Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

A bem da Nação

«RESSENTIMENT» - NIETZSCHE

Hoje, 28 de Maio de 2020, lembrei-me do conceito nietzschiano de ressentiment (que ele usa na grafia francesa) e que liga ao sentimento de superação de uma situação de constrangimento associada à inveja e à necessidade de culpabilização de alguém por esse sofrimento.

Historicamente, entre nós, temos duas formas de sublimação desse ressemtiment: a emigração, nomeadamente aquela que erigiu o Império; as revoluções, de que destaco as mais recentes, a da implantação da República, a do 28 de Maio de 1926 e a do 25 de Abril de 1974, uma sucessão ao estilo dos alcatruzes – alarga, aperta, alarga.

A Monarquia, tipicamente o regime em que uns nasciam destinados ao mando e os outros à obediência, foi substituída por um outro em que todos se achavam com direito ao mando, a sublimação do ressentiment numa explosão dos recalcamentos acumulados e de vingança pelas expectativas frustradas´- daí, a instabilidade social, as constantes revoltas de facção, os Governos de curta duraçã0o, a ausência de soluções sensatas ou eficazes, a bancarrota, a criação da ansiedade e da aspiração por uma paz entretanto perdida.

Foram os militares humilhados na Flandres, no norte de Moçambique e no sul de Angola que decidiram «pôr ordem no quartel» e em 28 de Maio de 1926 disseram que, a partir dali, eram eles que mandavam. Mas os traumas eram muitos e também eles não se entenderam como queriam. Lá tiveram que ser «arrumados» Gomes da Costra e Mendes Cabeçadas até que Carmona se sentou na poltrona. E foi depois duma negaça que tiveram que ir de novo pedir-lhe que regressasse. A quem? Àquele que definiria a vida portuguesa de 1933 a 1974, o Doutor Salazar.

E foram duas as missões que o levaram a agir: o reequilíbrio das Finanças Públicas e a oposição à determinação dos soviéticos de tomarem conta da Península Ibérica para subjugarem a Europa entre os Pirinéus e a futura cortina de ferro e, simultaneamente, tomarem conta das colónias portuguesas.

O desenvolvimento económico foi nesse longuíssimo período apenas o que o equilíbrio financeiro permitisse e as frustrações políticas dos que se sentiam constrangidos criaram tensões que a PIDE ia «gerindo» mas que, acumuladas, não podiam ser contidas.

O 28 de Maio perdurou tempo demais, não quis evoluir e quando o Proifessor Marcelo Caetano o tentou fazer, foi boicotado pelos «ultras» e viu-se apeado por um golpe comunista no dia 25 de Abril de 1974.

E aí, novamente, o povo saiu às ruas a berrar nem ele próprio sabia para quê e vá de se ver envolto num processo revolucionário soviético que só tardiamente derrubou. E só então é que o ressentiment pôde dar largas às invejas, às frustrações.

E já lá vão 46 anos em que a bancarrota regressou repetidamente, a bagunça alternou com a austeridade até que Stalin foi claramente substituído por Gramci na viabilização de uma geringonça governativa.

Segue-se o quê? Não sei mas gostaria que não fosse algo parecido com o que aconteceu ao inspirador destas linhas, Friedrich Nietzsche, a loucura.

Eis do que,  «sans ressentiments», me lembrei hoje.

28 de Maio de 2020

Henrique Salles da Fonseca

ENIGMAS DA HISTÓRIA – 2

Antes do mais, recordo que todas as informações contidas no texto anterior resultam do esforço alheio de investigação, sendo que eu me limito a fazer como o cuco que usa o ninho laboriosamente feito por outros. Mas, já que não estou em condições de investigar (forte ambliopia), posso especular e tentar extrair conclusões mais ou menos certas mas plausíveis, pelo menos.

* * *

Então, o que me parece ter acontecido foi que na guerra de 14-18, Agostinho Lourenço terá sido integrado na 2ª Repartição do Comando Português, a da informação e contrainformação e, daí, foi um instante até se aproximar dos homólogos ingleses – não esqueçamos que a Força Expedicionária Portuguesa estava enquadrada no Sector Britânico – que, por sua vez, estavam próximos ou eram membros do MI6. Parece-me que foi aqui que se encurtaram as distâncias entre Agostinho Lourenço e o MI6, se é que as distâncias não se anularam mesmo.

De seguida, «o homem do bigode» veio de licença a Portugal e não voltou para o cenário da guerra.

