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A bem da Nação

E A DANÇA CONTINUA…

 

DANÇA.png

 

Este é o tempo das trevas,

Da vilania deles,

Da mentira

E da humilhação.

 

Há tempos felizes…

… mas também os há de nojo;

Há-os dos risos

E há-os do pranto;

Mas há também um anjo

Que só ele nos ouve o choro

E nos dá o ânimo da cabeça erguida,

Do peito aberto à intempérie,

Da sanidade,

Da reversão dos tempos em que só se vê

O túnel no fim da luz.

E assim a esperança renasce,

As gentes regressam ao baile,

E a dança continua…

UMA MÃO CHEIA DE PROBLEMAS

Em 1750, mais de 200 anos após o Tratado de Tordesilhas, é assinado o «Tratado de Madrid» ou «Tratado dos Limites» como também ficou conhecido, que, mais uma vez, procurou resolver pela via diplomática os problemas de fronteiras entre os territórios pertencentes à Coroa portuguesa e aos domínios espanhóis, constituindo uma nova etapa na trajectória das missões jesuítas.

TRATADO DOS LIMITES-1750.jpg

A Colónia de Sacramento passou de novo para a posse de Espanha em troca dos Sete Povos das Missões, da margem esquerda do rio Uruguai. Os índios deveriam abandonar as suas terras, retirando-se do actual Rio Grande do Sul para a margem ocidental do rio Uruguai, hoje território argentino e paraguaio. É decretado o gradual desmantelamento das missões.

Os guaranis não acolheram bem a decisão da entrega das terras e das aldeias edificadas ao longo de décadas. O abandono das terras representava a ruína total dos povoados e a destruição de toda as actividades económicas, sociais, políticas e religiosas vividas naqueles espaços. Os guaranis resistiram às determinações régias e o contingente militarizado das reduções passou a representar uma ameaça aos intentos das potências ibéricas que decidiram invadir as missões. Para a Europa, era inconcebível que os indígenas não fossem súbditos fiéis e obedientes, comportando-se de acordo com as monarquias ibéricas. Em Maio de 1754, dois exércitos vão contra os redutos: um português vindo de Norte por mar; outro espanhol vindo do Sul pelo rio Uruguai. A 12 de Fevereiro de 1761, optou-se pela substituição do «Tratado de Madrid» pelo «Tratado do Prado», que estatuía a entrega dos Sete Povos das Missões e da Colónia do Sacramento aos antigos donos. Novos conflitos eclodiram e a paz só viria a ser restabelecida em 1777 com o «Tratado de Santo Ildefonso». Durante todo este percurso, a indefinição de fronteiras na região platina foi uma constante.

O «Tratado de Madrid» representa o início de uma série de transformações que viriam a comprometer as relações entre a Igreja e o Estado, com incidência na América do Sul. A guerra guaranítica e a ocupação dos Sete Povos pelos Exércitos ibéricos acabaram por provocar o declínio demográfico, a dispersão dos índios e por pôr fim à comunidade de jesuítas e guaranis. O período que decorreu entre 1753 e 1769 caracterizara-se por uma significativa dispersão populacional. Neste processo, não podem ser só considerados os factores externos mas também factores de ordem interna, como a rigorosa disciplina imposta na sequência da ocidentalização e as contendas entre chefes locais desejosos de manter a supremacia na região.

Vencidos, destroçados e espoliados das terras onde viviam, os índios abandonaram as aldeias – uns regressaram aos matos, outros foram para junto das cidades dos colonos, outros, ainda, acompanharam os luso-brasileiros, povoando as primeiras vilas do Rio Grande do Sul.

Novos aldeamentos indígenas surgiram com uma administração secular, baseada em modelos de organização social e política, ajustados a outros princípios.

* * *

 E a pergunta que resta colocar é: e que danos foram provocados aos portugueses por ali abandonados?

21ABR19.jpgHenrique Salles da Fonseca

BIBLIOGRAFIA:

HISTÓRIA DA COMPANHIA DE JESUS EM PORTUGAL, Maria de Deus Beites Manso, EDIÇÕES PARSIFAL, 1ª edição, Setembro de 2016, pág. 163 e seg.

«LUCKY», O CÃO

Todo o cristão de qualquer religião sabe que cão pequeno se amofina com cão maior e que com cães à bulha sempre pode dar mau resultado alguém meter-se lá pelo meio. Não é por mal, mas na refrega sempre há uma dentuça que roça a pele e lá vem um rasgo a merecer pontuação.

