Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

A bem da Nação

STARTUPS, EMPRESAS E INVESTIDORES

 

StartUps.jpg

 

 

Há start-ups lançadas por quem está em ‘necessidade de subsistência, por não encontrar outra ocupação; e há start-ups criadas por ‘oportunidade’ de realizar um negócio que aparenta ser proveitoso.

 

As primeiras dão-se mais em países pobres, quase todos espoliados e desorganizados pelo colonizador, onde, ainda hoje, se procura sobreviver. Não é infrequente que algumas destas start-ups dêem em negócios e, depois, em empresas com interesse, por o seu objecto ir ao encontro do que a sociedade procura.

 

Nos países ricos, com protecção social e rendimentos de inserção, quase não existem start-ups de necessidade a não ser para imigrados e quantos não beneficiam dos apoios sociais.

 

Uma pessoa atenta às lacunas da sociedade, em especial no âmbito do seu saber, ou por tocarem as suas ocupações habituais, pode descobrir modo de lhes dar solução; muitas apps são exemplo disso. A capacidade de observação e indagação pode levar a imaginar produtos/serviços que faltavam e acabam por ter boa aceitação no mercado.

 

De uma ideia vem o protótipo; mais tarde, a start-up que cresce à medida que difunde a utilidade do que produz, atraindo mais utilizadores.

 

Entre as empresas mais chamativas, pelo grande crescimento e impacto na sociedade, estão a Uber e a Airbnb. Ambas têm uma boa plataforma informática, onde interagem fornecedores e utilizadores. E todos os recursos que utilizam, os táxis na Uber e as casas ou quartos na Airbnb, não são propriedade sua. Elas não possuem nada, para além da plataforma e da grande vivacidade que imprimem com a constante actualização da oferta, salpicada de novos serviços.

 

Em geral, todas as start-ups precisam de disponibilidade financeira, para se darem a conhecer e para prestarem com eficiência o serviço que se propõem.

 

Como financiar tais start-ups, para as fazer crescer, dando lugar a um negócio e depois a uma empresa? A forma habitual é que o próprio iniciador junte às suas economias o que conseguir de familiares e amigos, enquanto a ideia ainda não dá receitas suficientes. É o capital-semente;  e os que nele intervêm, têm parte no capital da start-up. Quando a ideia se vai afirmando, é preciso servi-la num círculo maior e fazê-la afirmar em âmbitos que tragam mais vendas.

 

É crucial encontrar financiamento para crescer bem e depressa, uma vez testada a validade da ideia.

 

Se se tem contactos numa associação de Business Angels, pode-se ter algum capital adicional; mas sempre parece pouco. Pode-se também recorrer ao crowdfunding, chamando muitas pessoas via net ou carta; este meio parece mais teórico do que efectivo. Ainda há os capitais de risco  (venture capital), de entidades privadas ou entidades financeiras, que podem dar um bom empurrão, para se atingir uma dimensão suficiente para convencer depois a banca comercial a emprestar mais dinheiro, para chegar à dimensão de ‘cruzeiro’. A banca é complicada, faz perder tempo e pouco entende da veleidade de criar empresas. Empresta a quem já é rico, não a quem precisa… Mas há que contar com ela.

 

Há o perigo da imitação, levando a criar start-ups parecidas e melhoradas. As start-ups informáticas e tecnológicas beneficiarem de efeitos de externalidade. Quanto mais são utilizadas, mais se afirmam, pelo efeito positivo de ter muitos utilizadores; assim, dos muitos que começam, por exemplo em e-commerce, sobressaem uns poucos, até ficar um ou dois, com dimensão que dá para prestar um bom serviço e ser rentável. Os outros são absorvidos ou desaparecem.

 

Daí que,  nas iniciativas tecnológicas, haja certa relutância em investir, pelo risco de se apostar no ‘cavalo’ errado.

 

São os empreendedores que, através das empresas, criam riqueza e trabalho. Daí que todos os países tenham de criar ambiente que favoreça o aparecimento de pessoas com iniciativa, criativas, e também de financiadores (sejam business angelsventure capitalists, etc.) que entendam bem o seu papel na sociedade.

 

Nos países mais comprometidos com empreender, tenta-se institucionalizar o modo de criar encontro e interacção entre potenciais empreendedores, criando muitas incubadoras/aceleradoras de start-ups e mesmo Escolas de empreendedores.

