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A bem da Nação

ARÁBIA FELIX – 7

 

S. Joaquim e Stª Ana.png

VALHA-NOS S. JOAQUIM!!!

 

É da religião que deriva a moral e é desta que resulta a ética. Religião, moral e ética definem as bases de uma qualquer Civilização.

 

Para conhecermos uma Nação, temos que saber qual a Civilização nela predominante.

 

O Ibadismo é a religião predominante em Omã. Desconheço o que daí resulte em moralidade e ética mas eles lá se vão entendendo pelo que admito que a «coisa» funcione. Não há-de ser muito diferente do que se vê nas outras vertentes islâmicas. Será?

 

Do ponto de vista teológico, os ibadistas rejeitam a interpretação literal do Corão, a representação antropomórfica de Alá e negam a possibilidade de O verem tanto nesta vida como no Além.

 

Fui buscar estas informações à Internet e calo os comentários que me possam ocorrer devido à escassez da informação mas não gosto muito dessa hipótese de no Além não nos podermos sentar junto do Pai. Caramba, pelo menos, de pé.

 

O Ibadismo foi fundado por 'Abd Allah ibn-Ibad em Bassorá (actual Iraque) por volta de 680 d.C. como um grupo moderado que se opunha à rebelião armada e aos assassinatos políticos, estando dispostos a viver em harmonia com os outros muçulmanos.

 

O vídeo seguinte pode dar uma ajuda no conhecimento do Ibadismo:

https://vimeo.com/112047896

 

Não informado localmente destas particularidades, visitei a mesquita (linda, imponente) de Mascate e não notei qualquer diferença para as outras mesquitas que conheço, sunitas.

 

Mas foi preciso chegar a Salalah para que me enchesse de espanto ao constatar que o Profeta Nabi Imran– sepultado naquela cidade - é, nem mais nem menos, o nosso S. Joaquim, pai da Virgem Maria a quem todos os muçulmanos chamam Miriam.

Túmulo de S. Joaquim-Salalah.png

 

Trata-se de túmulo com 30 metros de comprimento e, perguntados, não me souberam (quiseram?) responder por quê tanto metro. Só posso concluir que se trata duma expressão de respeito por parte de quem arquitectou tal monumento fúnebre. Será?

 

E assim foi que passei a saber que a Issa (Jesus) e a Miriam (Nossa Senhora) se junta também Nabi Imran (S. Joaquim) como divindades nossas que, afinal, também são deles.

 

Espero continuar a aprender…

 

(continua)

 

Março de 2019

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Henrique Salles da Fonseca

(algures em Omã)

ARÁBIA FELIX – 6

 

 مسقط

 

O que está ali em cima escrito e que o meu leitor não descortina é o nome da capital do Sultanato de Omã, Mascate, a que actualmente há quem chame Muscat. Mas isto é a corruptela inglesa do nome original, o que nós, portugueses, trouxemos para a escrita em caracteres latinos nos idos de 1500 da nossa era. Sim, há situações em que os ingleses lêem o «u» como «â» e, consequentemente, vice-versa também. Eis como ao nosso som «mas» eles acabaram por copiar na escrita como «mus» e eternizaram o erro.

 

Enfim, desculpemos os tradutores britânicos que por certo seriam bons artilheiros mas que deveriam saber muito pouco de etimologia.

 

Portanto, pondo um ponto final na discussão etimológica, a capital do Sultanato de Omã chama-se Mascate, seja qual for o tipo de caracteres utilizado. Confesso que não fui investigar como se escreve em hindi nem sequer em chinês simplificado. Mas admire-se o meu leitor de que haja por essas bandas outras ou ainda piores corruptelas…

 

E foi a Mascate que aportámos depois de uma noite de navegação desde que zarpámos de Khasab[i] na Península de Musandam, exclave omanita na margem sunita do Estreito de Ormuz.

 

É em Mascate que reina o Sultão Kaboos, um autêntico «rei do petróleo». E falar dele é contar um pouco da história omanita das últimas décadas.

 

Qaboos ibn Sa’id Al ‘Bu Sa’id (nascido em Salalah a 18 de Novembro de 1940) é Sultão desde 1970 quando, a 23 de Julho, por golpe de Estado, depôs o seu próprio pai.

 

Como Sultão, detém, em conformidade com a tradição regional, o poder absoluto. Acumula os cargos de Chefe do Estado, de Primeiro Ministro, Ministro dos Negócios Estrangeiros, Ministro da Defesa e de Ministro das Finanças. Apesar da sua riqueza e poder, é considerado geralmente como autor de uma política moderada. Conhecido por ser um mãos largas (a que eufemisticamente se chama «desinteressado e generoso»), é-lhe creditada uma firme política anti-terrorista (é seguidor do Ibadismo que é diferente do Sunismo e do Xiismo).

 

O primeiro problema que Qaboos teve que enfrentar após assumir o poder foi uma incursão comunista armada do Iémen do Sul que derrotou rapidamente com escassa ajuda externa.

 

Governando com mão de ferro, desde há alguns anos tem dado passos no sentido de alguma democracia, nomeadamente com eleições parlamentares nas quais as mulheres podem votar e ser até candidatas.

Qaboos.png

- Legislem à vossa vontade mas a decisão final é minha.

 

Contudo, é grande a apreensão dos súbditos porque não se lhe conhece mulher (os comentários são emitidos sem grande contenção mas com muitos subentendidos) e, portanto, que se saiba, o trato sucessivo não está assegurado. Diz-se que há uma determinação de que ao terceiro dia após a sua morte, o Conselho de Família deverá abrir o cofre em que se encontra guardado o documento no qual ele próprio designa o seu sucessor. Quem será? Aguentar-se-á no «balanço»? Mistérios que ensombram o futuro de Omã como Sultanato.

 

Não nos esqueçamos de que a estabilidade política deste Estado não é «coisa» menor pois que se trata de um muito importante exportador de petróleo. E nem vale a pena buscar mais argumentos para explicar o perigo que por ali paira. E o homem já não é criança nenhuma.

 

Uma curiosidade não despicienda: o Rial (dividido em mil sub-unidades) é actualmente a moeda mais poderosa no planeta pois vale cerca de US$ 3,00 e de € 2,50. Imagine-se o que será comprar um Rial de pevides…

 

(continua)

 

Março de 2019

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Henrique Salles da Fonseca

(frente à mesquita de Khasab)

 

[i] - Khasab é um lugarejo sobre que me eximo de escrever

ARÁBIA FELIX – 5

 

Zarpando do Dubai um pouco antes da meia noite, navegámos lentamente contra uma ondulação que nos fez afocinhar mais do que o desejado por muitos dos nossos companheiros de viagem e acordámos atracados a Khasab, no exclave omanita na Península de Musandam, o mesmo é dizer que na margem árabe do Estreito de Ormuz.

