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A bem da Nação

PELO TOQUE DA ALVORADA - 11

Hoje, bem antes que o corneteiro tocasse à alvorada, pensei no conflito protocolar entre «mulher» e «esposa» que há quem queira dirimir com «Senhora». Apenas sei que também não gosto e que me mantenho fiel à mulher. Mais pensei que o agradecimento que ontem me fizeram «bem-haja» deve ter a ver com algum novo verbo ao estilo de «bem-hajar» e também por isso confirmei que me mantenho fiel ao velho, experiente, comprovado e eficaz «obrigado».

 

 

PELO TOQUE DA ALVORADA - 9

Hoje, cheguei à parada para assistir ao nascer do Sol munido de duas premissas dogmáticas:

– As religiões são a génese das civilizações;

- A cultura é a prática da respectiva civilização.

Daqui resulta que a exegese é fundamental na evolução civilizacional «et pour cause», na dinâmica cultural.

Kant e Ibn al Wahhab foram contemporâneos e determinantes nas respectivas civilizações. Al Wahhab proibiu a exegese do Corão; Kant, não.

 

O DUQUE DO TERCEIRO

O plebeu era veterinário mas só exercia em causa própria, herdado rico, solteiro e com alguns que se diziam filhos na mira das patacas. Mas não entra nesta história a não ser como amigo dos outros, o Duque e o Marquês.

O Duque, casado e medianamente remediado, vivia no terceiro andar de um prédio que herdara na praça com o nome de um seu famoso avoengo, também ele Duque. Só que o Duque do terceiro achava que um Duque se pode perfeitamente «et à laise» empoleirar numa peanha mas nunca viver num terceiro andar. Já lhe bastava a concorrência do da Terceira. Por isso se intitulava Marquês – que também o era – do mesmo patrónimo. Do fausto antigo, guardava o título, algum património que preservava quase religiosamente e um empregado doméstico que também herdara que conduzia a Duquesa nas suas digressões por aqui e por ali, servia à mesa e engraxava os sapatos de suas Excelências. A «esposa» era a porteira do prédio e viviam na cave com quintal nas traseiras. Tinham um filho que já era engenheiro e constava que republicano.

O outro nobre desta história tinha sido filho e irmão de Duques e agora era tio de Duque. Jurista, dizia a todo o som que nunca exercera e que, quando tinha sido estagiário no escritório de um Advogado ali à Boa Hora, fugia do escritório mal o patrono se ausentava com medo de que aparecesse algum cliente. Admitido à Ordem (ainda não havia nada destes exames de admissão que há hoje), dizia que tinha pago um ano de quotas e que mandara tudo às urtigas. Mas era o Senhor Dom… (nome a calar), dedicava-se a viver dos rendimentos e a praticar a arte campera da sua paixão. Culto e poliglota, enchia qualquer salão desta cidade capital ou de qualquer outra. Ria-se discretamente quando o «mordomo» do Duque do terceiro o anunciava pomposamente como «o Senhor Dom Doutor…» e não como manda a semântica «o Senhor Doutor Dom…».

Certa vez, o sobrinho Duque fez-se convidado para almoçar com o tio no restaurante que este habitualmente frequentava ali à Calçada do Marquês de Abrantes e pediu-lhe que aceitasse passar a usar o título de Marquês de (…) que também pertencia à Casa Ducal. Por sua morte, o título regressaria à origem até porque do tio nada constava quanto a descendência biológica quer legal quer legalizada. Nada como com o amigo veterinário a quem «saltam» filhos a cada esquina.

E se, até ali, o «Dom Doutor» e o Duque do terceiro se tratavam por «Parentes», a partir dali, ambos Marqueses, ironizavam tratando-se por «Colegas».

Chegada a entrega do Império à União Soviética, o Marquês Dom Doutor levou um grande chimbalau com as ocupações da Reforma Agrária e o Duque do terceiro perguntou-lhe como é que ele, entretanto, se governava. – Tudo bem, Colega, Nós, afinal, eramos muito mais ricos do que nos lembrávamos. E o Duque do terceiro soltou uma gargalhada de alegria expontânea como há muito o protocolo não ouvia.

