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A bem da Nação

MOÇAMBIQUE REVISITADO – 10

De carro alugado e conhecendo bem a cidade, fomos a toda a parte sem tempos mortos. Em 2006, Maputo era uma cidade absolutamente tranquila e aprazível como fora Lourenço Marques. Andámos por onde quisemos.

De manhã, demos uma volta pela baixa da cidade e fomos ver o forte onde eu nunca tinha entrado porque, segundo se dizia no nosso tempo, não tinha nada de especial para ver. Mas agora, com a parte central muito bem ajardinada, guardava a estátua equestre do Mouzinho que dantes estava no centro da rotunda fronteira ao edifício da Câmara Municipal, ou seja, no topo da Avenida D. Luís. Nas galerias interiores do forte, uma colecção de estatuária de menores dimensões representando portugueses que se distinguiram na História de Moçambique e muitas fotos, gravuras e estantes com documentos considerados importantes que agora já não sou capaz de identificar. Ao contrário do que me recusei a ver em São Tomé cujo forte homólogo a este se empenhava a dizer mal de Portugal e dos portugueses, este, em Maputo, considera que o período colonial faz parte da História do país e trata-nos com a dignidade que me pareceu correcta.

Mouzinho-forte de Maputo.png

Saindo do forte, passámos frente à Casa Amarela – uma das mais antigas e icónicas edificações da cidade antiga - onde estava uma exposição de numismática que tivemos o cuidado de deixar para outros verem. Dali, seguimos pela outrora Rua do Major Araújo onde proliferam os mesmos ou outros cabarets do antigamente e fomos ver outro ex libris da cidade, o mercado municipal. A funcionar em pleno, as bancas a serem repostas para os clientes tardios, vimos o que não esperávamos: uma vendedeira branca, dona da sua banca cheia de verduras e outras mercadorias que a esta distância no tempo já não recordo.

Como já disse na crónica anterior, fomos almoçar ao Grego da Costa do Sol comer caranguejos. Foi ali que encontrei um amigo que, entretanto, tinha mais 32 anos do que quando o conheci no Centro Hípico. Branco cuja família era oriunda de Castelo Branco, optara pela nacionalidade moçambicana e ficara na sua terra de naturalidade. Retomámos o contacto internético até que o ciclone que devastou Pemba (para onde, entretanto, se mudou) interrompeu as comunicações. Creio que a normalidade tenha sido restabelecida mas ele não voltou ao contacto. Espero que esteja tudo bem com ele e que a falta de respostas às minhas mensagens seja apenas devida a alguma zanga pessoal por motivo que não descortino.

Mas lembrei-me de um acontecimento naquela mesma esplanada do grego no meu tempo antigo por aquelas paragens. A Teresa, o Nixa Lacasta, a Guida e eu tínhamos ido até ali lanchar numa tarde de Domingo e eu fiquei a guardar uma mesa enquanto as Senhoras e o Cavalheiro foram «lavar as mãos». Considerando as cabeceiras da dita mesa, haveria lugar para seis pessoas. Estava eu sozinho de guarda e eis que sem mais nem menos mas com uma expressão afável, um preto se senta num dos lugares ainda disponíveis e faz sinal a mais alguém informando à distância de que encontrara lugares. Logo o informei da situação em que me encontrava de guarda à mesa reservada para os meus amigos que tinham ido lavar as mãos. Ao ter que fazer a explicação em inglês, logo percebi que se tratava de um sul africano e presumi que andasse em turismo. O bom homem de imediato se levantou e pediu desculpa pelo engano. Não houve qualquer espécie de incidente e reparei que, passado pouco momentos, ele conseguiu os lugares que procurava. Mas fiquei a pensar em como é possível haver usos e costumes tão diferentes a tão poucos quilómetros de distância. Assim, muito dificilmente, um português se senta numa mesa já ocupada parcialmente por outras pessoas enquanto os «bifes» o fazem com relativa facilidade bastando para isso um aceno de cumprimento e de pedido de autorização apenas protocolar. Era, pois, perfeitamente natural que aquele homem, anglicizado, procedesse do modo descrito. Mas houve mais uma perspectiva que me deixou a pensar que aquela foi uma oportunidade que eu perdi para dar um estaladão no apartheid. De facto, o turista em apreço, preto, sabia que nós não aprovávamos a segregação racial e que, pelo contrário, fazíamos gala na integração social e na criação de sociedades pluri-raciais. Portanto, à confiança, avançou para a mesa do branco com toda a confiança e com a certeza de ter conseguido os lugares de que precisava. Fiquei com pena da desilusão que lhe devo ter provocado mas espero que ele tenha reparado que eu não lhe menti sobre os outros brancos que entretanto chegaram de mãos lavadas. Mas o Piet Botha, se ali estivesse, ter-se-ia ficado a rir. E disso eu não gostaria. Mas isto passara-se no antigamente.

