O Rei D. Dinis escolheu a Igreja do Mosteiro Cisterciense de Odivelas para sua última morada. Indicou mesmo o local: a meio, entre a capela-mor e o coro.
Para que a sua vontade fosse cumprida, fez essa declaração no seu testamento.
Assim se cumpriu.
Naquele local e naquele Igreja foi depositado o seu corpo quando o cortejo fúnebre chegou, vindo de Santarém. Era um mausoléu majestoso. O primeiro a ter uma estátua jacente. O primeiro a ficar dentro de um lugar sagrado.
Estava cercado de grades altas de ferro terminando em escudetes nas pontas dos balaústres com as armas de Portugal e cruzes da Ordem de Cristo. Um dossel cobria-o em toda a sua dimensão.
O sismo de 1755 precipitou sobre o túmulo a abóbada da igreja, deixando-o gravemente arruinado.
Reconstruída a Igreja, foi o túmulo encostado à teia do corredor lateral direito e ali esteve até 1938, ano em que se fizeram novamente obras na Igreja.
Em consequência dessas obras, foi necessário mudá-lo de lugar e para facilitar o trabalho transportaram primeiro a tampa, pelo que, logo que a levantaram, ficaram à vista os restos mortais do Rei. Viu-se então um manto de brocado vermelho a cobrir o corpo do Rei, da cabeça aos pés. Este manto era tecido com fios de ouro.
A todo o cumprimento tinha faixas alternadas, separadas com fios dourados e onde se tinham executado bordados com os seguintes motivos: numa das faixas estavam bordadas pinhas em toda a sua extensão; na faixa seguinte bordaram açores e na última viam-se flores de Liz.
Na opinião dos que assistiram a este acontecimento, as pinhas são uma referência ao pinhal de Leiria; os açores, sendo o Rei um amante da caça de volataria[1], lembram-nos as aves de caça que muito estimava (conta-se que até mandou construir uma capela a São Luís em Beja porque este santo lhe ressuscitou um falcão); as flores de Liz são uma afirmação da sua ascendência real francesa.
Retirado o manto, ficou à vista o esqueleto do Rei, que estava completo e coberto pela pele ressequida. Tinha vestido um colete de lã branca muito macia, sobre a túnica. A cabeça repousava numa almofada e estava inclinada como quem dorme sobre o lado esquerdo, posição que o corpo acompanhava ligeiramente. O braço direito dobrado sobre o peito e o esquerdo descaído ao longo do corpo. Apenas os ossos dos pés estavam separados uns dos outros. Nos maxilares, a pele estava um pouco separada e apresentava uma longa barba ruiva. Na cabeça, a pele não se apresentava solta do crânio e tinha tufos de cabelos ruivos.
O Rei tinha 64 anos quando faleceu, o que para a época era uma idade avançada.
Apesar da idade, conservava todos os dentes.
Perante os restos mortais do Rei, os pintores dos seus retratos não se podiam ter enganado mais. Foi uma surpresa a verificação que era ruivo, o que se deve ao facto de ter antecedentes germânicos.
Afirma-se que soldados franceses terão tentado profanar o túmulo pensando que o Rei teria sido sepultado com esporas de ouro. De facto, alguém partiu o túmulo no sítio dos pés e terá introduzido um objecto que puxasse as esporas.
Não garanto que tivesse sido assim, mas o facto de os ossos dos pés estarem espalhados, pode ter essa explicação.
Não há sinais de o túmulo ter sido aberto antes de 1938 nem notícia de ter sido aberto depois.
Posteriormente, por decisão dos técnicos das obras, foi levado para o segundo absidíolo esquerdo, decisão que não foi aprovada pelo Presidente do Conselho que ordenou a sua remoção para dentro da Igreja por saber que essa era a vontade do Monarca. Foi então colocado onde hoje se encontra – na capela do lado do Evangelho.
"Estes são conhecimentos porque uma pessoa com saber e responsável soube transmitir-nos o que viu. Era então Director do Instituto de Odivelas um grande Militar e Pedagogo, Coronel Ferreira Simas. Assistiu à abertura e ordenou a uma professora de desenho que reproduzisse os bordados do manto.
Mais tarde, teve conhecimento de um artigo que fazia uma descrição cheia de atropelos. Então ele fez um relatório dos factos, com a descrição do que viu. Merece todo o crédito a sua descrição e foi aí que obtive as informações que aqui vos deixo com enorme satisfação."
Maria Máxima Vaz
[1] - arte de caçar com falcões ou outras aves; altanaria
Sim, também ele teve qualidades e defeitos. Venha aquele que, sem defeitos, lhe atire a primeira pedra.
