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A bem da Nação

NÓS, OS FILHOS DOS VENTOS CÁLIDOS – 5

Axioma – afirmação que, por evidente, não carece de demonstração.

* * *

“Todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e em direitos. Dotados de razão e de consciência, devem agir uns para com os outros em espírito de fraternidade.”

Artº 1º da Declaração Universal dos Direitos Humanos, ONU, Dezembro de 1948

* * *

Eis o que para nós, os filhos dos ventos cálidos, é um axioma mas que só foi aprovado já eu tinha 3 anos de idade.

E tanta tropelia sofreu a Humanidade às mãos dos algozes para, afinal, chegar a algo tão evidente que até Portugal, tão conservador, o ratificou ab initio.

Sem dúvida, os meus pais estavam no caminho da História da Humanidade e o Governo Português, convicto ou para agradar ao mundo, concordou.

Estou convencido de que os meus colegas de liceu se enquadravam em parâmetros iguais ou, pelo menos, muito semelhantes aos meus. Mas, assim como na minha família nos pautávamos por uma clara moderação, outros haveria que “navegavam” por águas mais agitadas.

Território francês, o “Charles Lepierre” era refúgio para quem se sentia incomodado pela figura tutelar do Regime, para quem se situava no fio da navalha da vigilância política, para os professores que não tinham jurado fidelidade a Salazar.

Cenário certamente diferente dos que vigorariam no “St. Julian’s”, o colégio inglês em Carcavelos ou na “Deutsche Schule” na Rua do Passadiço.

Todos estrangeirados? Uns sim, outros seriam apenas refugiados em terra própria, outros ainda só eram ricos cujos pais achavam chique ter os filhos a estudar no estrangeiro cá dentro. Mas ricos, menos ricos ou apenas remediados, nós criámos um ambiente de pluralidade, de claro cosmopolitismo, algo inédito até então. O contrário do monolitismo do figurino oficial do ensino do Estado Novo destinado a formar cidadãos mansos, o que nós não fomos e ainda hoje não somos.

(continua)

Maio de 2019

Henrique Salles da Fonseca

NÓS, OS FILHOS DOS VENTOS CÁLIDOS – 4

 “Liberdade, igualdade, fraternidade”

Eis os valores que o Liceu Francês veio promover em Portugal.

“Libertinagem, vulgaridade, promiscuidade”, as acusações a que eram sujeitos os princípios republicanos franceses pela sociedade portuguesa mais conservadora.

Era entre estes dois limites que uma parte importante da minha geração se situava. No meu caso, com claro pendor para a liberdade contra a libertinagem, pela igualdade contra a vulgaridade, pela fraternidade contra a promiscuidade. Tudo, numa versão não jacobina nem maçónica. De tradição familiar republicana e democrática, era-me fácil absorver aquela liberdade não constrangida por grilhetas físicas ou intelectuais, a igualdade não condicionada por preceitos sociais de nascimento, a fraternidade como atitude natural numa sociedade mais virada para a compaixão do que para o egoísmo. Por que não? Porque o contrário seriam a escravatura, a prevalência da «pureza genética», o isolacionismo individualista.

E precisamente porque os meus pais não me queriam de sotaina, me queriam mundividente e liberal, mandaram-me para o “Charles Lepierre”. Este, o «homem novo» que eles queriam, não o fardado da “Mocidade Portuguesa”.

(continua)

Maio de 2019

Henrique Salles da Fonseca

 

NÓS, OS FILHOS DOS VENTOS CÁLIDOS – 3

Assim como, no naufrágio, Camões asiu o manuscrito d’ Os Lusíadas”, também nós segurámos o conceito do Bem.

Nem tudo se perdeu na frustração do sonho dos nossos pais. Assim foi que redigimos a “Declaração Universal dos Direitos Humanos” e a dignidade regressou como valor fundamental da Humanidade.

De toda a Humanidade? Claramente, não!

Apenas no primeiro mundo, o do Ocidente (o da OCDE), porque no leste europeu (o 2º mundo) da esfera soviética (o do Pacto de Varsóvia) e na maior parte do resto do planeta (o 3º mundo), os direitos humanos continuaram a ser espezinhados. Mas nós, os ocidentais, “salvámos a honra do convento”. E alcandorámos o bem-comum à categoria de tema fundamental na discussão política no âmbito de um processo a que nos habituámos a chamar Democracia.

Nem tudo se perdeu, muito se ganhou. Um terço do mundo cumpriu o sonho; dois terços perderam-se nas vilanias.

E nós, por cá, em Ofiuza?

