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A bem da Nação

DE FÉRIAS – 5

 

 

- Boa tarde, amigo! Tudo bem, consigo?

 

- Tudo bem. E consigo?

 

- Sim, tudo bem mas ontem dei-lhe uma informação que não corresponde exactamente à verdade. Balsa está a ser tratada a nível do Poder Central e já escapou a Tavira.

 

- E isso é bom ou mau?

 

- É bom no sentido de que assumiu uma dimensão de interesse nacional; é mau porque é um atestado de inércia ao Poder local. Mas reconheço que mais vale assim apesar do perigo de se perder no meio do tanto que há a fazer a nível global. O ideal seria que houvesse interesse local que espicaçasse o assunto lá pelas bandas de Lisboa.

 

- E quem é que deveria fazer isso?

 

- Teoricamente, o Presidente da Câmara mas talvez fosse bom fazer uma «Associação dos Amigos de Balsa» que levasse tudo a peito e sem encargos para o Estado.

 

- Sim, a isso eu poderia pertencer mas só para fazer número.

 

E aqui fiquei eu novamente «em ponto de rebuçado» para acabar com a conversa mas continuei…

 

- E conviria despartidarizar o grupo desses Amigos pois o interesse tem que ser transversal a todos e não apenas a uma côr política.

 

- Muito bem, aguardemos… E mais quê para pôr Tavira a mexer no Inverno?

 

- Uma das coisas que me parece mais importante é a que tem a ver com a juventude que continua a emigrar para estudar para além do secundário. Seria importante criar condições de fixação da juventude tavirense e que de igual modo se atraísse juventude forasteira para a frequência de cursos úteis, não daqueles que dão diplomas que são autênticos passaportes directos para o desemprego.

 

- Como por exemplo?

 

- Cursos de índole técnica. Olhe! A começar pela agricultura e pela náutica. Para a agricultura até há as instalações do antigo Posto Agrário e para a náutica não falta água. Tudo, integrado num Politécnico se o Estado quisesse avançar ou por concessão a privados. Mas há mais…

 

- Mais o quê?

 

- Sabe que foi na Região Demarcada dos Vinhos de Tavira que o Marquês de Pombal se inspirou para fazer a Região do Vinho do Porto?

 

- Não me diga…

 

- Digo, sim! Seria interessante refazer a Região Vitivinícola de Tavira e levar a cultura da vinha por essa serra além...

 Douro vinhateiro.jpg

- E acha que o vinho seria bom?

 

- Com os enólogos que por aí andam já não há vinhos maus em Portugal. Os daqui também haveriam de ser bons desde que se lhes fixassem as características. Mas há muito mais coisas que agora se podem fazer e que antes era impossível por falta de água. Agora, com a barragem grande e com o perímetro de rega, é só puxar pela imaginação e tratar dos preços.

 

- Já antes falou dessa coisa dos preços. Qual é o problema?

 

- Isso vai demorar um bocadinho a explicar mas prometo que amanhã digo.

 

- Muito bem, amanhã cá estarei à espera. Até amanhã.

 

- Até amanhã.

 

(continua)

Agosto 2018 - Tavira.jpg

 Henrique Salles da Fonseca

DE FÉRIAS – 4

 

 

- Então, como estava hoje a praia?

 

- Um pouco ventosa mas a água estava ainda estupenda.

 

- Ainda?

 

- Sim, sabe que quando o vento sopra dos lados do Alberto João Jardim, a água refresca e faz as ondinhas de carapinha com bandeira verde; quando sopra do Estreito, aquece e manda vagalhões de bandeira encarnada. Não se pode ter Sol na eira e chuva no nabal.

 

- E, afinal, é disso que a gente vive…

 

- Mas poderiam viver de muito mais coisas que nos fizessem cá vir na época baixa.

 

- E foi por isso que falou de Balsa.