Depois da lambuzisse que é comer caranguejos no Grego da Costa do Sol, fomos ver o «meu» Centro Hípico onde, claro está, não fui reconhecido. Pareceu-me tudo igual ao antigamente mas talvez fosse da hora, não vi qualquer actividade equestre. Vi, isso sim, alguns cavalos soltos a pastar capim, prática boa para a mente do cavalo mas inútil para a prática desportiva. Ou muito me enganei ou os cavalos que vi não eram da qualidade dos de antigamente, quase todos puro-sangue-inglês. Agora, pareceram-me bastante mais modestos. Talvez fosse interessante reatar relações com o passado. Aqui fica a sugestão caso algum sócio do Centro Hípico de Maputo leia estas linhas.

Lentamente, demos um «salto» a Marracuene (a que também chamávamos «Vila Luísa») para concluir que aquela vila histórica já vira melhores dias. Pois… mas representava a derrota de Gungunhana e os actuais «donos da verdade» não devem gostar do episódio do quadrado.

Dia bem preenchido, regressámos ao hotel e jantámos na varanda sobre a baía. No dia seguinte, pela manhã, viagem até ao Kruger.

Agosto de 2019

Henrique Salles da Fonseca

MOÇAMBIQUE REVISITADO – 9

Diz quem sabe que Lourenço Marques tinha cerca de 750 mil residentes, que o efeito «guerra civil» fez com que as populações rurais afluíssem para junto da cidade em busca de segurança e que Maputo passou a ter 2 ou mais milhões. Não os contei quando ainda eram laurentinos e muito menos quando passaram a ser maputanos. E agora não fui verificar nesse que sabe tudo, o Google. O que eu sei: que «no tempo da outra senhora» se podia confiar nas estatísticas portuguesas. O que eu não sei: se «com esta senhora» se pode confiar nas estatísticas. Mas vi que há muito mais gente nas ruas e que antigos descampados estão ocupados com o que nós chamávamos «caniço».

Pareceu-me que a cidade de cimento funcionava relativamente bem e quase arrisco a dizer que tão bem como connosco; relativamente à envolvente informal, sendo muito maior do que no nosso tempo, admito que os problemas tenham crescido na razão directa – e no tempo português, eu achava uma vergonha deixarmos aquele desleixo municipal coexistir com uma cidade de sonho. Mas havia quem encolhesse os ombros e dissesse que se em Lisboa havia bairros de lata, não havia razão para que em Lourenço Marques não houvesse caniços. Lógica absurda, sempre o pensei e sempre o disse.

Ao sairmos do hotel, decidimos dar uma volta a pé pela avenida para vermos de perto o prédio ali mesmo ao lado onde morei. Já não é de habitação, é a sede duma rádio. Pulus ad margaritam, penso eu. Uma rádio instala-se em qualquer lugar, não é necessário ocupar um edifício emblemático e que nasceu para ser de grande luxo.

Nessa que foi a «Avenida António Enes» e agora tem o nome de um comunista estrangeiro, fomos abordados por vendedores ambulantes de artesanato que não incomodaram nem mais nem menos do que qualquer outro vendedor ambulante em qualquer parte do mundo com excepção da Índia onde batem todos os recordes de melguice. Do lado oposto da avenida, em frente da minha antiga casa, tinha havido uma barbearia e uma casa de chá, a «Canoa». Disse bem, tinha havido. Mas não esqueçamos que, entretanto, se tinham passado 32 anos. Nada mais natural que, mesmo sem tsunamis políticos nem guerras civis, as casas comerciais possam não perdurar tantos anos. Portanto, não estranhei que ambos os ditos estabelecimentos já não existissem. O que estranhei foi um deles estar vazio e o outro ser uma loja de bugigangas iguais às vendidas ali mesmo em frente na rua pelos tais ambulantes só que sem a componente fiscal a que a loja não poderia (não mesmo?) fugir. Claro está que enquanto existir o «Clube de Paris» a que pertencem os países doadores, o aprimoramento da cobrança de impostos é tema não premente. E o povo empreendedor (lojista ou ambulante) é muito mais feliz na economia paralela do que na tributada.