O «Lucky» é um canzarrão tão manso quanto o seu tamanhão e o «Farrusco» um meia-tigela com bigodaças que não gosta de carros nem de «colegas» da sua espécie.

E por qualquer razão menos explicada em canês, eis que o «Farrusco» se amofina com o «Lucky», o leva ao desespero e sofre as consequências que também David não temeu com Golias. E, como nos homens, não se metam com pachorrentos… e eis que o «Farrusco» deu duas voltas pelo ar depois de ter andado de rojo. Vieram os donos mas só o da parte do calmeirão se aventurou lá pelo meio. Isso não o livrou da tal dentuça que rasgou sem deixar assinatura.

- Quantos pontos?

- Talvez uns 3 ou 4 mas antes deles lá estarem, muito foi o sangue que jorrou. E foi de esguicho, lá isso foi.

Grande alvoroço na aldeia com rosnadelas, latidos, brados dos homens a tentarem pôr ordem na desordem e, mais do que tudo, a gritaria das mulheres que, só elas, suplantavam todos os decibéis. E foram elas que me sugeriram estar a passar-se alguma calamidade de amanhã vir nos jornais e que me fizeram assomar à varanda.

A cena acabou com os dois lutadores apartados «a pontapé sabe Deus em quem» e em reclusão nas respectivas casotas, em casa de cada dono. E o meu vizinho, o do calmeirão, a caminho do Posto de Saúde para a apropriada cozedura.

Só uns 20 minutos depois é que as mulheres serenaram e deixaram de gritar com os cães, já eles por certo não se lembrando de quê. Mas elas, sim, lembravam-se e vão ter conversa para um bom par de horas. Aí isso é que vão!

Faz anos que o calmeirão chegou à aldeia. Ninguém sabe donde veio mas há quem diga que as cadelas grandes que vivem ao pé do «Boina Verde» e lá almoçam e jantam, vão parir à Mata dos Medos e que, a partir de certa altura, mandam os filhos embora pois o restaurante não está ali para abrir falência com tanta boca a alimentar. E o calmeirão deve ter descido a encosta e apareceu na aldeia a dar ao rabo, todo satisfeito por lhe cheirar a gente boa. E foi aceite como novo aldeão. Dormia aqui, almoçava ali, todos lhe falavam, nada lhe faltava.

Um dia, brincando com a «Nina», a cadela da minha vizinha, à porta do café central, não percebeu que vinha lá um carro e foi atropelado. Espatifaram-lhe a mão esquerda e o pobre bicho entrou em desespero sem perceber por que lhe tinham feito tanto mal. O dono do café agarrou-o ao colo, pôs a mulher (a minha vizinha) ao volante e foram a correr para o hospital veterinário onde o calmeirão foi atendido imediatamente. A cirurgia passava bastante além do orçamento do meu vizinho pelo que sedaram o calmeirão, lhe puseram os ossos tão no sítio quanto possível, cozeram-no e puseram-lhe uma tala. Que ia ficar manco. E isso, se não gangrenasse e se não tivessem que o amputar.

E foi assim, entalado, que o conheci. As dores já tinham desaparecido, não houve gangrenas, os ossos lá foram soldando e o cão foi assim baptizado de «Lucky».

- Eh pá! Tiveste muita sorte!

É claro que a partir daí, o «Lucky» foi adoptado pelo meu vizinho sem discussão do resto da aldeia. Mas o dono só o podia passear ao raiar do Sol e à noitinha, depois de regressado da lota. Então, dispus-me a passear o calmeirão que já me conhecia das visitas regulares que lhe fazia e das lambarices que lhe levava. Fiz um amigo que me reconhece de ano para ano e abana o rabo cada vez que o visito no Inverno.

É claro que andou entalado só uns meses e, afinal, tendo ficado com um aprumo esquisito, corre e brinca na perfeição. De tal modo bem que atirou com o metediço «Farrusco» ao chão e depois ao ar, pôs os homens aos pontapés e as mulheres a gritar.

É mesmo um canzarrão.

Lucky.jpg

Henrique Salleda Fonseca

(com o «Lucky» a lamber-se e com o braço esquerdo todo torto)

O VALIOSO TEMPO DOS MADUROS

velhotes.jpg

Contei os meus anos

E descobri que terei menos tempo para viver daqui para a frente

Do que já vivi até agora.