Cá, pela “terra da serpente”, tudo calmo, “quentinho”, em “banho maria”, de cueiros, em redoma de vidro, incubadora de Caminha a Timor…

Herdeiros de subdesenvolvimento crónico, tinham os nossos avós passado da Monarquia à República com inconcebíveis 90% de analfabetos adultos, passado pelo vexame da Grande Guerra em África e de carne para canhão inglês na Flandres; os nossos pais a serem protegidos dos flagelos directos da II Guerra Mundial mas a terem que se confinar a um modelo político monolítico que muito provavelmente não escolheriam. E por isso mesmo, podendo, nos puseram no ensino estrangeiro, esse que tinham por mais arejado.

A mim, coube-me o Liceu Francês em Lisboa.

Já conto…

(continua)

 

Maio de 2019

                         Henrique Salles da Fonseca

NÓS, OS FILHOS DOS VENTOS CÁLIDOS - 2

 

 

É em nome das utopias que se cometem as maiores atrocidades; é em nome do “homem novo” que se chacinam os inocentes; são a surpresa e o estado de choque que impedem as vitimas de atempadamente aniquilarem os verdugos.

     ***

Ainda não foi desta que o Bem venceu o Mal. E, contudo, não teria sido difícil se tivessemos conseguido banir a inveja do léxico e das atitudes humanas.

Propositadamente, não me refiro aos pecados capitais nem às virtudes teologais numa sociedade distanciada   das religiões. Seria prégar no deserto para as pedras ou nas margens do Adriático para os peixes de Santo António. Uma sociedade laicizada precisa de uma Moral e de uma Ética laicas, não de conceitos gnósticos que não prossegue ou que até persegue. Por isso me restrinjo à inveja cujo desaparecimento nós, os filhos dos ventos cálidos, não conseguimos banir.

E também não conseguimos afirmar uma base comum de conveniência que servisse todo o leque de alternativas de bem comum, a de fazer o bem sem olhar a quem.

- O que é que eu posso fazer a teu favor sem o prejudicar a ele, esse terceiro ausente?

- O que é que nós podemos fazer por vós sem os prejudicar a eles, esses que nem sequer conhecemos?

Numa sociedade laica não interessa saber se foi Buda ou Cristo que disseram aquilo; o mal foi não termos sido nós a dizê-lo e a praticá-lo. Pelo contrário, fomos nós que deixámos que as gerações seguintes à nossa se empenhassem no “carpe diem”, elevassem o ter em prejuízo do ser, se entregassem ao hedonismo.

Apesar de tudo, ainda preservámos o conceito do Bem em torno de algo como a compaixão, a tolerância, a concórdia…

Mas há mais…

 

(continua)

 

Maio de 2019

 

                       Henrique Salles da Fonseca

NÓS, OS FILHOS DOS VENTOS CÁLIDOS - 1

 

Se Graham Greene intitulou de «O Poder e a Glória» a sua história de um Padre em fuga pelas serras mexicanas até ao martírio às mãos dos jacobinos, como haveremos nós, os filhos dos ventos cálidos, de ser chamados se nascemos na paz e fomos criados no sonho?

Nós, quem? A geração de 1945 e suas redondezas. Onde? Um pouco por toda a parte, tanto em cenários poupados como nos martirizados até então. Porque mesmo nos poupados, as sequelas se fizeram sentir, os nossos pais também sentiram incómodos. E quando estes deram sinais de acalmia, puderam respirar de alívio e nós nascemos. Sim, nós nascemos porque eles acharam que o mundo ia passar a ser um local aprazível em que o sonho voltaria a ser possível. Foi nessa certeza de um mundo benigno que fomos educados. Ou enganados? Ruiu o sonho ou foi este que assumiu outros figurinos?

Os nossos pais tinham assistido ao conflito duma “raça superior” contra os “energúmenos” numa luta “de cima para baixo” que não hesitou em esmagar, sufocar e cremar os outros em defesa da “pureza” da sua própria identidade – política hedionda que teve o apropriado castigo militar. Castigo este que em Nuremberg abriu as portas à esperança.

Mas… (e lá vem o tal «mas» que nunca se fica a rir sozinho)… mas logo foi substituída por outra mentira tão hedionda quanto a anterior, a luta “de baixo para cima” em nome dos mais fracos mas que rapidamente se perdeu em chacinas por esses goulags Sibérias além… foi em seu nome que o Inferno regressou mascarado da propagada necessária à mistificação das maiores falsidades e vilanias.

E assim foi que em nome do “quero tudo e já” que todos foram imediatamente esbulhados de tudo e passaram a um regime de trabalho forçado, frustrante e tantas vezes inútil se não mesmo perverso que só se poderia equiparar a escravatura. E foi quase metade da Humanidade a ficar-lhe sujeita.