Todos nós, seus contemporâneos, lhe conhecemos o curriculum e, portanto, não é necessário repetir aqui o que todos sabemos mas não esqueço que foi com alívio que o vi subir ao Poder depois de, na praça pública, o termos ajudado a suster a onda comunista que em 1975 se preparava para subjugar Portugal.
Naquela terrível época, todos os Partidos democráticos o apoiaram e eu, do CDS, também estive no comício da Alameda Afonso Henriques. Demos-lhe o nosso apoio mas foi ele que «deu a cara». E disso não me esqueço.
Afastados os nossos inimigos comunistas da área da governação, entrámos no período de normalidade do regime que maioritariamente foi escolhido democraticamente (o CDS votou em 1976 contra aquela versão da Constituição) e foi esse o tempo de estabelecermos as fronteiras entre as diversas perspectivas de bem-comum que nos propúnhamos representar: o CDS confirmou-se na democracia cristã, o então PPD reservou para si a social-democracia e o PS confirmou-se no socialismo democrático. E de aliados no tempo em que não se limpavam armas, passámos à posição de corteses adversários.
Há 20 anos, Avishai Margalit publicou um livro inspirador: A sociedade decente. Começou logo por uma definição: sociedades decentes são aquelas cujas instituições não humilham as pessoas
Human Sensations, Gyuri Lohmuller
Querer uma sociedade decente é diferente de desejar uma sociedade civilizada ou uma sociedade justa. Nem tão pouco, nem tanto, nem assim-assim.
Ser civilizado é não humilhar o outro, não o rebaixar, nem violentar, nem matar, como fazem talibãs e terroristas. Ter uma sociedade justa é não só eliminar a crueldade física e a humilhação pessoal, mas ter uma redistribuição adequada dos bens, recursos e direitos a exigir intervenção do Estado.
Eu quero uma sociedade decente. Quero condições para deixarmos de ser pisados pelas instituições. Estas – sejam públicas e privadas – canais de televisão, bancos, hospitais, escolas, segurança social, governo – humilham-nos muito; quando defraudam as expectativas dos cidadãos; quando ignoram, abusam ou excluem; quando não abrem canais de participação para tornar exequíveis as necessidades de convivência e segurança; quando não contribuem para a auto-estima pessoal, reconhecendo e promovendo a autonomia e a dignidade.
Lamentavelmente, em Portugal há muitos exemplos de indecências. A começar pelas instituições estatais onde muitos vivem à sombra da corrupção, do servilismo, da cumplicidade e da impunidade. A degradação moral e política nunca é só responsabilidade dos poderes públicos; mas estes têm nas mãos a capacidade de legislar e fazer cumprir as leis, gerir recursos estatais e garantir a coesão social. Num ano de eleições autárquicas como 2017, temos aqui muita decência a instaurar.
A humilhação implica uma ameaça existencial e a instituição que a pratica tem poder sobre a vítima. Esta sente-se desamparada. E este sentimento de impotência começa logo pelo medo em proteger os seus próprios interesses. A sociedade portuguesa está cheia destas patologias.
A perda de mobilidade intergeracional cria baixas expectativas para a melhoria da situação dos jovens. A desvantagem revela-se nos sintomas habituais de cerveja, jogos de azar e contravenções. Depois chegam a ansiedade e stress, para não mencionar a doença e suicídio. Os desempregados e precários perdem competências adquiridas e tornam-se supérfluos para a economia e sociedade. É indecente.
O aumento da desconfiança mútua e a falta de cooperação leva a exclusões. Um exemplo. Num ano de 2017 que é centenário de Fátima e de Lutero, temos os ingredientes para, de duas, uma: ou prevalece a habitual iliteracia religiosa dos portugueses com doutrinas que eram fantásticas no tempo do Padre Amaro mas que estão desfasadas do Papa Francisco que enche de enxaquecas os cardeais conservadores; ou, pelo contrário, se alcança um convívio decente entre crentes e descrentes de Fátima, e do Cristianismo nas suas várias confissões e as demais religiões. Onde as instituições forem capazes de partilhar uma visão, a sociedade ganha. Obrigar uma minoria a ceder contra vontade é como semear ventos. É indecente.
A ruptura de redes de segurança social, com a consequente corrosividade social é indecente. A prestação de serviços que custaram muito dinheiro aos contribuintes tem tido rupturas dramáticas desde a Troika. A crise de desemprego e precariado tem sido atenuada pelas redes familiares e também por instituições como as IPSS, Misericórdias, Caritas, Banco Alimentar, Comunidade Vida e Paz, quase todas de raízes cristãs.