Tenho muito mais passado do que futuro.

Sinto-me aquele menino que recebeu uma taça de cerejas.

As primeiras, chupou displicente,

Mas percebendo que faltam poucas, rói o caroço.

Já não tenho tempo para lidar com mediocridades.

Não quero estar em reuniões onde desfilam egos inflamados.

Inquieto-me com invejosos tentando destruir quem eles admiram,

Cobiçando os seus lugares, talentos e sorte.

Já não tenho tempo para conversas intermináveis,

Para discutir assuntos inúteis sobre vidas alheias

Que nem fazem parte da minha.

Já não tenho tempo para administrar melindres de pessoas

Que apesar da idade cronológica, são imaturos.

Detesto fazer acareação de desafectos que brigam pelo

Majestoso cargo de Secretário Geral do coral.

As pessoas não debatem conteúdos, apenas os rótulos.

O meu tempo tornou-se escasso para debater rótulos, quero a essência,

A minha alma tem pressa...

Sem muitas cerejas na taça, quero viver ao lado de gente humana,

Muito humana; que sabe rir dos seus tropeços,

Não se encanta com triunfos,

Não se considera eleita antes da hora,

Não foge da sua mortalidade.

Caminhar perto de coisas e pessoas de verdade,

O essencial faz a vida valer a pena.

Mário de Andrade.jpg

 

 

 

 

 

Mário de Andrade

 

 

DA WIKIPÉDIA:

Mário Raúl Morais de Andrade (São Paulo, 9 de Outubro de 1893 — São Paulo, 25 de Fevereiro de 1945) foi um poeta, escritor, crítico literário, musicólogo, folclorista, ensaísta brasileiro. Foi um dos pioneiros da poesia moderna brasileira com a publicação de seu livro Pauliceia Desvairada em 1922.

DA ÉTICA

 

A ultrapassagem do metafísico pelo positivo só se sustentou enquanto este último viveu da herança dos estádios anteriores (teológico e metafísico). Porém, o sucessivo afastamento e descuido em relação àquelas fontes deixou-o animicamente esvaído e eticamente desamparado.

 

Este raciocínio de D. Manuel Clemente a págs. 40 e seg. do seu livro “PORQUÊ E PARA QUÊ – Pensar com esperança o Portugal de hoje” assenta como uma luva à geração pós-moderna actual.

 

Contudo, a ética cristã de solidariedade e benevolência para com o próximo (muito próxima da compaixão budista), de honradez e de trabalho, tem uma versão laica que pergunta, com enorme simplicidade, «o que é que eu posso fazer por ti sem o prejudicar a ele, esse terceiro que nem sequer conheço?». E esta atitude não carece de fundamento teológico pelo que é perfeitamente aplicável a quem se diz afastado das religiões. Ou seja, estar longe das religiões não é argumento para ignorar o princípio ético.

 

No início do século XX, a sociedade portuguesa vivia numa quase hierocracia e foi contra esse domínio que a laicização da ética tentou abrir caminho. Mas não terá conseguido vingar no ambiente de iliteracia que então reinava e hoje, passado um século, continuamos a padecer das consequências desse desencontro.

 

Uma população tutelada pela ameaça da ira divina, não teve arcaboiço para se harmonizar eticamente sem tutela num espaço que se pretendia republicano, responsável. Aos portugueses, iletrados e habituados a uma estrutura social muito parametrizada, foi então pedido (exigido, imposto?) que assumissem uma plena cidadania. Mas, na verdade, nada lhes foi pedido: foi-lhes consumado o facto e, desenquadrados, deixados entregues a si próprios, abandonados.

 

E como as elites republicanas se limitaram a copiar as homólogas monárquicas que as tinham antecedido digladiando-se em lutas renhidas pelo Poder, o vulgo continuou ignaro, não opôs resistência quando o mandaram morrer na Flandres, no sul da Angola e no norte de Moçambique assim como também não fez «cara feia» quando apareceu alguém disposto a pôr ordem onde se instalara a desavença constante, o «tira-te tu para me pôr eu», a falência.

 

Seguiu-se nova parametrização social, rigor financeiro, resfriamento das vontades que se apresentavam aquecidas. Essa parametrização durou 40 anos. Tantos como agora levamos de militância pós-moderna, a herdeira do niilismo.