Seguimos em frente e começámos a ver hotéis novos e centros comerciais… tudo a cheirar a novo. E fomos até à Ponta Vermelha onde continua a ser a residência do «Chefe Máximo». A diferença é que no antigamente o acesso àquelas ruas era tema pacífico e quando lá espreitei foi-me dito que se tratava de área reservada. Compreendi a medida de segurança e fiz meia volta. E mesmo que não tivesse compreendido, teria feito meia volta na mesma. Seguimos pelas traseiras do palácio presidencial e vimos que aquele simpático bairro de ruas sombreadas por acácias rubras e casas unifamiliares estava já em franca recuperação. Nitidamente, casas devolvidas a proprietários de regresso entretanto vendidas a terceiros ou não. Não fui investigar.

Mais adiante, o Museu da História Natural onde eu nunca tinha entrado. Estava na altura de o fazer: era agora ou nunca pois numa próxima visita a Moçambique muitas outras coisas haveria para conhecer ou rever. Fiquei com a sensação de que tudo se encontrava exactamente como nós tínhamos deixado aquelas colecçóes em exposição. Mas aqui apertou a curiosidade e perguntei quem fazia a manutenção de tudo aquilo. A resposta foi um pouco diferente daquela por que eu esperava: - Somos nós, os funcionários do Museu, depois de cá terem vindo os técnicos portugueses ensinar-nos como se deve proceder.

museo-de-historia-natural-maputo.jpg

No final da visita, era hora de almoçarmos e fui à procura do Piri-Piri. E lá estava ele a servir o frango assado com molho de piri-píri e batatas fritas. Mas fomos a outro restaurante – que eu não conhecia – ali próximo, na antiga António Enes tornejando para a pequena rua que dá acesso ao miradouro que foi dos Duques de Connaught, porque servia marisco como não se come noutras paragens. E como não somos nada gulosos (?) deixámos na manga a ida ao Grego da Costa do Sol para nos lambuzarmos com os caranguejos. Sim, fomos e encontrei lá o meu velho amigo Tó Zé Roxo Leão. Mas regressando ao primeiro dia, seguiu-se alugar um carro para o resto da visita a Maputo e arredores até que os caminhos nos levassem para longe.

Tratada a papelada, fomos um pouco até à piscina dar umas braçadas, descemos ao quarto e preparámo-nos para ir jantar ao Sheik onde tinha mandado reservar mesa.

O Sheik, cuja filial em Lisboa foi inaugurada no dia 25 de Abril de 1974, estava de cara lavada mas praticamente igual ao que era 32 anos antes quando eu lá almoçava e jantava quase todos os dias. Não me admirei por não ser reconhecido mas voltei a experimentar o bife tártaro que continuava a figurar na lista que era, no mínimo, muito parecida com a primitiva. E se a lista não era mesmo muito parecida, a minha imaginação fê-la assim parecer. Acompanhámos o jantar com um tinto Periquita que exteriormente era igual ao último que eu lá bebera, com uma diferença: este não sabia a azeite como o de 32 anos antes.

Bem jantados, cansados da passeata do dia e da noite anterior dormida em avião, regressámos a pé ao hotel numa breve caminhada mais tranquila do que se fosse hoje em Lisboa.

Boa noite, amanhã há mais.

