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A bem da Nação

DAMÁSIO NA RTP

Chegou-me há pouco um vídeo de uma entrevista concedida pelo Professor António Damásio à RTP na qual o ilustre neurologista é conduzido pelo entrevistador a afirmar que «as redes sociais são um perigo para a democracia».

Mas é claro que uma pessoa do gabarito do Professor Damásio, não se deixa influenciar por opiniões alheias e só afirma o que efectivamente quer afirmar.

Ou seja, o Professor Damásio acha que as redes sociais são um perigo para a democracia. E justifica essa opinião pelo facto de aparecerem muitas opiniões «rápidas, não ponderadas», que facilmente entram em conflito com outras opiniões igualmente imponderadas criando climas de crispação que não existiriam caso as opiniões fossem menos espontâneas, ou seja, mais pensadas.

Confesso que não esperava este tipo de argumentação. Esta, sim, parece-me excessivamente rápida e pouco sólida para quem nos habituou a uma assíntota na escala racional muito mais alta do que a do comum dos mortais. Esperava eu que o Professor nos dissesse algo do género de que o excesso de intensidade e de duração da actividade cerebral pudesse pôr em causa a saúde dos contendores ou «coisa» equivalente do seu foro científico; não esperava que se introduzisse pelo campo da técnica da retórica, matéria acessível a espíritos muito menos dotados do que o do ilustre entrevistado.

À falta, pois, de argumentos cientificamente oportunos nesta circunstância, permito-me discordar do Professor Damásio uma vez que me sinto absolutamente tranquilo para «discutir» com ele em matéria profana, acessível aos banais.

Então, eis a antítese:

- As redes sociais não põem a democracia em causa e são mesmo um novo expoente da democracia.

Dando voz directa ao cidadão comum na praça pública, as redes sociais permitem a ultrapassagem dos políticos profissionais, dos «opinion makers» mais ou menos encartados, à comunicação social como ela se habituou a existir controlando «rebanhos dóceis» de leitores, ouvintes e telespectadores.

De facto, em momentos de stress, foram já várias as vezes em que nas redes sociais se geraram movimentos não controlados por centrais sindicais, Partidos políticos, jornais, rádios ou televisões e em momentos menos stressantes, opiniões houve (e continua a haver) que vingaram e fizeram com que o establishment se sentisse ultrapassado.

Identificada a «corporação estabelecida» ou a «established corporatrion», que assim se sente em «maus lençóis», passemos à questão do populismo.

Aí vai então o establishment a correr a bradar que é o populismo a ganhar força. Então, a questão é a de saber se o que eles, os do establishment, fazem não é populismo. É claro que sim! Os políticos para ganharem votos, os jornalistas para ganharem audiências e, daí, publicidade, os opinion makers para ganharem avenças dos órgãos de comunicação ou lobbies a quem facturam, ou para ganharem ego se forem apenas vaidosos, todos querem ser ouvidos pelo maior número possível de leitores, ouvintes, especrtadores… E isso, o que é a não ser populismo? Falam apenas para ilustres membros de Academias? Falam apenas para os «camarotes» ou falam sobretudo para os «galinheiros»?

Dir-me-ão que os do establishment não querem derrubar a democracia e que os populistas sim, pretendem usufruir da liberdade que a democracia proporciona para a derrubarem. Ao que respondo que isso não passa duma falácia ou de um sofisma pois qualquer sistema democrático tem a obrigação de possuir um quadro legal que lhe permita defender-se desse tipo de ataques não fazendo sentido adjectivar de populista todo aquele que se expressa fora dos canais mais tradicionais, nomeadamente nas redes sociais.

Portanto, as redes sociais, por si próprias, não põem em causa a democracia e, pelo contrário, dando voz directa ao cidadão comum na «praça pública», são um expoente da democracia directa, a que não carece de intermediários. E esse é o problema de quem está habituado a dirigir a opinião pública pois sente que o tapete lhe foge de baixo dos pés.

E mais: ainda havemos um dia destes de entrar na discussão mais melindrosa que é a da representação parlamentar e estatuto do Deputado.

Para concluir, uma pergunta (com resposta) e um pedido:

PERGUNTA – Lá em casa, a faca serve para barrar o pão de manteiga ou para assassinar o vizinho? (assim é o uso que se faz das redes sociais)

PEDIDO – Senhor Professor António Damásio, apareça para nos ensinar nos temas em que é exímio mas deixe a trivialidade para nós, os que não chegamos à assintota de Vossa Excelência.

Julho de 2019

Henrique da Salles Fonseca

A ÉTICA DE UNS…

…e o hedonismo de outros

 

Eu tenho a sorte de ser neto de Tomás da Fonseca (1877 - 1968), esse vulto da cultura portuguesa do séc. XX, que se dizia ateu.

E porquê?

Porque «a ultrapassagem do metafísico pelo positivo só se sustentou enquanto este último viveu da herança dos estádios anteriores (teológico e metafísico). Porém, o sucessivo afastamento e descuido em relação àquelas fontes deixou-o animicamente esvaído e eticamente desamparado».

O primeiro parágrafo deste raciocínio de D. Manuel Clemente a págs. 40 e seg. do seu livro “PORQUÊ E PARA QUÊ – Pensar com esperança o Portugal de hoje” assenta como uma luva ao meu avô e o segundo assenta como uma palmatória à geração pós-moderna actual.

Tomás da Fonseca dir-se-ia ateu mas viveu sempre numa irrepreensível ética cristã de solidariedade e benevolência, na autêntica compaixão para com o próximo, de honradez e de trabalho. Dominava com destreza a Teologia mas nunca se deu bem com o dogma. Contudo, a luta que travou foi contra o domínio clerical da sociedade portuguesa em que nasceu e em que se fez homem.

No início do século XX, a sociedade rural do interior de Portugal vivia numa quase hierocracia e foi contra esse domínio que ele fez a batalha da sua vida.

Perante perfil absolutamente ético, creio necessário que, para remissão do pós-modernismo que nos vem sendo imposto e tem conduzido a juventude ao mais refinado hedonismo, haja «uma síntese a empreender para nos retomarmos como humanidade e com o que aprendemos entretanto» (op. cit).

A minha sorte é a de ter testemunhado o exemplo do meu avô – e o do meu pai – por contraste com os que julgam que tudo lhes é devido sem esforço e que nas crises reais ou imaginadas se sentem «à rasca». É que a crise pode ser real, exógena ao indivíduo, mas a pior de todas é a endógena, a que corresponde à falta do sentido ético, a do «quero tudo», a que sobrepõe o ter ao ser.

No transe, os profissionais da demagogia também deviam fazer uma pausa, caso ainda possuam parâmetros que lhes permitam distinguir o bem e o mal, tenham algum conceito de bem-comum e tenham a coragem de afirmar que a liberdade de cada um acaba onde começa a do vizinho. E mais: a liberdade democrática tanto reconhece direitos como exige o cumprimento de deveres. Mas isso já deve ser pedir muito a quem quer ganhar votos…

Henrique Salles da Fonseca

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