É aqui que faço entrar Sidónio Paes na cena deste folhetim nomeando Agostinho Lourenço para o cargo de Governador Civil de Leiria a fim de extirpar os movimentos grevistas na Marinha Grande. Mas, feito o «serviço», não aqueceu o lugar pois foi nomeado Director da Polícia Preventiva a qual, segundo informam os nossos investigadores, terá sido instalada à imagem e semelhança do MI6, nomeadamente nas técnicas de «convite dos prisioneiros à fala».

Fim do Consulado Sidonista em 1918 e «o homem do bigode» desaparece da circulação. E desaparece durante 15 anos, o que não é brincadeira. Se me disserem que ele foi «estagiar» no MI6, eu acredito – tempo mais do que suficiente para confirmar fidelidades.

Reaparece em 1933 como Director, o primeiro, da PVDE – Polícia de Vigilância e Defesa do Estado que em 1945 mudou de nome (mas creio que de mais nada) para PIDE – Polícia Internacional e de Defesa do Estado. Lourenço manteve-se no cargo de 1933 a 1956, quando atingiu o limite de idade e se aposentou do serviço ao Estado Português. Depois de aposentado, por empenho do MI6, foi Director da Interpol durante cinco anos. De tudo, para concluir que Agostinho Lourenço era homem de confiança dos serviços de segurança britânicos.

E terá já sido nessa posição de confiança que actuou enquanto foi Director da PVDE/PIDE. Por alguma razão, era o único não-Ministro que acedia directamente ao Presidente do Conselho de Ministros e com ele despachava semanalmente.

Ora, tendo o Doutor Salazar desempenhado o cargo de Ministro dos Negócios Estrangeiro de 1936 a 1947, foi a Sevilha também nessa qualidade, o que lhe poupou imenso trabalho não tendo que instruir intermediários. E fez-se acompanhar pelas únicas pessoas da sua especial confiança: o motorista, o Embaixador Pedro Theotónio Pereira, seu braço direito para casos bicudos e Agostinho Lourenço como seu contacto directo com os «bas fonds» dos Aliados. Lourenço foi a Sevilha como membro relevante da comitiva do Doutor Salazar, não como Oficial de Segurança que, aliás, nunca foi. Da segurança do Presidente do Conselho e sua comitiva encarregaram-se dois Oficiais que a História apagou.

Sob a influência diplomática de Ramon Serrano Súñer (pela calada, o «Jamon Serrano») – que até então já tinha sido ministro seis vezes – a Espanha estava prestes a quebrar a neutralidade para alinhar militarmente com o Eixo.

Ora, em Sevilha, o Doutor Salazar garantiu a Franco que o embargo internacional a Espanha seria atenuado com a passagem dos abastecimentos dos Aliados através do território português desde que a Espanha mantivesse a neutralidade. Franco agarrou a ideia e, passado pouco tempo, dispensou Súñer de quaisquer funções ministeriais. Realmente, nunca mais Súñer voltou a ser ministro até que, com 102 anos de idade, se entregou ao Criador.

Se quiséssemos fazer humor, diríamos que o Doutor Salazar fizera uma mexida fundamental no Governo Espanhol. Mas, sem humor, temos que reconhecer que naquele encontro secreto em Sevilha aconteceram coisas importantes:

  • A neutralidade espanhola foi muito prejudicial ao Eixo que já não contava com a Itália para nada;
  • O Doutor Salazar demonstrou estar claramente do lado dos Aliados evitando que estes invadissem os nossos «portaviões» Açores e Cabo Verde;
  • Que três cérebros bem ginasticados valem bastante mais do que algumas Divisões Blindadas.

* * *

Acabo como comecei: os factos são fruto de investigação alheia; a especulação é minha. Esta, pode servir para alguém, com mais imaginação, escrever folhetins «à la façon de James Bond» ou para servir de sugestão a investigadores nas suas teses académicas. Nem a uns nem a outros cobrarei direitos de especulação.

FIM

Maio de 2020

Henrique Salles da Fonseca

ENIGMAS DA HISTÓRIA - 1

Comecemos pelo princípio…

… quando um correspondente – cuja identidade não estou proibido nem expressamente autorizado a revelar – me pediu ajuda na identificação de um tal «Jimmy» na fotografia de Salazar e Franco em Sevilha aquando do encontro secreto de 1942.