O problema da minha geração foi ode ter sido parcialmente vítima dessa vilania.

(continua)

Maio de 2019

Henrique Salles da Fonseca

AMBLIOPIA - 3

 

 

Foi Karl Popper, o filósofo das Ciências do séc. XX, que me ensinou algumas coisas sobre música. Por exemplo:

Contraponto – trata-se duma melodia secundária que, em harmonia com a principal, lhe produz um complemento agradável ao ouvinte;

Baixo contínuo – trata-se de acompanhamento harmónico relativamente à melodia principal (e única) cujo objectivo é o de dar volume sonoro ao conjunto da obra (sem que tenha de constituir melodia).

Mas há mais: o ritmo de tudo isto tem que ser o mesmo.

                                      ***

Foi na minha juventude que alguém me ofereceu um busto miniatura de Robert Schumann e logo a minha mãe me disse que as obras tardias dele revelavam os problemas mentais de que acabou por ser vítima. Guardei a informação e deixei passar sessenta anos, até que há dias me ofereceram a integral das suas sinfonias.

Trata-se de quatro sinfonias que nos são apresentadas pela ordem de edição, não pela cronologia da composição. Assim, a que nos é apresentada como sendo a Nº 1 é mesmo a primeira, mas já a Nº 2 corresponde á terceira, a Nº 3 é a quarta e a que nos é apresentada como sendo a Nº 4, é afinal a segunda.

Foi, portanto, com especial atenção que ouvi a mais tardia (Nº 3= a 4ª) para constatar, logo nos primeiros compassos, do primeiro andamento, que metade da orquestra executa a melodia principal num determinado ritmo e que a outra metade cumpre um ritmo completamente desgarrado.

A pouco e pouco, as duas metades da orquestra adoptam o mesmo ritmo, tudo entra nos conformes e pode-se dizer que a obra acaba em beleza.

A minha mãe tinha razão e Karl Popper também.

Estou a lembrar-me de Clara, a mulher do compositor, ela também compositora, que deve ter tido uma vida bem difícil e cuja obra vou agora procurar. Depois conto…

NOTA FINAL – à 4ª vez que ouvi, a sensação de desconforto foi grandemente reduzida e creio que posso cingir o problema às entradas dos tímbalos que poderiam ser mais discretas ou mais oportunas; mas ao longo de toda a obra se nota algo que «não bate» completamente certo.

Maio de 2019

                             Henrique Salles da Fonseca

Ambliopia - 2

                            

 

                                                       ANTANHA TUPI

 

Wagner, Mahler, Strauss (o alemão, o sério, o Richard, não os valsantes), Schönberg – todos iguais, todos diferentes. Inconfundíveis, mas cada um a fazer-me lembrar os outros. Sonoridades não longínquas, acordes e dissonâncias, todas primas e primos uns dos outros. Só os dramas os distinguem na mesma saga a que o neto da avó tupi se referiu ao chegar a Nova Yorque para o auto exilio a que se votou, Thomas Mann, dizendo “onde eu estiver, está a Cultura Alemã”.

Wagner e a mitologia germânica trazida à boca de cena para o refulgir da glória dos hiperbóreos – debalde, o Kaiser caiu; Mahler e as convulsões sócio- politicas da aproximação da decadência austro-húngara, o bluff a chegar ao fim e nem a “Canção da Terra” levou aquela gente a pôr os pés no chão e a perceber que o mundo já não era aquele em que ainda se imaginavam; Strauss, o compositor do infinito, aquele que em desespero, faz a flauta trinar no final da última das quatro canções, a dizer que a vida continua para além da morte…

…da morte da própria da Nação Alemã.

Schönberg, a confirmar que havia esperança na ressurreição, um halo do passado sobre o futuro que se abria…

Segue-se Alban Berg mas esse, atonal, está noutra escola, numa sonoridade com que a avó de Thomas Mann nada tinha a ver. E com os outros também não.

 

Maio de 2019

Henrique Salles da Fonseca

 

 

AMBLIOPIA -1

                        

Ambliopia- Fraqueza da visão

“Com bolor” - terá sido para criar bolor que Mário da Sá Carneiro se retirou quando decidiu fugir do mundo.

Mas ele fê-lo voluntariamente num processo de abandono que o conduziu ao triste fim parisiense.

