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A bem da Nação

ANDA COMIGO – 11

Foi depois de almoçarmos no «camping» nas cercanias de Amesterdão que nos lançámos a caminho de Alkmaar para atravessarmos o dique do Zuidersee e chegarmos a Zurich. Sim, na Holanda há uma cidade homófona da da Suíça mas esta a que nos dirigiríamos situa-se na Frízia. E lá estamos de novo a falar de vacas. Mas estas são malhadas de branco e preto e vocacionadas para a produção de leite, não de filet mignon como as nossas visitantes espanholas de há uns dias a trás. Ao todo, esta etapa seria da ordem dos 150 quilómetros, 32 dos quais sobre o dique.

E vamos lá nós perceber aquela gente… O Zuidersee é um golfo do Mar do Norte que se estendia por ali dentro até ao centro da Holanda mas o nome significa literalmente «Mar do Sul» (zuider = do Sul; see = mar). Muito bem, admito que tenham sido os donos das vacas leiteiras a baptizar o dito mar que, em relação a eles (mas só a eles) se estende no sentido do Sul. Relativamente a todos os outros holandeses, o Mar do Sul situa-se a Norte. Mas quem somos nós para lhes afinar as bússolas? O que interessa é que todos sejam felizes. O golfo já foi muito mais vasto do que o é actualmente e as suas margens primitivas fazem parte dos territórios ganhos ao mar. Daí, a importância fundamental do dique por que passámos. E se aquela grande obra começou por ser um dique que sustinha as investidas do Mar do Norte, depois de algum tempo passou a ser uma barragem pois os níveis das águas de cada lado passaram a ser diferentes. A muralha passou a barrar a entrada das águas do mar naquela zona que tinha sido um seu golfo. Daqui, o ditado que apregoa que «Deus fez o mundo e os holandeses fizeram a Holanda»[i] (e os portugueses fizeram os mulatos).

Em meados de 1961, Zurich – esta, por que passámos à saída do dique – de cidade tinha o nome pois era, na nossa escala de valores urbanos, uma vila nem grande nem pequena, antes pelo contrário. Bonita, muito bem arranjada a fazer jus à paisagem envolvente que, como o resto da Holanda, me encantou. Uma particularidade que aqui notei pela primeira vez: a erva dos campos era pujante e ruminável até ao alcatrão, sem as bermas carecas típicas da Península Ibérica mais setentrional. A partir desta constatação, passei a observar o mesmo em toda a Europa por onde fomos passando e sobre que contarei…

Perguntado em inglês, um súbdito holandês respondeu-nos cortesmente que por ali não havia nenhum parque de campismo mas que avançássemos em direcção à fronteira alemã que logo lá encontraríamos o que procurávamos. Daquela Zurich a Bremen seriam cerca de 330 quilómetros. Ainda o Sol ia alto, foi decidido avançar até à fronteira a cerca de 10 quilómetros e perguntar a um guarda (se os houvesse) onde seria o parque de campismo mais próximo. Sim, havia guardas fronteiriços que não se cansavam muito com o trabalho e o «camping» mais próximo ficava ali logo à frente, já na Alemanha, a menos do que ao alcance de um tiro de arcabuz. E se a medição da distância parecia reminiscente de uma vintena de anos antes, o ambiente fronteiriço era sereno se não mesmo amistoso. Não sei como eles se entendiam mas nós, na Holanda falámos inglês e na Alemanha falámos alemão.

Era cedo, o Sol ia no ar, assentámos acampamento, demos uns quantos dedos de conversa e vimos a noite chagar. Era igual às que tínhamos visto do outro lado da fronteira. A paisagem é que, sendo verde e bem tratada, não era mignone como no país das vacas leiteiras, das túlipas e da rainha Juliana.

Ainda hoje estou para saber se foi esta rainha que inventou a sopa.

(continua)

Maio de 2020

Henrique Salles da Fonseca

 

[i] - https://pt.wikipedia.org/wiki/Afsluitdijk

 

ANDA COMIGO – 10

Saídos de Paris, teríamos quase 400 quilómetros pela frente até Bruxelas pelo que, dado o adiantado da hora, o nosso Comandante decidiu – e nós aplaudimos – assentar num parque de campismo que parecesse aceitável. Se a memória não me atraiçoa muito, digo que ficámos algures não longe de Amiens mas…

Chegámos a Bruxelas um pouco depois da hora do almoço depois de uma viagem muito calma porque só tínhamos programa marcado no dia seguinte.

Desta vez, demos uma volta a pé pelo centro histórico e deu para imaginar o Imperador Carlos V a passar pela Grand Place que naquele dia estava toda embandeirada por qualquer motivo que me passou. É claro que também fomos ver o Manneken Pis mas não vimos o Euratom que era no sentido oposto ao do nosso local de pernoita e apetecia-nos instalarmo-nos calmamente em vez de continuarmos a andar por aqui e por ali.

