Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

A bem da Nação

“ESPELHO MEU …

 

… diz-me se no mundo existe alguém mais bonito do que eu”

 

 

Assim pede a másona da história que as avós contam às criancinhas. E o espelho, contrariando as leis da física mas obedecendo à imaginação do narrador e dos ouvintes, responde que a fulana é mesmo a mais bonita que existe e blá, blá, blá …

 

Assim estamos com as estatísticas que são a enumeração fiel das ocorrências ao passo que a interpretação estatística com as médias, desvios e outras modas se compraz amiúde na distorção das realidades “para inglês ver”. A contabilidade também passa muitas vezes por tais vexames pois regista uma realidade e logo aparece um “Xico esperto” a apresentar uns rebuscados rácios que, conforme o interesse do cliente, assim embelezam ou desfeiam a foto inicial.

 

Aquele médico que sofria de esclerose múltipla e que, já terminal, baixou a um hospital público, esteve para ser recambiado para casa pois não havia ciência actual que lhe pudesse valer, porque a cama e maquinaria diversa poderiam ser necessárias para outro “cliente” e porque seria estatisticamente inconveniente registar mais um óbito. Só não teve “alta” por uma questão de solidariedade corporativa sendo entendido que a um colega não se faz uma maldade dessas.

 

Aquele outro que era um alcoólico inveterado a quem fígado e rins haviam entrado em colapso e baixou a outro hospital público à custa da pressão familiar na esperança – vã, aliás – de que ainda houvesse alguma coisa que se lhe pudesse fazer, teimava com o pessoal clínico que estava de perfeita saúde e que queria ir para casa. Com base no argumento de que ninguém pode ser hospitalizado contra vontade, preparavam-se para lhe dar “alta” quando a morte chegou.

 

Eis como foram prejudicados os rácios da eficácia hospitalar. E se estes são dois casos meus conhecidos, quantos haverá que desconheço com desfecho fatal, sim, mas em casa e não no hospital?

 

E depois venham-me cá dizer que a população está muito mais saudável pois ocorrem menos óbitos no sistema hospitalar público …

 

Moral da história: não se deve gerir um “negócio” em função das estatísticas.

 

Mas a questão pode ser vista numa perspectiva mais longa e recordemos o atraso com que sempre eram publicadas as estatísticas no tempo do Doutor Salazar. Dizia-se que elas só eram publicadas depois de o Presidente do Conselho emitir o respectivo “nihil obstat”. E mesmo assim, admito que o Chefe do Governo já recebesse matéria muito “lavada” por diversos crivos técnicos, políticos e tecno-políticos tais como Conselhos Superiores disto e daquilo. O que interessava era que as estatísticas que viessem a ser publicadas fossem conformes aos interesses do Regime. Mais valia o silêncio do que algum número politicamente incómodo.

 

Tempos houve – menos antigos que os do Doutor Salazar – em que a taxa de inflação só era divulgada depois de circulada pelos Ministros …

 

Na certeza, porém, de que “malgré tout”, o INE lá foi conseguindo conquistar fiabilidade e as estatísticas portuguesas têm uma credibilidade ímpar na Europa austral.

 

Só gostaríamos agora de ter uma maior desagregação das exportações para dormirmos descansados quanto à taxa de crescimento do PIB e para podermos dar todo o crédito ao défice público que se divulga. Mas isto são esquisitices de quem não tem mais nada que fazer …

 

Lisboa, Setembro de 2007

 

Henrique Salles da Fonseca

2 comentários

Comentar post

Mais sobre mim

foto do autor

Sigam-me

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2019
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2018
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2017
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2016
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2015
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2014
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2013
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2012
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2011
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2010
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2009
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D
  144. 2008
  145. J
  146. F
  147. M
  148. A
  149. M
  150. J
  151. J
  152. A
  153. S
  154. O
  155. N
  156. D
  157. 2007
  158. J
  159. F
  160. M
  161. A
  162. M
  163. J
  164. J
  165. A
  166. S
  167. O
  168. N
  169. D
  170. 2006
  171. J
  172. F
  173. M
  174. A
  175. M
  176. J
  177. J
  178. A
  179. S
  180. O
  181. N
  182. D
  183. 2005
  184. J
  185. F
  186. M
  187. A
  188. M
  189. J
  190. J
  191. A
  192. S
  193. O
  194. N
  195. D
  196. 2004
  197. J
  198. F
  199. M
  200. A
  201. M
  202. J
  203. J
  204. A
  205. S
  206. O
  207. N
  208. D