 

Dizem os folhetos turísticos que se trata dos «fiordes» de Omã mas… vou ali e já venho. Sim, há penhascos que descem quase na vertical até ao mar mas nada da imponência norueguesa. Também nada que tenha impedido a construção das estradas por que circulámos confortavelmente. Sinuosas, sim, mas nada que assuste turistas experientes em alturas e planuras.

 

E qual não foi o meu espanto quando o passeio matinal tinha (e teve) como objectivo a visita a um forte português numa das praias a que hoje se acede com facilidade mas que no século XVI só se alcançaria por mar ou pelos penhascos que ainda lá estão.

Khazab-Omã-forte português.jpg

 

Então, o mais curioso é que a parte mais «forte» do forte é a que está virada para terra já que do mar não esperavam os portugueses qualquer perigo.

 

Foi com alguma emoção que constatei o respeito com que em Omã se referem aos portugueses e ao esmero com que preservam a nossa memória edificada.

 

Perguntado sobre outras memórias da presença portuguesa, o nosso guia (um dos vários egípcios que para ali foram depois de o turismo ter caído a pique no seu país devido à instabilidade provocada pela Irmandade Muçulmana) referiu que há diversas localidades na região de Musandam e algumas ilhas no Estreito cujos habitantes – maioritariamente pescadores - se dizem portugueses e que falam um dialecto próprio.

 

Talvez um dia haja um operador turístico que se preocupe com este género de ocorrências históricas e proporcione visitas a estes (e outros) «portugueses abandonados». Talvez…

 

(continua)

 

Março de 2019

Forte português de Khazab-Omã.jpg

Henrique Salles da Fonseca

(no forte português de Khasab, Omã)

ARÁBIA FELIX – 4

 

«Gargara», é a única palavra em língua urdu que conheço e significa algo como «ondulante». Pelo menos, foi esse o sentido da conversa que nos fez um dos condutores do rally amalucado pelas dunas do deserto dubaiano. Logo me lembrei de «gargarejo» que também é algo de sonoridade ondulante. E isso vem de «garganta». Quanta da etimologia resulta das malhas tecidas pelos Impérios…

 

E porquê urdu no Dubai? Porque é a tal questão da nacionalidade. Quem assim falou já nasceu no Dubai mas, não sendo filho de nacionais do Emirato, não conseguirá alguma vez na vida adquirir a nacionalidade. Mas se se casar com uma mulher que também lá tenha nascido, então os filhos comuns poderão ser admitidos no grupo restrito dos nacionais dubaianos. Deste modo, aquela família, não conseguindo adquirir a nacionalidade local, não teve até agora motivos para cortar com a cultura de origem e mantém a língua dos respectivos antepassados que, neste caso, é o urdu.

 

E também são muçulmanos, perguntei. Que sim mas nem mesmo assim conseguem a nacionalidade. E se vierem a ser pais de crianças com a nacionalidade? Nada feito. Serão pais de dubaianos mas disso não passarão.

 

Realmente, pensando melhor, se o Emir quiser manter as rédeas firmes do poder, não poderá deixar muitos forasteiros aderirem à nacionalidade sob pena de, a partir de certa altura, o Emirato passar a ser dominado por quem pensa como estrangeiro e os autóctones genuínos, árabes, perderem a exclusividade da Nação. Não esquecer que isto é um regime monárquico ditatorial em que a «abertura» política se limitou a promover a constituição de um Conselho Consultivo do Emir que este consulta se e quando quer e a quem não confere qualquer poder decisório.

 

Segue-se uma particularidade: os funcionários públicos têm a obrigação de vestir a indumentária típica do Emirato, ou seja, a Kandurah que é a túnica comprida usada pelos homens, geralmente branca mas que também pode ser bege, castanha e, raramente, preta; ao pano na cabeça chama-se Guthra e ao cordão que o segura na cabeça chama-se Agal.

Traje masculino típico do Dubai.png

 

E já que de início referi a Revolução Francesa, parece que aquela gente imita os «sans culotte». Em terras que podem aquecer até aos 50º Centígrados, sempre ficam mais arejados. E não repito os comentários que as excursionistas expenderam…

 

(continua)

 

Março de 2019

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Henrique Salles da Fonseca

(no topo do Dubai Burj Khalifa)

ARÁBIA FELIX – 3

DIÁRIO DE BORDO.png

UM QUASE DIÁRIO DE BORDO À MINHA MANEIRA

 

14/03/19, 05:08 - Vamos aportar a Salalah onde entrarão os snipers a bordo para nos protegerem na zona perigosa.

A "trincheira" que me está destinada é no casino, atrás duma slot machine. Eis por que associo pirataria a "Bally", o modelo da máquina.

Os snipers mandaram dizer ao Comandante do barco que ultimamente não tem havido pirataria e que com navios de cruzeiro nunca houve. Que talvez seja desta...

17:30 – Os snipers são 14 tunisinos e estão autorizados a atirar a matar TUDO o que vejam a mexer na água e de que desconfiem. Cruzei-me na escada do portaló com dois deles e garanto que NÃO será nos próximos dias que tenciono nadar à volta do navio. Desta vez opto pela piscina.

16/03/19, 20:15 - Frente a Djibuti, devemos passar o Estreito de Áden nas próximas horas. Até agora, sem problemas mas a rapaziada sniperiana tem infravermelhos para nos guardar a noite.

17/03/19, 08:25 - Em plena luz do dia (são 11,21 h da manhã), foram avistados 2 grupos de piratas que não se aproximaram para cá de uns 500 metros. Foi giro ver os vigilantes e os snipers a postos mas não chegámos a ser mandados para o interior do navio porque os putativos assaltantes se afastaram. E isto já no Mar Vermelho, não no Golfo de Áden que é a zona mais problemática.

12:11 - Tudo se esfumou...

Já o Almirante sem medo dizia "É só fumaça". Pode ser que logo à noite a "coisa" melhore.

14:14 - Até Aqaba, tudo pode acontecer. Só lá é que sairão os snipers.

18/03/19, 09:51 - MISTÉRIO

Pelas 3,30 h desta madrugada, calou-se de repente a música da discoteca e os foliões foram mandados "recolher a quartéis" SEM percorrerem os decks exteriores.

Eu dormia o sono próprio de quem tinha levado uma grande tareia (uma massagem forte ao corpo todo ministrado por uma filipina com 1,40 m de altura mas com uns polegares lancinantes).

Pela nesga duma cortina, houve quem percebesse que estávamos acompanhados por outro navio e que ambos estávamos parados, apenas com os motores em ponto morto.

A Graça ouviu barulhos (que não identificou) contra o casco.

E eu dormia... Que pena! Perdi toda a adrenalina correspondente a tal mistério. A ver se alguém da tripulação solta a língua... Se sim, contarei.

15:49 - Navegamos agora frente a Djedah, o mesmo é dizer Meca. Eis por que me lembrei da expressão "se a montanha não vai a Maomé, vai Maomé à montanha". Assim, não sabendo ainda o que se passou a noite passada, vou agora mesmo à procura dos vigilantes e dos snipers para lhes perguntar. Devem estar no deck 8, o que coincide com o do bar. Melhor porque en passant... molha-se a palavra.