No dia seguinte, passagem pelo monumento de Waterloo a caminho da casa de um cavaleiro amador de dressage, Henry Peters, que nos recebeu em casa com um bem simpático pequeno-almoço. Que diferença relativamente ao outro Henri perto de Paris que se pisgou para a Suécia para lá ir salvar a monarquia. Seguiu-se uma apresentação do seu cavalo mais adiantado no picadeiro descoberto circundado pelo jardim da casa. Vimos uma equitação muito mais serena do que esperávamos de quem fazia competição. Sem entrar em matérias enfadonhas para quem não é da «arte», basta referir que a equitação de competição implica uma tensão desportiva que os praticantes da equitação clássica abominamos. Enquanto o Senhor Peters nos mostrava o seu belo cavalo lazão claro, o tratador estava ao nosso lado mas um pouco mais a trás e quando o patrão executava um «piaffer»[i], ele imitava o exercício como se quisesse associar-se emotivamente ao que o «seu» cavalo estava a fazer. Concluída a apresentação, o cavaleiro apeou-se e deu um rebuçado ao cavalo (devia ser um torrão de açúcar) e deixou-o seguir solto em direcção ao tratador que lhe deu duas cenouras. Cavalo feliz, cavaleiro civilizado, tratador fantástico. Saímos satisfeitos, despedimo-nos e seguimos viagem.

Amesterdão, Roterdão e Haia, a trempe que nos esperava.

De Bruxelas a Amesterdão seriam cerca de 200 quilómetros mas foi decidido que, sendo Amesterdão o ponto a partir do qual continuaríamos viagem, fizéssemos um relativamente pequeno desvio dando um «saltinho» a Roterdão e a Haia. Confesso que Roterdão se me varreu mas da Haia recordo uma certa influência marítima, uma cidade simbólica por ser a capital holandesa onde acontecem todos os cerimoniais da realeza mas economicamente menos pujante que as outras duas. Este «saltinho» foi suficiente para eu considerar a Holanda o país mais bonito que eu alguma vez vira. E, na continuação, confirmei esta opinião.

Regressados ao itinerário principal, era final do dia quando assentámos arraiais nas cercanias de Amesterdão e foi então que me recordei de uma história que ouvira ao meu tio, o escritor Branquinho da Fonseca. Contava ele que, desorientado, pedira ajuda a um passante a quem informara que tinha combinado encontrar-se com a minha tia junto de uma ponte ao que o tal ajudante replicara que esse era sem dúvida um «bom» ponto de referência pois Amesterdão tem mais de 200 pontes. Com o seu típico sentido de humor, apontava para a minha tia que estava ao seu lado e dizia – Como se vê, encontrámo-nos junto da ponte.

Dada uma volta pela cidade para ficarmos com uma ideia, pareceu-me que tudo tinha sido desenhado a régua e esquadro antes de assentarem o primeiro tijolo e de estrearem a primeira pá na escavação do primeiro canal. Passámos frente ao Rijks Museum – não o fazemos seria um escândalo – e fizemos outra coisa que, essa sim, deu para recordar para sempre: passámos de carro por baixo de um navio. Sim, passámos num túnel por baixo de um dos canais mais importantes no momento em que ia a passar um navio. Assim como se no cais da Rocha do Conde de Óbidos, no Porto de Lisboa, houvesse um túnel em vez da ponte móvel na Doca do Espanhol. Isto, sim, foi muito mais giro para a rapaziada, nós, do que a colecção de quadros do Rembrandt.

Amanhã, outra coisa inesquecível..

(continua)

Maio de 2020

Henrique Salles da Fonseca

 

[i] - Trote no mesmo terreno, cadenciado e com momento de suspensão em cada diagonal, um dos ares a que os não iniciados associam ao «cavalo a dançar»

ANDA COMIGO – 9

Diz o meu amigo que sabe tudo, o Google, que de Saumur a Paris ainda hoje são 322 quilómetros. Porquê ainda hoje? Porque é essa a distância tanto pela estrada antiga, a que usámos então, como pela nova autoestrada. Ao passarmos por Le Mans, não ouvimos os motores a rugir e, também por isso, seguimos em frente rumo a Paris.

Antes de chegarmos junto da luz da cidade, ainda era dia, parámos em frente do palácio de Versailles mas as bilheteiras já estavam fechadas. Cada um de nós disse ou pensou «fica para a próxima». A minha ainda não chegou. Notei o tamanho (exagerado) das pedras da calçada no largo fronteiro ao palácio. Não seria fácil fazer uma «intifada» mas não foi por isso que deixou de haver sarilho em 14 de Julho de 1789.