 

Um recente estudo falava que os países nos primeiros lugares do ranking das start-ups tecnológicas eram: 1º EUA, 2º UK e 3º Índia; UK tinha quase 1/10 das dos EUA e estava muito próximo da Índia; mas a verdade é que grande parte das start-ups dos dois primeiros é de emigrados da Índia.

 

Eugénio Viassa Monteiro.png

Eugénio Viassa Monteiro

Professor da AESE – Business School

UM PRIMEIRO SUBSÍDIO PARA A CABOVERDEANIDADE

 

 

JCH-Padre António Vieira.jpg

PADRE ANTÓNIO VIEIRA

 (Lisboa 1608 – Bahia 1697)

 

 

Fragmento da carta ao Padre António Fernandes, Confessor do Príncipe D. Teodósio escrita, em Santiago, a 25 de Dezembro de 1652

 

É o caso que nesta ilha de Santiago, cabeça de Cabo Verde, há mais de sessenta mil almas, e nas outras ilhas, que são oito ou dez, outras tantas, e todas elas estão em extrema necessidade espiritual; porque não há religiosos de nenhuma religião que as cultivem, e os párocos são mui poucos e mui pouco zelosos, sendo o natural da gente o mais disposto que há, entre todas as nações das novas conquistas (*), para se imprimir neles tudo o que lhes ensinarem. São todos pretos, mas somente neste acidente se distinguem dos Europeus. Têm grande juízo e habilidade, e toda a política que cabe em gente sem fé e sem muitas riquezas, que vem a ser o que ensina a natureza.

 

Há aqui clérigos e cónegos tão negros como azeviche, mas tão compostos, tão autorizados, tão doutos, tão grandes músicos, tão discretos e bem morigerados, que podem fazer inveja aos que lá vemos nas nossas catedrais. Enfim a disposição da gente é qual se pode desejar, e o número infinito; porque além das cento e vinte mil almas que há nestas ilhas, a costa, que lhe corresponde em Guiné e pertence a este mesmo bispado, e só dista daqui jornada de quatro ou cinco dias, é de mais de quatrocentas léguas de comprido, nas quais se conta a gente não por milhares senão por milhões de gentios. Os que ali vivem ainda ficam aquém da verdade, por mais que pareça encarecimento: porque a gente é sem número, toda da mesma índole e disposição dos das ilhas, porque vivem todos os que as habitam sem idolatria nem ritos gentílicos, que façam dificultosa a conversão, antes com grande desejo, em todos os que têm mais comércio com os Portugueses, de receberem nossa santa fé e se baptizarem, como com efeito têm feito muitos; mas, por falta de quem os catequize e ensine, não se vêem entre eles mais rastos de cristandade que algumas cruzes nas suas povoações, e os nomes dos santos, e sobrenomes de Barreira, o qual se conserva por grande honra entre os principais delas, por reverência e memória do padre Baltazar Barreira, que foi aquele grande missionário da Serra Leoa, que, sendo tanto para imitar, não teve nenhum que o seguisse, nem levasse adiante o que ele começou. E assim estão indo ao inferno todas as horas infinidade de almas de adultos, e deixando de ir ao Céu infinitas de inocentes, todas por falta de doutrina e baptismo, sendo obrigados a prover de ministros evangélicos todas estas costas e conquistas os príncipes de um Reino, em que tanta parte de vassalos são eclesiásticos, e se ocupam nos bandos e ambições, que tão esquecidos os traz de suas almas e das alheias; mas tudo nasce dos mesmos princípios.

 

Padre António Vieira, Obras Escolhidas, prefácio e notas de António Sérgio e Hernâni Cidade, Volume II, Cartas II, segunda edição, 1997, Livraria Sá da Costa Editora, Lisboa, p. 193-4

 

(*) Cabo Verde não foi uma conquista.  O Padre António Vieira refere-se aos novos territórios conquistados ou ocupados e administrados pelos portugueses, incluindo os portugueses caboverdeanos, para comparação.

