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A bem da Nação

NIETZSCHE E O NAZISMO

«O nihilismo alemão deseja destruir a civilização moderna porque esta tem um significado moral.»

Leo Strauss  (1899, Alemanha – 1973, EUA)

In «Nihilisme et politique», Éditions Payot & Rivages, 2004, pág. 36

* * *

No tempo, localizo a afirmação supra num ensaio que o Autor escreveu em 1941.

Assim sendo, o alvo do nihilismo alemão foi a moral e a vítima foi a civilização moderna.

Tendo o nihilismo alemão como parte da deturpação nazi da filosofia nietzschiana e por civilização moderna como a que foi prejudicada pela prática nazi, fácil é concluir que o nazismo era intrinsecamente imoral (se não mesmo amoral), característica esta em que se enquadrou a intencional deturpação de diversos conceitos de Friedrich Nietzsche (1844-1900).

Desta deturpação foi igualmente vítima o conceito de «Übermensh», o indivíduo mais culto, justo e honesto que os nazis transformaram em atlético, belo, patriota e bravo, o super homem que representava a superioridade da raça alemã.

1ª CONCLUSÃO – Nietzsche não foi inspirador do nazismo mas sim sua vítima.

* * *

Momento histórico – a patrocinadora da deturpação foi elisabeth Foster-Nietzsche (1846-1935), a irmã de Friedrich Nietzsche que lhe sobreviveu longos 35 anos, ela, sim, nazi (a cujo velório compareceu Hitler). Quando começou a ascensão nazi já o filósofo era há muito tempo defunto.

2ª CONCLUSÃO  - Os teólogos de todas as religiões podem não gostar (e não gostam, mesmo!) de Nietzsche por causa da sua célebre frase «Deus está morto» (in «A Gaia Ciência») e, naturalmente, por causa de toda a filosofia envolvente dessa frase mas os historiadores e outros amigos da verdade têm que desligar definitivamente Nietzsche do nazismo, aberração que ele nunca conheceu.

Outubro de 2021

Henrique Salles da Fonseca

PORTUGUÊS, LÍNGUA FRANCA NO ORIENTE

«NOSSLING» E OUTRAS MAIS…

A Cultura Portuguesa no Oriente continua a ser motivo de grande interesse por parte de intelectuais e de lusófilos longínquos falantes de português moderno e de muitos dialectos de origem portuguesa.

Dos intelectuais, destaco Jorge de Sena, o poeta que me faz cruzar com a tristeza e K. David Jackson, o historiador cuja obra, nesta temática, tenho por inultrapassável.

De Jorge de Sena, versos da nostalgia do passado e da tristeza do presente…

«Escritos em caracteres tamil

Por quem mal sabe a língua em que soavam…

Estes versos emergem com uma tranquilidade

Terrível de língua morta a desfazer-se

E cujos ossos restam dispersos num e de um romance

Cantado há quatro séculos numa terra alheia.

Distâncias de oceanos os conduziram como hábito

De serões e vigílias.

Solidões do longe

Os ensinaram a quem partilhou tédios e saudades…

Ficaram nas memórias teimosas de abandonada gente…

Presa por um fio a um país esquecido…

Não os ouve nada nem ninguém!»

(Jorge de Sena - «A sátira na poesia e na poética»)

 

Eis a sina dos “lusófilos longínquos” que ficaram nas suas terras depois do fim da administração portuguesa. Mas, apesar de rodeados de hostilidade ou por desdenhosa indiferença, defendem os Valores que tinham recebido – religião, língua e até alguns genes.

E é precisamente toda esta tenacidade que me leva a olhar o futuro com esperança desde que, em vez de choro mole, ajudemos esses “lusófilos longínquos” a olhar em frente com fé na preservação dos Valores que tão corajosamente preservam.