Agosto de 2019

Henrique Salles da Fonseca

MOÇAMBIQUE REVISITADO – 8

Passados 32 anos, lá estava, ali mesmo à nossa frente, a famosa «árvore de Natal», um dos grande reflectores de radar que delimitavam o canal de navegação desde a entrada na baía de Lourenço Marques até ao cais comercial e de passageiros frente à baixa da cidade. E o dia, límpido, mostrou a outra margem da baía, a Inhaca, onde, há tantos anos eu fora de avião passar o dia com a Guida, a Teresa e o Nixa (António) Lacasta. Mais à esquerda e bem mais perto, a Xefina, aquela ilha presídio militar cuja guarda mais eficaz era constituída por vorazes tubarões. Ali mesmo à direita, no cimo da arriba pela qual o nosso hotel se deixava descer, o «Prédio Horizonte» em cujo 6º andar eu morei durante o meu período moçambicano já como civil (ver foto da crónica anterior, o prédio mais alto no canto superior direito da imagem).

Baía de Maputo.jpg

Dadas as explicações à Graça, desfeitas as malas e refrescada a cara, estava na hora de irmos dar um giro pela cidade. Mas havia que trocar Euros por Meticais.

No próprio hotel o fizemos e lembro-me perfeitamente da conversa que tivemos com o bancário para além da cotação que já esqueci, que estava afixada e não era discutível:

- Quanto acha que devemos levar para um dia na cidade, incluindo almoço, um táxi para baixo e um táxi de volta?

- Ah! Para aí uns 6 milhões devem ser suficientes mas na baixa há muitos bancos onde podem cambiar mais se for necessário.

Caramba! 6 milhões era um volume enorme em qualqueer bolso que chamaria muito a atenção de qualquer gatuno. Distribuídos os milhões todos por tudo quanto era esconderijo, lá nos fizemos à rua com a informação de que se tratava duma cidade relativamente segura mas, claro que seria conveniente a Senhora não exibir muitas jóias verdadeiras ou de imitação. Tudo bem, a Graça já tinha decidido deixar no quarto essas decorações pelo que o problema não se colocaria. E não se colocou. Nem esse problema nem qualquer outro: o dia correu lindamente e já conto um episódio ou outro.

Mas, antes disso, fiquei a pensar no valor do Metical. Como foi possível aquela moeda chegar tão baixo? Estamos a falar dum país com economistas ilustres colocados em lugares tão importantes como Governador do Banco Central, como Ministro das Finanças, como Vice-Primeiro Ministro e como Primeiro Ministro. Não estamos a tratar de uma moeda sujeita a vilanias típicas de déspotas ignorantes. Bem sei que tudo teve que ser feito a partir do zero quase absoluto pois o «ouro dos magaíças» voava rapidamente para Lisboa de cada vez que chegava «do John». Mas, entretanto, esses vôos já tinham acabado havia uns anos, o turismo retomara alguma importância, as exportações de caju nunca tinham cessado por completo, com o país já sob a presidência de Chissano e com o Acordo de Paz já em vigor entre a Frelimo e a Renamo, não tinha havido convulsões no seio do grupo de países doadores nem no FMI. Porquê, então, um câmbio tão baixo para não dizer vergonhoso?

Pelos vistos, o «rombo» provocado pela guerra civil fora maior do que eu imaginara, a emissão monetária poderá nessa época não ter sido tão conforme às regras que aprendemos nas escolas de economia, o desequilíbrio do comércio externo durante esse período tão conturbado não ajudou à «festa», etc. E como estávamos longe do gamanço das dívidas ocultas! Eu creio que naquela época, o país tenha sido gerido o melhor que as circunstâncias permitiam mas os gatunos já deviam andar a espreitar e a fazer das suas como se viu depois. Mas naquela época isso era futuro e gente séria não pensava nessas coisas.

Entretanto, talvez seja bom para todos nós que apareça quem saiba mais do tema e venha aqui explicá-lo.

Aguardemos…

Amanhã há mais.

Agosto de 2019

Henrique Salles da Fonseca

MOÇAMBIQUE REViSITADO – 7

A causa do desenvolvimento foi traída de várias formas. A cada um a escolha do seu traidor.

Traídos, havia que salvar os dedos deixando ir os anéis. Regressei a Lisboa.

Desembarcado, colaborei activamente na criação da democracia pluripartidária, criei estabilidade profissional, casei, tivemos duas filhas e quando elas já estavam encaminhadas, foi altura de rever Moçambique.