 

A 25 de Dezembro de 1652, há mais de trezentos e cinquenta anos, na sua segunda viagem de Portugal para o Brasil, o Padre António Vieira fez escala em Santiago, Cabo Verde, onde desembarcou na Ribeira Grande com outros missionários e se demorou uma semana de 20 a 26 de Dezembro de 1652 (Padre António Brásio, 1946, O Padre António Vieira e as Missões de Cabo Verde, Portugal em África, Revista de Cultura Missionária, Segunda Série, Ano III, Número 17, Set. – Out. p. 298 - 305). Além de ter feito um sermão, deixou-nos este subsídio para a caboverdeanidade extraído duma carta, que escreveu na Cidade Velha. Não achou diferença entre os portugueses deste arquipélago do Atlântico tropical e os portugueses europeus, que não fosse aparente. Para ele, já nesses tempos distantes, os caboverdeanos eram europeus, mais concretamente portugueses. Para ele, mesmo falando a sua própria língua materna, os caboverdeanos não deixavam de ser portugueses e não tinham necessidade de se lhes ensinar a língua portuguesa, porque “todos a seu modo” a falavam já.

 

O Padre António Vieira da Companhia de Jesus, que estava de regresso à sua missão no Brasil, falava correntemente e fazia sermões na língua dos índios do Maranhão, que não considerava serem portugueses. O Maranhão e o Brasil eram uma conquista, onde os jesuítas defenderam os direitos e a dignidade dos índios vencidos. Cabo Verde não era uma conquista, foi uma colónia como a Madeira e os Açores, mas povoada, não só por colonos portugueses da Europa e da Madeira, como também por uma maioria de colonos africanos de variadíssimas etnias e nacionalidades.

 

Para desenvolver a ilha de Santiago e outras ilhas de Sotavento, os habitantes de Santiago foram angariar mão-de-obra ao continente africano vizinho, onde os potentados muçulmanos escravizavam os prisioneiros de guerra e os povos pagãos e onde havia uma multi-secular tradição de venda regional e exportação de escravos fomentada pelos árabes, ou mesmo anterior a estes. Traziam-nos do interior do continente e vendiam-nos no litoral entre o rio Sanaga, que separava os mouros brancos dos jalofos pretos, e a Serra Leoa, onde rugiam as trovoadas. O Rei de Portugal tinha concedido o monopólio do comércio de todo esse litoral africano de mais de quatrocentas léguas de comprido, ou cerca de 1.200 km de costa recortada por ansas, cabos, penínsulas, estuários, canais, ilhas e numerosos rios, aos habitantes de Santiago, a primeira ilha do Arquipélago a ser povoada e aquela que foi o berço da língua crioula e da nação caboverdeana, um ramo da nação portuguesa.

 

Depois das guerras, separações das famílias, maus tratos, falta de alimentação e longas caminhadas do interior até ao litoral amarrados uns aos outros por correntes, cordas, cadeados e cangas, a chegada a Cabo Verde, onde tinham trabalho, alojamento, roupa e alimentação, além de assistência religiosa e onde podiam constituir família era certamente uma vida nova para esses infelizes escravos africanos.  Os habitantes de Santiago e os proprietários, em Santiago e nas outras ilhas de Sotavento, casaram-se, tiveram filhos com as escravas mais prendadas. A partir da primeira geração de crianças nascidas em Santiago, os escravos e os não escravos foram todos integrados na emergente nação caboverdeana. Os escravos boçais, que iam chegando depois, foram sendo assimilados na nação caboverdeana, tornando-se ladinos.

 

Em Cabo Verde não houve vencidos, nem vencedores, nasceu e desenvolveu-se uma sociedade mestiça e uma nação nova, com a sua própria língua materna e língua de trabalho, ao lado do português. Este era estudado e praticado pela minoria escolarizada dos caboverdeanos, que foi aumentando ao longo dos séculos, tornando-os bilingues. Nesta sociedade homogénea e na sua diversidade de aparência, os movimentos verticais, pela educação e pelo trabalho e iniciativas individuais e familiares, modificaram a estratificação entre trabalhadores de origem africana e dirigentes de origem europeia, mesmo muito antes da abolição da escravatura. Os proprietários e dirigentes, ficaram a ser designados por “gente branca” independentemente da taxa de melanina dérmica, que se modificou de geração em geração (Baltasar Lopes da Silva, Escritos Filológicos e outros Ensaios, Instituto da Biblioteca Nacional e do Livro, Praia, 2010, p. 135).