Extractos de génese histórica da obra de Jackson que retenho:

  • Depois de quinhentos anos, a presença portuguesa na Ásia é muito visível, paradoxalmente, através de uma ausência sensível na arquitectura militar, civil, religiosa e até mesmo profana das cidades, com as suas fortalezas costeiras, igrejas e casario que transformaram a História em arqueologia - tal é a fortuna de locais mais ou menos preservados desde a ilha de Socotorá ao largo do Iémen, no exclave omanita no Estreito de Ormuz onde me disseram que a sua língua é «árabe aportuguesado» (se é que isto faz algum sentido), na Costa do Malabar refiro Chaul e Baçaim com grande número de fortificações, monumentos, construções e inscrições que testemunham a ausência sensível desse que foi o império marítimo português;
  • De Chaul, portanto, restam as pedras pois faz uma vintena (?) de anos que morreu o professor do dialecto de português que ali se falava mas que, felizmente, se preserva na vizinha Corlai, a famosa «nossling».
  • De Damão, transcrevo apenas curtos versos de cantiga actual:

«Papegaai ne gaiola,

batté azas quer curre,

Menina ne janela,

batté peto quer morre»;

  • De Diu refiro que se trata da parcela do extinto Estado Português da Índia que apregoa ser onde actualmente mais se fala português;
  • De Baçaim, hoje um dormitório de Bombaim, último hospital de apoio à «carreira da Índia» (o 17º) com início no Algarve (Tavira), resta a monumentalidade da que foi a Capital das Províncias do Norte do Estado Português da Índia;
  • Para além de várias «bolsas» residuais de algumas famílias dispersas por vários pontos da Índia que dizem falar «o português correcto», o português moderno é falado com maior ou menor militância e com um ou outro regionalismo em Goa, Damão, Diu e Dadra.

 

Dobrado o Cabo Comorim, eis-nos a caminho da Taprobana, de todo o Golfo de Bengala e do mais que se há-de ver…

  • Trincomalee e Batticaloa, na costa oriental do Sri Lanka, são as mais ricas fontes de «português» no Ceilão. Nada menos que trezentas famílias falam o seu dialecto de português. A União Católica "Burgher" reúne estas pessoas que falam português na Reunião Geral Anual mas as actas são escritas em inglês porque naquelas Assembleias não tem havido quem saiba escrever o seu português senão em caracteres tâmil, o que eles não querem fazer por questões relativas à neutralidade nos conflitos internos no país (foi o General Fonseka que fez cessar a guerra civil). Mas têm muito orgulho na sua cultura e estão interessados em preservar a sua língua. Todas as suas orações católicas são em português e achei comovente ouvi-los rezar o «Pai Nosso»:

Pai nosse qui está ne céos,

Santificádo seja tua nomi,

Venho nós a tua Reyno,

Seja fêto a tua vontadi

Assi ne terra, como ne céos;

O pan nosse de cada dia nos dá ojo,

E perdová nós nosse dívidas

Assi como nós perdovamos nosse dividóris,

E nan nos desse caí em tentaçan,

Mas livra nós de mal.

Ámen1!

Do folclore português do Sri Lanka, basta transcrever duas pequenas peças para se ver o que falta fazer no apoio a estes "lusófilos longínquos" para que mantenham a sua cultura:

«Anala de oru sathi padera juntu

Quem quera anal avie casa minha juntu»     \

(O anel de ouro com sete pedras

Quem quiser o anel, venha casar-se comigo)

 

«Já foi todo partis, Ceilão per Japan

Mais nunca trizé nada, for da firme coração»

(Já fui a toda a parte, do Ceilão para o Japão

Mas nunca trouxe nada, excepto o fiel coração)

 

Rumando a Norte pelo Golfo de Bengala, já não encontrei vestígios da língua portuguesa na Costa do Coromandel e a Feitoria Portuguesa em Calcutá foi devorada pelo urbanismo do caos. E, contudo, em todos aqueles litorais, toda a gente se entendia em português, a língua franca em todo o Oriente, correndo então o século XVII e suas envolvências.

À cautela, não me aventurei pelo Mianmar adentro e, portanto, não visitei o país em que o lisboeta Filipe de Brito e Nicote foi eleito Rei e que morreu no seu posto rodeado da amizade e respeito do povo que governou; relativamente a Malaca, sou co-autor do «Dicionário Papiá Cristang-Português» em vias de produção; no Vietname, testemunhei o prestígio actual do Padre Francisco de Pina SJ que fez o primeiro dicionário «Vietnamita-Português» e ali introduziu o alfabeto latino para aquela cultura sair da alçada chinesa; em Macau, o Instituto Camões desempenha a função que lhe está consignada; em Jakarta. os lusófilos locais têm uma História interessantíssima que não cabe nestas linhas, são os Tugus e têm língua própria; na ilha das Flores, as orações católicas são todas em português e Timor-Leste está a fazer um trabalho muito valioso para recuperar dos traumas da invasão indonésia.