 

JIMMY.jpg

Da esquerda para a direita: Serrano Súñer, «o homem do bigode», Franco, Doutor Salazar, Embaixador Pedro Theotónio Pereira

Perguntava ele se «este Jimmy seria um homem de mão do Wild Bill Donovan (CIA)»

A este encontro se refere o texto de autoria alheia que publiquei no “A bem da Nação” em 23 de Janeiro de 2015 e que pode ser lido em

https://abemdanacao.blogs.sapo.pt/salazar-e-franco-1333359

À pergunta do meu correspondente sobre o Wild Bill Donovan respondi como segue:

Caro Dr. (…)

No encontro de Sevilha, custa-me muito a crer que na reunião só tenham estado Salazar, Franco e Suñer. Não acredito minimamente que o nosso Embaixador Pedro Theotónio Pereira tenha ficado do lado de fora da porta como um lacaio. Esteve seguramente lá dentro e só ele poderá ter dado aos nossos Arquivos Diplomáticos tanta da informação constante do texto que publiquei.

Como se depreende da descrição do encontro, tudo se resolveu com o Doutor Salazar a garantir a Franco que o embargo se aligeiraria e que os abastecimentos a Espanha não corriam risco. Ou seja, o Doutor Salazar falou em nome de terceiros, os Aliados. Estou, pois, em crer que na pacata Lisboa ninguém saberia do encontro secreto em Sevilha mas os Aliados saberiam tudo e talvez tenham mesmo mandatado o Doutor Salazar para falar em nome deles. Se esta minha presunção estiver minimamente correcta, acho plenamente plausível que da comitiva do Doutor Salazar pudesse participar alguém com sotaque inglês-americano. E, relativamente à foto, seria totalmente improvável que alguém não autorizado nela pudesse figurar. Neste tipo de circunstâncias, os espontâneos não são tolerados.  Quanto à identificação de Jimmy, nada posso adiantar para além de poder admitir que seja um dos figurantes na foto. Não posso identificar porque estou amblíope e porque, mesmo que visse claramente, não tenho qualquer referência fisionómica desse personagem. Pode (ou não) ser um desses figurantes.

Melhores cumprimentos,

Henrique Salles da Fonseca

Passado um ou dois dias, o meu correspondente escreve:

Consegui resolver a charada, é o homem do bigode – e faz-me chegar em inglês o que a Wikipédia diz de Agostinho Lourenço, «o homem do bigode» e cuja tradução para português é da minha responsabilidade:

Agostinho Lourenço da Conceição Pereira (5 de Setembro de 1886 - 2 de Agosto de 1964) foi um militar português mais conhecido por fundar e dirigir a Polícia Política Portuguesa sob o Estado Novo.

Integrou a Força Expedicionária Portuguesa  - por sua vez enquadrada no Sector Britânico - na Primeira Guerra Mundial. Durante o Consulado de Sidónio Paes, foi Governador Civil de Leiria (greves operárias na Marinha Grande?[i]).

Mais tarde, foi agraciado com o grau de Comandante da Ordem da Rainha Victória por serviços prestados ao futuro Eduardo VIII, na época Príncipe de Gales, quando o Príncipe visitou Lisboa em 1931.

Em 1933, nos primeiros tempos do regime de Salazar, Agostinho Lourenço fundou a PVDE, a polícia de segurança e imigração de Portugal. Segundo o professor Douglas Wheeler, analista da carreira de Lourenço, sugere fortemente que a influência dos Serviços de Inteligência Britânicos teve um impacto decisivo na estrutura e na actividade da PVDE". Lourcenço ganhou reputação junto de observadores britânicos, registada num documento confidencial produzido na Embaixada Britânica em Lisboa, que sugere uma opção "pró-britânica" da sua parte.

Agostinho Lourenço sempre manteve um bom relacionamento com o MI6, o que lhe permitiu, já reformado do Estado Português, tornar-se Presidente da Interpol de 1956 a 1961.  

Faleceu em Lisboa em 1964, um mês antes de perfazer 78 anos.

Mais fez o meu correspondente chegar-me o texto da VISÃO referido na Bibliografia cuja leitura recomendo vivamente e de que retiro duas informações que chamaram a minha atenção:

  • No Consulado de Sidónio Paes, foi Agostinho Lourenço que organizou a Polícia Preventiva;
  • Agostinho Lourtenço esteve desaparecido de 1918 a 1933.

(continua)

Henrique Salles da Fonseca

 

BIBLIOGRAFIA:

Wikipédia – Agostinho Lourenço

Ana Margarida de Carvalho - «O ANJO NEGRO DE SALAZAR» - “VISÃO” – 2016-07-17

https://visao.sapo.pt/atualidade/politica/2016-07-17-o-anjo-negro-de-salazar/

 

[i] - Hipótese minha, não do texto traduzido

DA RAZÃO E DA SUA FALTA

Por vezes, é bom sermos confrontados com ideias contrárias às nossas convicções mais ou menos profundas, mais ou menos importantes. Mas esse confronto que não seja sistemático que é para não… não que? … não atirarmos com os «aparelhos» ao ar.