19/03/19, 07:10 - Pelas 4 da manhã, fui acordado por um cheiro forte que circulava pelo ar condicionado. Parecia cheiro a combustível. No nosso deck, só há camarotes exteriores mas os janelões (enormes) são fixos, não se podem abrir. Fui ao corredor tentar averiguar qualquer coisa e encontrei um membro da tripulação que andava de nariz no ar a fazer tanto como eu.

Deixei ficar a porta do camarote aberta para o caso de termos que sair à pressa mas, passada uma meia hora, o cheiro desvaneceu-se e desapareceu.

Eis como se mata uma quantidade enorme de gente adormecida se no sistema de ar condicionado algum danado puser um gaz letal.

Vou pedir uma explicação ao Comandante.

08:42 - O Comandante disse que tinham estado a pintar uma sala interior e que o cheiro vinha daí. Mandei dizer que o cheiro era de fuel, não de tintas.

Pediram desculpa e garantiram que a coisa não voltaria a acontecer.

É o que se vai ver...

20:20 - Há duas noites, o barco parou e houve barulhos que a Graça não conseguiu identificar. Soubemos hoje que estavam à nossa frente 3 ou 4 barcos suspeitos. Com os snipers devidamente a postos, o Comandante mandou fazer alto para ver no que a "coisa" dava.

Deu que os ditos suspeitos saíram da nossa rota para distâncias consideradas seguras e passámos sem mais histórias.

Já lá vão quase 48 horas e eu só tenho pena de ter passado por tudo isto sem me aperceber de nada.

20/03/19, 18:56 - Hoje de manhã, quando acordámos, estávamos atracados em Aqaba, extremo Sul da Jordânia.

Desembarcámos e encamionetámos numa viagem de 2 horas até Petra. Paisagem que me deixou na dúvida entre a Lua e Marte. E, mesmo assim, há quem tente a agricultura. Porquê? Porque não devem saber fazer mais nada.

Pergunta: Como é possível que a moeda jordana, o Dinar, valha US$ 1.50?

Resposta: Aldra! Valor determinado por Decreto, não pelas forças naturais da Economia.

Contarei mais quando chegar a casa.

Zarpamos hoje para - não sei bem quando - passarmos frente a Sharm el Sheik, extremo Sul da Península do Sinai, para nos fazermos de seguida ao Canal do Suez.

21/03/19, 10:56 - Estamos sentados no convés da popa a fugir do vento que sopra pela proa. A nascente (estibordo), as ondas do Golfo do Suez; a poente, a costa africana do Egipto.

A velhota baixinha sentou-se perto de nós, ao meu lado, pôs os pés em cima da banqueta que tinha à frente e ficou a olhar para o mar que foge por baixo de nós. Fez-me lembrar a minha Professora de geografia que no liceu nos falou dos tubarões que infestavam o Mar Vermelho e o Suez durante a viagem que fizera de Goa para Lisboa.

Cheguei-me à amurada e só vi água.

Virei-me para ela e disse-lhe em castelhano (a maior parte dos passageiros são espanhóis) e depois em inglês que não havia tubarões.

Não respondeu nem sequer acenou um cumprimento.

Deixei passar. Ou é superior e não me considera merecedor de conversa ou é apenas malcriada.

Daí a pouco, aproxima-se outra velhota e gesticula qualquer coisa que não entendi.

Realmente, nunca aprendi língua gestual, não consigo comunicar com surdo-mudos.

22/03/19, 21:27 - Demorámos 12 horas a percorrer o Canal de Suez no que foi um percurso interessantíssimo. Durante a parte desértica, chama a atenção uma linha verde paralela a ambas as margens que é claramente uma tentativa de combate ao deserto. Essa linha avista-se nitidamente mesmo em zonas onde nada mais existe. Mas na margem ocidental, a africana, sempre vão aparecendo povoações - umas pequenas e outras de certa dimensão. Nessa margem, a partir de certa altura, tudo passa a verde e a agricultura mostra-se pujante. É o delta do Nilo.

Na margem asiática, a do Sinai, a tal linha verde é contínua duma ponta à outra do Canal e o volume fantástico de obras em curso não a bule. Devem ser umas quantas cidades que vimos em plena construção para milhares e milhares de pessoas. Algumas delas são de vocação turística mas noutras vê-se pessoal da Engenharia Militar a trabalhar. Aqui no barco não encontrei quem me explicasse nada. A enorme ponte (parece a de VRSanto António) por baixo da qual passámos ainda não está inaugurada.

Seja o que for que esteja em construção, é muito grande e destinado a um desenvolvimento significativo do Sinai. Se tudo aquilo for agricolamente acompanhado com a equivalente dessalinização da água, admito que o futuro do Egipto seja risonho e que a malta passe a ter mais que fazer do que pensar em terrorismo.

Inch Allah!!!

23/03/19, 09:32 - Deixarei para mais tarde algumas reflexões que me ocorreram durante esta viagem que se aproxima do fim à velocidade de cerca de 15 nós.

Têm essas reflexões tudo a ver com as duas forças que se debatem nesta zona do mundo, a religiosa e a laica. Mas o conflito não é novo nem dá sinais de extinção imediata pelo que as minhas confabulações podem esperar mais uns dias.

Entretanto, para aligeirar um bocado a tensão provocada pela iminência pirática, fui à biblioteca do barco e meti-me por um romance de André Maurois (que não tive paciência para ler totalmente) mas donde tirei uma informação que chamou a minha curiosidade sócio histórica: "Foi pelas partes baixas de Luís XV que Mlle. Poisson foi alcandorada a Marquise de Pompadour".

Lembrei-me então de que a famosa loja lisboeta de roupa interior ostentando o título da Marquesa, se poderia, em alternativa e muito apropriadamente, chamar "La poissonnerie".

21:08 - Rumo ao Pireu (porto de Atenas), hoje à tarde passámos entre Rodes e Creta com tempo farrusco.

A caminho do restaurante, parecia que íamos grossos mas não chegámos a agarrar-nos às paredes. Não tínhamos bebido mas o mar quis dizer que estava lá em baixo.

Já sabemos que vai ser assim toda a noite e que só depois de passarmos o Cabo Sunion e entrando no Egeu é que a "coisa" vai serenar. Depois digo.

Para já, a festa continua com um concurso de sevilhanas que está animadíssimo.

Amanhã, logo pelas 7 da matina entramos pela terra de Péricles a dentro.

24/03/19, 12:13 – A viagem continua por outros bordos – os do barco ficaram no Pireu - e agora estamos a fazer horas no aeroporto de Atenas. Vá de petiscar uma moussaka e beber um copo ligeiro porque as bebidas fortes me fazem caspa.

No check in não me encontravam o lugar porque alguém nos ofereceu o upgrade. E num cruzeiro sem classes, já nos tinham feito upgrade na vinda. No barco, o nosso camarote também tinha muita classe. Assim, até eu gosto de uma sociedade sem classes.

