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A bem da Nação

POR ESSA PICADA ALÉM… - 10

Eis-nos no «Acampamento Central» do Parque Nacional da Gorongosa, centro de Moçambique.

Por louvável iniciativa do nosso «desempregado», entrámos na posse de um mapa do Parque com as estradas recomendadas para observação das várias espécies; o Miguel e eu deambulámos por ali a esmo mais a observar rodesianas do que postais ilustrados com outras espécies. Naqueles tempos, as rodesianas eram inglesas tropicais. Naqueles tempos também, a Rodésia estava unilateralmente independente pois a Velha queria entrega-la aos movimentos controlados por Moscovo tais como o ZANU e o ZAPU. Aliás, nem sei mesmo se naqueles tempos esses movimentos não eram só um e o spin off do ZANU não terá sido depois. Talvez. Mas agora não vou estudar isso porque está ali um macaco a espreitar para dentro do carro.

Gorongosa-zebras.jpg

Naquele dia, àquela hora matinal, nós eramos os únicos turistas portugueses denotando que os nossos já sabiam o suficiente de macacadas. Ou então, que os portugueses não gostavam de se levantar tão cedo. Portanto, ou por falta de interesse (pecha grave) ou por mândria (pecha gravíssima), nós eramos a excepção que confirmava a regra de que a Gorongosa era para o proveito de estrangeiros.

[Num saltinho ao futuro, sabemos agora, 47 anos depois, que assim continua a ser: o turismo de portugueses na Gorongosa é diminuto a provar que continuamos a ter de macacadas o suficiente]

Com o Tó de mapa na mão, lá fomos ver a bicharada… e eu fui-me lembrando de que nós, portugueses, estávamos a ter uma importância capital na salvaguarda da «fronteira» do Ocidente naquela região de África. Enquanto nós por ali mandássemos, Moscovo não meteria o dente. Por nós e pela ajuda que estávamos a dar aos rodesianos. E lembrei-me do tabaco rodesiano que chegava aos mercados internacionais como se fosse português assim driblando o boicote que a ONU impusera a todo o comércio internacional da Rodésia. E lembrei-me do oleoduto Beira-Umtali que deveria passar não muito longe daquele sítio em que nos encontrávamos naquele preciso momento. E lembrei-me da «teoria» que dizia que se a África do Norte era árabe, por que é que a África do Sul não haveria de ser branca? Que os brancos estavam naquela região há mais tempo que os pretos… e outras deturpações da História que ignoravam o Império do Monomotapa, as ruínas do Zimbabwe, o Império Zulu, o próprio Shaka dito e tantas outras realidades que naquele momento não me ocorreram… O que, pelo nosso lado, estava em causa não era saber se os regimes futuros eram brancos, pretos ou rosés, o que interessava era que fossem ocidentalizados, não comunas. E lastimei para com os meus botões que nós, portugueses, tivéssemos sido tão desleixados com o desenvolvimento integrado de Moçambique em que só naquela altura estávamos a construir uma grande estrada longitudinal pois até então só havia comunicações transversais por imposição inglesa relativamente ao Transvaal (caminho de ferro de Lourenço Marques) e relativamente à Rodésia (comboios da Beira). E o prolongamento da linha férrea de Nacala até Vila Cabral (Lixinga, hoje), tinha sido muito recente. Uma vergonha tão vergonhosa como termos chegado ao 5 de Outubro de 1910 com 90% de analfabetos adultos. Agora, era uma corrida contra o tempo, a ver se conseguíamos em meia dúzia de anos fazer o que os nossos antepassados não tinham feito em séculos. E seria que os «ultras» de Américo Tomás deixariam esta corrida pelo desenvolvimento ser feita sustentadamente? Como é que eu, economista, poderia ajudar neste processo? Para já, cumprindo na íntegra a comissão de serviço militar e depois logo se haveria de ver… mas não se me daria qualquer cuidado voltar para Moçambique depois de passar à disponibilidade e trabalhar durante meia dúzia de anos a ajudar a puxar este processo de desenvolvimento para a frente. E o tempo perdido com o ensino superior. Por que é que a Beira e mesmo Nampula não tinham polos da Universidade de Lourenço Marques? Caramba, eram tantos os temas de desenvolvimento que me ocorriam que até já nem me lembrava da macacada. Mas, afinal, só me lembrava de temas relacionados com o investimento público. E os privados, por que não chamá-los para a corrida?

Até que dei por mim a passar pela terceira vez frente à «casa dos leões» e a constatar que eles deviam ter ido encomendar o jantar algures, lá para as bandas em que pastam as gazelas. E foi nesse caminho que vimos um hipopótamo em seco a trotar na savana ao nosso lado à mesma velocidade que o «herói». Felizmente, ao desviar a rota, fê-lo para o lado de fora e não contra nós. Um pouco à frente, já em terreno arborizado, um elefante (viemos a saber que se tratava da matriarca daquela manada), a bloquear-nos o caminho. Parei de imediato e engatei a marcha-a-trás mas deixei-me ficar o mais silencioso que era possível. Foi então que o resto da manada começou a cruzar a estrada com as outras fêmeas a protegerem a criançada. A matriarca só baixou a sua guarda quando a última «senhora» passou. Deixei que todas desaparecessem no mato e só então avancei. Sem dramas, a história acaba aqui. E quanto aos leões, nem vê-los.

Estava na hora de sairmos do Parque. Dirigimo-nos ao portão da saída (não me lembro se era o mesmo da entrada) e fomos até ao Inchope, a terra mais próxima e que era donde partia a estrada em vias de construção até Vila Franca do Save, 311 quilómetros lá para baixo.

Mas isso fica para amanhã.