Assim foi que há dias alguém me enviou uma mensagem que, em resumo, dizia que o uso da máscara era um triunfo do Islão sobre o Ocidente e assim foi também que, ao ler uma biografia de Nietzshe, fiquei a saber que ele considerava perversa a exegese cristã.

Então, por ironia das circunstâncias, eu que sempre fui contra as burkas e vestimentas quejandas, dou agora por mim a pugnar pelo uso universal das máscaras e eu, que sempre fui contra a não interpretação dos textos sagrados, dou por mim agora a ter que meditar um pouco mais sobre a perversão exegética.

* * 

  1. Claro está que as burkas e suas variantes mais ou menos rigorosas são instrumentos da misoginia muçulmana destinadas a humilhar a mulher que, consideram eles, é um ser inferior. Contudo, um dos absurdos deste pensamento é o facto de os homens se estarem a classificar a si próprios como filhos de seres menores. Com a evidência de que, ao abrigo das Leis de Mendel, ao filho de um ser menor não corresponder muito provavelmente um ser superior, o destino da «raça» sucessivamente miscigenada com seres menores, não poderá ser brilhante e, pelo contrário, conduzirá à menoridade completa. Portanto, ao fim de catorze séculos dessa doutrina, das duas, uma: ou eles já estão completamente diminuídos ou a doutrina está errada – até porque as Leis de Mendel, essas sim, estão correctas. Obviamente, a ideia da inferioridade feminina é um sofisma. Quanto ao uso universal – mais ou menos temporário - da máscara, não tem qualquer objectivo de subalternização de ninguém e, pelo contrário, pretende ser uma defesa contra o vírus que por aí anda a mando dos chineses. Obviamente, o Islão nada ganhou sobre o Ocidente e quem divulgou essa ideia absurda perdeu uma boa oportunidade para estar quieto.
  1. Já quanto à exegese, temos que reconhecer que o estilo parabólico de muitos textos fundacionais de várias religiões e a própria evolução do estilo literário e da capacidade de entendimento humano, não é compatível com a mera literalidade desses textos estaminais (cujas formas literárias podem hoje ser consideradas desactualizadas para não lhes chamar primitivas), a exegese é indispensável. E se, ao longo dos séculos, essas interpretações foram sucessivamente virtuosas ou perversas, é de esperar que a inteligência do homem moderno consiga expurgar o mau e fazer a apoteose do virtuoso. Mas exegese, sempre. Portanto, o Senhor Friedrich Nietzsche não tinha razão – mas eu estou em crer que se ele tivesse conhecido o actual Sunismo, talvez também concordasse comigo no sentido de que as religiões não podem ser seguidas à letra.

Maio de 2020

Henrique Salles da Fonseca

NA MORTE DO «BOM-SENSO»

Enviaram-me há dias um vídeo em que um cavalheiro formal e pesaroso anunciava a morte de um seu amigo, o «bom-senso». Sem paciência para figuras de retórica nem para falsos rasgos humorísticos, desliguei.

Mas fiquei a pensar naquilo e quando procurei o vídeo, já não o encontrei. Resta a solução de pensar por mim próprio.

* * *

Na gíria, há uma certa tendência para associar - se não mesmo para confundir - «bom-senso», «senso-comum» e «bem comum» mas desde já faço notar que o «bom» pode não ser «comum» e, vice-versa, o «comum» pode não ser «bom».

Comecemos pelo Dicionário Priberam:

  • Bom-senso – Equilíbrio nas decisões ou nos julgamentos em cada situação que se apresenta;
  • Senso comum –Conjunto de opiniões ou ideias que são geralmente aceites numa época e num local determinados.

Bastou, pois, o recurso ao dicionário para pormos o «senso-comum» fora de jogo – honi soit qui mal y pense – no que respeita à questão do vídeo.

Assim sendo, ficam em apreciação o «bom-senso» e o «bem comum», sempre na perspectiva social, substantiva, de «bom» (daí, o hífen) e de «bem», expressões não adjectivantes.

Estas expressões estão directamente vinculadas ao conceito positivo de «bem social», substantivo, por contraste com «mal social». Mais especificamente, a boa conduta social e à sua oposta, o mau comportamento.

Portanto, o que é a boa atitude social que tem por génese o bom senso?

É aquela que é conforme à harmonia social e se configura pelo altruísmo, pela humildade e pelo sentido do dever[i].

