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A bem da Nação

KALIMERA - 12

A MODÉSTIA ORTODOXA

 

Δώδεκα (diga-se «dódeka») para significar doze (12), a pretexto do número desta croniqueta.

 

Quando será que os gregos se passam para os caracteres latinos? Já passaram, embora não o queiram reconhecer. Compreende-se que não seja fácil cortar abruptamente e por Decreto com milhares de anos de uma das Civilizações mais brilhantes à face da Terra. Mas, na verdade, vivendo (ou sobrevivendo?) numa comunidade, é fundamental garantir a comunicação e na Europa isso não se faz com sinais de fumo nem com «tan-tans», faz-se com uma linguagem compreensível por todos os comunicadores, o que não é assim muito compatível com o alfabeto grego. Pior ainda para quem não saiba matemática.

 

Contudo, nas zonas mais turisticadas da Grécia, a sinalética já está quase toda nos dois alfabetos. Mas falta o «quase». E assim foi que me vi da cor dos gatos pardos para saber para onde nos dirigíamos quando me pespegaram com o letreiro a dizer «Σαντορίνη». E fizeram-no de propósito para chamar a nossa atenção para a questão que levanto nos parágrafos anteriores. Mas eu sabia que íamos a caminho de Santorini e, portanto, o enigma não chegou a existir.

 

Recordando que vínhamos a navegar de Creta onde víramos neve no topo da montanha dorsal da ilha, não me espantei quando, ao largo de Santorini, vi a orla superior da falésia toda branca. Hesitei na interpretação do que estava a ver e não tive vergonha de perguntar se aquilo também era neve. Delicadamente, não se riram na minha cara e disseram que era o casario. – Ah, pois claro, é o casario! Mas que disparate o meu. E, aí, eu tive a certeza de que acertara: era meu o disparate.

 

Santorini tem muito que se lhe diga sob o ponto de vista geológico mas a «capital» da ilha principal, Fira, localiza-se no topo de um penhasco vertical de cerca de 400 metros, de frente para a lagoa da caldeira onde o nosso navio fundeara ao largo não parecendo mais do que um travessão lá longe…

 

Não vou aqui «gastar o meu latim» (ou grego antigo?) a contar o que a Internet profusamente ilustra por exemplo em https://pt.wikipedia.org/wiki/Santorini mas aproveito para dizer que me restam sérias dúvidas sobre a plena sanidade mental de quem se pendura naquelas altitudes e deixa tanto metro na vertical até ao mar. Do cais a que chegáramos em lanchas, amarinhámos por uma estrada que serpenteava pelo penhasco e em que o autocarro quase punha o nariz fora da estrada para fazer as curvas daquela linha num bolso. Já passei por sensações mais agradáveis. Na aflição das alturas valeram-me todos os deuses do Olimpo, mesmo aqueles de que nunca ouvi falar. Mas eles sabiam por certo da minha firme vontade de concluir o cruzeiro e fizeram-me a vontade. O motorista, pelos vistos, não tinha (e espero que assim continue) espírito de kamikaze. Felizmente, no regresso, descemos pelo teleférico.

A «neve» em Santorini.JPG

A «neve» de Santorini

 

E, sem invocar a minha aversão às alturas, tenho um óptimo pretexto para optar por outras paragens: em Santorini, o metro quadrado construído custa actualmente algo como 10 mil Euros. A maior piscina que por lá vi não teria mais do que quatro metros quadrados e, mesmo assim, na época alta do turismo, há cerca de cem aviões grandes que diariamente ali chegam vindos de todas as partes do mundo. Que lhes faça bom proveito!

 

Foi já na parte final da nossa passeata pelos cumes que vi uma planície que se estende pelo lado de fora do anel das ilhas. É claro que foi lá que optaram por colocar o aeroporto, não nos cumes por onde nós andávamos em estradas boas para funâmbulos.

 

E tudo isto me fez lembrar a promessa que nas altitudes peruanas fizera a mim próprio de nunca mais me permitir fazer turismo por lugares mais altos do que o segundo piso da Torre de Belém ou 40 metros acima da altitude média da Lezíria de Vila Franca. Conclusão: nunca digas nunca.

 

A certa altura do passeio, espreitámos por um arco que dava passagem por baixo de um edifício numa ruela pedonal super concorrida e vimos umas freiras de hábito negro que estavam num terraço lá ao fundo. Logo maldosamente comentei sobre como elas se tratavam bem com um terraço daqueles sobre o que adivinhámos uma vista deslumbrante. Logo pedi à Graça que me tirasse uma fotografia tendo como plano de fundo as «santas irmãzinhas da caridade ortodoxa». O resultado é a foto que está aqui no fim do texto. Depois da foto, fui lá ver as freiras que, afinal, … eram dois chapéus de Sol negros. E eu a pensar mal da modéstia ortodoxa. Então, por pensamentos, pecador me confesso.

 

Abril de 2018

 

 Santorini-freiras 1.jpg

Henrique Salles da Fonseca

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