 

Segundo atesta o Padre António Vieira, parece que em menos de dois séculos, estando ainda longe de ser abolida a escravatura, a homogeneização vertical já tinha produzido notáveis efeitos, sobretudo graças à acção da Igreja. Ele encontrou, nas pequenas igrejas de Cabo Verde, clérigos de fazer inveja aos das catedrais de Portugal e da Europa, que bem conhecia e acabava de percorrer, como agente diplomático do Rei Dom João IV, o restaurador da independência de Portugal.

 

Torna-se difícil compreender como é que, dum dia para o outro, a partir de 1975, tanto Cabo Verde, como os caboverdeanos, sem serem consultados, passaram a ser África e africanos, respectivamente. Tudo parece ter sido obra duma agitação política feita à pressa, nas ilhas, sobre a “validade de independência” (Aristides Pereira, 2011, p. 299, entrevistas a José Vicente Lopes, Aristides Pereira, Minha Vida, Nossa História, Praia, Edições Spleen, 492 p.).  

 

Onde é que falhámos?

 

Falhámos na declaração precipitada da independência. Tivemos pessoas não preparadas que assumiram este país, sem pensar nos interesses reais da população, assumindo de rompante um país que não estava preparado efectivamente para ser independente. A independência devia ter sido algo mais bem pensado, mais bem estruturado, daí uma parte de erros que são apresentados como sendo grandes vitórias.

 

António Pedro Silva, p. 143 – 153, entrevista a José Vicente Lopes, 2014, Outubro, Vozes das Ilhas, Revista da Reforma do Estado, edição especial, Cidade da Praia, 240 p.)

 

Na luta pela independência, com a ideia de puxar Cabo Verde para a África, tentaram como que manipular o cabo-verdiano. Isso decorre da tal africanização dos espíritos, defendida por Amílcar Cabral. Nisso procurou-se convencer o cabo-verdiano que ele não era aquilo que ele devia ser. Foi um erro tremendo. Quebrou-se o tal orgulho que o povo cabo-verdiano tinha. Tentou-se virar a roda da História para trás, quando nós nunca podemos girar a roda da História para trás. Cultura é aquilo que eu mamei no leite da minha mãe. Que ninguém me venha dizer que a minha cultura é isto, é aquilo, ou aqueloutro. A minha cultura é aquilo com que eu cresci, é o que eu sou hoje, é o que eu trago desde a raiz.

 

Odette Pinheiro, p. 80 – 91, entrevista a José Vicente Lopes, 2014, Outubro, Vozes das Ilhas, Revista da Reforma do Estado, edição especial, Cidade da Praia, 240 p.)

 

Se este arquipélago marítimo do grande mar oceano está em África ou não está, é assunto para discutirmos mais adiante. Para já limitemo-nos aos caboverdeanos e à caboverdeanidade.

 

Mais recentemente, fez escala em Cabo Verde outra autoridade, Gilberto Freyre, que não se demorou, nem aprofundou as suas observações, mas ficou manifestamente desorientado com as aparências. Vinha estudar a universalidade da língua portuguesa e da cultura luso-tropical e tropeçou com a primeira língua crioula da globalização e do Atlântico, que, primeiro como língua materna, se tinha tornado língua de trabalho riquíssima, depois língua franca no litoral da África Ocidental, como já era antes do tempo do Padre António Vieira, desde o Cabo Verde até à Serra Leoa, e finalmente numa língua nacional, com ambições de se tornar literária. Sem vislumbrar como poderia integrar a língua crioula naquela universalidade, só lhe restava rejeitar este corpo estranho a essa universalidade, pelo que foi sabiamente criticado por Mestre Baltazar Lopes da Silva,

 

