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A bem da Nação

NÓS, OS FILHOS DOS VENTOS CÁLIDOS – 6

Continuamos em Ofiuza (https://pt.wikipedia.org/wiki/Ofi%C3%BAssa), suas adjacências e descendências mas sempre “a terra da serpente”, o símbolo da sabedoria, como lhe chamavam os gregos mais antigos. E eles, gregos sábios, sabiam por que é que nós já então tínhamos tanta sabedoria. Sim, eles bem sabiam… Nós, ainda hoje duvidamos da plena validade do epíteto.

Feito o liceu, lá nos encaminhámos praticamente todos para as Universidades em busca do saber, não ainda da sabedoria. E fomos muitos que, em Lisboa, procurámos a Universidade Técnica, não mais a Clássica, a bafienta e anquilosada pela endogamia corporativa das togas medievais de tradição fabricada à pressa depois da implantação da República à imagem e semelhança da então bem retrógrada Academia de Coimbra. Ou seja, se a Universidade de Lisboa (a dita “Clássica”) poderia ter sido uma chicotada no marasmo científico e formativo nacional, quase se limitou a fazer mais do mesmo que já existia. Com a do Porto, instituída pela República também, aumentou-se a cobertura nacional pelo ensino superior, mas em qualidade tudo se manteve quase na mesma. Coimbra fazia então algum humor com piadas ao estilo de que era ela que tinha a verdadeira Faculdade de Direito e que Lisboa se limitava a ter uma Escola Superior de Leis. E foi nestas confabulações histórico-universitárias que me lembrei daquele episódio em que o Rei D. João V teve que impor à Universidade de Coimbra a defesa do dogma da Imaculada Concepção de Maria, tema em que a Academia parecia não se mover nos conformes da Doutrina...

Mas voltemos a terra firme.

Foi, portanto, a Universidade Técnica de Lisboa que trouxe algum dinamismo ao ensino superior em Portugal e foi a ela que muitos da minha geração acorremos. Sem desprimor para outras Escolas que agora me escapem, refiro-me especialmente ao Instituto Superior Técnico (engenharias), a Económicas, a Agronomia e a Veterinária.

E assim foi que, uns por aqui e outros por ali, nos fomos licenciando e fazendo à vida. Com uma particularidade: nós, os homens, tínhamos o Serviço Militar Obrigatório (SMO) que nos ocuparia nada menos de 3 ou 4 anos, logo à saída da Universidade donde resultava que, quando regressávamos à vida civil e entrávamos mesmo na actividade profissional por que optáramos, as nossas colegas, Senhoras, já levavam esses 3 ou 4 anos de avanço profissional. Muito possivelmente, passariam a ser as nossas chefas, as matriarcas profissionais. Nada disso aconteceu comigo e nunca tive o gosto de trabalhar com colegas do mesmo ano de licenciatura.

Cosmopolitismo alargado aos sertões africanos e às cidades tropicais por que passáramos, alguns fomos os que nos apaixonámos por essas paragens e para lá voltámos uma vez regressados à vida civil. Era o tempo da guerra ganha, da corrida do desenvolvimento, da alegria de viver.

Eramos jovens adultos quando, nas nossas costas, as colónias portuguesas foram passadas para a esfera soviética, assumiu foros de verdade o que até então era falso, a paz foi substituída pelas guerras civis[i], os povos – todos os povos – se sentiram desnorteados, apenas as nomenklaturas dos Partidos controlados por Moscovo se sentiram donos e senhores das situações locais.

Ruía assim mais um sonho, o das independências harmónicas numa linha de continuidade entre o colonialismo anacrónico e a subida ao poder das elites genuinamente autóctones, preparadas para a governação sem atropelos nem tropelias. E, sobretudo, sem mais guerras e suseranias neo-colonialistas abjectas.

Assim foi que Portugal regressou ao território estaminal, o anterior à conquista de Ceuta em 1415. Seria nesse espaço que deveríamos viver. Era o tempo da sabedoria…

(continua)

Maio de 2019

Henrique Salles da Fonseca

 

[i] - Excepção da Guiné-Bissau onde a guerra era uma realidade

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