 

Se não quisermos continuar na senda da desintegração social, a ignorar a solidariedade estruturante da sociedade civil e a insistir na troca do ser pelo ter, devemos parar um pouco para refrectir se merecemos a liberdade de que queremos usufruir. Para isso, temos que interiorizar a síntese do humanismo, da solidariedade, da compaixão.

Tenho esta como a questão portuguesa histórica e sociologicamente mais pertinente:

  • Na perspectiva singular, individual – a ética da compaixão – na dimensão do «eu, tu, ele»: «O que é que eu posso fazer por ti sem o prejudicar a ele, esse terceiro que eventualmente nem sequer conhecemos?»;
  • Na perspectiva plural, colectiva – a ética do Sentido de Estado – na dimensão do «nós, vós, eles»: «O que é que nós podemos fazer por vós sem os prejudicar a eles, esses terceiros que eventualmente nem sequer conhecemos?»

 

Temo que essa síntese não esteja suficientemente assumida pela generalidade dos cidadãos mas urge promove-la antes que por aí apareça alguma sharia que nos seja imposta por estranhos radicais.

 

 Então, regressemos à ética antes que seja tarde.

 

Junho de 2019

 

Henrique Salles da Fonseca

 

DE COSTAS PARA A DEMOCRACIA

Era Napoleão que dizia algo como «os espíritos superiores discutem ideias, os medíocres discutem factos e os menores discutem pessoas».

Colhe assim a pergunta sobre o que por cá abordam actualmente as discussões políticas. Triste resposta… geralmente, são as pessoas que centram as discussões que conduzem à citação de factos, mas as ideias que se discutem têm quase sempre a ver com as intenções dos citados, ou seja, os ilícitos denunciados; ideias de substância, das que geram políticas, quase nunca são referidas. Então, como chegámos a uma situação em que a política é uniforme para todos os Partidos do arco democrático, nada há a discutir porque, entre eles, só mudam as pessoas, as suas pertenças e seus interesses clubistas.

E os eleitores sentem-se marginalizados na discussão sobre a partilha de interesses que não lhes respeitam, desmotivam-se, metem todos os políticos no mesmo «saco de gatos assanhados», no dia das eleições vão para a praia e dão a vitória ao maior Partido português, o da abstenção.

Todavia, há muito que discutir ou, pelo menos, recordar aos eleitores como sejam as alternativas ao que cada Partido político entende por bem-comum. E essa, sim, seria por certo uma remotivação do eleitorado.

Bem comum.jpg

 

Por exemplo, apenas na perspectiva económica, a proposta comunista em que tudo pertence ao Estado, a dos socialistas em que os sectores estratégicos são necessariamente públicos, a dos sociais democratas em que a propriedade dos meios de produção é privada mas o interesse público é ressarcido por forte tributação, a dos democrata cristãos que preferem a economia privada mas com grandes preocupações sociais.

Se os eleitores fossem confrontados com alternativas ideológicas, fariam opções conscientes, não lhes seria indiferente votar neste ou naquele, num qualquer «gato assanhado» que apenas por ali ande a defender o próprio «tacho».

Para remotivar o eleitor não o deixando continuar de costas voltadas para a democracia, é fundamental salvar o regime trazendo para a discussão pública o que cada Partido entende ser o bem-comum até porque não podemos ser obrigados a uma única política definida em Bruxelas.

Junho de 2019

Henrique Salles da Fonseca

A QUEIXA PROTO FASCISTA

Foi aos gritos de «Liberdade, liberdade» que se criou o espírito individualista libertário o qual tem como axioma o «Princípio da Não-Agressão», ou seja, «que nada me limite» - eis o igualitarismo anarquista.

 

Perante o igualitarismo em que a ninguém é reconhecido qualquer estatuto distintivo, vence o individualismo, todos têm razão, tudo o que se apresente difícil é considerado antidemocrático. Onde impera o individualismo, não há coesão social, todos se sentem desamparados. Mas o desamparo é desconfortável. O desconforto gera a queixa e sempre acaba por conduzir à busca de soluções para se regressar a alguma situação assemelhável a conforto.

 

Assim se reúnem os ingredientes suficientes para que apareça um caudilho com promessas cujos méritos os desamparados não querem sequer questionar. Ela aí está, a ditadura, a sempre radical, a que gera a violência pela via do capricho do ditador, capricho esse que assume a força de Lei.

 

Por antítese ao Estado de Direito, ao capricho do ditador se chama fascismo.