Julho de 2019

Henrique Salles da Fonseca

POR ESSA PICADA ALÉM… - 9

Quer o Leitor acreditar no que tenho para lhe dizer? Se sim, tudo bem, continue a ler; se não, passe para a linha que se segue aos asteriscos (* * *). Então, se aqui está, fique sabendo que há 47 anos não havia telemóveis nem sequer máquinas fotográficas de bolso como hoje as temos para já não falar na qualidade tão razoável das fotos feitas com os próprios telemóveis. Pois é, naqueles idos nada disso existia e a frequência fotográfica era diminuta. Havia uns quantos carolas que eram apontados a dedo como os «maluquinhos das fotografias» mas a generalidade das pessoas não tinha sequer uma máquina fotográfica. Eu, por exemplo, não tinha uma máquina fotográfica mas tinha, isso sim, uma câmara de filmar. Só que tudo dava tanto trabalho que era mais fácil registar na memória e contar aos netos de seguida. Mas um dos meus companheiros devia ter uma máquina fotográfica pois não haveria outro modo de aparecer uma foto do nosso «herói» na floresta de Inhaminga com a porta traseira esquerda aberta à espera que Mrs. Livingston entrasse ou saísse. E onde será que guardei esse exemplar único? Na memória. E só. Portanto, venho aqui apresentar-me como «documento coevo» desta viagem e pedir perdão pelos lapsos de memória. Ao mesmo tempo, garanto que não farei como Fernão Lopes quando não se lembrava de coisas que se tivessem passado 47 anos antes de quando escrevia: ele, de certeza, inventava; eu floreio, admito, mas não invento.

Mas se aparecer por aí uma ou outra foto, Companheiros não hesitem em mandar-me publicá-las. Mas para não incorrer no problema de Fernão Lopes, o melhor é porem legendas.

Seguem-se os asteriscos que separam os crédulos dos incrédulos.

* * *

- Então, Miguel, a que horas é o despertar amanhã?

- Ora, se da Beira à Gorongosa são cerca de 150 quilómetros (viemos a saber que eram 136, não errou quase nada) e lá queremos estar à abertura do portão que é as 6, convém sairmos às 5 e levantarmo-nos às 4.

- Por mim, tudo bem. Que te parece, Tó? O Tó passava pelas brasas mas abriu um olho e disse que sim. Ainda hoje o Miguel e eu não temos a certeza sobre se o Tó sabia do que nós estávamos a falar. Mas a palavra estava dada e ele, sabendo ou não do que se tratava, honrou-a. É assim a vida de um Cavalheiro.

- Mas, oh Miguel! Não achas perigoso corrermos o risco de ir acordar a bicharada entregue aos sonos profundos da floresta? E se eles têm mau acordar? É que assim como há gente com mau feitio antes de tomar o pequeno-almoço, o mesmo pode acontecer com os leões e eles acharem que nós lhes servimos de pequeno-almoço. Isto era eu a tentar ganhar mais algum tempo de sono… mas não tive sorte nenhuma. Parece que ao pequeno-almoço os leões não são carnívoros… As coisas que estamos sempre a aprender. É como as avestruzes mamarem até ao ano de idade para não deixarem a mãe voltar a procriar…

Como o Miguel queria, estivemos uns bons minutos à espera que o portão da Gorongosa abrisse. E foi nesta espera que fizemos o ponto laboral da situação. À falta de guerra, o Tó foi o único de nós os três no completo desemprego; o Miguel trabalhou bem como «mestre cronógrafo» que é como quem diz «o despertador» e eu não fiz outra coisa se não trabalhar para eles, agarrado ao volante.

- Nós estamos de férias – disse um deles – e tu estás em missão de soberania. Trabalha para salvares a Pátria e não refiles porque, senão, dizemos ao Kaulza e vais preso.  

E com esta lógica assassina, resignei-me e continuei agarrado ao volante como o homem do leme do Mostrengo que está no fim do mundo e que com três urros se pôs a chorar.

- A chorar? Que disparate! A chiar!!!

- E o homem do leme disse o quê?

- Disse para pores o carro a trabalhar que o guarda já abriu o portão.

Ultrapassado o ataque de non sense e ultrapassado o portão, entrámos na Gorongosa, o reino da bicharada.

Seguindo as indicações que ladeavam a estrada, dirigimo-nos ao «Acampamento Central» para, a partir daí, decidirmos como seria a visita. Mas uma decisão foi logo tomada: não dormiríamos na Gorongosa que devia ser sono pesado em Escudos; passaríamos o dia a vaguear pelo Parque e à hora do fecho iríamos a Gondola ou a Vila Machado procurar poiso para a noite.

(continua no próximo número que é já daqui a pouco, depois de breve intervalo pois a Gorongosa merece um número só para ela)

Julho de 2019

Henrique Salles da Fonseca

POR ESSA PICADA ALÉM… - 8

 

Desembatelonámos (desembarcámos de batelão) com a maior normalidade em Chupanga que também era conhecida por Lacerdónia. Algo me diz que por ali «reinou» algum Lacerda mas não me ative nessa questão. O Senhor Lacerda não entra na História minha conhecida e, pelo contrário, há outra particularidade que essa, sim, me saltou para a região dos neurónios logo que a tabuleta com o nome da localidade se pôs à frente dos meus olhos. A bem da verdade, a ideia não me saltou de imediato, tive que puxar pela cabeça. Aquele nome «Chupanga» escrito de outro modo, dizia-me qualquer coisa. Mas, o quê? Imaginei «Shupanga», pensei e BINGO! É ali que repousam os restos mortais de Mary Livingston vítima que foi do paludismo. E lembro-me que, apesar do seu anglicanismo, foi acolhida e tratada na missão jesuíta que ali havia. Só não sei se o episódio do «Doctor Livingston, I presume» foi antes ou depois do passamento desta Senhora.

Chupanga, túmulo de Mary Livingston.jpg

Cemitério de Chupanga, túmulo de Mary Livingston

Perante esta recordação e tendo em vista evitar qualquer tipo de conflito de interesses, sugeri em silencio ao nosso benigno Xicuembo que embatelonasse de volta à sua Zambézia já que nós, agora em Sofala, nos havíamos de arranjar. Mrs Livingston, are you available to protect us? Feito o convite em silêncio, não esperei por resposta em voz alta. E se ela tivesse respondido audivelmente, eu havia de ter apanhado um cagaço tal que por certo, para mim, a viagem acabaria ali mesmo. Está na altura de perguntar ao Miguel se notou alguma alteração no lugar ao lado dele. Algum «fru fru» das vestimentas femininas do séc. XIX, algum sopro de camomila ou mensagem sibilina com «rrr» rolados… De qualquer modo, com Mrs ou sem Mrs, entrámos pela floresta de Inhaminga em total serenidade e até fizemos uma paragem da qual existe (não sei em que arquivo) a única foto feita em toda a viagem. Trata-se duma imagem do nosso «herói» a três quartos de trás com a porta esquerda traseira aberta. Mas se a nossa companhia discreta entrava ou saía, a imagem não a captou.