 

- Sim, foi precisamente por isso. É que eu estive na Turquia por 3 vezes e fiquei espantado com o que vi em Afrodisias e em Efeso. São duas cidades gregas da Antiguidade Clássica que estavam há séculos enterradas mas que se sabia estarem onde efectivamente estão. E não imagina o que é o rodopio de turistas ao longo do ano inteiro. As regiões envolventes vivem desse rodopio e as camionetas de turistas contam-se às dezenas e dezenas em cada uma delas. De princípio, o Governo Turco não tinha dinheiro para os trabalhos arqueológicos e começou por fazer um contrato de escavação, reconstrução e exploração de Afrodisias com a Universidade do Estado de Nova Iorque e em relação a Efeso com a Universidade de Viena. O dinheiro dos bilhetes financia todos os trabalhos arqueológicos e o Governo empocha os impostos que todos os turistas pagam ali e no mais que fazem no país.

 

- E é isso que imagina para Balsa?

Balsa.png

 

- Exacto! É precisamente isso que imagino para Balsa que se sabe ser mais importante que Conimbriga e muitíssimo mais que Miróbriga.

 

- E a agricultura que por ali se faz?

 

- Ela já hoje se faz ao lado do sítio arqueológico e não bule com nada disso.

 

- Isso é o ideal.

 

- Sim, sim. E creio que o movimento turístico que o campus arqueológico haveria de gerar ao longo do ano inteiro seria importante com o desenvolvimento das escavações…

 

- E por que é que nada disso foi feito?

 

- Bem, isso eu não sei mas o meu amigo é tavirense e poderia fazer a pergunta numa reunião camarária, dessas abertas aos munícipes.

 

- Eu? Não pense nisso. Ainda me chateavam por meter o nariz onde acham que não sou chamado.

 

- Pois…

 

Com as despedidas impostas pela cortesia, a conversa hoje ficou por aqui e eu enchi-me de mau feitio.

 

(continua)

Tetrapylon - Afrodisias.JPG

Henrique Salles da Fonseca

DE FÉRIAS – 3

 

 

- Olá, boa tarde! Como está?

 

- Eu estou bem, obrigado mas fiquei preocupado com a sua falta de ontem. Tínhamos combinado mas…

 

- Peço desculpa mas deixei-me ficar no «bem bom» das salsas ondas e quando dei por mim já era tarde para vir até aqui. E como não tenho o seu contacto, não lhe pude dar uma explicação.

 

- Bom, se está bem, não há problema. Sabe, nós os algarvios temos menos apetite pela praia do que Vocês, os forasteiros e, portanto, deixamo-nos ficar pela cidade, a maior parte das vezes sem termos nada de especial para fazer e tinha ficado todo entusiasmado em poder ontem continuar uma conversa interessante em vez de ter de falar de futebol e coisas desse género. Mas tenho muito gosto em lhe dar o meu contacto: 9……… Fica já para qualquer situação futura. Sim, porque de certeza que as nossas conversas não vão ficar só por este Verão.

 

- Muito obrigado! O meu telemóvel é o 9……… Mas se vamos prolongar estas conversas, o melhor será ficarmos também com os e-mails porque eu vou-me embora dentro de dias e só volto no próximo Verão. O meu é o ……….@.......

 

- E o meu é o …………….@............

 

- Óptimo! Ficamos em contacto. E como íamos dizendo, há solução para os problemas de Tavira.

 

- Sim, claro que há. Umas soluções são fáceis, outras não tanto mas de qualquer modo são possíveis.

 

- E por onde é que acha que se deve começar?

 

- Por tudo ao mesmo tempo. As fáceis de resolver podem ser de efeito rápido ou lento e as menos fáceis podem ter efeitos rapidos ou mesmo rapidíssimos. Portanto, o melhor é começar tudo ao mesmo tempo e os resultados hão-de ir aparecendo…

 

- Então, o meu amigo imagine que é Presidente da Câmara. O que fazia para acabar com a modorra que nos dá no Inverno?