Mas se o pacifismo implícito na harmonia (a da concertação social) for posta em causa pelas doutrinas que têm como base de actuação a luta de classes, o que é bom para uns é mau para os outros e vice-versa. Ou seja, o «bom» transforma-se de substantivo em adjectivo e as características acima referidas transformam-se em egoísmo (vs. altruísmo), em arrogância (vs. humildade) e em irresponsabilidade (vs. sentido do dever), pedras estas que cada facção arremessa à outra.

Isto significa que a cada projecto político corresponde um conceito de bem comum e que a cada um destes corresponde um quadro específico de «bom-senso».

E em democracia pluripartidária é assim mesmo: periodicamente, o modelo de «bem comum» é referendado e ganha aquele a que corresponde a maioria de um certo «bom senso».

Ou seja, o «bom-senso» não morreu, ele apenas é diferente (eventualmente, muito diferente) do da opção do cavalheiro formal e pesaroso do vídeo que não vi na íntegra. Mas, adivinhando, sou capaz de lhe dar alguma da minha simpatia.

Maio de 2020

Henrique Salles da Fonseca

 

 

[i] - O que é que eu posso fazer por ti sem o prejudicar a ele, esse terceiro que até pode não estar identificado?

ANDA COMIGO – 25

Chegada a Toulouse à hora de um almoço tardio, assim como que à espanhola. E, já que em occitano (a língua do sul de França) esta cidade se chama Tolosa, que fique claro que nada tem ela a ver com Navas de Tolosa onde em 1212 se travou «a batalha» de que resultou o princípio do fim do Califado almóada. Muito interessante, sim, mas nada disto tem a ver com Toulouse. Adiante…

Foi aqui que me lembrei dos visigodos que assentaram nesta região durante muito tempo, do pastel (que foi o antepassado do índigo) e do Caravelle, o avião. Para além, claro está, do famoso Lautrec.

Eram horas de partida, seguiríamos pelo sopé francês dos Pirinéus, passaríamos à margem de Pau, a cidade onde nasceram os grandes prémios automobilísticos franceses mas para nós, gente de cavalos, aquela era a cidade do comerciante que enviou muitos trotadores para Portugal. Portanto, bem ou mal, para mim, Pau era a capital dos trotadores.  Vimo-la ao longe, pela nossa esquerda. ´Tomámos o caminho de Hendaye onde pernoitaríamos ao fim de uma jornada com 350 quilómetros.

Nas redondezas da fronteira, aproveitámos um camping em França pois não tínhamos visto nenhum do lado espanhol. Já nos sentíamos quase «em casa» e, como os cavalos, estávamos «com a crença na cocheira».

No dia seguinte, entrando pela Espanha dentro, esperavam-nos alguns esticões quilométricos pelo que havia que dividir as etapas tão bem quanto possível para que o nosso Conducător não se martirizasse muito.

Levantado arraial ao mesmo tempo que o Sol, passámos a fronteira e fizemo-nos à estrada por ali fora… San Sebastian ficou-nos à direita e vá de pormos Vitória  à frente do tablier. Chegámos cedo, eram só 180 quilómetros desde a fronteira. Mas como desta vez iríamos por Madrid, não era justo pedir mais 250 quilómetros. Ficámos em Burgos num local que, em princípio, não teria vacas por perto.  Contudo, o nosso Comandante já estava impaciente por chegar a casa e a meio da noite deu ordem de levantamento do arraial. Chegámos a Madrid pela alvorada e, sem pararmos, lembrei-me da «Alborada del Gracioso» de Ravel. Calei-me, não assobiei nem cantarolei, lembrei-me apenas. E assim foi que nos atirámos a mais 400 quilómetros até Badajoz. E, aí, faltavam 40 quilómetros para chegarmos ao fim da nossa viagem, Stª Eulália, herdade de Font’Alva.

Chegámos pela tardinha e quem mais mereceu louvores foi o fidelíssimo «pão de forma», essa formidável carrinha Volkswagen que ao longo de 7660 quilómetros apenas pediu que se lhe desse algum combustível.

E é chegado o momento de dizer que sempre que citei o «nosso Comandante», era ao meu saudoso tio Engenheiro Fernando Sommer d’Andrade que me referia. Depois desta viagem, foi ele que trouxe para o nosso hipismo o modelo de certificação desportiva que encontrámos na Alemanha, foi ele que fez construir o picadeiro coberto (que tem o seu nome) na Sociedade Hípica Portuguesa, em Lisboa, assim dando o arranque para a constituição do maior centro hípico português e foi ele que nos proporcionou, aos rapazes, uma visão inicial do mundo para além dos curtos horizontes que tínhamos até então.

Passados 59 anos, deste grupo de viajantes, também já nos falta o Nan, o mais novo de nós, os rapazes.