Chega de brincadeiras, deixemos Mrs Livingston na paz que bem merece depois de tanto ter penado por amor a Deus em paragens menos hospitaleiras para a sua alva tez que as da Velha Albion.

O nosso destino nesse dia era a Beira, dali a menos de 300 quilómetros. Se a estrada fosse boa, a meio da tarde estaríamos a fazer o check in no hotel. Qual? Varreu-se-me. Peço ajuda aos meus companheiros de viagem. Sei que não foi o icónico «Grande Hotel da Beira».

Poucas mas boas, as recordações que tenho deste troço. A primeira impressão positiva, a floresta que se não foi ali posta pela mão do homem, de tão ordenada, imita muito bem. Esquecido, andei agora à procura da espécie florestal ali predominante mas não encontrei. Venha daí - do lado da leitura - quem saiba e diga. Mas foram muitos quilómetros dentro de um túnel arbóreo que inspirava muita serenidade e harmonia com o mundo. E assim percorremos uma grande distância em paralelo com a fronteira do Parque da Gorongosa. E a bicharada, ordeira, não passou para o lado de cá nem se pôs à nossa frente. Isso ficaria para outra ocasião.

Outra boa impressão, a qualidade da estrada que parecia acabada de arranjar para nós passarmos. O tal trânsito de camiões que o Miguel temia deve ter sido desviado por rota alternativa. Por ali, não havia nada de especial.

Terceira recordação positiva, de cariz estético, a paragem de 10 ou 15 minutos em casa do Eng. Jorge Jardim para o Miguel cumprimentar as famosas manas. O Tó e eu não fomos convidados a entrar mas o que nós queríamos mesmo era chegar ao hotel, tomar banho e pormo-nos de patas ao ar. Até porque já sabíamos por experiência dos dias anteriores, que o homem dos horários haveria de querer que no dia seguinte nos levantássemos pouco depois de nos termos deitado. Mas há aqui uma anotação que eu não quero deixar passar e tem ela a ver com a facilidade com que um carro desconhecido com três Fulanos desconhecidos se aproximou do largo fronteiro da casa da família Jardim. Entrámos por ali dentro como se fossemos os donos de Moçambique inteiro ou como se aquilo fosse via pública. E o que é que isto quer dizer? Pois eu acho que quer dizer que a família Jardim se sentia segura, que ninguém lhes queria fazer mal, que se sentiam protegidos pelas populações no meio de que viviam. E esta é a grande bofetada nos da propaganda contrária que apresentaram o Eng. Jorge Jardim como um isto, como um aquilo e um mais não sei quê. Eu nunca estive pessoalmente com o Eng. Jardim, pouco mais sei dele do que o que a comunicação social dele dizia mas a ideia que dele faço é a de alguém que teve a coragem de enfrentar Moscovo nos seus desígnios imperialistas sobre Moçambique. E isso os comunas e os esquerdalhos (libertinos de esquerda não enquadrados partidariamente) não perdoam. E veja-se como na região da Beira a FRELIMO não levanta a cabeça a não ser à custa de muita trapaça eleitoral.

Eu nunca fui apresentado às célebres manas mas estive no largo fronteiro da casa delas no Dondo numa época em que elas eram (e continuam a ser) um símbolo da independência feminina, as algozes da misoginia. Tomara às Kardashians chegarem-lhes aos calcanhares.

Posto o que, feitos os salamaleques que o Miguel tinha por estético-importantes (ou seria para obter algum «salvo conduto» que nos permitisse vogarmos por ali serenamente?), era hora de um duche, algum descanso e prepararmo-nos para o que se seguisse.

Cansados mas satisfeitos. Amanhã há mais.

Julho de 2019

Henrique Salles da Fonseca

POR ESSA PICADA ALÉM… - 7

QUELIMANE-Hotel Chuabo.png

Feito o check in no hotel e feitas as abluções típicas de um final de viagem por estradas com algum pó, eis-nos a caminho da sala de jantar, no último piso do hotel. E qual não foi o meu espanto quando vi que a dita sala de jantar estava apinhada e que, pelo sotaque, se tratava de americanos. Já não eram crianças nenhumas, lembro-me bem. Ao estilo de gente já reformada mas com saúde. Disse-me o sena que nos serviu que se tratava de um grupo de caçadores. Se aquela gente se pusesse toda aos tiros, duvido que restasse algum elefante ou búfalo que pudesse ir prevenir os sobrevivos das respectivas espécies de que o bicho homem ensandecera por completo. Não gostei de saber que a caça se organizava para grupos tão grandes e, passados estes 47 anos, temo que a mortandade não tenha cessado – só que, agora, clandestinamente e às mãos do comércio de marfim e da farmácia chinesa.

Com pensamentos algo plúmbeos devido ao tiroteio por diversão, limitei-me a olhar para fora enquanto jantávamos e tentei desviar as ideias para outros temas. E olhei para o «Rio dos Bons Sinais», ali mesmo por baixo do meu nariz. Foi Vasco da Gama que em 1498 assim chamou ao rio que então poderia estar (ou não) numa daquelas fases em que mais não é do que um braço do delta do «Zambeze». Quando a ligação ao grande rio se fecha (por assoreamento, creio), este rio menor junta-se ao «Lua-Lua» e formam o «Quá-Quá» mas o nome dado por Vasco da Gama mantém-se em qualquer situação. Não imaginava eu que dentro de cerca de 2 anos alguém me encarregaria de coordenar o projecto de redinamização do Porto de Quelimane. Missão essa nas vésperas do 25 de Abril de 1974, tudo ficou em «águas de bacalhau». Quem diria que bacalhau teve águas em Quelimane.

E, realmente, a actividade portuária estava reduzida em relação ao que eu dela esperava. Perguntado, o mesmo sena que nos servia informou que o rio estava cheio de matope (não disse assoreado, lembro-me) e que só barcos pequenos ali chegavam. - E vão até onde entregar a mercadoria aos barcos grandes? Não sabia, fez um gesto largo com a mão em direcção ao mar… Fiquei sem saber como era escoado o algodão e o melaço do açúcar (ou seria ainda só a cana?) mas, na verdade, por ali não havia actividade fluvial correspondente à economia que víramos no interior. Que estradas nos esperariam dali até à Beira?