Sidónio  Pais.jpg

 

Eis por que…

  • Urge repor o sentido da responsabilidade social e a formação política como missão essencial dos Partidos democráticos se não quisermos cair no fascismo

 

Junho de 2019

 

Henrique Salles da Fonseca

NO 131º ANIVERSÁRIO DE FERNANDO PESSOA

LIBERDADE

Ai que prazer

Não cumprir um dever,

Ter um livro para ler

E não o fazer!

Ler é maçada,

Estudar é nada.

O sol doira

Sem literatura.

O rio corre, bem ou mal,

Sem edição original.

E a brisa, essa,

De tão naturalmente matinal,

Como tem tempo não tem pressa...

Livros são papéis pintados com tinta.

Estudar é uma coisa em que está indistinta

A distinção entre nada e coisa nenhuma.

Quanto é melhor, quanto há bruma,

Esperar por D. Sebastião,

Quer venha ou não!

Grande é a poesia, a bondade e as danças...

Mas o melhor do mundo são as crianças,

Flores, música, o luar, e o sol, que peca

Só quando, em vez de criar, seca.

O mais do que isto

É Jesus Cristo,

Que não sabia nada de finanças

Nem consta que tivesse biblioteca...

 

Fernando Pessoa

«OPINION MAKERS»

 

Criadores de opinião ou manipuladores de opinião, eis a questão.

 

Dar a sua opinião sobre um determinado assunto é perfeitamente normal numa sociedade em que impera a liberdade e, em consequência, a liberdade de pensamento e de opinião. Assim se dá aos «consumidores da informação» uma sugestão que eles seguem ou não conforme concordem ou discordem. Mais uma vez, a liberdade de opinião a funcionar. O opinador refere-se a realidades, não a ficções e não especula sobre intenções alheias; pode ser seguido por muitos, poucos ou nenhuns consumidores mas, expondo os seus argumentos e concluindo de uma certa maneira, fá-lo com transparência e apenas se responsabiliza a si próprio como um bom, um mau ou um péssimo opinador.

 

Em resumo, o criador de opinião é benigno.

 

* * *

 

O manipulador de opinião é aquele que induz os outros a passarem a ter uma determinada opinião sobre uma realidade ou uma ficção (fake new), num sentido determinado pelos seus próprios interesses sobre um tema mais ou menos controverso (lobby) ou mais ou menos legítimo; actua frequentemente sob anonimato ou, quando muito, sob identidade dificilmente identificável ou mesmo falsa.

 

Em resumo, o manipulador de opinião é maligno.

 

* * *

 

Eis por que não me oferecem dúvidas os criadores de opinião mas me espanta a facilidade com que os manipuladores conseguem entrar nas redes sociais e nas notícias formais sem que o «Carmo e a Trindade» não lhes caia em cima, os identifiquem e os banam.

 

E a questão que coloco é:

  • Deve a origem das fake news ser investigada e apenas penalizado o manipulador (seja ele individual ou lobby) ou também o divulgador?

 

Não se trata de restaurar a velha censura prévia do Estado Novo; pelo contrário, trata-se apenas de obstar às fake news e de punir os respectivos autores.

 

Meditemos…

 

Junho de 2019

Henrique Salles da Fonseca

DAS MINHAS NAVEGAÇÕES E ALHEIAS

SOCOTORÁ

 

Verás defronte estar do Roxo estreito

Socotorá, com o amaro Aloé famosa.

(Os Lusíadas - Canto X - estrofe 137)

 

Antiguidade

Na Antiguidade, a ilha encontra-se referida no "O périplo do mar Eritreu" (manuscrito, século I) como "Dioskouridou" em alusão ao autor greco-romano Dioscórides. Entretanto, nos nossos dias, o arqueólogo e antropólogo G. W. B. Huntingford, assinala que a toponímia "Socotorá" é de origem grega, mas que procede do sânscrito "dvipa sukhadhara" ("ilha da felicidade").

No século X, o geógrafo árabe Almaçudi comentou que a maioria dos habitantes das ilhas eram cristãos.

 

Descobrimentos portugueses

À época dos Descobrimentos portugueses, é provável que o primeiro navegador a alcançar a ilha tenha sido Vicente Sodré, tio de Vasco da Gama, que ali terá feito aguada antes de se perder nas ilhas de Curia Muria (atual Omã) em 1503. No entanto, essa primeira descoberta é disputada por Diogo Fernandes Piteira (ou Pereira), segundo Damião de Góis e João de Barros que, de regresso ao reino, dele deu notícia a D. Manuel I. O navegador e militar António de Saldanha, que navegara na região rumo ao estreito do Mar Vermelho, confirmou em Lisboa a bondade da ilha em portos e quanto à provável existência de cristãos descendentes dos habitantes que o apóstolo São Tomé doutrinara aquando do seu naufrágio no local a caminho da Índia.