Eu, não! Fui involuntariamente conduzido a um retiro, não deixo que o bolor apareça. Então, não podendo estudar, conduzir nem montar a cavalo, ouço música. E como a tenho posto em dia ao fim de anos de silêncio…

Então, recordo coisas que já arquivara. Por exemplo, uma gravação da 9ª sinfonia de Mahler com o Karajan e a Filarmónica de Berlim de que não gosto e de que nunca gostei desde a primeira vez que a ouvi. Só que agora, com o tempo, fui tentar perceber por que é que não gosto da dita interpretação. E percebi que se trata de uma obra em Ré menor que ali está numa tonalidade diferente. E se as dúvidas me tivessem surgido de modo mais suave (o Karajan e a Filarmónica de Berlim a desafinarem?), não teria tido o cuidado de confrontar a dita desafinação com outra interpretação da mesma 9ª de Mahler pela Sinfónica de Chicago, sob a regência de Georg Solti. E a conclusão é a de que Solti tem a orquestra na afinação correcta, a sua interpretação é magnifica e a obra é mesmo sublime.

Assim, o que se poderá ter passado com Karajan?

Só encontro uma de duas hipóteses:

  1. Ou o diapasão ao serviço de Karajan estava marado;
  2. Ou era mesmo o Karajan que estava marado

Mas não me deixei ficar nas encolhas da ignorância e fui perguntar a quem sabe mais do que eu…

Fiquei a saber que desde a segunda guerra mundial, a tendência é de subir a afinação geral das orquestras para lhes dar mais brilhantismo. O resultado é o de haver quem já ande a tocar quase meio tom acima do que seria normal. Isso faz com que uma nota normal soe como sustenido e este se passe para a nota seguinte na escala cromática e assim sucessivamente, naquilo que tenho como cataclismo musical.

Não teria Karajan feito bem melhor se tivesse verificado a qualidade do diapasão, que deve ter comprado numa loja chinesa?

Ou será uma afinação nazi?

O meu leitor que escolha mas poupe os seus ouvidos à gravação que claramente denuncio como uma fraude karajânica.

 

Maio de 2019

Henrique Salles da Fonseca

GUESS THE CHESS

 

 

  • Se os EUA tributarem as suas importações da China (RP), ficando lá as empresas ocidentais necessárias ao abastecimento dos mercados asiáticos, o sorriso regressa a Detroit.
  • Se o Ocidente assegurar a defesa de Taiwan, a China (RP) não absorverá a pequena ilha porque sabe que as suas próprias Forças Armadas mais não são do que uma fachada de majorettes para impressionar o mundo pelo número e para cumprir a política marxista do pleno emprego.
  • Se os EUA mantiverem a actual autonomia energética, a Líbia poderá regressar à paz sob a égide do Marechal Kalifa, a ENI integrar-se-á nos interesses do novo Estado Líbio, a Máfia italiana sofrerá um rude golpe a Irmandade Muçulmana abandonará Trípoli e a invasão muçulmana da Europa sofrerá um golpe; a Total manterá a aposta no «cavalo certo».
  • Se o Ocidente apostar na constituição do Kurdistão limitado ao norte da Síria e do Iraque (sem bular com a Turquia nem com o Irão), a paz regressará a toda a região e os Petrodólares poderão voltar a fluir.
  • Se o Ocidente se deixar de «arabices primaveris» e ajudar os militares a constituírem regimes laicos, a revolução muçulmana poderá finalmente assumir a grande vocação feminina que há tanto tempo espera por algum incentivo.
  • Se o Ocidente reconhecer a Crimeia como território genuinamente russo, Putin poderá então dedicar-se mais plenamente ao combate à Máfia que o atropela tanto a ele como a toda a Rússia e a própria transparência dos mercados internacionais.

 

Resta saber se saberemos viver num mundo em que

  • A Rússia deixe de estar encharcada em wodka
  • A mulher muçulmana assuma finalmente um papel de dignidade mínina
  • O Brasil deixe de ser terra de gatunos
  • A China (RP) se revele como o bluff que tem sido.

 

Maio de 2019

Henrique Salles da Fonseca

EPIFANIA JOYCEANA

 

ou

SINAIS EXTERIORES DE RELIGIÃO

 

 

Foi James Joyce que me chamou a atenção para a beleza de tentarmos captar a essência dos locais, aquilo a que ele chamava a «epifania dos locais» e eu passei a chamar a «epifania joyceana».

Para tal, sem transcendências, há que lhes conhecer a história, saber minimamente o que por ali se passou e, depois, no local propriamente dito, imaginar os cenários envolventes desses acontecimentos. Poeticamente, há que ler a história que as pedras tenham para nos contar.