E aí, o nosso «expert» em geografia, o Miguel, falou:

- Temos que sair muito cedo para apanharmos o primeiro batelão que sai de Mopeia. Caso contrário, arriscamo-nos a ficar numa bicha (ainda não se dizia «fila») de camiões e só conseguirmos atravessar o Zambeze ao fim do dia.

- E a que é que chamas «muito cedo»?

- Temos que nos levantar às 3 da manhã para começarmos a andar pelas 4 e chegarmos a Mopeia não muito depois das 6, se não apanharmos muito trânsito de camiões à nossa frente.

Lembro-me perfeitamente das expressões «protocolares» que o Tó e eu proferimos. Fique o Leitor tranquilo pois não as repetirei aqui.

Do mal, o menos: o nosso «herói» tinha comido e bebido à chegada a Quelimane para não ir para a cama com fome; na madrugada seguinte já não demoraríamos a satisfazer-lhe as precisões.

Às 4 da manhã rodei a chave da ignição e o «herói» despertou com a sua habitual boa disposição. Dos cerca de 200 quilómetros que nos separavam do destino, o cais fluvial de Mopeia, fizemos quase metade em noite de breu mas a luz começou pelas 5 e tal da manhã e às 6 e picos estávamos na pequena fila de candidatos à primeira viagem diária do batelão. À nossa frente, dois ou três carros ligeiros e apenas um camião. Sobrava espaço pois o batelão era um «cacilheiro» dos grandes. Chamavam-lhe batelão certamente que por tradição e porque entrávamos por uma ponta e saíamos pela outra.

 

E com esta «mania» de acordar antes das galinhas, fiquei sem ver o que nos rodeava em grande parte do percurso. Mas presumo que não fosse muito diferente do que vi, luz alta: estrada construída em aterro ao estilo «dique», terrenos circundantes que dariam para arrozais se as enchentes não fossem tão fortes, gado em pastoreio extensivo, nada mais que condutor atilado conseguisse ver sem correr o risco de pôr o carro a pique do lado de fora da estrada.

Entrados no batelão, foi o mesmo preenchido com mais carga ligeira e só o tal único camião que nos antecedia.

- Então, Miguel, onde está a tal bicha de camiões?

- Não sei, mas antes assim do que com mais outros que desequilibrassem a carga do batelão.

E a travessia fez-se com todo o equilíbrio, sem sustos nem nada de especial para contar. O Zambeze estava benigno, o Xicuembo não tinha ficado no cais de Mopeia, viera connosco até à margem sul, a Chupanga.

A ver…

Amanhã há mais.

Julho de 2019

Henrique Salles da Fonseca

POR ESSA PICADA ALÉM… - 6

 

Saídos do Molocué, o nosso destino era o Hotel do Chuabo na avenida marginal de Quelimane. Cerca de 300 quilómetros, nada que assustasse carro valente e gente pertinaz. Tudo dependeria da qualidade das estradas já que sabíamos de antemão que alcatrão seria coisa que não encontraríamos. Mas como sabíamos também que uma parte significativa do algodão chegava ao porto de Quelimane por caminho de ferro, admitimos duas hipóteses: ou as estradas eram irrelevantes para a economia do algodão e estariam ao abandono ou o comboio não ia àquela zona da Zambézia e as estradas estariam esburacadas por causa do excesso de camiões. Ah! Gente incrédula nas virtudes dos governantes! As estradas estavam perfeitamente utilizáveis e fizemos um passeio transzambeziano de cariz turístico, nada a ver com stressantes guias de marcha militares.

Lembro-me – apesar do empilhamento dos calendários já gastos – que parámos numa cantina para o almoço em vez de comermos em andamento até porque eu sempre gostei de ter o nosso «herói» bem atestado e ali havia uma bomba de gasolina. Lembro-me que o «herói» almoçou gasolina mas do nosso almoço já não me lembro. O mais certo é ter sido o famoso «frango à cafreal» mas os meus companheiros de viagem que confirmem ou corrijam. O Xicuembo não é aqui chamado a depor, ele não almoçou.

Pelo que eu não esperava era pela continuação dos cajueiros. Não tenho dúvidas de que aquela gente não dependia apenas do trabalho nas plantações de algodão, tinha também de seu. E essa condição de proprietário dá uma dignidade à pessoa que se topa à distância. E lá pensei eu novamente que no futuro – fosse ele quando fosse, tinha então acabado a Guerra do Vietname e tudo indicava que os próximos alvos mundiais a abater seríamos nós – os comunistas teriam problemas por ali. E, passada a tal dezena de anos que já referi à saída de Nampula, repetiram-se aqui os ditos problemas com a RENAMO a «passar a perna» à FRELIMO.

E à medida que fomos descendo, fui-me lembrando dos «prazos» e das concessões às companhias majestáticas que por ali tinham existido, lembrei-me dos jesuítas que ali fizeram guerra aos «donos» dessas majestades todas à semelhança do que o Padre António Vieira fizera no Nordeste brasileiro contra os «coronéis». E lembrei-me do Padre (Diogo?) Furtado de Mendonça, jesuíta ele também, que no séc. XVIII (?) fez um dicionário sena-português e fixou a gramática dessa língua local, lembrei-me da guerra que os ingleses do açúcar («Sena Sugar» e que tais) fizeram a essa política de dignificação das gentes locais conseguindo que a Companhia de Jesus fosse então expulsa de Moçambique. Mais me lembrei de que foram os franciscanos que, combinados com as populações, esconderam os jesuítas renitentes na saída até que, ameaçados de serem também eles expulsos, se renderam à evidência de que havia negócios diplomáticos mais poderosos do que os «cordelinhos» que eles conseguiam mexer. Um dos últimos jesuítas a ser posto no cais de embarque terá sido precisamente o P. Furtado de Mendonça que embarcou num navio francês com destino ao Egipto para daí passar a pé ao Mediterrâneo e daí a Lisboa. Mas ao largo da Somália o Padre caiu à cana com o paludismo que trazia, ninguém lhe conseguiu valer e morreu. Diz quem estudou o assunto (a própria Companhia de Jesus) que do diário de bordo desse navio consta que o mar estava encapelado, que a cerimónia de entrega do corpo defunto ao mar se fez na presença de inúmeros passageiros e que no momento em que o corpo entro nas águas, o mar se acalmou de modo inexplicável. Sim, de tudo isso me fui lembrando à medida que íamos descendo a Zambézia…

Passámos ao largo de Mocuba, de Nicoadala apenas vimos as placas indicativas de direcção nos entroncamentos com a nossa estrada e entrámos na região baixa, a dos palmares. Esta, uma zona de serenidade como quem por ali anda a ouvir os côcos a crescer. Não sei quando é a faina da apanha dos côcos mas, havendo-a, não era naquela época.