Contudo, estas solidariedades escondem uma grande indecência: a mentalidade portuguesa parece boa para apoiar quem sofre mas não cria redes equivalentes para quem quer prosperar; não temos que ficar condenados ao síndrome do coitadinho, típico das sociedades mediterrânicas; afinal somos um país atlântico de descobridores; é preciso combater a deterioração social sem precedentes que cria amargura e ressentimento com instituições que criem emprego, serviço, e que combatam a desigualdade é corrosiva. Senão, é indecente.
Uma coisa é saber que há desigualdade e patologias; outra coisa é chafurdar nelas como as empresas de televisão com a adulação idiota de personalidades e o elogio da riqueza frívola. As televisões descem ao nível da corrupção de sentimentos, ao deixarem no esquecimento os esforços de país e avós e ao inculcarem uma espécie de cultura de conforto, esforço mínimo, e sedução informativa. A pornografia arrisca-se a ser a coisa mais decente das televisões generalistas. A tendência cretina para admirar a riqueza e as celebridades – o estilo de vida dos ricos e famosos – é assustadora. E quem senão Adam Smith afirmaria que “essa disposição para admirar os ricos e poderosos, e desprezar ou pelo menos ignorar as pessoas pobres é a causa mais comum de corrupção”?
No meio de tantos legítimos desejos e votos para o ano novo, deixo aqui o meu: que 2017 seja um ano de uma sociedade mais decente, em que diminuam as indecências que vemos estampadas nos rostos e nos gestos dos excluídos, desempregados, precários e todos os não reconhecidos.
Quanto mais velho, menos horas de sono, mais leituras e escritos nocturnos. Foi por isso que levei para Dubrovnik um livrinho que me apetecia reler, «O Regresso da Princesa Europa», de Rob Riemen[1].
Porquê e para quê?
Porque já tinha gostado dos livros dele que lera antes, «NOBREZA DE ESPÍRITO» e «O ETERNO REGRESSO DO FASCISMO», ambos traduzidos em português e publicados pela Bizâncio, editora que, também ela, merece o meu respeito; para verificar até que ponto os croatas, bósnios e montenegrinos são mais ou menos europeus que nós, os velhos europeus.
Recordando, a síntese do que escrevi e publiquei depois da leitura de cada um daqueles livros:
A verdadeira nobreza é a do espírito por via das artes, das humanidades e da filosofia que permitem à Humanidade a descoberta e reivindicação da sua forma mais elevada de dignidade, aquela que faz distinguir a pessoa daquilo que também é: um animal[2];
Uma filosofia em que o objectivo mais elevado é o podere que resulta claramente de um espírito de permanente competição. Como cada vitória tenderá a elevar o nível dessa mesma competição, o final lógico de tal filosofia é o poder ilimitado e absoluto. Aqueles que buscam o poder podem não aceitar as regras éticas definidas pelos costumes, a tradição e, pelo contrário, adoptam outras normas e regem-se por outros critérios que os ajudam a obter o triunfo. Tentam mesmo convencer as outras pessoas de que são éticos no sentido do objectivo supremo por eles definido tentando conciliar o poder e o reconhecimento da moralidade.[3]
Neste, que levei até à Croácia para ocupar o vazio das insónias, depois de referir as questões essenciais dos dois livros anteriores, Rob Riemen centra-se na questão da verdade para nos dizer que, sem ela, não haverá mais Europa.
Então, o que é a verdade?
A verdade científica nunca é mais do que a realidade, os factos, o que podemos observar, tocar e calcular e, mesmo assim, pode variar ao longo dos tempos até ter levado Karl Popper a afirmar que ela não é mais do que um ponto no infinito. E também Wittgenstein disse algo como «quando todas as questões científicas possíveis e imagináveis tiverem sido respondidas, os problemas da vida – a tragédia, o sofrimento, a felicidade, o significado das nossas vidas – permanecerão completamente intocados» porque a ciência e o mistério da vida são dois mundos diferentes. E, neste sentido, a ciência priva-nos da verdade. Então, com todo o Ocidente dedicado ao materialismo, é a própria Europa que, também ela, se perde num amontoado de verdades transitórias e parciais.
Perdido o sentido da metafísica, nenhuma verdade pode existir, a mentira domina e triunfa o nihilismo da missão do homem na vida. E esta vacuidade leva forçosamente à filosofia do poder, ao «salve-se quem puder». E foi nesse desespero que Nietzsche pôs termo à vida.