Foi numa conversa informal que, por mero acaso, disse ao Francisco Lucas Pires que ia rever Moçambique e logo ele me respondeu que uns tempos antes tinha ido a Angola (já com José Eduardo dos Santos) e a Moçambique (ainda com Samora Machel) onde vira duas realidades completamente diferentes. E descreveu-as de modo bem sintético: em Luanda, os prédios estavam todos degradados; em Maputo, depois da devolução dos prédios aos proprietários que regressavam, o parque imobiliário estava em vias de recuperação; em Luanda, com os preços definidos por decreto, não havia nada nas prateleiras das lojas; em Maputo, com a liberalização dos preços, uma couve podia ser cara ou mesmo muito cara mas estava na banca do mercado municipal para que alguém a comprasse.

Não tencionava ir a Angola e não fui mesmo. Voámos directamente de Lisboa a Maputo num vôo de 10 horas.

Descolando para Sul, sobrevoámos Setúbal, rumámos a Sevilha e daí a Argel onde já era noite. Vôo sem história, amanheceu quando entrávamos pelo norte de Moçambique e aterrámos com manhã aberta em Maputo. Esperava-nos o transfer do Hotel Polana. Estava tudo nos mesmos sítios em que eu tudo tinha deixado 32 anos antes mas com mais gente ao longo das avenidas e ruas por que íamos passando. Os nomes das ruas é que deviam ser diferentes mas como os de antigamente pouco ou quase nada me diziam, não me preocupei em conhecer a nova toponímia maputense (ou será maputana?). O motorista que conduzia a dúzia de «transferidos» foi-nos avisando de que os funcionários municipais da recolha dos lixos estavam em greve e que não nos admirássemos se víssemos a cidade suja. Alertado, olhei e não vi a cidade especialmente suja. Vi, sim, montes de lixo a encher e à volta dos contentores e a leitura que fiz foi a de que a população juntava ali o lixo, não o deixava a esmo. Nota positiva para a população; registo de que a greve era legal.

Chegados ao destino, foi com emoção que vi o «meu» Polana a reluzir, igual ao que era quando eu por ali andara. Entrámos e tudo reluzia como antigamente. Fizemos o check in para o Polana Mar e ao atravessarmos o jardim da piscina, eis-me a regressar a 32 anos antes. Só as pessoas eram diferentes, não reconheci ninguém. Por que seria…??? Até que, já a entrar no hall das escadas que desciam da piscina para o Polana Mar, ouvi chamar -Doutor! Doutor! Era um funcionário todo fardado de branco como por ali sempre se usara com quem trabalhava na piscina. – O Senhor, de volta, seja bem-vindo. Eu era o “mufana” das toalhas no antigamente. Correspondi ao simpático acolhimento da forma mais consentânea com o espanto de um reconhecimento tão longínquo e segui escada a baixo. Mas logo comentei com a Graça que não me lembrava nada dele. “Mufana” significa criança e o Polana nunca nos «meus» tempos usou trabalho infantil. Aquilo era discurso-chapa que aquele Fulano usava quando via um português a chegar. Era estratégia de simpatia para se fazer à gorja. Antes assim do que de modo menos simpático. Por acaso, não sou engenheiro e ele acertou no título mas podia ter deitado tudo a perder se tivesse errado.

POLANA MAR.jpg

Chegados ao quarto, aquela vista deslumbrante sobre a baía a que os «bifes» chamavam Delagoa Bay.

E por aqui me fico hoje a ver a vista… amanhã há mais.

Agosto de 2019

Henrique Salles da Fonseca

MOÇAMBIQUE REVISITADO – 6

Lourenço Marques.png

 

No Serviço a que Samora Machel pertencia no Hospital Universitário, houve um concurso para duas vagas de Auxiliar de 2ª classe de Analista de Laboratório de Anatomia Patológica. Concorreram três candidatos sendo um preto e dois brancos. A classificação foi a de um branco em 1º lugar, o preto em 2º e o outro branco em 3º. As vagas foram preenchidas pelos dois brancos. (Esta informação foi-me dada pelo Professor Fernando Torres que, entretanto, era o Catedrático de Anatomia Patológica da Universidade de Lourenço Marques)

O reaparecimento de Samora como Presidente da Frelimo causou péssimo mal-estar no Regime do Estado Novo e logo o Governo de Moçambique (não sei se por iniciativa própria ou se a mando de Lisboa) se apressou a decretar que doravante as repartições públicas tivessem obrigatoriamente uma quota mínima de 50% de funcionários não brancos. Os indianos agradeceram.