E assim foi que numa penada passámos da economia do algodão para a do açúcar e finalmente para a da copra; as duas primeiras com os povos a fazerem pé de meia com o caju e na terceira com as pedras semipreciosas do aluvião que a todos por ali viu nascer.

Quelimane.jpg

 

Foi, pois, com toda a serenidade que entrámos em Quelimane e nos encaminhámos ao Hotel.

Continuemos… amanhã há mais.

Julho de 2019

Henrique Salles da Fonseca

POR ESSA PICADA ALÉM… - 5

 

Terá sido um Xicuembo[1] que disse: - Toma atenção, aqui mandam os antepassados senas, não mais os dos muçulmanos macuas! Se vens feito com eles, põe-te a pau!

E o homem do volante, tremendo, pensou mas não disse: - Aqui ao volante quem manda sou eu e em mim manda o General Kaulza. Se não cumpro o que ele me ordena, levo um porradão que nunca mais me endireito. Portanto, amigo Xicuembo, não me peças o que não posso dar-te que é para não entornarmos o caldo.

Benigno, o Xicuembo mostrou a sua compreensão e deixou-nos passar em beleza. E estou mesmo em crer que tudo nos correu tão bem na travessia da Zambézia que esse Xicuembo nos protegeu especialmente se é que, incógnito, não nos acompanhou no lugar que trazíamos vago no banco de trás, ao lado do Miguel. Não me lembro de o Miguel ter dito que sentia alguém ali ao lado mas pode ser que agora nos confesse alguma coisa. - Vá lá, Miguel. Já passaram 47 anos, aquele Xicuembo já se deve ter reformado, acho que podes falar à vontade.

E enquanto o Miguel toma balanço para contar (ou não), eu conto como tudo se passou.

Saídos de madrugada do Posto em que pernoitáramos, a picada era arenosa ao estilo guinchoso (da praia do Guincho) mas o nosso «herói» não se temeu e levou-nos até ao Molocué zumbindo mas sem hesitações. E foi esse zumbido que avisou quem estava naquele momento à porta da cerca da Companhia dos Algodões de Moçambique que nos fez logo sinal para não pararmos e nos dirigirmos de imediato para a oficina de mecânica. Pelos vistos, não éramos os primeiros a chegar ali «a pé coxinho» ou, mais prosaicamente, «de calças na mão». E logo fomos atendidos como se todos estivessem prevenidos da nossa chegada. Diagnóstico confirmado logo que o «herói» mostrou a barriga: um buraco no carter da caixa de velocidades, valvulina praticamente a zero. Terapêutica: tapar o buraco com a massa feita da casca da árvore «?x?p?t?o?», repor o nível da valvulina e seguir viagem como se nada tivesse acontecido; o calor gerado pelo funcionamento da caixa iria secar a massa e quando eu mandasse arranjar tudo a título definitivo, haviam de se ver aflitos para tirar a dita massa casqueira. Isso confirmou-se mais de um ano depois e já não faz parte das crónicas desta viagem.

- Pode seguir!!!

- E quanto devo?

- Não deve nada.

- Como assim? Os Senhores com esse trabalho todo e eu não tenho nada que pagar?

- É assim mesmo, não tem nada que pagar. Nós não estamos aqui só para ganhar dinheiro com o algodão, estamos também para ajudar a terra e quem nela vive.

- Mas eu não vivo aqui, sou militar em deslocação oficial, recebo ajudas de custo para as eventualidades deste ou de outro género, sinto que devo pagar.

- Pois que seja tudo isso mas aqui não paga nada.

- Então, para além dos meus agradecimentos pessoais a si, deixe-me agradecer ao Patrão da Companhia.

- O Grande Patrão vive em Lisboa e o Patrão daqui foi a Lourenço Marques e a Johannesburg, não está cá. O Senhor faça o que lhe digo: não perca o seu tempo com agradecimentos e faça-se à estrada para ver se ainda hoje chega a Quelimane.

Feitos os agradecimentos da praxe, fizemo-nos ao caminho… Em silêncio, agradeci ao nosso companheiro Xicuembo e em voz alta fomos comentando a pujança da economia algodoeira daquela região. A população não nadaria em abastança mas também não se via miséria.

Guerra? Qu’é isso? Tudo mais sereno que a noite lisboeta.

Zambezia.gif

Neste segundo dia de viagem, o caminho levar-nos-ia a M0cuba que então era a sede do Comando de um subsector militar e, mais além, passando Nicoadala, aos famosos palmares zambezianos.

Continuemos…

Julho de 2019

Henrique Salles da Fonseca

 

[1] - Espírito de antepassado em várias culturas moçambicanas

POR ESSA PICADA ALÉM… - 4

 

Característicos da paisagem de Nampula, os grandes morros tão semelhantes aos do Rio de Janeiro ou talvez mesmo tão parecidos com o australiano Uluru. Nitidamente, formações rochosas - quiçá monolíticas - cuja erosão circundante ao longo de milénios deixou à mostra de quem por ali ande. Imponentes, sem dúvida, à espera duma exploração turística que poderia ser motivo de maior desenvolvimento local. Muito bem, sem Direitos de Autor, aqui fica a sugestão de cartaz turístico - «Os Ulurus de África».