Aos dois Fernandos, pai e filho, eu digo: – Adeus, encontrar-nos-emos de novo, esta é a nossa fé.

FIM

Maio de 2020

Henrique Salles da Fonseca

Quilómetros na volta, de Ivrea a Stª Eulália (Elvas):

Ivrea– Grande São Bernardo ~ 120 kms

Grande São Bernardo – Montreux ~ 80 kms

Montreux – Genève ~ 80 kms

Genève – Grenoble ~ 145 kms

Grenoble – Avignon ~222 kms

Avignon – Cannes – Nice ~260 kms

Nice – Cannes  - Monpellier ~ 330 kms

Monpellier – Carcassonne ~ 150 kms (litorl)

Carcassonne – Toulouse -~95 kms

Toulouse – Pau ~ 200 kms

Pau – Hendaye ~ 150 kms

Hendaye – San Sebastian ~ 30 kms

San Sebastian – Vitória – 100 kms

Vitória – Burgos - Madrid ~ 360 kms

Madrid – Badajoz ~ 410 kms

Badajoz – Stª Eulália ~ 35 kms

TOTAL DO REGRESSO ~ 2767 Kms

TOTAL DA IDA ~ 4893

TOTAL DA VIAGEM ~7660 Kms

ANDA COMIGO – 24

Passados que são 59 anos da viagem, há «coisas» que se me passaram e uma delas foi Grenoble. Que me perdoem os grenoblois. Mas, em compensação, lembro-me relativamente bem de Avignon cuja ponte procurei. Julgo tê-la visto à distância quando passámos por uma outra mais nova do que ela, a da cantiga. Dada uma vista exterior pelo maciço palácio papal, quase fortaleza, acampámos algures.  

E mesmo que fosse andar um pouco para trás, o nosso Comandante achou que se justificava darmos um salto a Nice onde, como não podia deixar de ser, passámos pela Promenade des Anglais onde vimos o célebre Negresco em que não pernoitámos mas que me levou a lembrar de Isadora Duncan, do Bugatti e do fatídico cachecol – história que sempre me pareceu inverosímil. E, por baixo da famosa balaustrada, vimos a praia de areia pedregosa que logo comparei com as nossas areias finas. De facto, não será pelas praias que se justifica que um português vá ao estrangeiro já que temos as melhores do mundo. E, ao fim de todos estes anos que decorreram entretanto, confirmo que as praias estrangeiras que aparentam ser melhores que as nossas, têm águas pejadas de crocodilos de água salgada, medusas letais e tubarões de voracidade criminosa. Em Nice não há nada disso mas também não há areia como as nossas. Mas há o resto e é isso que arrasta multidões. Nietzsche, um habitué de Nice que eu não imaginava num tal mundanismo. Mas sobreviveu miraculosamente a um tremor de terra que destruiu a pensão em que habitualmente se instalava. Saiu ileso do meio dos escombros fazendo humor com o facto de o tinteiro ter saltado para fora da mesa em que escrevia. Na dúvida, passou a ir para Turim onde o solo mexeu menos enquanto por lá andou.

E nós, seguindo para Cannes, decidimos não prosseguir até Saint Tropez fingindo que a Brigite Bardot não estava lá.  E, inflectindo para o interior, fomos ver as margaridas e outras espécies da típica flora regional da qual se fazem as essências de grande parte dos perfumes franceses. Ao todo, de Nice a Monpellier, foram 350 quilómetros que nos puseram no destino ao final da tarde. Com os 260 quilómetros que tínhamos feito de Avignon a Nice, este foi um dia de esticão para o nosso Conducător[i].

Procurámos assento, armámos a tenda e pernoitámos. Estávamos nas redondezas de Monpellier, num camping em que conseguimos encontrar lugar.     

 Se de Monpellier pouco retive, daí a 250 quilómetros não pude deixar de me encantar com Cascassonne, a cidade museu da História do Sul de França. Em qualquer esquina esperávamos cruzar-nos com os Mosqueteiros do Rei mas deviam estar em missão alhures. Foi aqui que cátaros e calvinistas ficaram manchados de sangue. Este, o cenário de episódios muito dramáticos da História de França e não só. Assim foi que me lembrei dos Berengários de Aragão e, logo, do irmão da nossa Rainha Santa Isabel que morreu pelos cátaros numa batalha travada naquelas paragens por onde andávamos. Lembrei-me dos franciscanos milenaristas que também por ali pregaram e que, expulsos, vieram para Alenquer por convite da mesma Rainha Santa e que por cá ficaram até os Açores serem descobertos e povoados para lá indo prestar culto ao Espírito Santo – fé que se mantém: no princípio, foi o tempo do Pai; seguiu-se o tempo do Filho e agora estamos no tempo do Espírito Santo.

