis a história de S. Miguel Arcanjo a cuja protecção Portugal se guarda.

Mas esta crónica já vai longa e, assim, por aqui me fico. Amanhã há mais…

(continua)

Henrique Salles da Fonseca

VIKINGS - 1

Alguma vez seria a primeira em que me saberia pilotado por um fiel de Mafamede mas o Comandante Maomé lá nos levou até Hamburgo sem nos obrigar à quaisquer salamaleques no azimute de (da?) Meca.

Uma TAP «low cost style» com bancos hirtos e sem esse vício burguês do almoço ou jantar incluído no preço do bilhete. Redução à dimensão conveniente de um «elefante branco» que vivia pendurado nos sonhos imperiais e à ordem de Sindicatos que tudo chupavam mesmo para além do tutano. Temo que, não fora o Covid e a megalomania e o regabofe continuariam a imperar por aquela TAP adentro. Havia muito que não voava na TAP e notei grandes diferenças no sentido da razoabilidade necessária. Mas é claro que também eu preferia as antigas poltronas reclináveis aos actuais bancos de sumapau, as refeições servidas com talheres de Christofle em vez das actuais «sandes de coiratos»… Mas chegámos ao destino com a sensação de total segurança e isso, sim, era o que mais importava. Como em tudo o mais neste jardim à beira mar plantado, a ver vamos se conseguimos construir melhores dias. E isso dependerá sobretudo de nós, portugueses e só marginalmente dependerá de outros.

E assim foi que, por obra e arte de mãos orantes a Mafamede, aterrámos em terras de Lutero. Deixado o talionismo lá no «cockpit», regressámos à filosofia do perdão e iniciámos uma visita rápida a Hamburgo…

(continua)

Henrique Salles da Fonseca

PELO TOQUE DA ALVORADA - 22

Num exercício de abstracção de particularidades, concluí esta alvorada que a História é a essência da Cultura. Particularizando, a Histótia Pátria, a Universal, a das Artes, a da Filosofia, a Económica,… o que outros pensaram, o que outros fizeram para que nos inspiremos e determinemos o que de nós próprios devemos esperar já que aquele que sabe muitas coisas é apenas uma enciclopédia mas culto é quem conhece o rumo da Humanidade.

Henrique Salles da Fonseca

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  239. A
  240. M
  241. J
  242. J
  243. A
  244. S
  245. O
  246. N
  247. D