Picada rija, não arenosa, levando-nos por ali fora… paisagem desordenada, ou seja, sem agricultura à vista. Significava isso que as populações não tinham escolhido aquelas bermas de estrada para se instalarem. Porquê? Eu presumo que por falta de água em permanência se bem que naquela época em que por ali andámos o aspecto não fosse sequioso. E também não vimos bicharada. Eventualmente pela mesma razão, falta de charcos para poderem beber. Planície irregular à espera que o homem a trabalhe pondo-lhe água e vida. Mas havendo tantas outras zonas naturalmente muito mais ricas, para quê estar a gastar recursos – sempre escassos – com terras marginais que nem a fauna bravia procurava?

E lá fomos viajando calmamente a olhar para os «Ulurus», para a vegetação, para a falta de gente e para a ausência de animais até que… PUM!!!

- O que terá sido?

- Foi por baixo do carro mas estamos inteiros, não foi mina.

- Não, claro que não! Foi barulho de pedra que saltou e bateu por baixo.

Parei de imediato e fomos ver. Uma mancha de óleo a dizer que algo se tinha furado lá em baixo. O carter da caixa de velocidades furado por uma pedra e ainda pouco mais fizéramos do que uma centena e meia de quilómetros desde que saíramos de Nampula. Que chatice!!! E agora? Lembro-me como se fosse hoje que a nenhum de nós os três passou sequer pela cabeça voltarmos para trás. A solução era para a frente; para trás é a burra que sabe como se faz.

- Bem, aqui parados é que não resolvemos nada. Vamos embora, nem que seja com o carro engatado em primeira e a 20 à hora. Havemos de chegar a algum lado em que alguém nos ajude.

alto_molocue.png

 

O nosso «mapa» Miguel lembrava-se que dali a alguns quilómetros (quantos???) havia um Posto Administrativo.

Engatei em primeira e dei à ignição. O motor trabalhou e a caixa de velocidades fez um zunido constante que ao fim de 47 anos ainda não me saiu da memória. E o «campeão das picadas» não perguntou se havia alternativa àquela dor de «caixa», andou para a frente e não nos deixou na estrada.

Foi ao pôr do Sol que a picada deixou de ser rija e se transformou em areia solta como se estivéssemos a atravessar a praia do Guincho ou as dunas do Sahara. E o nosso «herói» não deu mostras de medo: fez um esforço suplementar e levou-nos até à porta do tal Posto. Ali estava, devidamente fardado, o Chefe do dito. Devia ter ouvido à distância a nossa aproximação e, naturalmente, veio ver do que se tratava. Explicado resumidamente o que acontecera, tomou ele logo a iniciativa de nos convidar para jantar e pernoitar, apesar de não ter como nos ajudar na resolução do problema mecânico. Mas que dali a pouco mais de uma centena de quilómetros teríamos apoio pela certa nas oficinas da Companhia dos Algodões de Moçambique, no Molocué.

Posto o «campeão» (ou o «herói»?) a recato de alguma curiosidade nocturna, lavámos as mãos e fomos convidados para jantar.

Mesa posta para quatro com todo o protocolo de instrumentália – garfo, faca, guardanapo, copo – para a ementa mais inesperada que por ali poderia ter sido servida: sardinhas assadas. Exacto, o meu Leitor não duvide, leu bem, sardinhas assadas no meio de nenhures a algumas centenas de quilómetros costa oriental de África adentro. Souberam-nos lindamente mas comemos com a moderação apropriada à cerimónia que nós os três gostamos de fazer com quem nos recebe com o melhor que tem para oferecer.

Sugiro ao Leitor que repare no pormenor de eu não ter ainda referido o facto de ir munido de uma Guia de Marcha militar e por esse facto o Chefe de Posto ser formalmente obrigado a prestar-me todo o apoio que eu lhe pedisse. Não, eu não me anunciei como militar em deslocação oficial, o Chefe do Posto fez o que fez por sua boa vontade apenas. Não nos perguntou sequer como nos chamávamos e nós tivemos o cuidado de corresponder de igual modo: ainda hoje não sabemos o nome do dito Posto nem do Administrador de então. Não me recordo do que foram os «bebes» mas pode ser que o Tó ou o Miguel, ao lerem este escrito, se lembrem e venham aqui contar.

Mas a «coisa» não ficou por aqui.

À luz dum Petromax, jantámos com toda a cerimónia que nos foi ensinada desde os tempos verdes mas à distância de não muito mais de um metro das costas do Chefe descia uma cortina desde as vigas do telhado (não muito alto) até ao chão e lá por trás ouvíamos por vezes algo que parecia alguém a mexer-se, a respirar, sabemos lá que mais… E porque ficámos sem saber de quem se tratava, sentimo-nos no direito de supor. E as suposições foram de dois tipos: um grupo de terroristas ali aboletados como nós; uma ou mais indígenas com quem o Chefe se amancebara às escondidas da mulher oficial residente algures fora dali. Tudo visto (não vimos absolutamente nada) e ponderado (não tínhamos quaisquer parâmetros para ponderação), optámos pela hipótese mais benigna, a das amantíssimas Senhoras. E até daria um bom título para um filme côr-de-rosa, «Há flores na savana».

Pareceu-me então oportuno perguntar quanto devíamos pelo jantar e pela hospedagem.

- Não devem nada, tive muito gosto.

- Mas oh Senhor Administrador, eu sou militar em deslocação oficial e recebo ajudas de custo, posso e devo pagar.

- Não paga nada, guarde o seu dinheirinho que lhe pode fazer falta nalguma outra paragem. E que façam muito boa viagem.

Feitos os agradecimentos que se impunham, o Chefe indicou-nos o local da dormição e parece ter ficado satisfeito quando lhe anunciámos que sairíamos de madrugada, aí pelas 4 da manhã. Urgia chegar relativamente cedo à oficina dos algodões.

O «herói» respondeu ao primeiro incitamento e zuniu por ali além como se nada fosse com ele.

Amanhã há mais…

Julho de 2019

Henrique Salles da Fonseca

POR ESSA PICADA ALÉM… - 3

 

Se bem me lembro, o ponto de partida foi a porta principal da Messe de Oficiais, frente ao Quartel General, na Praça Neutel de Abreu. Era manhãzinha mas nada de exageros, dia aberto.