O drama do Ocidente – e, nele, a Europa – está em evitar que a nossa velha Civilização continue na senda nietzschiana.
Foi nesta busca que fui à Dalmácia, tentar perceber ao que andam croatas, bósnios e montenegrinos depois da débâcle por que passaram com a desintegração da sociedade jugoslava.
Concluo que a Europa ganhará com a adesão plena destas três repúblicas mas duvido que elas ganhem muito ao aderirem ao nihilismo por cá reinante.
E a questão é: estará o Ocidente ainda a tempo de arrepiar caminho?
Quero acreditar que sim.
Finalmente, perguntarão os meus companheiros de viagem que lerem este escrito se foi isto que por lá andei a fazer. E a resposta é: sim, foi; até porque nem só de pedras se faz o turismo.
Janeiro de 2017
Henrique Salles da Fonseca
BIBLIOGRAFIA:
O Regresso da Princesa Europa, Rob Riemen – ed. Bizâncio, 1ª edição – Setembro de 2016
Falar na América do Sul e esquecer um pirú, aliás o Peru, é pecado grave.
Talvez porque comemos um dia 24 de Dezembro.
Há uns anos era um de 10 ou 12 quilos, depois com 9 ou 10, e este ano a inflação comeu metade e foi um só com 6 quilos. Mas ninguém ficou com fome – e há tantos que a têm – e pudemos agradecer ao Senhor ainda nos ter dado este! (Aliás... comprado)
Mais ainda quando eu sou um declarado admirador, e saudoso, deste país. Mas tenho alguma desculpa.
Em 2002 andei por lá (hiii... já lá vão 15 anos!) voltei encantado e escrevi quatro artigos sobre aquela terra que estou à espera que me caia uma grana dos céus para poder voltar.
De lambuja levam aqui uma pequena aguarela que fiz nessa viagem e que era a vista do nosso quarto no hotel ao lado do célebre Machu Pichu.
Como é evidente, lá... é outra coisa! Tudo rodeado de montanhas, uma atmosfera limpa, por muito ateu ou descrente que se seja, respira-se algo de místico, uma visita imperdível e se... a repetir.
Pequena “viagem” pela América do Sul, a olhar para o que passou. Visão... dantesca.
À frente do alfabeto vem a Argentina que ganha do Brasil por 2 a 1. Duas madamas presidentas, qual delas a mais pior má, contra uma que... empata com elas. Em corrupção, em desorganização, em favoritismos, parecendo que a única diferença seria que as duas argentinas, segundo as boas línguas, receberiam alguns favores, enfim secretos, enquanto à brasileira nem o diabo lhe quis aparecer. Coisas!
2016 trouxe um novo presidente, macro, super aplaudido no início e super xingado ao fim de alguns meses!
Mas o que não se pode negar é que a Argentina tem a melhor carne do planeta, magníficos vinhos, uma Patagónia espectacular e a cidade mais austral do dito planeta onde se podem comer brilhantes santolas – centolla – e uma merluza negra ou o cordero fueguino, huummm, madre mia!
A seguir o B.
A Bolívia em vez duma eva tem um evo! Está no terceiro mandato, e quer mais uma vez alterar a constituição para se quadri-eleger. O povo já votou NÃO, mas o evinho, ou evito, que gostou do poder, vai fazer novo referendum e já se imagina que o “povo” vai dizer sim, mesmo antes de votar. Mas, vá lá, o país vem crescendo cerca de 5% ao ano apesar de cerca de 50% da população viver abaixo da linha de pobreza.
O tal evo roubou a refinaria ao Brasil, e depois o sapo barbudo decidiu que ficava tudo por isso mesmo, não valia a pena chatear o compañero... porque sempre pode escorrer algum por fora. E nisso os esquerdistas são muy amigos.
Tem coisas maravilhosas para se visitar, como o lago Titicaca, mas já está poluído por falta de ordenação e excesso de turismo! É!!!
Na sequência alfabética aparece a Colômbia. O governo fez um acordo de paz com as FARC, mas o povo não gostou! Parece que por toda a parte as gentes procuram a paz menos 51% dos colombianos. Talvez tenham assim mais dificuldade em mandar a coca para o EUA que, além de serem os principais consumidores, são os grandes fornecedores da química para transformar a pasta de coca em cocaína.
Boa parte da Amazónia colombiana, cheia de petróleo, tem milhares de quilómetros quadrados onde nada o petróleo, tudo pela ganância. Uma delícia para o ambiente.
Ainda no B, como todos sabem (só alguns, infelizmente) o Brasil nada tem a ver com a Venezuela, salvo a sua grande fronteira comum. Primeiro porque Brasil se escreve com um “B” e Venezuela... não.