Não sei bem como classificar o caso precedente mas, à distância de mais de 50 anos, a adjectivação que mais me ocorre tem a ver com estupidez. E será que a promoção de Samora a Auxiliar de 2ª mudaria substancialmente o curso da História? Duvido mas não hesito em afirmar que os não racistas em Moçambique (brancos, porque os outros são todos muito racistas) ficaram escandalizados quando souberam desse concurso. Mas esse escândalo só fez com que se tornasse ainda mais urgente acelerar o crescimento para que este, por si só, fosse capaz de corrigir tanta injustiça que os ultra-conservadores praticavam.

Quando por meados de 1973 cheguei à Secretaria Provincial[i] dos Transportes e Comunicações na condição de Adjunto do Secretário Provincial, logo fui integrado na corrida do desenvolvimento e foram-me confiados quatro dossiers que me cumpria coordenar e empurrar para a frente, informando o Secretário Provincial do que fosse relevante e pedindo as orientações convenientes. Foram eles o da TVM-Televisão de Moçambique, o dos grandes estaleiros navais de Lourenço Marques, o dos Estaleiros Navais da Beira e o do relançamento do Porto de Quelimane. Como se compreende, não fui atacado pelo tédio.

O processo da televisão já estava relativamente adiantado quando me chegou às mãos pois até já se sabia qual o equipamento conveniente à ligação por satélite às redes europeias e sequente transmissão de sinal à África do Sul quando a televisão fosse lançada nesse país. Faltava lançar os concursos internacionais para os fornecimentos desses equipamentos. Colocada a questão a Lisboa, foi tudo chumbado porque a RTP tinha equipamentos de que se queria livrar (obsoletos, claro) e, portanto, nós que nos contentássemos com eles. Perante o que ficámos numa de que nem queríamos acreditar no que nos estava a ser dito. Engolimos em seco e dedicámo-nos a outros assuntos. Aquele ficaria em «banho Maria», até que Lisboa repensasse o assunto. Não sei se Lisboa pensou em repensar algum pensamento porque, entretanto, foi ela própria que foi repensada pelo 25 de Abril de 1974.

No início de Março de 1974 vim a Lisboa em representação do Governo de Moçambique negociar com a Lisnave a construção de uns grandes estaleiros navais em Lourenço Marques que pudessem dar apoio aos superpetroleiros que então usavam a rota do Cabo pois o Canal de Suez continuava inoperacional. No regresso a Lourenço Marques, ao fazermos escala em Luanda, o então Comandante Chefe das Forças Armadas em Angola, General Luz Cunha, estava na base das escadas do avião para informar os ilustres a chegar (Cardeal D. Alexandre do Nascimento) ou em trânsito (um membro do Governo de Moçambique cuja identificação já não consigo fazer a esta distância no tempo) que tinha havido uma tentativa de golpe de Estado em Portugal. Referia-se ao 16 de Março, o golpe das Caldas. A Lisnave já não teve tempo para nos responder às questões que tinham ficado pendentes.

A transformação em empresa dos Serviços do Porto da Beira que eram (e são) os Estaleiros Navais da Beira ficou com o projecto de Estatutos aprovado pela minha hierarquia mas, entretanto, foi esta que mudou e eu já não estava em Moçambique quando os novos hierarcas tomaram conhecimento do assunto. Se é que tomaram.

O relançamento do Porto de Quelimane (início de dragagens mais importantes do que as rotineiras, se a memória não me falha) estava previsto para o segundo semestre de 1974.

Ora, se eu, simples membro de um gabinete «ministerial» tinha assuntos desta importância entre mãos, imagine-se o volume de projectos que todos os membros de todos os gabinetes teriam.

E o mais curioso é que a corrida do desenvolvimento não provocava cansaço. Pelo contrário, era entusiasmante.

Pena foi termos sido traídos pelas costas.

Agosto de 2019

Henrique Salles da Fonseca

 

[i] - Como se chamava por lá aos Ministérios

MOÇAMBIQUE REVISITADO – 5

- E os pretos? – perguntava o Leitor no final da crónica anterior. Ao que eu lhe perguntei sobre qual a cor desses pretos por que perguntava. E a conversa poderia ter ficado por ali se nos tivéssemos quedado pelo aparente absurdo.