21:04 - Ficámos a dormir em Madrid, só seguimos amanhã. É para quebrar o stress da pirataria.

Jantámos no hotel apesar de haver vários restaurantes nas redondezas.

Entretanto, chegou um casal de cães "Terra Nova" que estão a caminho duma exposição no México. LINDOS!!! Pretos e enormes, docemente mansos. Na recepção do hotel perguntaram-me o que é que eu pensava: se seriam os cães a dormir nas camas e os donos a dormir na banheira ou o contrário. Respondi que os perritos merecem dormir nas camas; os donos (um casal já de meia idade) que durmam na banheira, na retrete ou no bidé. Como quieran.

 

Março de 2019

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Henrique Salles da Fonseca

(em Petra, Jordânia)

ARÁBIA FELIX – 2


HOLLYWOOD B



A questão que me coloco é a de saber se o Dubai é hoje uma réplica de Hollywood - não confundir com a inocente e lucrativa Bollywood de Bombaim - ou da Revolução Francesa.


De uma coisa, não tenho quaisquer dúvidas: aquilo nada tem a ver com a Arábia.

 

E se quanto à obra edificada, temos que reconhecer que tudo foi feito rapidamente e com grande euforia, há agora que perguntar como vai ser o futuro quando é sabido que a última gota de petróleo foi chupada há 6 meses.


Será o comércio suficiente para "segurar" todo aquele espalhafato?


Será o turismo capaz de financiar todo aquele estilo de vida?


Conseguirão os Serviços lato senso fundamentar um novo modelo de desenvolvimento?


Duvido da plausibilidade de cada uma e de todas as hipóteses anteriores e temo que do "bluff" se passe para um realismo abissalmente contrário ao cenário que mais nos agradaria, aos ocidentais.

 

E se algo desagradar aos ocidentais - sobretudo aos presenciais ou às interpostas pessoas - que "seguram" tudo aquilo e lhes parecer que o sonho acabou e corre o risco de se transformar em pesadelo, não faltará ocasião para se perguntarem para que lhes servem as pernas e procurem novas paragens.


Sem os ocidentais, o Dubai tende a regressar ao reino medieval que era até há bem pouco tempo.


E porquê tanto negativismo neste meu prognóstico? Porque o meu diagnóstico é breve: nada daquilo tem qualquer coisa a ver com a Civilização Islâmica e nem sequer com alternativas orientais.


Então, o meu leitor dirá que a China segurará o Dubai no dia seguinte ao abandono dos ocidentais.


E eu respondo: tomara a China segurar-se a si própria, quanto mais segurar outros; o desinvestimento externo chinês já começou, o castelo de cartas já treme.

 

Como dizia o céguinho, "a ver vamos..." mas, entretanto, fico muito céptico porque não vejo os súbditos (numa monarquia não há cidadãos mas sim súbditos) dubaianos a evoluírem no sentido de conseguirem substituir os ocidentais na componente produtiva da vida; na do consumo, sim, até nos ultrapassam.

 

Mas como nós sabemos por experiência própria, numa economia pouco produtiva (caso do Dubai depois de chupada a última gota de petróleo), o Consumo não é motor do desenvolvimento mas sim da bancarrota. Portanto, deveria haver um muito amplo debate sobre o novo modelo de desenvolvimento daquele Emirato. Só que a expressão "muito amplo debate" é típica de democracia e isso é coisa inexistente no Dubai.

 

Então, como dizia Karl Popper, "resta-lhes irem para o Inferno". E o "Inferno" muçulmano será por certo algo que se assemelhe à Revolução Francesa.

 

Eis como se fecham as portas de Hollywood e se afia a guilhotina.

 

Mas, por enquanto, tudo exibe pujança e dá gosto ver. E eles até mostram as fotos do antes e nós gostamos de ver o depois.


Os árabes chamam-se uma infinidade de nomes pois que "ibn" significa "filho" e eles ostentam a ascendência até quase ao Adão. Sim, claro, apenas a linha masculina. Perguntados, não me esclareceram de como se resolve o problema de quando a linha sucessória masculina de um «rei» é interrompida. Fiquei a crer que o problema é de resolução fácil: um golpito de Estado e ZÁS! Venha outro sem problemas no nome.

 

Sheik Mohammed.png

 

Mas este simplificou as coisas e reduziu tudo a Mohammed bin Rashid Al Maktoum o que, na prática, significa que ele tem Mohammed como nome próprio e que é filho de um tal Rashid da família Maktoum. Os Maktoum são há algumas gerações os donos daqueles areais que este transformou numa Hollywood nº 2 mas sem «woods» (pelo menos, por enquanto). Na intimidade, chamam-lhe apenas Sheikh Mohammed.

Nascido a 15 de julho de 1949, é desde 2006 também primeiro-ministro e vice-presidente dos Emirados Árabes Unidos. É dono de 99,67% da Dubai Holding.

 

Para saber mais, ver

https://pt.wikipedia.org/wiki/Mohammed_bin_Rashid_Al_Maktoum

 

Então, foi a partir da década de 90 que o boom se deu e das dunas se fizeram arranha-céus, marinas, o aeroporto, a dessanilização da abundante água do mar, o ajardinamento (mais do que a arborização), as super-avenidas, o novo canal que atravessa a cidade, a "little Venice", a "Palmeira" que é um conjunto de linhas de areia devidamente consolidadas pela engenharia holandesa onde o luxo impera em casas boas, muito boas, óptimas e fantásticas, hotéis de muitas estrelas e etc.


O Emir tinha como objectivo fazer construir também outra "Palmeira" com o quádruplo do tamanho desta que existe e que me pareceu enorme mas o projecto ficou no tinteiro por causa da crise de 2008. Entretanto, está em construção (pela engenharia holandesa) um arquipélago artificial de 360 ilhas representando o mapa-mundo. Cada ilha será vendida em bloco. Se algum dos meus leitores tiver por aí uns milhões de Dólares ou de Euros, não deixe fugir esta oportunidade de ... os perder nas salsas ondas do Golfo Arábico.

 

Mas nem tudo é fútil. Assim, o Dubai passou a ser um centro de treino de camelos de corrida (as corridas propriamente ditas - e respectivo filet mignon que são as apostas - fazem-se no Abu Dhabi onde ficam as massarocas) e num centro de criação de ónixes (primos menores das palancas angolanas) contando-se por cerca de uma dúzia de animais - e disse! Mas se houvesse mais animais, seria perigoso fazer os rallies completamente desvairados em que nos levaram pelas dunas. Aí, sim, a adrenalina soltou-se em grande e numa das breves paragens que fizemos, uma velhota (um mês mais velha que eu) brasileira dizia-me: - Jovem (o jovem era eu) isto está a mortificar todas as frustrações da minha vida.