Pernoitámos num parque de campismo próximo de Maison Laffitte a uma vintena de quilómetros da Torre Eiffel. Porquê ali? Porque naquela localidade casa sim-casa sim, há cavalos, picadeiros, qualquer coisa relacionada com hipismo e esse era o tema da nossa viagem. Era ali que vivia regularmente e tinha os seus cavalos o grande mestre e medalhado olímpico em Dressage Henri Saint Cyr[i] que, apesar do nome, era sueco e Coronel do Exército do seu país. Apesar de termos encontro marcado com ele, ficámos a saber que um qualquer inesperado acontecimento o obrigara na véspera a voar para Estocolmo (???). O ajudante dele ficou incumbido de nos apresentar as desculpas do Mestre e de nos mostrar os cavalos. E assim foi: apresentou-nos um cavalo que percebermos estar muito bem ensinado mas o «intérprete» não era ainda capaz de pisar a sombra do Mestre. Não seria por falta de Mestre que aquele ajudante não pudesse fazer-se um grande campeão. Não lhe soubemos o nome, não lhe seguimos o rasto.

Levantado o acampamento, demos uma volta pelos grands boulevards, subimos à Torre Eiffel, vimos a fachada principal da Opera e das Galeries Lafayette, passámos à porta do Louvre e não soubemos que a Gioconda tivesse saído para ir comer um croissant.

E ala que estala direitos a Bruxelas que naquelas épocas ficava a quase 400 quilómetros de distância.

(continua)

Abril de 2020

Henrique Salles da Fonseca

[i] - https://en.wikipedia.org/wiki/Henri_Saint_Cyr

 

ANDA COMIGO – 8

Saímos de Bordéus como tínhamos entrado, sem fanfarras nem cumprimentos do Maire. Uns rudes, aqueles tipos. Tanto como os das cidades espanholas por que tínhamos passado. Conclusão: a clandestinidade, afinal, não é coisa assim tão difícil como os «heróis do contra» apregoam (qualquer que seja esse contra). Mas é claro que nós não levávamos as Autoridades na peugada como os clandestinos levam e, daí, a diferença entre as nossas vidas regaladas e as deles, complicadas. Deixemo-los, pois, apregoar o que quiserem desde que não nos incomodem muito.

Mas deixemo-nos de revolucionarites e rumemos a Saumur, no vale do Loire.

Lembrou-me o Google maps que se trata de 324 quilómetros pela estrada de Poitiers, a que então fizemos. Aliás, a actual autoestrada nem sequer existia.

Como era do nosso costume, em Poitiers demos uma volta pelo centro histórico com passagem obrigatória frente à catedral de S. Pedro só para dizermos que lá tínhamos passado. Consta que ali assentavam os pictões, povo contemporâneo dos famosos vizinhos Astérix e Obélix. E dali seguimos para o Loire.

No Liceu Francês de Lisboa havia grades fotografias nas salas de aula mostrando os castelos do Loire pelo que eu já tinha uma ideia muito positiva sobre o que iria ver mas não esperava, mesmo assim, de gostar tanto de ver tudo en passant. Vimos por fora todos aqueles que nos foram «calhando na passada» (gíria equestre para o salto do obstáculo para que não é necessário encurtar ou alargar a passada do galope) mas, antes disso, estivemos em Saumur. E porquê esta nossa fixação por esta cidade? Pois bem, não se esqueça o leitor de que naquele «pão de forma» éramos cinco cavaleiros e Saumur era então a sede da Escola Militar de Equitação[i] (do Exército Francês, claro) alfobre dos grandes mestres da equitação clássica e onde residia (e continua a residir) o famoso Cadre Noir (conjunto de cavalos super-ensinados montados por militares Mestres de Equitação fardados de negro e com galões doirados). Chegámos de improviso, sem anúncio, visitámos o local mas os treinos tinham sido de manhã e nós já tínhamos almoçado. Lembro-me de termos falado com um «chefão» muito magro e alto que nos mostrou as cavalariças e os picadeiros (para se ser membro do Cadre Noir, dizem as más-línguas jocosas, tem que se ser militar do Exército, tem que se ser alto e magro e, se se souber montar a cavalo, tanto melhor). Naquela época ainda tínhamos no nosso Exército dois militares que tinham obtido o grau de Mestres de Equitação em Saumur e possuíam as famosas «esporas de oiro»: o mais tarde General Reymão Nogueira e o Coronel Fernando Paes. Ou seja, para nós, portugueses,  aquela instituição ainda tinha uma aura muito grande e nós os cinco achámos «o máximo» termos visitado a Escola de Saumur.

Na brevíssima visita à cidade, não foi referido que aquela tinha sido sede de uma importante circunscrição administrativa até à Revolução Francesa – uma Sénéchaussée – nem que durante a II Guerra Mundial a guarnição local opusera grande resistência aos alemães e que por isso fora galardoada com a Medalha de Mérito Nacional em 1945.

E, dali, subimos o vale do Loire rumo a Paris. Pernoitando algures e sem vacas a ruminarem à nossa volta.

(continua)

Abril de 2020

Henrique Salles da Fonseca

 

[i] - Actualmente, semi-civilizada, é a «Escola Nacional de Equitação» e tem tutela conjunta do Exército e da Federação Equestre Francesa

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