– Oh Colega! E o nosso amigo veterinário?, pergunta o Duque do terceiro.

- Oh Colega! Esse é muito mais rico do que nós somados e é isso que dana os vinticinquistas.

E, já que neste dia assim «a modos que» tão especial, estamos numa de heráldica, como dizia D. João II, «Honny soit qui mal y pense» que o sapateiro remendão do meu avô traduzia por «Quem é que Vomecê julga que eu sou?», ou seja, qualquer coincidência é pura semelhança.

- Não, disse o Duque do terceiro, qualquer semelhança é pura coincidência.

- Oh Colega! Já estou confuso, disse o Marquês, deve ser deste seu “Cote du Rohne” travestido de “Costa do Castelo”. Como diz o meu maioral das vacas, «desculpem  qualquer coisinha».

- Pois eu acho que de   nada temos que pedir desculpa e até um dia destes vamos começar a discutir as «reaganomicas» à europeia que é como quem diz a moralidade e a racionalidade dos impostos directos. E então, sim, vamos ver os vinticinquistas a esmorecer a canção que já não fará qualquer sentido.

- AHAH!, riu o Marquês.

CAI O PANO DE CENA

Lisboa, 25 de Abril de 2021

Henrique Salles da Fonseca

PELO TOQUE DA ALVORADA - 8

A alvorada de um Sábado é tão boa como qualquer outra para me lembrar de que tanto a exegese jesuíta como a franciscana têm Deus como infinitamente bom e de perdão. Daí, o primeiro Papa jesuíta se chamar Francisco.

PELO TOQUE DA ALVORADA - 7

Actualmente, vivemos num ritmo não-contemplativo e sem contemplações, de hedonismo, egocentrismo. Este é o tempo dos agnósticos, tendencialmente amoral. Construímos um tempo sem grandes desígnios globais nem valores de bem-comum. A necessidade de facturação «oblige». Todos somos culpados de tudo. Chamam-lhe a era do pós-modernismo. Seja!

PELO TOQUE DA ALVORADA - 6

Lembrei-me hoje de que, se a CPLP padece de alguma incapacidade de entendimento que a inibe de agir nos casos que exigem prontidão, por exemplo em Cabo Delgado, então que promova a uniformização da língua gestual portuguesa nos países da sua pertença já que a surdez parece ser a sua especialidade perante as candências.

PELO TOQUE DA ALVORADA - 5

  1. pelos ideais por metro quadrado.

Foi debalde que em Leça procurei a palmeira. Pobre perdida em terra alheia, talvez mesmo devorada pelo besoiro, coitada... Quantos dos nossos, desterrados, sem meios de regresso e com sobra de miséria envergonhada andarão perdidos por essas «Leças» alheias…? E nós, instalados na sorte que nos calhou, ignoramo-los do alto da nossa indiferença e superioridade olímpica tendo o egoísmo como nossa profissão e esquecendo que esta é a casa natural de todos os que se sentem nossos.

PELO TOQUE DA ALVORADA - 4

O acordo ortográfico de 1990 contribui para abolir as ligações etimológicas da língua portuguesa privilegiando a via fónica popular e, portanto, diluindo ou mesmo apagando as variantes cultas das palavras. Assim se transformou uma língua globalmente erudita numa linguagem de boçalidade.

A famigerada política do nivelamento por baixo tão costumeira de quem se diz democrata e protector dos desvalidos mas que, na realidade, apenas chafurda na demagogia e na vulgaridade.

PELO TOQUE DA ALVORADA - 3

Antes de ter sido Primeiro Ministro da Índia, Lal Bahadur Shastri fora Ministro dos Caminhos de Ferro, cargo de que se demitiu aquando de um desastre ferroviário que vitimou fatalmente várias dezenas de passageiros. Os seus correligionários ainda hoje exaltam essa auto-demissão como gesto de grande dignidade; os adversários apontam a fuga.

Onde estará a verdade?

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