Depois porque a Venezuela nem papel higiénico tem para a população se higienizar, apesar do presidente estar podre de maduro e de estupidez, enquanto os brasileiros podem, sem que alguém tenha alguma coisa a ver com isso, limpar o que quiserem, excepto os políticos. Para esses não há papel que chegue, nem cartão, nem sentenças judiciais... quando as há! O resto, segundo estatísticas, parece que anda limpinho.
No Brasil o sapo barbudo, dilmissimamente mancomunado, conseguiu destruir uma economia que, malgré toda essa ladroagem, campeã mundial em meter a mão na cumbuca pública, continua a crescer, porque segundo Caminha, aqui em se plantando tudo dá.
Agora está lá um pobre diabo, que não é de temer, porque quer dar-se bem com a esquerda, com a direita, com Deus e o Demo, e não tarda a levar um chuto no lugar certo. Quanto aos demais, os chamados “lá de cima”, parece haver uma disputa para ver quem ganha o maior número de processos nos tribunais, o que parece lhes dá mais prestígio e força política. E olhem que a tabela de classificações, além de ser enorme, tem caras muito bem classificados. Até dá gosto ver o fenomenal desempenho de alguns – qualquer coisa como mais de um milhar deles – e, sobretudo tentar compreender como se consegue roubar tanto sem ficar saciado, e ficar a rir dos juízes. É o jeito!
Bem, o Brasil tem praias, caipirinha, lindas mulheres e muitos assassinatos. Só uns 55 a 60 mil por ano.
Estreámos o ano com 60 assassinatos numa cadeia (com requintes de decapitação e esquartejamento) o tal inter-temer (inter, de interino) até hoje parece não ter tomado conhecimento porque nada disse, e, estamos no dia 5 e só no Rio já assassinaram 5 policiais. Boa média.
O C. Quem quiser visitar a Colômbia, tem que ir a Cartagena de Las Indias, que foi o grande centro de distribuição de escravos para todo o Caribe e Estados Unidos. Cidade muito bonita, a parte histórica, mas com história um quanto feia.
Também pode ir a Medellin ou Cali e tentar a sorte associando-se a algum narcotraficante, já que foram (ou ainda serão?) os maiores polos de produção e distribuição de narcóticos.
Esta não faz parte dos meus planos turísticos.
Chegamos ao Equador. Presidenciado por um amigo da turma sinistra, como o sapo barbudo, maduro de podre, evito de la coca, o ex fidelíssimo e outros quejandos – seguia com a economia em razoável situação até que o preço do petróleo caiu. Além disso como há uns anos adoptou o dólar como moeda, com a alta do dólar... agora está um bocado... à rasca.
Por enquanto no aspecto de turismo tem muita coisa para ver. Segundo os Caras, os mais antigos da região foram os Quitos. Descobriram tudo porque tudo estava por descobrir, incluindo o rio das esmeraldas, que... não tinham a quem vender!
Depois vieram os Incas e por fim os castelhanos que os lixaram a todos. Podem pôr na lista de viagem que não se arrependem.
O Chile está pela segunda vez com a mesma madama, que no primeiro mandato combateu a esquerda e agora combate a direita. É de supor que a dona micheleta bachelle faz muito bem porque isso de não variar torna o governo chato. O póbrema é se ela se lembra de allendear o país e destruir o que de bom entretanto o Chile já conseguiu. Apesar de tudo continua a ter vinhos excelentes, cuja exportação vai aumentando, mas o cobre...ai! o cobre ainda representa 50% das exportações (o primeiro exportador de Cu do mundo), o que deixa o país vulnerável às variações de cotações internacionais.
Mas o turismo cresce e eu, se pudesse, voltaria lá. Beber o vinho, comer frutos do mar e ir lá... ao Sul, e passear na Estreito do Magellan! É uma beleza.
Das três guianas não há muito que se diga, a não ser os nomes delas:
- a francesa continua a ser uma colónia de França de onde os ditos/as lançam foguetes, e pouco mais produz do que ouro. Tem um lugar “magnífico”, a Ilha do Diabo, a daquele “hotel de luxo” de onde, em 1935, fugiu o famoso Papillon (de seu nome, Henri Charrière) e que faz parte das chamadas Ilhas da Salvação. Salvou-se... um!
- a holandesa, desde 1975 independente com o nome de Suriname tem ouro e bauxita e... que mais tem?