E se de tanta coisa me lembrei, por certo que de muita me esqueci.

Sim, foi difícil consolidar esta parte de França pois por aqui passaram tempos de Teologias conflituantes. E a pergunta é: como seria hoje a nossa Civilização se os resultados das pelejas físicas de então tivessem sido outros?

Felizmente, era hora de rumar a Toulouse, la ville rose, ali à frente, a uma centena de quilómetros

(continua)

Maio de 2020

Henrique Salles da Fonseca

 

 

«lider», em romeno

ANDA COMIGO – 23

Um último olhar pelo pátio do castelo, um aceno a quem ficava e aí vamos nós na rota do Sol…

A subida do Vale d’Aosta de Ivrea ao Grande São Bernardo seriam 120 quilómetros. Voltámos a passar por Aosta propriamente dita, pelos castelos de apoio aos peregrinos e não tardou muito que a estrada começasse a subir e a temperatura a dar sinais de que os Alpes não são brincadeira nenhuma. E assim foi que o fidelíssimo «pão de forma» nos pôs na fronteira lá em cima, no Grande São Bernardo. Dali a Montreux seriam os tais 80 quilómetros que já percorrêramos em sentido inverso. Lá chegados, em vez de seguirmos em frente, cortaríamos à esquerda para percorrermos a margem sul do lago Léman até Genève.

Foi nesta etapa muito turística de cerca de 80 quilómetros e rendilhada entre a Suíça e França que tive pela primeira vez a noção exacta do que é a convivência banal entre as populações que, mais ou menos por acaso, pertencem a um ou outro país. Fronteiras simbólicas, só íamos tendo uma ideia algo incerta sobre se estávamos em França ou na Suíça pelas fardas azuis dos guardas franceses ou cinzentas dos suíços. E, mesmo assim, estávamos a entrar ou a sair de que país? E, contudo, muitos anos mais tarde, numa festa num castelo medieval situado nessa mesma margem sul do Léman, um francês de Annemasse, católico de grande militância, apontou para a outra margem e referiu «aqueles protestantes»… Pois é, tempos houve menos laicos em que os cristãos se matavam por esse tipo de diferenças e Genève foi o berço do calvinismo. Mas os tempos amainaram e hoje há uma carreira de autocarros urbanos que começa na Praça de Cornavin, em Genève e acaba em Annemasse, em França. No entanto, aquele francês – aparentemente, um tipo normal – ainda vivia de algum modo acossado entre os italianos da Casa de Saboia que por ali tinha reinado e os calvinistas da outra margem.

Mas estas foram coisas que vim a saber muito mais tarde. Naquele dia íamos a caminho de acontecimentos hípicos que não esqueci.

Depois de marcarmos território com a tenda no camping mais apropriado às nossas conveniências geográficas, fomos a um concurso hípico em que participavam militares suíços cujos cavalos estavam à sua guarda individual e que obrigatoriamente tinham que exibir em certos eventos para demonstrarem o bom estado físico dos animais como também do respecyivo maneio e operacionalidade. Vimos bons exemplos e vimos outros exemplos. Para além do mais, tratava-se de importante evento social pois alguns dos militares eram Oficiais de patentes relativamente altas e os civis que participavam eram membros dos vários clubes hípicos daquela região e também os havia franceses. E foi nesse evento que, pela primeira vez, se apresentou no estrangeiro o nosso professor de equitação, o Mestre Nuno Oliveira que viria a ficar conhecido como o maior cavaleiro artístico do séc. XX. Mais particularmente, o Mestre apresentaria um cavalo da criação e propriedade do nosso Comandante, o «Euclides». Como nós adivinhávamos que aconteceria, quando a exibição começou, o tempo parou e deixou de se ouvir uma mosca como se estivéssemos a assistir a um acto religioso. Não, nada tinha de religião, era arte pura de equitação sublime e de música clássica portuguesa. Sentiu-se pudor em retomar as provas hípicas e aquele foi o momento estaminal do Mestre Nuno a nível mundial. Muitos anos mais tarde, viria a morrer em Perth, na Austrália, num curso que lá tinha ido ministrar.