Noto que em todas estas situações e à semelhança do que acontece na Galiza e em Timor-Leste, a língua assume um papel de identidade social do maior relevo. E mais noto que a língua portuguesa apresenta perspectivas de futuro que a colocam numa rota de grande crescimento: mais do que para carpir saudades e «arma» de afirmação sociológica, o português é um instrumento que serve o desenvolvimento na América do Sul, em África, no Exstremo Oriente e, claro está, na Europa.

Pela sua finura linguística e pelo seu traço de erudição, Goa p0deria – se quisesse – ganhar o Prémio Internacional da Língua Portuguesa mas para isso é necessário que o galardão exista e que a profecia de Jesus sobre o canto do galo não se aplique.

Enfim, numa perspecyiva futura, há que apoiar essas comunidades dialectaantes de português fixando-lhes as respectivas semânticas, sintaxes e tempos verbais e, em situações pontuais, ensinando o português moderno como língua estrangeira. Aqui fica a sugestão-pedido à Fundação Oriente.

«Arigatô»!

Henrique Salles da Fonseca

BIBLIOGRAFIA

«De Chaula Batticaloa» - K. David Jackson

 

Publicado em 24 de Outubro de 2021 no jornal O Heraldo, Pangim, Goa

URBI ET ORBE

capa Urbi.jpg

 

Caro Henrique,

Li já o teu livro. Em boa hora fui, no teu dizer, “o grande impulsionador” da edição do livro que compila muitos textos de viagens que inseriste no teu blog “A Bem da Nação”, alguns dos quais acompanhados de respetivos comentários dos teus leitores, inclusive meus, no que dizem respeito “Por essa picada além…”

Gostei muito do livro, pese embora vários textos fossem já do meu conhecimento, pela leitura do blog, pois dá uma visão de conjunto que a leitura do blog não proporciona tão bem.

A tua ironia e humor perpassam em quase todos eles, embora tenha-os sentido mais, penso, nos referentes à Indochina. Nos últimos, relativos a “Por Tordesilhas Além…”, nota-se algum cansaço e economia de descrição, que o início da pandemia e o risco de black-out justificam plenamente.

Por vezes, tive que ir à internet para saber quem era quem ou para aprofundar o meu conhecimento de entidades ou pessoas que mencionavas. Também por isso te agradeço.

Abraço amigo.

Carlos Traguelho

EM TRÊS PENADAS

 

 

Foi o meu amigo António Barros, ilustre causídico de Lisboa, que leu a biografia de Jorge Amado da autoria de Josélia Aguiar e que me contou a cena com o meu avô, Tomás da Fonseca.

Estando ele no Rio de Janeiro, foi convidado para ir tomar um café a casa de Jorge Amado e de Zélia Gattai cuja mãe também lá vivia (ou apenas lá estava). Sucede que esta Senhora – cujo nome não descobri ainda – era anarquista e grande leitora de Tomás da Fonseca a quem  quase idolatrava.

Sentados para o cafezinho, o genro vai chamar a sogra pois tinha na sala uma grande surpresa para ela. Perguntado, lá acabou por dizer o que era a surpresa e a Senhora exclamou alto a sua incredulidade. Mas acabou por ceder e foi até à sala onde os seus olhos nem queriam acreditar no que via. E diz quem leu o livro que a Senhora tomou conta da conversa com o anarquista-mor e terá sido das poucas vezes em que o nobelizado não foi a «estrela da companhia». E já sabemos como isto é das conversas e das cerejas: a trás de uma vem sempre outra e sou eu que adivinho que o cafezinho se estendeu até depois do jantar.

Alguns anos mais tarde, sem sogra mas comigo e com a minha avó, o jantar repetiu-se em casa do meu tio, o escritor Branquinho da Fonseca, na Malveira da Serra. Sobre este jantar já escrevi, não repito agora. Apenas refiro que se falou sobretudo de literatura e praticamente nada de política.

Como é sabido, Jorge Amado e Zélia Gattai eram comunistas, o meu avô anarquista e o meu tio era um republicano sereno ocupado na escrita e na indução dos hábitos de leitura nos portugueses através desse instrumento formidável de aculturação que ele dirigia, as bibliotecas itinerantes da Gulbenkian.