E é isso que faço amiúde nos locais mais vulgares assim como noutros, menos banais. Sem ensaios de mediunidade, imagino as cenas que se passaram em gerações anteriores nos locais que habito ou nas ruas que me são frequentes mas em lugares especiais não deixo de me sensibilizar por figuras especiais. Por exemplo, na minha rota dos Apóstolos.

O Apóstolo S. Tiago Menor, também conhecido por S. Jaime, dito irmão de Cristo (ou em Cristo?), foi o primeiro Bispo de Jerusalém e teve que negociar a nova Doutrina com os prosélitos do Antigo Testamento. Isso deu-lhe uma firmeza doutrinal que os sacerdotes do Templo não estavam preparados para encarar com bonomia e, incitadas as massas, foi S. Jaime atirado do topo das muralhas de Jerusalém despedaçando-se no local em que os homens de boa vontade lhe fizeram o túmulo.

Desconheço que provas arqueológicas existam que confirmem o local como o do túmulo do Apóstolo mas não me preocupei com a hipótese de reescrever a História e foi ali mesmo que imaginei S. Jaime, a sua vivência mais diplomático-turbulenta e imaginei, invocando-o mentalmente, na fase de transição para a vida eterna naquele mesmo lajedo. Não senti que o Apóstolo me enviasse alguma bênção pessoal mas senti-me bem só de o imaginar.

A minha primeira relação geográfica com S. Paulo foi na gruta a que ele se terá recolhido após o naufrágio em Malta mas a quantidade de visitantes e a estreiteza do local não foram propícios a qualquer invocação. Deixei passar… e fui encontrar-me com ele em Éfeso, no teatro romano em que ele se dirigiu aos gentios e em que lhes terá dito que «se Cristo não ressuscitou, então a nossa fé é vã».

Não sei ao certo se foi isso que ele começou por dizer ali e que depois repetiu na segunda carta aos romanos (ou aos efesos?) mas foi dessa passagem que me lembrei quando pisei a laje central do palco do teatro, precisamente a mesma (espero bem que aquela mesma e não outra que os arqueólogos lá tenham posto entretanto) sobre a qual ele falou. Também ali não senti nenhuma bênção especial mas senti-me bem apesar de a minha relação com S. Paulo nem sempre ser tão pacífica como eu gostaria. Mas isso fica para outro escrito.

Deixei passar uns tempos – e uns templos – e fui ao Sul da Índia, ao Estado do Tamil Nadu.

Madurai, onde foi martirizado S. João de Brito cuja igreja não estava na rota da agência de viagens. Duvido mesmo que os agentes turísticos portugueses saibam da existência daquele nosso mártire e que assim passem em falso não só uma parte importante da História da Igreja na Índia como também da própria História de Portugal. Mas quem sou eu para me estar a meter na vida de quem sabe tudo, os agentes de viagens?

 

Mas um pouco mais a Norte, a sete horas de autocarro, em Meliapor, a Basílica do Apóstolo S. Tomé, sim, estava na rota turística.

Começo por dizer que os ingleses chamam Tomás a Tomé daí gerando uma confusão histórica medonha entre o Apóstolo e o Santo que viveu mais de não sei quantos séculos depois. Qualquer minudencia histórica como uma diferença de 12 séculos. Só!

Mas eu não os confundi e sabia muito bem na presença de quem estava, na do Apóstolo S. Tomé, o do «ver para crer». E visitei a sua capela no subsolo da actual basílica. Apesar duma breve invocação, também não senti receber alguma benesse especial mas senti-me bem. O mais sensível, foi, contudo, à saída da capela quando por acaso me virei para uma determinada parede e reparei numa lápide onde se informava os leitores da dita cuja que aquela capela fora reaberta ao público uns quantos anos antes (poucos, pareceu-me então) numa cerimónia presidida por um hierarca – Bispo ou Arcebispo – da Igreja Portuguesa cujo nome entretanto esqueci.

E logo voltei a invocar o Apóstolo para que a Igreja Indiana retome em Goa, em Damão, em Diu, em Chennai, em Baçaim e mais não sei onde uma celebração eucarística semanal em língua português para reaproximar os fiéis da sua Igreja estaminal. Mas como o Apóstolo não me enviou qualquer mensagem de volta, peço agora aqui a algum responsável indiano pela fé católica industânica que não se esqueça de que fomos nós, portugueses, que lhes levámos a sua fé e não os anglófonos em que actualmente celebram.

Todas estas histórias são muito primárias ou mesmo nulas em relação ao misticismo e mais não são do que os meus sinais exteriores de religião. Mas eu gosto deles.

Felizes aqueles que têm uma fé.

Maio de 2019

Henrique Salles da Fonseca

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