 

Depois de vermos o pôr-do-Sol do alto daquela duna muito conhecida naquele deserto, descemos por ela a baixo e entrámos num acampamento de beduínos para jantarmos e vermos um espectáculo de folclore. À falta de «mounting block», não consegui subir para o camelo que estava ali mesmo à minha espera. E a velhota a chamar-me «jovem»… O cameleiro disse-me para eu pôr um joelho no flanco do dromedário mas eu não sei o que é isso de montar à joelhada, não quis magoar o bicho com um joelho pelas costelas a dentro e desisti. Fica para quando eu for mais novo.

 

Por aqui se vê a «gentileza» com que os animais são «acarinhados» pelos joelhos dos turistas e, pior, com o beneplácito e até incitamento dos cameleiros. Ou seja, não é por eu não saber falar árabe que não debato a filosofia kantiana nem a política monetária emiratiana com os cameleiros.

 

Contudo, do Dubai, o que levo de mais negativo é o machismo misógino dos fulanos que impõem às mulheres o uso de vestes tão abomináveis como as burkas e outras que tais. E não me venham cá dizer que são uma minoria; digam, sim, que são poucas no meio duma multidão estrangeira que não é muçulmana. Quase que passam despercebidas mas falta o quase para que desapareça a misoginia.

 

O que levo de mais positivo é a coordenação entre a embraiagem, o acelerador e o travão que o nosso condutor fazia durante o rally desvairado por aquelas dunas além…

 

Finalmente, a questão da nacionalidade. Não perca o meu leitor o seu tempo a pedir a nacionalidade dubaiana pois esta só é concedida a quem seja filho de pai e de mãe dubaianos de gema; se for filho de um só da gema e o outro da clara, não terá sorte nenhuma, mesmo que nascido no Dubai. Ser dubaiano é mister de honra rara. Por mim, dispenso.

 

Regressámos ao barco a horas decentes depois do jantar e do espectáculo e zarpámos antes da meia noite.

 

Continua no próximo capítulo.

 

Março de 2019

17-Dubai-dunas de corrida.jpg

Henrique Salles da Fonseca

(nas dunas de corrida)

ARÁBIA FELIX – 1


INTRODUÇÃO

Arábia-1.jpg

 

Saída pelas nuvens ralas de Lisboa rumo a Madrid onde almoçámos em Barajas à espera do vôo para o Dubai.


Vôo nocturno e chegada ao destino pela manhãzinha.


Sabíamos que toda a viagem seria de classe única mas coube-nos viajar em Executiva por alguma razão que não descortinámos. Terá sido a afabilidade habitual da Graça ou a respeitabilidade do meu bigode? Fica o mistério para que alguém o desvende.

Navio das Arábias.jpg


Encaminhados do aeroporto ao barco, o "Horizon Pullmantur" e devidamente instalados no nosso camarote (a meia nau, no deck do Comando), aí estamos nós a caminho da primeira "vuelta" (a organização é espanhola) finalizando com um rally e um jantar no deserto. Algumas curiosidades para contar. Não me deixem esquecer.

 

Zarpando já pela noite dentro, afocinhámos um pouco nas primeiras ondas do Golfo que desta banda lhe chamam Arábico (da outra, chamam-lhe Pérsico). Foi nos braços de Morfeu que as Senhoras cruzaram o Estreito de Ormuz (pareceria muito mal se se dissesse que nós, os homens, o tínhamos cruzado nos braços de Morfina).


Nasceu o dia atracado em Khazab, o primeiro "toque" no Sultanato de Omã. Muito que contar. Não me deixem esquecer.


Pela manhãzinha, chegámos a Mascate (a que os anglófonos chamaram Muscat por corruptela do que nos ouviam a nós, portugueses, pronunciar). "Vueltas y más vueltas", alguma coisa a contar. Não me deixem esquecer.


Estávamos a jantar quando vimos as luzes da cidade a fugir de vagarinho de um lado para o outro dos janelões do restaurante.


Navegámos dois dias até aportarmos a Salalah cujo nome adorei. Muito que contar. Não me deixem esquecer.


Seguiram-se cinco dias de pirataria... perdão, de navegação. Adrenalina e fiascos sucessivos. Não me deixem esquecer de vos contar.


Aqaba esperava por nós desde que o Lawrence a conquistou aos otomanos. Muito para vos contar. A ver se não me esqueço.


Retoma da navegação para conclusão do périplo da Península do Sinai, incluindo o Canal de Suez. Algumas coisitas para vos contar, não me deixem esquecer.

 

Travessia do Suez. Muitíssimo para contar, não me deixem esquecer.


Travessia do Mediterrâneo durante um dia e uma noite com tempo fanhoso. Se me esquecer, não será coisa de perigo.


Chegámos à terra do Péricles pela manhãzinha, desembarcámos, demos uma volta pela cidade "déjà vue" e rumámos ao aeroporto. Envionámos a horas, foi a horas que as rodas foram para o ar e aqui estou eu a escrever esta introdução porque os headphones estão de férias e os prelúdios de Chopin primam pelo silêncio.


Se tudo correr como previsto, chegaremos a Madrid pelas 17,50 h. locais.; se não, não.


Depois conto. Não me deixem esquecer.


Inté.

 

Março de 2019

Arábia-3.png

Henrique Salles da Fonseca

(Canal de Suez)

CARTA DE FERNANDO PESSOA A ADOLFO CASAIS MONTEIRO

 

Fernando Pessoa

Caixa Postal 147

Lisboa, 13 de Janeiro de 1935

 

Meu prezado Camarada:

 

Muito agradeço a sua carta, a que vou responder imediata e integralmente. Antes de, propriamente, começar, quero pedir-lhe desculpa de lhe escrever neste papel de cópia. Acabou-se-me o decente, é Domingo, e não posso arranjar outro. Mas mais vale, creio, o mau papel que o adiamento.

 

Em primeiro lugar, quero dizer-lhe que nunca eu veria «outras razões» em qualquer coisa que escrevesse, discordando, a meu respeito. Sou um dos poucos poetas portugueses que não decretou a sua própria infalibilidade, nem toma qualquer crítica, que se lhe faça, como um acto de lesa-divindade. Além disso, quaisquer que sejam os meus defeitos mentais, é nula em mim a tendência para a mania da perseguição. À parte isso, conheço já suficientemente a sua independência mental, que, se me é permitido dizê-lo, muito aprovo e louvo. Nunca me propus ser Mestre ou Chefe-Mestre, porque não sei ensinar, nem sei se teria que ensinar; Chefe, porque nem sei estrelar ovos. Não se preocupe, pois, em qualquer ocasião, com o que tenha que dizer a meu respeito. Não procuro caves nos andares nobres.

 

Concordo absolutamente consigo em que não foi feliz a estreia, que de mim mesmo fiz com um livro da natureza de «Mensagem». Sou, de facto, um nacionalista místico, um sebastianista racional. Mas sou, à parte isso, e até em contradição com isso, muitas outras coisas. E essas coisas, pela mesma natureza do livro, a «Mensagem» não as inclui.