- e a terceira Guiana tout court, era inglesa, em 1970 perdeu este british complemento, é o país mais pobre do continente e a Venezuela ainda lhe quer mamar mais de 60% do território, porque diz que o bolivarzinho... de modo que tem sempre questões fronteiriças.
Do Paraguay também não há muito que se diga. Teve um presidente, depois de vários frutos, que era bispo, deixou de o ser, fez imensas burradas e uma porção de filhos nas suas devotas seguidoras, e mostrou ao Brasil o caminho do impeachment, levando um chuto nos fundilhos. Hoje em dia quem dá as cartas é o cartes. Vive principalmente da energia elétrica que o Brasil consome na barragem bi-nacional de Itaipu, da agricultura e do contrabando, contrabando de tudo, para o Brasil!
Para finalizar o tour sul-americano chegamos às ex Províncias Cisplatinas, o Uruguay. Paisinho tranquilo, óptimo para vacaciones, casino, praias e um governo de esquerda-direita-esquerda que se democratizou desde 1985 e se porta razoavelmente bem, com 50% da população vivendo na capital.
Como os vizinhos, têm óptimo comida, algum vinho... razoável, muito boi e carneiro, soja, etc.
Até o Carlos Gardel disse que era uruguaio – era francês! – para não servir no exército na II Guerra Mundial.
O nosso filho Luis também sonha em se matricular no Uruguay. Sonhar é barato.
Never ever forget 93 – pequeno graffiti numa caixa de electricidade na rua que segue para além da ponte de Mostar. Vi-o por acaso mas, no regresso, voltei a vê-lo do lado de cá da ponte.
E se, de Mostar, não guardo nenhuma imagem da guerra, lembro-me nitidamente do horror que nessa época foi Sarajevo, a capital da Bósnia-Herzegovina.
Então, apesar de não ter sido nada comigo, também eu jamais esquecerei 93. Sim, pelas mesmas razões que os bósnios recordam mas, no meu caso, de modo apenas metafísico.
Mostar 1993
Não quero estabelecer paralelos sobre os locais em que a sanha de Milosevic se fez mais rude mas esse personagem foi, de facto, o maior responsável pela desintegração da Jugoslávia. Bem sei que não visitei a Sérvia e, portanto, tenho uma visão parcial da questão global mas nos três Estados que visitei (Croácia, Bósnia-Herzegovina e Montenegro), ouvi dizer bem e menos-bem de Tito mas em todos apenas ouvi dizer mal de Milosevic. Maldito projecto da «Grande Sérvia» que tanta desgraça semeou durante esse pandemónio que começou em 1991 para só acabar em 1995. É que, com Tito, não havia um Estado integrado na Jugoslávia que oficialmente se sobrepusesse aos demais enquanto que, com Milosevic, o projecto da «Grande Sérvia» não deixava quaisquer dúvidas sobre quem mandaria em alguém. E estes «alguém» não queriam passar de iguais a subalternos dos «quem». E como quem tudo quer, tudo perde, o projecto da «Grande Sérvia» chumbou e a Jugoslávia desintegrou-se.
Perguntada, a nossa guia croata fez uma comparação entre o durante e o depois de Tito (croata, também ele) que me encantou pela síntese: com Tito, não tínhamos quaisquer luxos e não podíamos dizer mal do Regime mas tínhamos emprego, a barriga praticamente cheia e a casa era quase gratuita; agora, somos todos livres, independentes e prósperos mas temos que puxar muito para nos aguentarmos no balanço. Foi já no seguimento da conversa que ela acrescentou o ensino e a saúde como gratuitos no antigamente. Uma vez que nada referiu quanto ao hoje, deduzo que actualmente possa haver “taxas moderadoras” e propinas escolares.
E então, quem é que «se aguenta no balanço»? Já lá iremos...
Janeiro de 2017
Henrique Salles da Fonseca
(Mostar, Bósnia-Herzegovina, 30DEZ16, frente a parede de fuzilamentos, para memória futura)
«Distúrbios de D. Afonso VI em Lisboa» - quadro de Alfredo Roque Gameiro
Depois de ser considerado física e mentalmente incapaz para assumir a direcção do reino, após a morte do rei D. João IV, seu pai, e de Teodósio, seu irmão e herdeiro, D. Afonso VI, El-rei de Portugal, é afastado do Paço Real, onde passou a governar seu irmão o Príncipe D. Pedro.
Para evitar tentativas de recolocá-lo no trono, foi levado com todas as mordomias reais para o Castelo e Forte de São João Batista, em Angra, Ilha da Terceira, Açores.