A cordialidade, o respeito mútuo e a literatura fazendo o pleno do interesse dos convivas, levou a política ao silêncio. Também já escrevi sobre as diferenças abissais entre comunismo e anarquismo, não repito agora.

- Então, se não conta do jantar nem da política, trata de quê? – perguntará quem me lê.

- Pois bem, em três penadas, trato do que julgo ser a razão estaminal da opção anarquista de Tomás da Fonseca.

PRIMEIRA PENADA – A iliteracia era a norma em Portugal na segunda metade do séc. XIX e chegámos à República com cerca de 90% de adultos analfabetos. Dentre os relativamente poucos portugueses alfabetizados estavam os Padres, o que lhes conferia natural capacidade de liderança das respectivas comunidades, ou seja, apontando para inúmeras situações de quase equiparação a hierocracia. Isto, sobretudo nas regiões rurais mais isoladas. À falta de alternativas, os seminários eram procurados por quem buscava instrução e não só por quem sentia vocação sacerdotal.

Foi o caso de Tomás da Fonseca que, depois de aprender a ler e escrever na escola ambulante que passava por Mortágua, rumou ao seminário de Coimbra onde fez o ensino secundário e o curso (superior) de Teologia. Mas recusou a ordenação sacerdotal e optou por aquele belo par de olhos que à saída de Mortágua o mirava da janela alta quando ele passava a cavalo a caminho das Laceiras. Sim, a minha avó teve sempre uns belos olhos.

SEGUNDA PENADA - Não sei se o meu avô alguma vez teve fé (católica) e, se a teve, quando (e porquê) a perdeu mas o que sei – porque mo disse mais do que uma vez – é que pensava que «religião pura dispensa ritos que só servem para impressionar os povos». Com o luxo da Igreja, revoltava-se; das indumentárias, ria-se e equiparava as casulas episcopais às homólogas dos adoradores de Amon-Rá.

Eis as causas que o mobilizaram toda a vida:

  • A instrução pública;
  • O anticlericalismo.

TERCEIRA PENADA – Não tenho o meu avô por nietzschiano mas admito que tenha lido alguma recensão de «A Gaia Sciêntia» onde terá gostado da frase «Deus está morto». Do seu (relativamente superficial, creio eu) conhecimento do nihilismo alemão, resultou uma óbvia rejeição da vertente suicidária optando, isso sim, pela via kropotkiniana da anulação do Estado. Ou seja, pelo anarquismo. Mas, mesmo assim, optando por uma via filosófica pacífica rejeitando a via terrorista catalã.

CONCLUSÃO - Tomás da Fonseca era democrata republicano radical-pacifista e era filosoficamente incompatível com quaisquer formas de fascismo, tanto de direita como de esquerda.

Obrigado, António Barros, por me ter sugerido esta reflexão.

Outubro de 2021

Henrique Salles da Fonseca

DOUTRINAS E ESTRATÉGIAS - 2

O «festival» insurrecional europeu de cariz marxista desde o leninista ao gramsciano passando por todas as variantes imagináveis, do nihilismo filosófico ao suicidário, do anarquismo romântico ao do terrorismo urbano de inspiração catalã e do da militância sindical até ao existencialismo, foi o «Maio de 68».

E a pergunta que prevalece sem resposta muito clara é: - Será que o Maio de 68 não passou de uma carnavalada quântica?

Com acerto ou sem ele, para os burgueses europeus da opção tranquila, foi um conluio de «levantados» se não mesmo de delinquentes liderados pelo agitador alemão Daniel Cohn-Bendit.

Historicamente, tudo começou com um desacordo entre o Governo então presidido por Georges Pompidou  que pretendia acabar com os dormitórios mistos na Universidade de Nanterre e separá-los por sexos e os estudantes que pretendiam a confraternização. As posições extremaram-se, a Polícia evacuou a Universidade de Nanterre, os estudantes ocuparam a Sorbonne, o caldo entornou-se por completo com os comunistas a aproveitarem a deixa para decretarem uma greve geral por toda a França e o próprio General de Gaulle saiu do Eliseu refugiando-se algures. Foi necessário que as mães dos estudantes solteiros e as mulheres dos casados dissessem que bastava de revolução e que estava na hora de fazer a «soupe à l’oignon». E assim foi que se misturaram os cheiros da cebola e do suor, as barricadas desapareceram, a França voltou ao trabalho, o General voltou da tal parte incerta e o Governo acabou substituído. Ou seja, a 5ª República manteve-se, o conselho ministerial manteve a côr política, a revolução não vingou e quase se poderia dizer que – salvo eleições legislativas realizadas no mês seguinte ganhas por de Gaulle – quase nada aconteceu. Mas tudo mudou.