 

Comecei por esse livro as minhas publicações pela simples razão de que foi o primeiro livro que consegui, não sei porquê, ter organizado e pronto. Como estava pronto, incitaram-me a que o publicasse: acedi. Nem o fiz, devo dizer, com os olhos postos no prémio possível do Secretariado, embora nisso não houvesse pecado intelectual de maior. O meu livro estava pronto em Setembro, e eu julgava, até, que não poderia concorrer ao prémio, pois ignorava que o prazo para entrega dos livros, que primitivamente fora até fim de Julho, fora alargado até ao fim de Outubro. Como, porém, em fim de Outubro já havia exemplares prontos da «Mensagem», fiz entrega dos que o Secretariado exigia. O livro estava exactamente nas condições (nacionalismo) de concorrer. Concorri.

 

Quando às vezes pensava na ordem de uma futura publicação de obras minhas, nunca um livro do género de «Mensagem» figurava em número um. Hesitava entre se deveria começar por um livro de versos grande — um livro de umas 350 páginas —, englobando as várias subpersonalidades de Fernando Pessoa ele mesmo, ou se deveria abrir com uma novela policiária, que ainda não consegui completar.

 

Concordo consigo, disse, em que não foi feliz a estreia, que de mim mesmo fiz, com a publicação de «Mensagem». Mas concordo com os factos que foi a melhor estreia que eu poderia fazer. Precisamente porque essa faceta — em certo modo secundária — da minha personalidade não tinha nunca sido suficientemente manifestada nas minhas colaborações em revistas (excepto no caso do Mar Português parte deste mesmo livro) — precisamente por isso convinha que ela aparecesse, e que aparecesse agora. Coincidiu, sem que eu o planeasse ou o premeditasse (sou incapaz de premeditação prática), com um dos momentos críticos (no sentido original da palavra) da remodelação do subconsciente nacional. O que fiz por acaso e se completou por conversa, fora exactamente talhado, com Esquadria e Compasso, pelo Grande Arquitecto.

 

(Interrompo. Não estou doido nem bêbado. Estou, porém, escrevendo directamente, tão depressa quanto a máquina mo permite, e vou-me servindo das expressões que me ocorrem, sem olhar a que literatura haja nelas. Suponha — e fará bem em supor, porque é verdade — que estou simplesmente falando consigo).

 

Respondo agora directamente às suas três perguntas:

(1) plano futuro da publicação das minhas obras,

(2) génese dos meus heterónimos, e

(3) ocultismo.

 

Feita, nas condições que lhe indiquei, a publicação da «Mensagem», que é uma manifestação unilateral, tenciono prosseguir da seguinte maneira. Estou agora completando uma versão inteiramente remodelada do Banqueiro Anarquista, essa deve estar pronta em breve e conto, desde que esteja pronta, publicá-la imediatamente. Se assim fizer, traduzo imediatamente esse escrito para inglês, e vou ver se o posso publicar em Inglaterra. Tal qual deve ficar, tem probabilidades europeias. (Não tome esta frase no sentido de Prémio Nobel imanente). Depois — e agora respondo propriamente à sua pergunta, que se reporta a poesia — tenciono, durante o verão, reunir o tal grande volume dos poemas pequenos do Fernando Pessoa ele mesmo, e ver se o consigo publicar em fins do ano em que estamos. Será esse o volume que o Casais Monteiro espera, e é esse que eu mesmo desejo que se faça. Esse, então, será as facetas todas, excepto a nacionalista, que «Mensagem» já manifestou.

 

Referi-me, como viu, ao Fernando Pessoa só. Não penso nada do Caeiro, do Ricardo Reis ou do Álvaro de Campos. Nada disso poderei fazer, no sentido de publicar, excepto quando (ver mais acima) me for dado o Prémio Nobel. E contudo — penso-o com tristeza — pus no Caeiro todo o meu poder de despersonalização dramática, pus em Ricardo Reis toda a minha disciplina mental, vestida da música que lhe é própria, pus em Álvaro de Campos toda a emoção que não dou nem a mim nem à vida. Pensar, meu querido Casais Monteiro, que todos estes têm que ser, na prática da publicação, preteridos pelo Fernando Pessoa, impuro e simples!

 

Creio que respondi à sua primeira pergunta.

 

Se fui omisso, diga em quê. Se puder responder, responderei. Mais planos não tenho, por enquanto. E, sabendo eu o que são e em que dão os meus planos, é caso para dizer, Graças a Deus!

 

Passo agora a responder à sua pergunta sobre a génese dos meus heterónimos. Vou ver se consigo responder-lhe completamente.

 

Começo pela parte psiquiátrica. A origem dos meus heterónimos é o fundo traço de histeria que existe em mim. Não sei se sou simplesmente histérico, se sou, mais propriamente, um histero-neurasténico. Tendo para esta segunda hipótese, porque há em mim fenómenos de abulia que a histeria, propriamente dita, não enquadra no registo dos seus sintomas. Seja como for, a origem mental dos meus heterónimos está na minha tendência orgânica e constante para a despersonalização e para a simulação. Estes fenómenos — felizmente para mim e para os outros — mentalizaram-se em mim; quero dizer, não se manifestam na minha vida prática, exterior e de contacto com outros; fazem explosão para dentro e vivo — os eu a sós comigo. Se eu fosse mulher — na mulher os fenómenos histéricos rompem em ataques e coisas parecidas — cada poema de Álvaro de Campos (o mais histericamente histérico de mim) seria um alarme para a vizinhança. Mas sou homem — e nos homens a histeria assume principalmente aspectos mentais; assim tudo acaba em silêncio e poesia...

 

Isto explica, tant bien que mal, a origem orgânica do meu heteronimismo. Vou agora fazer-lhe a história directa dos meus heterónimos. Começo por aqueles que morreram e de alguns dos quais já me não lembro — os que jazem perdidos no passado remoto da minha infância quase esquecida.

 

Desde criança tive a tendência para criar em meu torno um mundo fictício, de me cercar de amigos e conhecidos que nunca existiram. (Não sei, bem entendido, se realmente não existiram, ou se sou eu que não existo. Nestas coisas, como em todas, não devemos ser dogmáticos).

 

Desde que me conheço como sendo aquilo a que chamo «eu», me lembro de precisar mentalmente, em figura, movimentos, carácter e história, várias figuras irreais que eram para mim tão visíveis e minhas como as coisas daquilo a que chamamos, porventura abusivamente, a vida real. Esta tendência, que me vem desde que me lembro de ser um «eu», tem-me acompanhado sempre, mudando um pouco o tipo de música com que me encanta mas não alterando nunca a sua maneira de encantar.

 

Lembro, assim, o que me parece ter sido o meu primeiro heterónimo, ou, antes, o meu primeiro conhecido inexistente — um certo Chevalier de Pas dos meus seis anos, por quem escrevia cartas dele a mim mesmo e cuja figura, não inteiramente vaga, ainda conquista aquela parte da minha afeição que confina com a saudade. Lembro-me, com menos nitidez, de uma outra figura, cujo nome já me não ocorre mas que o tinha estrangeiro também, que era, não sei em quê, um rival do Chevalier de Pas... Coisas que acontecem a todas as crianças? Sem dúvida — ou talvez. Mas a tal ponto as vivi que as vivo ainda, pois que as relembro de tal modo que é mister um esforço para me fazer saber que não foram realidades.