 

- A coisa mais fácil de fazer e talvez a de efeitos mais lentos, seria a erradicação do analfabetismo adulto em todo o Concelho e isso tanto na cidade como nas zonas rurais desde o litoral até à serra passando por tudo quanto é barrocal.

 

- E como é que faria isso?

 

- Com a ajuda das igrejas presentes no Concelho, lançaria a campanha que haveria de ser seguida pela obtenção de locais de encontro onde se haviam de ministrar as aulas em cada Freguesia. Aulas ministradas por agentes de desenvolvimento voluntários a recrutar localmente e a quem se daria uma rápida formação pedagógica seguida de apoio contínuo.

 

- Mas isso não será fazer arqueologia social?

Alfabetização de adultos.jpg

- É claro que isto tem consequências muito lentas mas estou convencido de que muito consistentes. Sobretudo, no efeito positivo a nível familiar. E sabe que mais? Não vale a pena perder tempo a convencer os homens. As mulheres são muito mais progressistas nessas coisas e uma vez motivadas eles, os homens, não hão-de querer ficar para trás e acabam por aderir. E quando a economia doméstica é dirigida por uma letrada, tudo melhora na casa e no meio social.

 

- Mas isso não é muito caro?

 

- Não fiz as contas mas admito que seja possível angariar financiamento público ou mesmo não público. Mas o que mais me preocupa não é o financiamento, é a lentidão de todo o processo. E por isto mesmo é que eu acho que é a acção mais urgente.

 

- E as escolas que já existem?

 

- Essas são para as crianças, não para os adultos. Mas se os professores primários ou outros quiserem aderir, tanto melhor.

 

- Sim, seria bom que a Câmara financiasse tudo isso.

 

- A Câmara, o Instituto do Emprego e outras portas a que se haveria de bater.

 

- E mais quê para pôr rapidamente a economia a mexer no Inverno?

 

- Arrancar com a exploração da maior riqueza que existe em Tavira.

 

- As pescas?

 

- Não. Isso depende muito do mar e de gente a quem a Câmara não dá ordens.

 

- Então?

 

- Balsa!

 

- EH caramba! Isso é que dá mesmo pano para mangas. Mas olhe, hoje sou eu que tenho que ir andando. Continuamos amanhã?

 

- Sim, acho que sim. Mas já temos os contactos e podemos combinar melhor amanhã de manhã. Se houver levante…

 

- Então, até amanhã.

 

- Até amanhã.

 

(continua)

 

Tetrapylon - Afrodisias.JPG

Henrique Salles da Fonseca

(em Afrodisias, Turquia)

DE FÉRIAS – 2

 

 

Hoje vamos às trevas…

 

E a conversa entre turistas, passou-se assim:

 

- Depois da praia, o que há em Tavira para fazer?

- Nada!

- Como assim?

- Para quem seja profissional de férias, após a época estival não há nada (ou quase nada) para fazer porque toda a vida económica está vocacionada para a praia e o Verão. Passado o tempo dos banhos de mar e das jantaradas, os turistas vão-se embora e a cidade hiberna.

- E o pessoal da terra, o que faz?

- Uns vão para o Fundo do Desemprego e os outros caem nas actividades comuns a uma pequena comunidade a que falta massa crítica para justificar economias de escala. Mesmo a juventude, ao chegar ao final do ensino secundário, só tem a alternativa entre a mediocridade e a emigração.

- E emigram para quê?

- Uns emigram em busca de ensino superior; outros emigram para encontrar trabalho permanente porque a economia local já quase não existe.

- E a agricultura e pescas?

- Como no resto do país, a agricultura e as pescas em Tavira padecem de um método absurdo de formação dos preços pelo que cada vez mais há cada vez menos gente interessada em servir os intermediários que, esses sim, ganham bem.