«Il est interdit d’interdire» e «Je ne veux pas gâcher ma vie à la gagner» - eis dois slogans-graffiti que retive e que me parece terem sido a génese do sentimento libertário e do «direito» supremo de tudo ser de direito.

O libertário esquece deliberadamente que a sua liberdade termina onde começa a liberdade do próximo e fá-lo com o intuito da destabilização social; a ditadura dos direitos superlativos tudo exige e ignora os deveres para com qualquer conceito de bem comum que condicione os seus próprios direitos absolutos.

É esta a herança perene do Maio de 68. E nós cá estamos para os aturar. Felizmente, as suas alianças estratégicas sempre trazem à superfície as incompatibilidades doutrinárias entre eles, os radicalismos e inerente incapacidade de negociação.

A nós, os da opção tranquila, a paz na busca do bem-comum mas não podemos ignorar os da «nova moda» que nos querem destruir apagando os Valores da nossa História.

Outubro de 2021

Henrique Salles da Fonseca

 

DOUTRINAS E ESTRATÉGIAS

AS PESSOAS

Kropotkin (1842 – 1921), «pai» do anarquismo

Lenin (1870 - 1924), «pai» do sovietismo

 

AS DOUTRINAS

Sovietismo – Estado omnipresente e omnipotente

Anarquismo – nihilismo do Estado

* * *

No que se refere ao conceito de Estado, não pode haver duas doutrinas mais antagónicas. Registe-se, pois, o absurdo que consistiu na adesão de anarquistas portugueses ao PCP durante o «Estado Novo».

A única explicação que encontro para esse absurdo doutrinário tem a ver com algum pacto de estratégia visando o derrube de Salazar. Para além deste objectivo comum, tudo o mais só poderia ser discórdia. No plano da discórdia, basta referir o colectivismo comunista vs. o individualismo anarquista, o Estado policial soviético vs. o libertarianismo anarquista.

Ou seja, logo após o derrube do «Estado Novo», o putativo pacto estratégico se desfaria e, com os comunistas no poder, aos anarquistas restaria a hipótese de conseguirem passar à clandestinidade e à luta armada, serem fuzilados ou, mais benignamente, acabarem os seus dias como Kropotkin votado ao ostracismo morrendo de fome e de frio.

Contudo, a nossa História foi mais suave com os anarquistas a passarem-se para o graffittismo humorístico e com os comunistas a serem expulsos da área do poder em 25 de Novembro de 1975.

Conclusão: não há estratégia que resista à incongruência doutrinária e as coligações tendem a desfazer-se quando alcançam o poder.

Outubro de 2021

Henrique Salles da Fonseca

 

Nota de pé de página: Tomás da Fonseca era anarquista e morreu em 1968

À CONVERSA COM LESO

Harmónico, o Luís cumpre a vontade da família que não quer que ele escreva mais sobre Salazar. Porquê? Pergunta não feita, resposta não havida. Apenas o comentário de que fora “censurado”. Fiquei, contudo, a saber que não escreverá mas que me dirá telefonicamente o que eu esperava ler, a sua tese de que Salazar era agostiniano. Mas que o deixasse acabar de escrever «O erro de Nobel». Ainda confundi com «O erro de Descartes» mas que não, era o erro de Nobel não ter previsto um prémio para os políticos e por isso é que estes são tão maus. (Risos bilaterais).

Mas fiquei a pensar na tal “censura” familiar… Estou mesmo a ver que a “censura” resulta do tom relativamente benigno que o Luís vem usando ao escrever sobre Salazar em contraponto com a oposição que sempre cultivou contra a ditadura. E a família, formatada na tradição, não aceita uma visão mais holística e afastada das refregas do passado. Será? Não tenho uma certeza absoluta mas quase. Tenho visto muita desta tradição formatada a condicionar a exteriorização de novas opiniões sobre factos envelhecidos: «Já o meu avozinho dizia…» e o netinho não sai dessas perspectivas.