- A cor dos pretos? Mas que disparate! Pretos são pretos, não têm cores.

- Pois eu acho que tanto os pretos como os brancos, os pardos e os amarelos têm cores diferentes mesmo dentro de cada raça. Um preto doutorado por uma Universidade tem uma cor diferente de um preto analfabeto mas tem a mesma cor que um branco ou um amarelo doutorados por essa ou outras Universidades.

- Mas as peles de cada um são diferentes.

- Sim, claro, mas essa é só uma questão de melanina. A pele assumir tons diferentes conforme as condições ambientais em que a pessoa se integra.

- Mas cada raça tem as suas próprias características.

- Sim, essas características são o resultado de adaptações ambientais mas o que distingue as pessoas é o nível cultural. E por esta realidade não ter sido entendida com maior generalidade e há mais tempo é que muita injustiça foi cometida e muitos sarilhos foram tecidos.

- Os pretos não são capazes de dizer duas coisas certas.

- Se lhes ensinarmos a nossa língua e os educarmos como educamos os brancos ou os indianos, eles dizem o mesmo que nós. Mais: até são capazes de dizer tudo com perspectivas diferentes porque vêm duma cultura diferente e essa diferença pode ser complementar das nossas ideias. Não necessariamente conflituantes. Esses pretos a que o Leitor se refere têm sobretudo dificuldade de expressão numa língua que nós entendemos. E por que é que nós nunca nos demos ao trabalho de aprender as línguas deles?

- Eles não percebem nada do que lhes digo.

- E ensinou-lhes a nossa língua? Ponha-se na posição inversa de serem eles a dizerem-lhe, a si, qualquer coisa na língua deles. Quem é que passava por estúpido? Portanto, não estamos a discutir inteligências mas apenas níveis culturais. E são esses níveis de cultura que definem as cores. Nos nossos almoços de economistas da região de Lourenço Marques eramos todos da mesmo cor mas pertencíamos a várias etnias ou, se quiser, a várias raças. Mas, é claro, pertencíamos todos à mesma espécie, a humana.

* * *

Em Moçambique, como em todo o espaço português, o acesso ao ensino era condicionado pelos célebres «exames de admissão» em que cada nível se dava ao luxo de desconfiar da qualidade do nível precedente. Nem sequer lhe chamo política elitista, limito-me a chamar-lhe absurda. Apesar disso, os estabelecimentos de ensino estavam cheios. Mas se não fossem as barreiras absurdas, talvez o dobro das escolas também estivesse cheio. Quem sabe? E neste particular, a realidade moçambicana não era diferente da metropolitana pois o nível de escolaridade não era o forte do Estado Novo. Se ao 25 de Abril de 1974, o analfabetismo adulto em Portugal era de 25%, não imagino o que seria em Moçambique. Felizmente, não encontrei a informação. A única coisa que posso dizer é por palpite e avanço com a ideia de que nos Liceus de Lourenço Marques havia mais alunos brancos do que pretos mas que nas Escolas Técnicas havia mais pretos do que brancos. Mas isto é mero palpite e peço a quem me lê e saiba melhor que me corrija e nos dê uma ideia mais correcta.

Escolas Técnicas? Sim, em tudo semelhantes às que havia na Metrópole. Por exemplo, Samora Machel cursou química numa delas e foi admitido nos Quadros de Pessoal do Hospital Miguel Bombarda, o hospital central e universitário de Lourenço Marques onde era Auxiliar (de 3ª classe) de Analista no Laboratório de Análises de Anatomia Patológica. Vergonhosamente preterido na promoção a 2ª classe, no dia seguinte a essa ilegalidade já não compareceu no Serviço e a vez seguinte que dele se ouviu falar foi quando assumiu a Presidência da Frelimo.

Pois é, nem tudo foram rosas.