- Mas por aqui houve grandes pescarias de atum…

- O atum deixou de «encalhar» nas praias, mudou a rota para o largo e os tavirenses ficaram em terra a chorar e a pedir subsídios ao Estado pela inactividade em que caíram.

- E por que é que não o vão pescar ao largo?

 

Atum Algarve.jpg

 

- Porque não sabem como isso se faz e dizem que é muito caro ultrapassar os cardumes pela cabeça para lhes fazerem o cerco. É claro que esse método é proibitivo e só conduz à falência. Se não imaginaram uma alternativa, bem fizeram em não se meterem nessa desgraça. Foram os japoneses que o fizeram ali ao largo de Olhão. E ganham o dinheiro que querem.

- E o pessoal de Tavira, o que faz perante isso?

- Vê-os lá longe a ganhar dinheiro.

- Mas deve haver um modo de dar a volta a esse problema…

- Sim, há! A esse e a muitos outros.

- E como é?

- Bem, isso fica para amanhã porque agora são horas de ir andando… Até amanhã!

- Até amanhã, à mesma hora, aqui. Está bem?

- Sim, fica combinado.

 

(continua)

Navegando no Pacífico-ABR17.jpg

 Henrique Salles da Fonseca

DE FÉRIAS -1

 

 

Há quase 15 anos de férias, já estou com dificuldade em distinguir os Sábados e Domingos daqueles dias em que a maior parte das pessoas trabalha. E se durante toda a vida de trabalho o Sábado era o dia do folguedo glorioso, a tarde de Domingo continha uma certa neura que nem um «cineminha» conseguia neutralizar. Nunca fui capaz de identificar a causa dessa neura. Seria por ser a véspera da retoma do trabalho? Mas se eu até gostava do que fazia, porquê a tal sensação neurótica?

 

Não sei e não será agora que me dedicarei a tal investigação. Haja quem o faça por mim. Mas, depois, conte.

 

O que sei é que com a aposentação, essa neurastenia da tarde domingueira desapareceu e de Segunda a Segunda passeando por tudo quanto é dia, a vida é bela e só os Impostos é que dão cabo dela.

 

E porque a vida é bela, vá de tentar fazer agora o que não pude fazer enquanto trabalhava. Assim, mal entrei na reforma, decidi praticar o meu desporto diariamente (de manhã, com excepção do tal Domingo cuja tarde era chata) e estudar à tarde o que nunca tinha estudado. Por exemplo, tenho estudado alguma coisa de Filosofia e de Teologia mas de vez em quando lá volto às «coisas» a que me dedicava antigamente. E porque estou a banhos em Tavira, tenho procurado identificar a causa dos níveis de desenvolvimento e de subdesenvolvimento local.

 

Assim, começo por constatar que há duas «Taviras»: a do Verão e a do Inverno. A estival é um festival festivo, a invernosa é uma tristeza triste.

 

Comecemos pela euforia.

 

Porquê esta glória estival? Porque esta praia se alonga languidamente desde as chamadas «Quatro águas» até à barra da Fuzeta em cerca de 14 quilómetros de areia magnífica e águas aquecidas fazendo dela a melhor praia do mundo. E quem me costuma ler sabe que eu conheço praias nos cinco continentes desde latitudes altíssimas até às suas opostas e que, portanto, sei o que digo. Mas compreendo que haja quem fique na dúvida e, então, faço desde já a destrinça entre essas outras praias tão afamadas pelos agentes de viagens e esta em que por aqui me banho em Agosto desde há quase 40 anos: é que os tubarões mordedores não têm o costume de cá vir tomar banho connosco. Porquê? Não sei, perguntem-lhes.

 

E temos também outros privilégios. Este ano, a moda dos fatos de banho femininos é deslumbrante e glutona.

 

Moda praia 2018.jpg

 

Como assim, perguntará o leitor. Sim, os fatos de banho deste ano põem os glúteos das Senhoras em tal evidência que nos levam a concluir que finalmente alguém inventou a moda das nádegas femininas com suspensórios. A não perder!