 

Esta tendência para criar em torno de mim um outro mundo, igual a este mas com outra gente, nunca me saiu da imaginação. Teve várias fases, entre as quais esta, sucedida já em maioridade. Ocorria-me um dito de espírito, absolutamente alheio, por um motivo ou outro, a quem eu sou, ou a quem suponho que sou. Dizia-o, imediatamente, espontaneamente, como sendo de certo amigo meu, cujo nome inventava, cuja história acrescentava e cuja figura — cara, estatura, traje e gesto — imediatamente eu via diante de mim. E assim arranjei e propaguei vários amigos e conhecidos que nunca existiram mas que ainda hoje, a perto de trinta anos de distância, oiço, sinto, vejo. Repito: oiço, sinto vejo... E tenho saudades deles.

 

(Em eu começando a falar — e escrever à máquina é para mim falar —, custa-me a encontrar o travão. Basta de maçada para si, Casais Monteiro! Vou entrar na génese dos meus heterónimos literários, que é, afinal, o que V. quer saber. Em todo o caso, o que vai dito acima dá-lhe a história da mãe que os deu à luz).

 

Aí por 1912, salvo erro (que nunca pode ser grande), veio-me à ideia escrever uns poemas de índole pagã. Esbocei umas coisas em verso irregular (não no estilo Álvaro de Campos, mas num estilo de meia regularidade) e abandonei o caso. Esboçara-se-me, contudo, numa penumbra mal urdida, um vago retrato da pessoa que estava a fazer aquilo. (Tinha nascido, sem que eu soubesse, o Ricardo Reis).

 

Ano e meio ou dois anos depois, lembrei-me um dia de fazer uma partida ao Sá-Carneiro — de inventar um poeta bucólico, de espécie complicada e apresentar-lho, já me não lembro como, em qualquer espécie de realidade. Levei uns dias a elaborar o poeta mas nada consegui. Num dia em que finalmente desistira — foi em 8 de Março de 1914 — acerquei-me de uma cómoda alta, e, tomando um papel, comecei a escrever, de pé, como escrevo sempre que posso. E escrevi trinta e tantos poemas a fio, numa espécie de êxtase cuja natureza não conseguirei definir. Foi o dia triunfal da minha vida e nunca poderei ter outro assim. Abri com um título, O Guardador de Rebanhos. E o que se seguiu foi o aparecimento de alguém em mim, a quem dei desde logo o nome de Alberto Caeiro. Desculpe-me o absurdo da frase: aparecera em mim o meu mestre. Foi essa a sensação imediata que tive. E tanto assim que, escritos que foram esses trinta e tantos poemas, imediatamente peguei noutro papel e escrevi, a fio também, os seis poemas que constituem a Chuva Oblíqua, de Fernando Pessoa. Imediatamente e totalmente... Foi o regresso de Fernando Pessoa. Alberto Caeiro a Fernando Pessoa, ele só. Ou, melhor, foi a reacção de Fernando Pessoa contra a sua inexistência como Alberto Caeiro.

 

Aparecido Alberto Caeiro, tratei logo de lhe descobrir — instintiva e subconscientemente — uns discípulos. Arranquei do seu falso paganismo o Ricardo Reis latente, descobri-lhe o nome, e ajustei-o a si mesmo, porque nessa altura já o via. E, de repente e em derivação oposta à de Ricardo Reis, surgiu-me impetuosamente um novo indivíduo. Num jacto e à máquina de escrever, sem interrupção nem emenda, surgiu a Ode Triunfal de Álvaro de Campos — a Ode com esse nome e o homem com o nome que tem.

 

Criei, então, uma coterie inexistente. Fixei aquilo tudo em moldes de realidade. Graduei as influências, conheci as amizades, ouvi, dentro de mim, as discussões e as divergências de critérios e em tudo isto me parece que fui eu, criador de tudo, o menos que ali houve. Parece que tudo se passou independentemente de mim. E parece que assim ainda se passa. Se algum dia eu puder publicar a discussão estética entre Ricardo Reis e Álvaro de Campos, verá como eles são diferentes e como eu não sou nada na matéria.

 

Quando foi da publicação de «Orpheu», foi preciso, à última hora, arranjar qualquer coisa para completar o número de páginas. Sugeri então ao Sá-Carneiro que eu fizesse um poema «antigo» do Álvaro de Campos — um poema de como o Álvaro de Campos seria antes de ter conhecido Caeiro e de ter caído sob a sua influência. E assim fiz o Opiário, em que tentei dar todas as tendências latentes do Álvaro de Campos, conforme haviam de ser depois reveladas, mas sem haver ainda qualquer traço de contacto com o seu mestre Caeiro. Foi, dos poemas que tenho escrito, o que me deu mais que fazer, pelo duplo poder de despersonalização que tive que desenvolver. Mas, enfim, creio que não saiu mau e que dá o Álvaro em botão...

 

Creio que lhe expliquei a origem dos meus heterónimos.

 

Se há, porém, qualquer ponto em que precisa de um esclarecimento mais lúcido — estou escrevendo depressa e quando escrevo depressa não sou muito lúcido —, diga, que de bom grado lho darei. E, é verdade, um complemento verdadeiro e histérico: ao escrever certos passos das Notas para recordação do meu Mestre Caeiro, do Álvaro de Campos, tenho chorado lágrimas verdadeiras. É para que saiba com quem está lidando, meu caro Casais Monteiro!

 

Mais uns apontamentos nesta matéria... Eu vejo diante de mim, no espaço incolor mas real do sonho, as caras, os gestos de Caeiro, Ricardo Reis e Álvaro de Campos. Construi-lhes as idades e as vidas. Ricardo Reis nasceu em 1887 (não me lembro do dia e mês, mas tenho-os algures), no Porto, é médico e está presentemente no Brasil. Alberto Caeiro nasceu em 1889 e morreu em 1915; nasceu em Lisboa, mas viveu quase toda a sua vida no campo. Não teve profissão nem educação quase alguma. Álvaro de Campos nasceu em Tavira, no dia 15 de Outubro de 1890 (às 1.30 da tarde, diz-me o Ferreira Gomes; e é verdade, pois, feito o horóscopo para essa hora, está certo). Este, como sabe, é engenheiro naval (por Glasgow), mas agora está aqui em Lisboa em inactividade. Caeiro era de estatura média, e, embora realmente frágil (morreu tuberculoso), não parecia tão frágil como era. Ricardo Reis é um pouco, mas muito pouco, mais baixo, mais forte, mas seco. Álvaro de Campos é alto (1,75 m de altura, mais 2 cm do que eu), magro e um pouco tendente a curvar-se. Cara rapada todos — o Caeiro louro sem cor, olhos azuis; Reis de um vago moreno mate; Campos entre branco e moreno, tipo vagamente de judeu português, cabelo, porém, liso e normalmente apartado ao lado, monóculo. Caeiro, como disse, não teve mais educação que quase nenhuma — só instrução primária; morreram-lhe cedo o pai e a mãe e deixou-se ficar em casa, vivendo de uns pequenos rendimentos. Vivia com uma tia velha, tia-avó. Ricardo Reis, educado num colégio de jesuítas, é, como disse, médico; vive no Brasil desde 1919, pois se expatriou espontaneamente por ser monárquico. É um latinista por educação alheia e um semi-helenista por educação própria. Álvaro de Campos teve uma educação vulgar de liceu; depois foi mandado para a Escócia estudar engenharia, primeiro mecânica e depois naval. Numas férias fez a viagem ao Oriente de onde resultou o Opiário. Ensinou-lhe latim um tio beirão que era padre.