… foi grande a minha surpresa ao ver que Gilberto Freyre emprega em “Aventura e Rotina” e em “Um Brasileiro em Terras Portuguesas” o verbo “repugnar” e o substantivo “repugnância” para definir a sua atitude de sociólogo perante o crioulo.  Mas, justos céus! Gilberto Freyre é um cientista. E a um cientista é reconhecido o direito de sentir repugnância pela matéria observada? A Ciência estaria bem arranjada se a um médico repugnasse examinar, para salvar uma vida humana, fezes e escarros; se um sábio como o meu velho mestre José Leite de Vasconcelos não aproveitasse todas as oportunidades para surpreender a verdade, quaisquer que fossem as andanças a que tivesse de se sujeitar e até a grosseria dos indivíduos observados. Confesso não compreender a alergia de Gilberto em relação ao crioulo. Não compreendo, porque é que Gilberto Freyre aceita e louva as expressões regionais daquilo que chama o “Mundo que o Português criou” e ao mesmo lhe “repugna” o crioulo de Cabo Verde. É claro que esta realidade, o crioulo, apresenta na sua problemática muitas facetas. Embora. Seja como for, o crioulo é a criação mais perene nestas ilhas. Tudo pode desaparecer ou modificar-se no Arquipélago: conduta, trajos, mobilidade das classes; se não ocorrer um cataclismo físico ou social, que está fora das nossas previsões, podemos ter a certeza de que, para me citar a mim mesmo, o crioulo está radicado no solo das ilhas como o próprio indivíduo.

 

Baltazar Lopes da Silva, 1956, Cabo Verde visto por Gilberto Freyre, apontamentos lidos ao microfone de Rádio Barlavento, Praia, Imprensa Nacional, Divisão Propaganda, Separata do Boletim Cabo Verde, Nº 84, 85 e 86, 52 p.)

 

JCH-Gilberto Freyre.jpgGilberto Freyre (Recife 1900 – 1987) visitou Cabo Verde em Outubro de 1951, trezentos anos depois do Padre António Vieira, e comparou Cabo Verde à Martinica e à Trinidade das Pequenas Antilhas, às quais atribuía erradamente uma “matriz africana salpicada de europeu”. Comparou a língua crioula de Cabo Verde de léxico português à língua da Martinica de léxico francês predominante e à da Trinidade também de léxico francês predominante. Veremos mais adiante, que estas comparações não eram inapropriadas e que, à luz da história, se justificam. Veremos porque é que se diz, na Martinica e Pequenas Antilhas e também nas Mascarenhas e outras ilhas do Oceano Índico, amarrer, espérer, larguer, como, respectivamente, em português, amarrar, esperar e largar, em vez de attacher, attendre, lâcher, respectivamente, em francês (Francisco Adolfo Coelho, 1880, Os dialectos românicos ou neo-latinos na África, Ásia e América, I Boletim da Sociedade de Geografia de Lisboa, 2ª Série, Nº 3, p. 129-196) e veremos também de que maneira chegaram levadas pelos caboverdeanos da grande diáspora as lagratish ou lagartixas à Trinidade (Francisco Adolfo Coelho, 1886, Os dialectos românicos ou neo-latinos na África, Ásia e América, III Boletim da Sociedade de Geografia de Lisboa, 6ª Série, Nº 12, p. 705-755).

 

Quanto à “matriz africana salpicada de europeu”, Gilberto Freyre caiu no mesmo erro que Frantz Fanon, médico psiquiatra da Guadalupe obcecado pela color bar (= linha divisória, barreira da cor) americana, ou racismo e contra-racismo anglo-saxão, pela cor da pele. Nem um nem outro conheciam África. Gilberto Freyre iniciou a sua primeira visita a África só depois de passar por Cabo Verde. Depois de se formar em França, Frantz Fanon foi trabalhar para a Argélia, no manicómio de Joinville, Blida, onde aderiu à Frente de Libertação Nacional argelina e só veio ao mato do Norte de Angola em 1963 munido dum binóculo, para encorajar Álvaro Holden Roberto a desencadear uma bárbara insurreição, na data duma reunião do Conselho de Segurança da ONU, em Nova Iorque, a 15 de Março de 1961 (João Paulo Nganga, 2008, O Pai do Nacionalismo Angolano, As memórias de Holden Roberto, I Volume, 1923 - 1974, Globalangola Lda, 296 p.).