 

(continua)

9JUL18.jpg

 Henrique Salles da Fonseca

ENTÃO, TUDO COMEÇOU ASSIM… (4)

 

 

De Gaspar ainda hoje nada se descobriu mas se quanto a Miguel a espera foi de quinhentos anos, aguardemos… sentados, claro.

 

Então, se o desaparecimento de Miguel foi em 1502 e a redescoberta se refere a 1511, o que andou ele a fazer entretanto?

 

E aqui entram os soldados e marinheiros de Tavira e de Marrocos, os de Miguel e – quem sabe? – os da guarnição de Gaspar também.

 

Resta-nos a hipótese de tentarmos ver o «filme» do fim para o princípio pegando no que hoje dizem os Melungos. E o que dizem eles?

 

Os Melungos intitulam-se «Portuguese Melungeons» e não há quem combata a vontade de um povo que se afirma.

 

E a afirmação é peremptória: «melungeons» como resultado do «mélange» entre os algarvios d’aquém e d’além mar tripulantes das caravelas de Gaspar (?) e de Miguel Corte Real com as nativas daquelas paragens a que mais tarde se viria a chamar «índias» na sequência do bluff geográfico de Cristóvão Colombo que chegou às Caraíbas julgando que estava na Índia. E esse «mélange» acentuou-se uns séculos mais tarde com os escravos negros que entretanto por ali andaram, com europeus de diversas origens e sabe Deus com quem mais… O resultado é um ADN que dá para tudo e, a bem ver, para nada. Uns mais trigueiros que outros, uns com feições mais arianas que outros, todos foram durante séculos ostracizados pelo racismo a ponto de lhes ter sido negado o direito de voto por não serem brancos. E de ostracismo racial em ostracismo político, acabaram por se alojar nos Apalaches onde hoje ainda se encontram núcleos relevantes.

 

Creio que actualmente já não devem ter um único gene português, que muitos deles nem sequer sabem onde é Portugal mas o que me interessa é o que eles dizem e o que dizem é que são portugueses.

 

Têm diversas páginas na Internet e grupos no Facebook que podem ser encontrados através duma busca tão simples como digitando «Portuguese Melungeons».

 

 

https://www.facebook.com/groups/PortugueseMelungeons/?ref=group_header

 PORTUGUESE MELUNGEONS.jpg

 

Entretanto, vou-lhes ensinando português…

 

E pronto, foi assim que tudo começou para chegarmos onde estamos, na afirmação de que Portugal é claramente a «casa» de todos os lusófilos.

 

Aceito ajudas.

 

Agosto de 2018

Navegando no Pacífico-ABR17.jpg

 Henrique Salles da Fonseca

ENTÃO, TUDO COMEÇOU ASSIM… (3)

 

 

Conforme já referi, Vasco Anes II ficou em Tavira como Alcaide-mor mas os irmãos Miguel e Gaspar dedicaram-se às navegações ora por conta do Rei ora por conta privada deles próprios e de outros.

 

Assim, relativamente às descobertas de João Vaz, os filhos navegadores estavam «mortinhos» pela tomada da posse efectiva das terras a que um pouco pela calada (não esquecer a necessidade da guarda do segredo) os cartógrafos já apelidavam de «as terras dos Corte Reais». Sim, à época, as cartas de marear eram autênticos segredos de Estado mas quando deixaram de o ser, passámos a saber de como aquelas paragens eram chamadas, «dos Cortes Reais».

 

Tendo o descobridor morrido em Angra no ano de 1496, sucedeu-lhe o filho mais velho na função de Capitão-donatário mas não muito mais tarde, Vasco Anes II foi chamado pelo Rei D. Manuel I a Lisboa para assumir o cargo de Vedor da Fazenda, aquilo a que hoje chamamos Ministro das Finanças.