(continua)

Agosto de 2019

Henrique Salles da Fonseca

MOÇAMBIQUE REVISITADO - 4

 

Muito antes de alguma vez me passar pela cabeça que um dia conheceria Moçambique, já sabia que em Lourenço Marques quase ninguém ia à praia por causa do matope (lodo) e porque, quando este acabava, começava o perigo do tubarão. A solução eram as piscinas. Excepção às soluções familiares, a norma era a das colectivas nos muitos clubes que foram sendo constituídos ao longo dos tempos. Assim, rapidamente, lembro-me dos maiores como, por exemplo, o «Clube Ferroviário», o dos «Velhos Colonos», do «Clube Naval», do «Grémio», do dos «Antigos Estudantes de Coimbra», do «Clube Militar». E de mais não me lembro. Submisso, aceito puxões de orelhas por algum esquecimento imperdoável. Numa dimensão muito mais modesta, o «meu» «Centro Hípico de Lourenço Marques» que então não tinha piscina (o actual «Centro Hípico de Maputo» tem piscina) mas sim picadeiro coberto. Claro está que a génese destes Clubes era a da estruturação da sociedade civil, não a da prática da natação em que as piscinas fossem parte essencial. As piscinas foram acrescentos que acabaram por ser motivo de agregação social e, desse modo, ajudaram à estruturação da sociedade civil. O mesmo se diga de outras actividades clubísticas tais como o hóquei em patins cuja equipa do Ferroviário chegou a ser campeã mundial da modalidade.

Polana.JPG

Quem não se integrasse num Clube, tinha sempre a «vala comum» que era a esplanada do Polana, essa passerelle du tout Paris. No que me disse respeito, o Clube Militar e o Centro Hípico foram muito importantes para o meu enquadramento social à chegada a Lourenço Marques.

Mas, não nos enganemos, a «vida de clube» também lá mais não era do que uma diletância. A vida séria era feita nas diversas actividades profissionais a que já me referi em crónica anterior: função publica em todas as suas vertentes desde o professorado à medicina passando pela justiça, etc., profissões liberais de que destaco a advocacia e a arquitectura, actividades empresariais públicas e privadas e, claro está, todas as profissões ligadas à actividade bancária. O turismo crescia como cogumelos, a construção civil não tinha mãos a medir, as obras públicas estendiam-se por todo o território e as sedes em Lourenço Marques fervilhavam de actividade. Naqueles tempos, o crescimento era real e o mercado de trabalho estava sôfrego. Eu sabia que, mal concluísse o serviço militar, encontraria posto de trabalho. E assim foi. A vida sorria…

A política económica era quase mercantilista: - Queres isto ou aquilo? Fabrica-o porque não terás licença de importação. E, nas aflições, não seria «gato por lebre» mas talvez «tubarão por bacalhau».

Nós, economistas residentes em Lourenço Marques e redondezas, reuníamo-nos num almoço na primeira quarta feira de cada mês e essa mais uma forma de organização da sociedade civil. Não se tratava de criar uma Ordem profissional pois isso implicaria meter o Governo Geral e o de Lisboa no assunto, para além de que era mais fácil o liberalismo do que o corporativismo. E como seria encarada tal hipótese se nem na Metrópole existia uma Ordem dos Economistas? Não seria pôr o carro moçambicano à frente dos bois metropolitanos? Estávamos muito bem assim, não quisessem alguns (poucos) estabelecer regras muito rígidas.

Foi nestes almoços que conheci dois moçambicanos que já então davam nas vistas pela ilustração: Eneias Dias Comiche que veio a ser Vice-Primeiro Ministro num Governo de Joaquim Chissano; Mário da Graça Machungo que veio a ser Primeiro Ministro também nos tempos de Chissano. Exacto, Caro Leitor, ninguém queria saber se cada um de nós era branco, preto ou às riscas. Eramos economistas e esse era o critério único de admissão no grupo. Em cada almoço havia um orador que dizia umas coisas a que alguns prestavam atenção mas o mais importante eram as conversas informais entre nós, os que estávamos na «plateia». Desde professores universitários até principiantes na profissão, havia de tudo passando por gente muito conhecedora da realidade moçambicana.

Creio que os advogados tinham também alguns encontros deste género e que os médicos se reuniam mais para temas científicos. Quem me ler e souber melhor, faça o favor de nos ensinar.

Pois é isso mesmo: uma sociedade aberta, liberal e em grande progresso.

- E os pretos? – perguntará o Leitor.

- De que côr, Caro Leitor? – pergunto eu.

Amanhã há mais.

Julho de 2019

Henrique Salles da Fonseca

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