 

Como escrevo em nome desses três?... Caeiro, por pura e inesperada inspiração, sem saber ou sequer calcular que iria escrever. Ricardo Reis, depois de uma deliberação abstracta, que subitamente se concretiza numa ode. Campos, quando sinto um súbito impulso para escrever e não sei o quê. (O meu semi-heterónimo Bernardo Soares, que aliás em muitas coisas se parece com Álvaro de Campos, parece sempre que está cansado ou sonolento, de sorte que tem um pouco suspensas as qualidades de raciocínio e de inibição; aquela prosa é um constante devaneio. É um semi-heterónimo porque, não sendo a personalidade a minha, é, não diferente da minha, mas uma simples mutilação dela. Sou eu menos o raciocínio e a afectividade. A prosa, salvo o que o raciocínio dá de ténue à minha, é igual a esta, e o português perfeitamente igual; ao passo que Caeiro escrevia mal o português, Campos razoavelmente mas com lapsos como dizer «eu próprio» em vez de «eu mesmo», etc., Reis melhor do que eu, mas com um purismo que considero exagerado. O difícil para mim é escrever a prosa de Reis — ainda inédita — ou de Campos. A simulação é mais fácil, até porque é mais espontânea, em verso).

 

Nesta altura, estará o Casais Monteiro pensando que má sorte o fez cair, por leitura, em meio de um manicómio. Em todo o caso, o pior de tudo isto é a incoerência com que o tenho escrito. Repito, porém: escrevo como se estivesse falando consigo, para que possa escrever imediatamente. Não sendo assim, passariam meses sem eu conseguir escrever.

 

Falta responder à sua pergunta quanto ao ocultismo.

 

Pergunta-me se creio no ocultismo. Feita assim, a pergunta não é bem clara; compreendo, porém, a intenção e a ela respondo.

 

Creio na existência de mundos superiores ao nosso e de habitantes desses mundos, em experiências de diversos graus de espiritualidade, subtilizando até se chegar a um Ente Supremo que presumivelmente criou este mundo.

 

Pode ser que haja outros Entes, igualmente Supremos, que hajam criado outros universos e que esses universos coexistam com o nosso, interpenetradamente ou não. Por estas razões e ainda outras, a Ordem Extrema do Ocultismo, ou seja, a Maçonaria, evita (excepto a Maçonaria anglo-saxónica) a expressão «Deus», dadas as suas implicações teológicas e populares e prefere dizer «Grande Arquitecto do Universo», expressão que deixa em branco o problema de se Ele é criador, ou simples Governador do mundo.

 

Dadas estas escalas de seres, não creio na comunicação directa com Deus mas, segundo a nossa afinação espiritual, poderemos ir comunicando com seres cada vez mais altos.

 

Há três caminhos para o oculto: o caminho mágico (incluindo práticas como as do espiritismo, intelectualmente ao nível da bruxaria, que é magia também); caminho místico, que não tem propriamente perigos mas é incerto e lento; e o que se chama o caminho alquímico, o mais difícil e o mais perfeito de todos, porque envolve uma transmutação da própria personalidade que a prepara, sem grandes riscos, antes com defesas que os outros caminhos não têm. Quanto a «iniciação» ou não, posso dizer-lhe só isto, que não sei se responde à sua pergunta: não pertenço a Ordem Iniciática nenhuma. A citação, epígrafe ao meu poema Eros e Psique, de um trecho (traduzido, pois o Ritual é em latim) do Ritual do Terceiro Grau da Ordem Templária de Portugal, indica simplesmente — o que é facto — que me foi permitido folhear os Rituais dos três primeiros graus dessa Ordem, extinta, ou em dormência desde cerca de 1881. Se não estivesse em dormência, eu não citaria o trecho do Ritual, pois se não devem citar (indicando a ordem) trechos de Rituais que estão em trabalho.

 

Creio assim, meu querido camarada, ter respondido, ainda com certas incoerências, às suas perguntas. Se há outras que deseja fazer, não hesite em fazê-las. Responderei conforme puder e o melhor que puder. O que poderá suceder e isso me desculpará desde já, é não responder tão depressa.

 

Abraça-o o camarada que muito o estima e admira,

FPessoa-«V-Império»Desenho.jpg

Fernando Pessoa

 

 

DA PRIORIDADE AOS «PRIORITÁRIOS»

Mega carrinho de bébé.jpg

 

Querendo entrar no elevador de «Aquele sítio que todos conhecem», em Lisboa, diz a jovem mãe a empurrar um carrinho de bébé: - A Senhora tem que sair para eu entrar.

Respondeu a interpelada: - Ora essa, eu já cá estou dentro por direito próprio, a prioridade aos prioritários é no acesso e um carrinho de bébé não corresponde a qualquer urgência e muito menos a uma emergência.

Continua a jovem mãe: - A Senhora pode ir pelas escadas.

Responde a interpelada: - E a Senhora sabe se eu posso mesmo ir pelas escadas? Passo-lhe já a dôr neuropática e a catrefada de remédios que tenho que tomar diariamente.

 

Os demais passageiros puseram fim à conversa e a jovem mãe ficou à espera de exercer o seu direito de prioridade no acesso ao elevador na próxima vez que ele ali parasse com espaço suficiente para ela poder entrar.

 

  • Deve ser dada prioridade aos prioritários no acesso aos equipamentos de uso público (p. ex. elevadores, carruagens, autocarros, eléctricos, etc.);
  • Salvo casos de emergência evidente de um prioritário, quem já se encontra dentro do equipamento não tem que sair para que entre um prioritário não-emergente pois a presença dentro do equipamento consubstancia um direito adquirido pelo não-prioritário;
  • Havendo lugares reservados a prioritários, os utentes não-prioritários estão logicamente proibidos de ocupar esses lugares mas não têm que ceder lugares comuns a prioritários em demasia relativamente aos lugares que lhes estejam reservados;
  • Carrinhos de bébés e cadeiras de rodas são não-emergentes.

 

Se a lei não trata disto, deveria tratar.

 

Março de 2019

Rua mais estreita de Estocolmo.JPGHenrique Salles da Fonseca

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