 

Terá sido em 1500 que Gaspar Corte Real conseguiu fazer a sua primeira viagem à Terra Nova (a que actualmente se chama New Foundland) na qualidade de comandante, já no reinado de D. Manuel I e o entusiasmo com que de lá regressou foi tanto que logo no ano seguinte (1501) encetou nova expedição. Mais uma vez, a tripulação era constituída por algarvios d’aquém e d’além mar (do nosso Algarve e de Marrocos). Sugiro aos Leitores que registem esta particularidade, a de se tratar de algarvios da zona de Tavira e de algarvios marroquinos.

 

Zarparam, pois, em 1501 rumo a noroeste mas ninguém mais os viu…

 

Perda muito sentida, foi em 1502 que o irmão Miguel partiu com nova tripulação algarvia em busca dos desaparecidos e… ninguém mais os viu.

 

Vasco Anes quis ir em busca dos irmãos - só que o Rei não o dispensou das funções de Ministro das Finanças.

 

Mas - e há sempre um «mas» - cerca de quinhentos anos depois apareceu em Dighton, num dos muitos recantos de Fall River, uma pedra com diversas inscrições onde inequivocamente se lê, junto de três brasões portugueses

 

MIGUEL

CORTEREAL

1511

Pedra-Dighton.png

 

SEGUNDA CONCLUSÃO: Miguel Corte Real não se afundou em 1502 e esteve em Fall River no ano de 1511.

 

(continua)

 

Agosto de 2018

Henrique Salles da Fonseca-16AGO16-2

 Henrique Salles da Fonseca

ENTÃO, TUDO COMEÇOU ASSIM… (2)

Estátua_de_João_Vaz_Corte_Real_que_se_encontra_n

 

Já conhecido por Corte Real, João Vaz desempenhou bem o serviço de que D. João II o incumbira e, a título de recompensa, nomeou-o em 1474 Capitão Donatário de Angra, nos Açores e a partir de 1483 também da ilha de S. Jorge. Tavira ficara a ser «guardada» pelo filho mais velho, Vasco Anes, já que os dois seguintes, Miguel e Gaspar, se dedicavam às navegações.

 

Da Wikipédia extraio a informação relativa à descendência directa de João Vaz:

  • Vasco Anes Corte-Real (II - porque era homónimo do avô), alcaide-mor de Tavira, nascido em 1465, casou com Joana Pereira.
  • Miguel Corte-Real casou com Isabel de Castro.
  • Gaspar Corte-Real.
  • Joana Vaz Côrte-Real nascida em 1465, casou duas vezes, a primeira com Rui Dias Pacheco e a segunda com Guilherme Moniz Barreto.
  • Iria Côrte-Real nascida em 1440 casou com Pedro Goes da Silva.
  • Lourenço Vaz Corte-Real casado com Barbara Pereira.
  • Isabel Corte-Real casou com Jacob de Utra

 

Voltarei a referir-me aos três primeiros.

 

Mas o pai de todos, João Vaz, tinha ficado interessado nas terras que descobrira no tempo de D. Afonso V e pediu ao Rei D. João II que o financiasse para em seu nome (do Rei) delas tomar posse. Só que o Rei, sabendo que por ali não se alcançaria o objectivo estratégico, o Oriente, respondeu que o dinheiro da Coroa não poderia ser afecto a objectivos secundários por muito meritórios que fossem e, então, ele (João Vaz) que desafiasse nesse sentido (o do financiamento duma expedição) o lavrador açoriano João Fernandes que ele, Rei, sabia que queria aumentar as explorações agrícolas, o que nos Açores não era possível por evidente falta de espaço.

 

E assim foi que se armou nova expedição chefiada por João Vaz Corte Real, Capitão-donatário de Angra e financiada por João Fernandes lavrador na Ilha Terceira.

 

Rumando a Noroeste, exploraram em mais detalhe a costa que João Vaz já conhecia e encontraram belas terras para os efeitos desejados, a agricultura e o povoamento: uma península enorme que João Fernandes foi ocupando em viagens sucessivas com gado e um território vastíssimo no novo continente de que João Vaz foi tomando posse efectiva e a que deu o mesmo nome da sua propriedade em Tavira.