Corria o ano de 1669. Em 17 de Julho, em pleno verão, chega ao Porto da Cidade de Angra uma armada composta de três fragatas e uma caravela, comandada pelo Marquez das Minas, D. Francisco de Sousa. Trazia o malfadado D. Afonso VI. Incapaz de dar herdeiros ao reino, vê seu casamento anulado e a rainha casar com seu irmão D. Pedro, o príncipe regente. No dia 21 de Julho, finalmente às 4h desembarca o rei amparado no braço do Marquez após a descarga de boas vindas da artilharia. Andava com dificuldade em razão do achaque de estupor que padecia desde a infância. Já em terra, subiu à liteira com o Marquez que o levou ao Castelo de São João Batista. À entrada, nova salva de 21 tiros, com festas e repiques de sinos, pelas igrejas e mosteiros da cidade de Angra. Aposentou-se El-rei na casa e galeria do governador. Nos alojamentos inferiores ficaram os capitães da guarda e alguns criados de maior foro. Concluídas as novas funções no Castelo, o Marquez volta para Lisboa e entrega à Corte as novas participações dos oficiais. A serviço da pessoa de El-rei ficou em Angra um provedor da casa (Manoel Nunes Leitão), 5 assistentes da guarda com ocupação da porta dia e noite. Cinco guarda-roupas, cinco moços de câmara, um escrivão de cozinha e tesoureiro, um médico, um cirurgião, dois capelães, dois moços de capela, um manteiro, um comprador, um mestre de cozinha, 6 reposteiros, 4 oficiais de cozinha, 4 moços de cozinha, 2 moços da prata, um varredor.
Em Outubro chega ao Porto de Angra uma charrua, constante de um coche forrado de damasco vermelho, uma liteira do mesmo e outra de menor valor. Vieram também 6 cavalos que morreram em 3 anos e as pessoas que os deviam tratar. Todas as mesadas eram religiosamente pagas. O que sobrava era distribuído aos oficiais e pessoas que assistiam no Castelo. Abriram e aplanaram caminhos nas montanhas do Castelo de São João para dar divertimento ao rei que ali ia se entreter por várias tardes. Seja no Verão ou no Inverno, costumava levantar-se às onze horas para o meio-dia. Jantava das três às 4 horas da tarde. E todo o tempo que mediava até as 11 h procedia em travessuras de absoluta criação que tivera. E de tão inquieto, nenhum criado se considerava seguro em sua presença. Ninguém o suportava. Era incapaz de guardar menor segredo. Revelava até o nome do autor. Agastava-se com o fidalgo Luiz de Sá e Miranda só por lhe dizerem ser mais valente que ele. Por isso intentou certo dia acometê-lo sobre o Pico do Facho e o mataria às cutiladas se não fosse a humildade com que ele se portou e a presença de Manoel Nunes Leitão. Queixava-se de seus criados de tal maneira que excitava as lágrimas dos que o ouviam, chegando a dizer “... sua desgraça era tal que o príncipe, seu irmão, permitia que os criados o descompusessem, ali estava exposto a tudo! Era dotado de uma prodigiosa retentiva. Bastava que lhe dissessem o nome de qualquer sujeito uma vez para lhe ficar na lembrança para sempre. Compadecido da miserável pobreza, todos os dias a socorria de sua mesa, até com prodigalidade. A mesma roupa que usava no Verão usava no Inverno, mas sobre a camisa se ligava com toalhas, a poder de alinhavos, que por grandes movimentos que fizesse não caiam, sendo assim que dormia. Comia uma única vez, porém com tal avidez que repugnava. Duas a três vezes ficou doente com febre e uma delas, foi a pontos de dar bastante cuidado a sua vida. Ainda não passado um ano da sua chegada à Terceira, espalhou-se a notícia infundada que o príncipe D. Pedro estava mal de saúde. Coisa esclarecida com as novidades trazidas de Lisboa por uma caravela. O príncipe apenas havia caído de um cavalo e passava bem. Mesmo assim, os ciúmes e inimizades grassavam na casa de El-rei em Angra, a ponto de em 1670 vir até aquela ilha um corregedor natural de São Miguel, Manuel Bicudo Delgado de Mendonça, que ali começou a correição e mais tarde passou à corte como Desembargador. Por esse mesmo tempo os do partido do rei urdiram tramas a ponto de se supor que a Terceira havia levantado os povos pondo o rei em liberdade e restituindo-lhe a coroa. O príncipe mandou uma embarcação informar-se como estava a situação na ilha, mesmo depois das notícias sossegadoras do Provedor da Fazenda. Assim correram os anos com arrumadores de tumultos e supostas rebeliões que queriam restituir D. Afonso VI ao poder.