Tenho uma amiga burguesíssima que se mantém fiel ao comunismo porque a tradição familiar a isso a prende. E pelo amor aos pais defuntos que a une às saudades e ao romantismo de alguma clandestinidade nas barbas da política antiga, não ouso chamá-la à razão dos tempos modernos, à distância do passado, a uma visão global. Se se perde o sentido cultural inspirado por uma certa tradição, corre-se o perigo da desmagnetização da bússola e o rumo passar à deriva errática. E, bem pior, perder as saudades dos entes queridos. Este, sim, o pior dos males. E eu deixo-a ser comunista… desde que não me incomode com ideias que podem ter tido alguma validade no séc. XIX mas que fedem neste XXI já um tanto mais do que recém entrado.

Mas nestas visões holísticas que hoje possamos ter, não validaremos os erros que então as partes cometeram nem esqueceremos o bem que todas elas praticaram, apenas deixaremos cair a paixão das circunstâncias passadas.

Ah!, já me esquecia: LESO é a sigla onomástica do meu primo Luís, o Embaixador.

A ver o que ele me dirá telefonicamente quando tratar da saúde ao Alfredo que se esqueceu dos políticos e por isso eles são tão maus.

Outubro de 2021

Henrique Salles da Fonseca

DAS FÉRIAS 21

Durante as restrições impostas pela pandemia, a poupança das famílias aumentou na medida da redução do consumo.

Com a massificação da vacinação, iniciado o desconfinamento, a «marmita de Papin» foi sendo aberta e o povo deu largas à euforia gastando a rodos o que forçadamente poupara. No Algarve, a segunda quinzena de Agosto terá sido quase suficiente para compensar os prejuízos provocados pela pandemia.

Dois empresários com quem (separadamente) conversei, me disseram que tinham sido atempada e fortemente apoiados pelo Estado. Conclui que a Administração Pública local actuou prontamente (ajuda atempada) e que aquelas empresas não funcionam na economia paralela (fortes apoios). Conversas ligeiras, de férias, não fiz perguntas mas fiquei a saber que o futuro ditará o modo de liquidação dos ditos apoios. Haja negócio e tudo se resolverá…

Aumentou a dívida pública? Sim, sem dúvida mas em tempo de guerra não se limpam armas. Fez-se o que tinha de ser feito e muito mal seria se não tivesse sido feito. Só que, agora, controlada a situação pandémica e despromovida esta a endemia, é chegada a altura de olharmos para os problemas que fomos obrigados a criar. E o problema consiste em sabermos o que fazer com tanta «moeda falsa» lançada nos circuitos económicos comatosos para que não passassem a moribundos.

 * * *

De um modo geral, as ajudas públicas revestem as formas de empréstimos (reembolsáveis, por definição) e de subsídios (a fundo perdido, por definição) e eu temo a pressão inflacionista que por aí apareça em resultado deste aumento excepcional de meios de pagamento na economia sem que deles decorra aumento da produção uma vez que eram destinados a servir a sobrevivência das pessoas. Ou seja, manutenção dos níveis de consumo com significativa quebra da produção. E se tomarmos em conta que…

  • … temos uma economia relativamente pouco produtiva,
  • … temos um regime de livre comércio externo,
  • … temos mercados mais opacos do que transparentes (oligopsónios),
  • … os preços se formam «à la diable», sem lógica,
  • … temos um poder político que privilegia o consumo como motor do desenvolvimento,

… então, temos o «caldinho» ideal para um significativo aumento dos preços, um agravamento da já deficitária balança comercial, manutenção do sentido político avesso ao reequilíbrio das contas públicas, tudo isto num cenário de marcados de capitais passando dos juros negativos para a perspectiva da remuneração positiva nos inícios de 2022. E, então, a pergunta é: - Como vamos servir a dívida - desta e das crises que a antecederam - se já não há ricos que a paguem?

Passadas que foram em euforia as férias de 21, acautelemo-nos com as de 22 por causa das razões antes apontadas e não vá também a bazuca disparar às avessas vertendo bom dinheiro sobre algum excesso de projectos públicos de rentabilidade insuficiente ou quiçá deficiente (os tristemente célebres elefantes brancos).

E se do hemiciclo beneditino não me resta grande esperança, cuido-me invocando a protecção divina para que alguma da restante sabedoria humana não nos encaminhe para novo grande buraco: Valha-nos São Miguel, o Arcanjo, protector de Portugal! 

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