 

Sim, como o Leitor já percebeu, estou a referir-me à Península do Labrador, à Terra Nova e ao Canadá.

 

Ora bem, eis como o nome do grande país setentrional nasceu em Tavira.

 

PERGUNTA:

Por que é que a Câmara Municipal de Tavira retirou a placa toponímica da localidade de «Canada» na Freguesia de Cabanas?

 

(continua)

 

10 de Agosto de 2018

 

9JUL18.jpg

Henrique Salles da Fonseca

ENTÃO, TUDO COMEÇOU ASSIM… (1)

 

D. Afonso V, nosso Rei, era primo de Cristiano I, Rei da Dinamarca e decidiram juntar esforços para encetarem navegações que permitissem aos dinamarqueses tomarem posse da Groenlândia e aos portugueses a descoberta de uma rota marítima setentrional que conduzisse ao Oriente.

 

Os co-comandantes da expedição realizada em 1473 eram, pela parte portuguesa, João Vaz Costa e, pela parte dinamarquesa, o alemão Didrik Pining.

 

Exploradas as costas do novo continente e da Groenlândia (a «Terra Verde», em dinamarquês), os dinamarqueses tomaram mesmo posse da maior ilha do planeta e nós ficámos a saber que por ali não íamos a parte nenhuma pois a tecnologia da época não permitia quebrar gelos. Mas ficámos a saber da existência de um vastíssimo continente até então desconhecido dos outros europeus. Ou seja, quem descobriu a América foram João Vaz Costa e Didrik Pining; nada, pois, a ver com Cristóvão Colombo nem com Américo Vespúcio. Mas o interesse estratégico dessa época implicava a guarda do segredo. E o segredo foi guardado.

 

Notemos que uma experiência com resultados negativos pode efectivamente ser muito importante por indicar que não vale a pena perder mais tempo com os pressupostos que haviam conduzido à dita experiência. Os nossos concorrentes que perdessem tempo com o que nós sabíamos inútil para os grandes objectivos da época, o Oriente das especiarias.

 

E quem era João Vaz Costa?

 

Nascido em Faro cerca de 1420, mereceu a confiança do novo Rei, D. João II, pelo modo exemplar como servira a seu pai, D. Afonso V, nomeadamente nessa tal expedição luso-dinamarquesa.

 

Então, quando o novo Rei precisou de alguém que fosse «os seus olhos e ouvidos» em Tavira, logo tratou de o encarregar dessa tarefa pois que também era filho de D. Vasco Anes Costa, homem honrado pela Casa Real em Tavira, contemporâneo do rei D. João I.

 

Ainda não herdado, para que o nomeado pudesse angariar meios de sustento para si e para a crescente família (viria a ter sete filhos), o Rei doou-lhe uma propriedade agrícola que já então se encontrava cercada por um importante canavial a fim de evitar devassas e de enquadrar gados em pastoreio. Compreende-se que a dita propriedade recebesse o nome de «Canada». O local ainda hoje assim se intitula e localiza-se na actual Freguesia de Cabanas, no Concelho de Tavira.

 

E a propósito de nomes, vindo João Vaz da corte e a mando do Rei, logo o povo lhe passou a chamar Corte Real. Daí, o nome com que passou à História de João Vaz Corte Real.

Brasão dos Corte Real.jpg

 Curiosamente, o brasão de armas da família ainda hoje exibe as costelas do nome original,

Costa

 

PRIMEIRA CONCLUSÃO

Foi João Vaz Corte Real – na companhia do alemão Didrik Pining – quem descobriu o continente a que erradamente hoje se chama América

 

(continua)

 

8 de Agosto de 2018

 Henrique Salles da Fonseca-16AGO16-2

Henrique Salles da Fonseca

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