O jantar de gala – nós não tínhamos vestimentas apropriadas mas o anfitrião, o nosso grande amigo Auguste Baumeister (apesar do nome, era francês) «exigiu» a nossa presença – foi servido em regime volante nos salões e jardins da mansão sobre o Léman e a anfitriã, ajaezada ao estilo das grandes écuyères, apresentou o «Mastoso Stornella» às rédeas longas. Mas a Senhora não tinha nascido para aquilo e, apesar de no outro lado do recinto, nos bastidores formados pelos arbustos, o Abel Carvalho (funcionário do Mestre Nuno) acenar com cenouras e torrões de açúcar, o cavalo esteve-se nas tintas para esses engodos e virou-se para trás ficando cara a cara com a Senhora Baumeister.  E nessa altura, a música, supostamente doce e suave, foi posta aos berros e nós iniciámos uma ovação que disfarçou o fiasco equestre da Madame. Mas o jantar foi um sucesso, toda a gente gostou imenso e o Senhor Baumeister foi um amigo de Portugal até ao fim dos seus dias.

No dia seguinte demos mais umas voltas, fomos a Lausanne mais não sei onde, visitámos o campeão brasileiro Nelson Pessoa que então vivia por lá e fomos a um centro hípico assistir a uma lição dada por um grande Mestre suíço cujo nome me passou. E quando lá entrámos, vimos 5 ou 6 alunos cujos cavalos estavam todos de rédea alemã. Perante o nosso espanto, o professor logo disse que estava a ensinar os alunos de como usar aquela martingala que ainda hoje considero perniciosa. Muito bem, continuo a pensar que a rédea alemã só deve ser usada por quem a sabe usar mas quem a sabe usar não precisa dela para nada.

E assim foi que nos fizemos companheiros do Ródano à saída de Genève…

(continua)

Maio de 2020

Henrique Salles da Fonseca

ANDA COMIGO – 22

Antes de iniciarmos o percurso do Sol, um breve resumo geográfico do que fizemos até aqui:

  • São Martinho do Porto, o ponto mais ocidental desta viagem;
  • Kiel, o ponto mais setentrional;
  • Berlim, o ponto mais oriental;
  • Turim, o ponto mais meridional.

Sem contar com as voltas e voltinhas do vai p’ra lá e vem p’ra cá, o Google Maps diz-nos que, com as estradas actuais (menos quilómetros do que as que percorremos ainda sem as autoestradas de hoje) a quilometragem foi assim:

  • Martinho do Porto – Mealhada - Vilar Formoso = 320 quilómetros
  • Vilar Formoso – Hendaye = 610 quilómetros
  • Hendaye – Saumur – Paris = 850 quilómetros
  • Paris – Bruxelas – Amesterdão – Alkmaar – Zurich – Bremen – Verden = 960 quilómetros
  • Verden – Hamburgo – Kiel = 210 quilómetros
  • Kiel - Hamburgo – Hannover – Berlim = 540 quilómetros
  • Berlim – Braunschweig – Frankfurt – Karlsruhe – Freiburg = 840 quilómetros
  • Freiburg – Basel – Montreux – Grande São Bernardo = 340 quilómetros
  • Grande São Bernardo - Aosta – Turim = 170 quilómetros
  • Turim – Ivrea = 50 quilómetros

Total até aqui = 4890 quilómetros

No percurso entre Basel e Montreux, o Google insistiu na passagem por Berne mas eu não me lembro de ter por lá passado. Ou fomos por uma estrada anterior à actual autoestrada ou simplesmente fui eu que passei pelas brasas.

A partir de Ivrea, o regresso pausado.

Por montes e vales, continuemos…

Maio de 2020

Henrique Salles da Fonseca

Pág. 1/3

Mais sobre mim

foto do autor

Sigam-me

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2020
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2019
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2018
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2017
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2016
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2015
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2014
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2013
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2012
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2011
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2010
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D
  144. 2009
  145. J
  146. F
  147. M
  148. A
  149. M
  150. J
  151. J
  152. A
  153. S
  154. O
  155. N
  156. D
  157. 2008
  158. J
  159. F
  160. M
  161. A
  162. M
  163. J
  164. J
  165. A
  166. S
  167. O
  168. N
  169. D
  170. 2007
  171. J
  172. F
  173. M
  174. A
  175. M
  176. J
  177. J
  178. A
  179. S
  180. O
  181. N
  182. D
  183. 2006
  184. J
  185. F
  186. M
  187. A
  188. M
  189. J
  190. J
  191. A
  192. S
  193. O
  194. N
  195. D
  196. 2005
  197. J
  198. F
  199. M
  200. A
  201. M
  202. J
  203. J
  204. A
  205. S
  206. O
  207. N
  208. D
  209. 2004
  210. J
  211. F
  212. M
  213. A
  214. M
  215. J
  216. J
  217. A
  218. S
  219. O
  220. N
  221. D