E deu para rever a História e as histórias a «modos que» de despedida…

… Neutel de Abreu, aquele que nos era apresentado como o fundador de Nampula mas que também fora o «domador» duma terra até então conhecida como «o cemitério dos brancos». Não, nada disso, Caro Leitor. Quem matava mais brancos não eram os indígenas humanos mas sim o mosquito da malária. E foi nos tempos de Neutel de Abreu como chefe branco daquele assentamento que a malária começou a ser combatida pelo aterro dos pântanos formados a esmo pelo rio Lúrio. Mas é claro que o Major também distribuiu uns sopapos por aqui e por ali… que o diga o Sultão Farelay de Angoche.

(para saber mais sobre Neutel de Abreu, ver por exemplo em

https://pt.wikipedia.org/wiki/Neutel_Martins_Sim%C3%B5es_de_Abreu)

E, decidido a dar uma última passagem pelo meio da cidade, arrancámos direitos à Praça do Infante passando frente à Residencial Brasília onde serviam o melhor «chateaubriand» que alguma vez comi em qualquer latitude entre os Polos Norte e Sul. Carne de gado autóctone devidamente desparasitado mas alimentado apenas com capim, sem mistelas químicas para acelerar a engorda. E, vai daí, pensei na pujante economia agro-pecuária de toda aquela região. É que, havendo mercado, todos os produtores – brancos e pretos – beneficiavam com a actividade pecuária fazendo as suas vidas com normalidade e conforto.

Passada a Praça do Infante, subimos a avenida principal (cujo nome esqueci mas que um Leitor amigo nos vai recordar) em direcção à estação dos comboios e, aí, lembrei-me de mais qualquer coisa…

… duma cena passada com uma moto BMW lindíssima que a Polícia tinha importado para apanhar os «aceleras», que nunca tinha chateado ninguém e que certa vez estava parada por ali, junto à estação dos comboios. Então, um amigo nosso – cujo nome omito para ser ele a acusar-se depois de ler este escrito – que há dias andava deslumbrado com aquela beleza, não teve melhor ideia do que montar-se nela e dar uma voltinha por ali… Pois! Mas o titular do posto não estava longe, deu pelo abuso, veio no encalço do prevaricador e levou-o à Esquadra. Creio que tudo não passou de um puxão de orelhas mas o próprio que saia a terreiro e que conte.

A rua da estação desenvolvia-se ao longo da linha do comboio como acontece em toda a parte onde há comboios e respectivas estações. Portanto, não era por isso que ela dava nas vistas. Era, isso sim, por ser a fronteira entre a cidade do cimento e a «cidade das sombras verdes», a que existia por baixo da pujante floresta de cajueiros que imperava em toda a região. Desse lado de lá situava-se também o «meu» Centro Hípico, o palácio do Arcebispo e o aeroporto. E foi de tudo isso que me lembrei nesta última passagem: o velho «Kanimambo», puro sangue inglês que ajudei a trazer de volta à vida e que montava diariamente numa juventude reconquistada cheia de gosto pela vida, de D. Manuel Vieira Pinto que exercia a sua pastoral católica cercado por mais de duas mil mesquitas, pela informação que o General Galvão de Melo me tinha dado de que a base aérea de Nampula (e aeroporto civil) era a única no Norte de Moçambique cuja localização não tinha sido definida por ele e que, portanto, era a única mal localizada… tema que nunca estudei mas que me deu a certeza de que o General se tinha a si próprio em desmesurada consideração (mesmo que fosse verdade, acho que o pudor impedia que o dissesse). E ao passar pelas «sombras verdes», lembrei-me da «coisa» mais importante para aquela gente, a economia do cajueiro em que cada família tem uma árvore (junto da qual ou debaixo da qual tem a sua casa) cujas castanhas vende (habitualmente, aos comerciantes indianos) e de cujas pêras faz a aguardente mais apetecida por todos eles (e elas) mas que lhes dá cabo da saúde. Pois! Mas enquanto vivem, a economia do caju dá-lhes um conforto financeiro importante para não dizer importantíssimo. E eu levava na adivinhação de que se um dia os comunistas quisessem ali entrar, haveriam de esbarrar com esta sociedade tão experiente na economia privada. Adivinhando, acertei. Bastou deixar passar apenas uma dezena de anos.

E de tudo isto me fui lembrando até que deixámos a cidade, passámos as «sombras verdes» e… chegámos à zona rural, o mato, como se dizia.

De mato nada havia por ali mas sim machambas umas agarradas às outras, de exploração mais ou menos extensiva, mais ou menos intensiva, mais sofisticada, mais primitiva, de tudo havia com predominância para a produção de mandioca e para a produção de carne. E assim foi numa paisagem monotonamente variada,

muito humanizada, até que chegámos à gafaria, o extremo das redondezas de Nampula.

Para mim, começava ali o mare incognito in terra firma.

Nampula, arredores.jpg

 

E aí vamos nós…

Julho de 2019

Henrique Salles da Fonseca

POR ESSA PICADA ALÉM… - 2

 

In illo temporae, o Serviço Militar era obrigatório para os homens e voluntário para as mulheres. Fora da actividade propriamente bélica, havia muitos civis, homens e mulheres, contratados pelas Forças Armadas – no nosso caso, o chamado «pessoal civil do Ministério do Exército». E eram muitos, tanto eles como elas.

No tempo português, Nampula era a capital militar de Moçambique e se isso foi importante na perspectiva militar, foi-o certamente mais importante ainda na do desenvolvimento económico de todo aquele Distrito, chamado «de Moçambique» devido à posição relativa da Ilha de Moçambique, antiga capital da colónia (antes do eufemismo «Província Ultramarina»). De notar que só este Distrito tinha a mesma dimensão geográfica que a Suíça. E faço desde já notar que, na minha opinião, falando na maior generalidade, os macuas são muito mais simpáticos e hospitaleiros que os suíços. Poderão os macuas ter menos relógios de precisão e menos depósitos bancários que os suíços mas têm por certo um «coração» muito maior e um gosto pela vida que dá gosto ver.