«D. Afonso VI preso em Sintra» - quadro de Alfredo Roque Gameiro
Em 1672, rebentaram nos Cedros, Ilha do Faial, junto ao Capelo, cinco ribeiras de lava ardente com destruição de moradas e campos. O tremor de terra foi sentido apenas levemente na Terceira. Em 1673 é eleito para Governador do Castelo São João Batista Manuel Nunes Leitão. Movimentos para restituir o poder ao rei seguiram-se sem efeito. Até que em 1674, D. Afonso é enviado de volta a Lisboa e é “aposentado” em Sintra, “guardado por soldados e pelos assistentes que o acompanhavam desde que estivera na Terceira. Morreu em 12 de Setembro de 1683 aos 40 anos, prisioneiro em Sintra.
Uberaba, 03/01/2017
Maria Eduarda Fagundes
Dados compilados dos ANAIS DA ILHA TERCEIRA (Volume II, pag.157 a 167)
Reimpressão Fac-similada da Edição de 1856
Governo Regional dos Açores (Secretaria Regional de Educação e cultura)
Cansados, foi quando deixámos de andar na lufa-lufa e nos sentámos por nossa própria conta num comprido banco de pedra estendido ao longo da muralha do velho porto de Dubrovnik. O Sol haveria de nos fazer companhia até ao meio-dia exacto quando todas as igrejas da cidade repicaram e, desaparecido, deixou cair a sombra em cima de nós. Foi então que mudámos de poiso. E o gato que estava deitado sobre um cartão que o dono pusera ali mesmo ao nosso lado, acompanhou-nos para o lugar que seria soalheiro por mais algum tempo. A certeza do caminho com que nos acompanhou, levou-me a duvidar se ele, o gato, veio mesmo connosco ou se fomos nós que o acompanhámos até ao lugar que ele tomava sempre que o Sol passava por cima da muralha e entrava na cidade. Conversa calada, não lho perguntei e ele não mo disse. Fiz-lhe mais uma festa a agradecer a companhia e ele disse que estava «mau» com um «i» lá pelo meio. Sotaques... Foi então que me lembrei da Simone de Oliveira e do seu «Sol de Inverno». Não fui capaz de cantarolar; esqueci-me da melodia que, por certo, a teria.
Aquela a que continuo a chamar «de beau voir, pas d'écouter»
Acalmado o movimento de barcos a levar e a trazer turistas em passeios de périplo a Loktrum, a ilha verde, que nós fizéramos na véspera, pude então copiar James Joyce na sua epifania dos lugares mágicos. E o velho porto de Dubrovnik é mesmo mágico! Imaginei e quase vislumbrei os marinheiros de todas as gerações que por ali passaram, os comerciantes chegados de Alexandria ou a caminho de Veneza, os turcos às ordens do «magnífico» Suleimão que por ali passavam em busca do tributo anual de muitos milhares de moedas de oiro, o preço da paz que a Bósnia não foi capaz de negociar. Lembrei-me das gerações de banqueiros que por ali assentaram arraiais, dos humildes frades menores franciscanos que ainda por lá estão assim como dos seus vizinhos à distância de poucos quarteirões, os soberbos pregadores dominicanos. Mas lembrei-me também dos sábios professores jesuítas que já não cabem na cidade velha e fizeram dois colégios extra muros. Mais prosaicamente, lembrei-me das sucessivas vagas de políticos e de outros malandrins...
Olhando quase na vertical, vi bem lá em cima a fortaleza que Napoleão mandou construir no cimo dos penhascos bem íngremes a que hoje se chega de teleférico. Dali, puderam os franceses bombardear a cidade transformando o tiro curvo da artilharia em tiro tenso sem necessidade de fazerem cálculos de pontaria para acertarem nos alvos cá em baixo, à disposição. As tropas de Milosevic também. Napoleão ainda se aguentou na pilhagem durante oito anos; Milosevic, não[1].
Sem fome, é uma da tarde do dia 2 de Janeiro e o relógio aconselha a comer qualquer coisa num daqueles quiosques de comes e bebes na “Stradun”, a Rua Direita lá do sítio, para mais logo tomarmos o transporte para o aeroporto e o rumo de Lisboa. E como no avião só serviriam uma «sandocha», abalancei-me a umas «french fries» com mostarda de Dijon e mais não disse.
E que mais levo da Croácia? Logo direi...
Janeiro de 2017
Henrique Salles da Fonseca
[1] A agressão militar sérvio-montenegrina à Croácia decorreu de 1991 a 1995.