Para além da aparente população cristã que a Coroa Portuguesa considerou urgente libertar da servidão imposta pelo rei muçulmano de Fartaque (atual cabo Fartak, no Iémen), Socotorá, localizada à "mão esquerda entrando para o estreito, junto ao cabo Guardafui", aparentava ser uma peça-chave para o controle do Mar Vermelho. Por essa razão, D. Manuel traçou um plano de conquista da ilha incumbindo Tristão da Cunha e Afonso de Albuquerque dessa missão e de nela instalarem uma fortaleza. Para esse fim, fez embarcar uma estrutura de madeira prefabricada em Lisboa. A conquista da ilha teve lugar em 1507, sob o comando de Tristão da Cunha, após a tomada da Fortaleza de Soco (à época, escrita Çoco), guarnecida por 120 homens sob o comando do "mui valente cavaleiro e sem medo nenhum" Coje Abrahem, filho do rei de Caxem (atual Qishn), cidade a alguns quilómetros do cabo Fartak.

 

O Forte de São Miguel de Socotorá

As obras da fortificação ficaram a cargo do mestre de pedraria Tomás Fernandes. Sob a invocação de São Miguel, ficou sob o comando do capitão D. Afonso de Noronha tendo a mesquita local sido convertida em igreja sob a invocação de Nossa Senhora da Vitória e a orientação de Frei António do Loureiro, guardião do mosteiro franciscano de São Tomé, o primeiro fundado extramuros e também o primeiro fundado no Estado Português da Índia.

 

Do século XVI ao XIX

A infertilidade da terra e o isolamento da praça em pleno território controlado pelo inimigo, levou a que, tanto a guarnição militar quanto os religiosos, fossem assolados pela fome, pelas doenças e pelos levantamentos dos muçulmanos, recebendo socorro apenas após a conquista de Ormuz por Afonso de Albuquerque (1507). Em pouco tempo, entretanto, a tese de que era essencial a ocupação de ilhas para o controle das rotas marítimas, começou a perder peso na estratégia portuguesa na região. A Fortaleza de Angediva havia sido abandonada (1506) e assim o seria o Forte de Socotorá (1511) e o Forte de Quíloa (1512).

A evacuação de Socotorá fez-se com o recurso às naus de Diogo Fernandes de Beja que não apenas fez demolir a fortificação até aos alicerces como transportou toda a sua guarnição para reforço de Goa e mais de duzentas mulheres e demais cristãos da terra, assim como a artilharia e demais apetrechos.

Com a retirada portuguesa, o arquipélago passou para o controle dos sultões Mahra.

A ilha continuou a servir de ponto de aguada aos portugueses tendo nela permanecido sempre um ou dois missionários. Alguns dos cristãos no local foram catequizados por São Francisco Xavier aquando da sua passagem para a Índia (1542), que descreveu a ilha como "(...) terra desamparada e pobre, não crescendo nela nem trigo, nem arroz, nem milho, nem vinha, nem fruta: é muito estéril e seca".

Entre 1540 e 1541 foi descrita por D. João de Castro, que registou: "(...) em todo o circuito da ilha não há porto nem outra alguma estância onde possa algum navio invernar seguramente". Em suas águas várias embarcações naufragaram, sendo a mais famosa o galeão Santo António, sob o comando do capitão Manuel Pais da Veiga, tendo como piloto Aleixo da Mota, em 1601.

Em termos económicos, os portugueses extraíam poucas matérias-prima, essencialmente o "sangue de dragão" (seiva de dragoeiro) e o aloé, este último utilizado como adstringente e purgante intestinal.

 

Do século XIX aos nossos dias

Devido à sua posição estratégica, passou a ser um protectorado britânico em 1886 controlando o estreito de Áden.

Com a independência do Iémen (1967), passou à sua soberania.

 

(Da Internet, Autor não identificado)

Por ali naveguei em Março de 2019 com piratas a bombordo e uma guerra civil (no Iémen) a estibordo. Mas passámos incólumes.

 

Junho de 2019

Henrique Salles da Fonseca

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