Nampula.jpg

Na «minha» Chefia de Contabilidade e Orçamento (era assim que se chamava?) do Quartel General da Região Militar de Moçambique, um edifício na Rua das Flores (nome por que era conhecida a «Rua Afonso de Albuquerque») que fora construído para habitação (6 fogos) e cujas banheiras tinham sido tapadas por armários de arquivo, os funcionários civis eram quase tantos como nós, os militares. O facto de termos um bom ambiente não era «coisa» menor mas o mais relevante era o nível de conforto desses funcionários, em especial dos ressortissants locais. Desde mainatos a escriturários, de toda a hierarquia os havia em função das habilitações literárias de cada um. Como em Nampula o nível máximo do ensino disponível era o secundário (o então 7º ano do liceu), não havia licenciados locais e, portanto, não havia Técnicos Superiores civis a trabalhar no Exército. Presumo que na Marinha e na Força Aérea também não.

Urbanisticamente harmoniosa, Nampula tinha – pela sua característica de capital – um certo ambiente cosmopolita e eu gostei muito de lá ter estado. Fiz amizades para o resto da vida e consegui ter pena de ter sido retransferido para Lourenço Marques.

Então, de repente, pensei que esta seria a oportunidade única de conhecer Moçambique à séria em vez de andar sempre aos saltinhos de avião. Eis que tomei a decisão de fazer a viagem de carro em vez de ir eu de avião e o carro de barco. Militarmente autorizado a fazer a viagem no meu próprio carro, achei mais simpático arranjar companhia do que fazer-me sozinho ao mato meu desconhecido.

E pus a boca no trombone a perguntar quem seriam as duas pessoas que me queriam acompanhar. Já não me lembro ao certo mas acho que anunciei o «concurso» pela hora do almoço e à hora do jantar já tinha a situação resolvida. O António Sousa Pires (doravante, o Tó) e o Miguel Lory.

Como eu, o Tó era Alferes Miliciano e prestava serviço na «Sala de Briefings» do General Kaúlza. Era o Tó que assinalava nos mapas do Estado Maior os locais que havia a assinalar para os efeitos que qualquer Estado Maior pretende. A bon entendeur… Ou seja, eu fazia-me acompanhar por alguém que sabia se havia berzunda nos sítios por que passaríamos ou se seria conveniente arrepiar caminho.

O Miguel Lory, filho da irmã da cunhada do tio do primo do meu irmão, ainda andava no liceu mas os pais autorizaram-no a vir na viagem porque sabiam que eu não me ia meter propositadamente em sarilhos. Mais: o Miguel já conhecia as estradas por que haveríamos de seguir pelo que substituía com vantagem os mapas que são frios e não dispensam amizade a ninguém.

E assim ficou a equipa constituída, o carro «ensaboado» como mandam as regras de quem se prepara para o «mare incógnito in terra firma», o Tó de licença, o Miguel de férias e eu de Guia de Marcha no bolso.

TUDO A POSTOS?

EM FRENTE – MARCHE!

(amanhã há mais)

Julho de 2017

Henrique Salles da Fonseca

POR ESSA PICADA ALÉM… - 1

 

Então, comecemos pelo fim…

Faz hoje, 14 de Julho de 2019, 47 anos que o António Sousa Pires, o Miguel Lory e eu começámos a viagem de Nampula a Lourenço Marques.

E agora, vamos até antes do princípio…

O transporte foi o meu carro, um Fiat 128 de 4 portas, branco, com o volante à esquerda, que eu mandara ir de barco de Lisboa a Nacala e que chegara incólume a Nampula montado num wagon dos caminhos de ferro. Faço desde já notar que esse verdadeiro «herói das picadas» foi o único carro que até hoje eu tive que dobrou duas vezes o Cabo da Boa Esperança. Não deve haver muitos carros que se possam gabar de tal feito em viagens de longo curso (isto, para despistar quaisquer viagens de proximidade pois não sei se há algum ferry boat que ligue Capetown a alguma ilha nas respectivas afueras tais como Roben Island e quejandas).

FIAT 128 - FB-75-81.jpg

Esse herói regressou a Portugal já depois do «glorioso», passou todo o PREC no activo e só quando a calma voltou é que ele teve direito à reforma. Um valente que nunca deixou o dono na estrada. Nunca, mesmo!

Não faltará muito para que o leitor perceba por quê tanta atenção ao carro.

Mas, entretanto, durante a nossa (do carro e minha) estadia de 13 meses em Nampula, ele viajou aos fins de semana em direcção à Ilha de Moçambique, a Nacala e não só em direcção à costa mas também ao interior, àquilo a que vulgarmente chamávamos «o mato». Aprendemos a «navegar» em areia solta com e sem carga e nunca o valentaço se atascou. Mas o dono dele teve o cuidado de nunca lhe pedir que passasse linhas de água como os patos, com água pelos peitos. Sempre fomos mais de sequeiro do que de aguadas. Aventureiros, sim, mas não maliquinhos da cabeça.

Até que a picada do Namialo a Nacala foi substituída por uma estrada moderna em que o nosso herói podia andar à sua velocidade máxima sem que deixasse de parecer que estava quase parado.

Então, o dono dele fechava a «guerra» às 6 da tarde e íamos jantar a casa dos pais do Miguel Lory, em Nacala, exactamente 200 quilómetros de porta a porta. Para lá, tudo bem mas, na volta, com um tinto seguido de algum digestivo que sabiam lindamente, o sono apertava naquela estrada sem movimento nem curvas. Mas o herói manteve-se sempre em cima do alcatrão e nunca esbarrou em bandos de babuínos noctívagos. Na dúvida, nunca parámos na berma para passar pelas brasas porque aquela é zona de leão. A solução foi a de arranjar um pendura cuja função principal era a de não me deixar adormecer ao volante. O Zé Pessanha foi o habitué nestas peregrinações em que havia troços relativamente longos em que a estrada era ladeada por floresta compacta, uma verdadeira muralha de cada lado sem se ver um palmo lá para dentro. Era daí que podiam saltar os babuínos mas era daí que não havia perigo de aparecerem elefantes ou sequer leões. Gente? Nessa floresta, não de certeza; nos outros troços, pouca ou quase nenhuma pois a estrada tinha acabado de desbravar a região até então isolada e a velha picada era longe daquele novo traçado.

«FB-75-81», o “nome” que ostentou enquanto reinou em Moçambique; «MLJ-21-56», o “nome” que as Alfândegas de Moçambique lhe impuseram para embarcar no «Infante D. Henrique» rumo a Lisboa na companhia do dono e da namorada, a Guida.

Continuemos…

Julho de 2019

Henrique Salles da Fonseca

 

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