 

O primeiro livro de Frantz Fanon, sobre a sociedade e cultura das Antilhas Francesas teria o título de “Pele Preta Máscaras Brancas”, se tivesse sido traduzido em português (Frantz Fanon, 1952, Peau Noire Masques Blancs, Collection “Esprit” aux Editions du Seuil, Paris, 223 p.)*.  Como diria o Padre António Vieira a pele preta nas Antilhas é, na realidade, um “acidente” e naquelas culturas pode verificar-se, que não há máscaras nenhumas, os sentimentos espelham-se nas fisionomias, os antilheses, incluindo os de origem indiana oriental, não aprenderam a usar a máscara oriental. Nas Pequenas Antilhas, há sim pele preta e almas brancas, resultado do trabalho produtivo secular em língua crioula e do trabalho de evangelização das igrejas.  Como em Cabo Verde, a África “diluiu-se” nas Pequenas Antilhas, as Pequenas Antilhas, como Cabo Verde, “fugiram” da África (Baltasar Lopes da Silva, Rádio Mindelo, São Vicente, 19.5.1956). Também nos Estados Unidos da América a pele é preta e a alma branca, como cantava Paul Robeson (“I am a little black boy but all my soul is white.”), inspirando-se de um poema de William Blake, poeta inglês, 1757 – 1827.

JCH-Baltasar Lopes da Silva.jpg(Caleijão, São Nicolau 1907 – Lisboa 1989)

 

Temos assim duas autoridades e duas conclusões diametralmente opostas sobre a caboverdeanidade.  Gilberto Freyre não aprofundou o “caso” de Cabo Verde, estava em missão de estudo da língua portuguesa nos trópicos e a língua crioula não era português, apesar do seu léxico, com mais de 95% de palavras de etimologia portuguesa. Descuidou-se ao tomar as aparências por realidades e ao pôr por escrito as suas primeiras impressões, necessariamente superficiais, porque ficou pouco tempo em Cabo Verde.

 

O Padre António Vieira, tão brasileiro como Gilberto Freyre, estava e esteve quase toda a sua vida em missão de evangelização. Confiou-nos que gostaria de ter ficado na diocese de Cabo Verde, onde se sentiu melhor do que no seu Maranhão e onde, com a sua grande alma, antevia obra grandiosa, que não chegou a realizar-se, porque os jesuítas portugueses se retiraram, em 1642 e não voltaram, depois de terem trabalhado trinta e oito anos, pouco numerosos, na Grande Guiné e em Cabo Verde e consagrado à Serra Leoa catorze anos de vida dos missionários Padres Baltazar Barreira (1604 a 1608) e Manuel Álvares (1607 a 1617). O primeiro está sepultado na Igreja de Nossa Senhora do Rosário da Cidade Velha desde 1612 e o segundo morreu em 1617 na Serra Leoa, uma capitania portuguesa que não vingou ao contrário da capitania de Cacheu fundada e fortificada em 1589 pelo caboverdeano Manuel Lopes Cardoso (Nuno da Silva Gonçalves, 1996, Os Jesuítas e a Missão de Cabo Verde, Brotéria, Lisboa, 449 p.).

 

Tampouco vingou, um projecto de futura colónia caboverdeana. Os caboverdeanos não tiveram uma terra prometida, “tão abundante de tudo, que nada lhe faltava” (André Álvares de Almada, 1594, Tratado Breve dos Rios da Guiné do Cabo Verde, publicado, anotado e comentado, em 1964, por António Brásio C. S. Sp., Lisboa, Editorial LIAM, 156 p.), uma futura colónia melhor do que Canaã. Um grande caboverdeano André Álvares de Almada, futuro cavaleiro da Ordem de Cristo, foi mandatado pelo povo da ilha de Santiago, para ir ao Reino apresentar este projecto, à volta de 1581, e requerer autorização de povoamento pelos caboverdeanos, requerimento indeferido por almas tacanhas, “com receio que a ilha ficasse desamparada” (Avelino Teixeira da Mota, 1970, Dois escritores quinhentistas de Cabo Verde, André Álvares de Almada e André Dornelas, Conferência proferida no Museu de Angola, Luanda em 23 Nov. 1970, Liga dos Amigos de Cabo Verde - Boletim Cultural, Nov.1970, p. 40-44), como efectivamente ficou desamparado todo o Arquipélago, durante perto de quatro séculos, sujeito a secas e fomes periódicas e sem receber alimentos suficientes, nem do Rei Mandinga, nem do Rei Português. Quatro séculos mais tarde, o Cónego Marcelino Marques de Barros (1844-1928), havendo fome em Cabo Verde, publicou a 31 de Outubro de 1883, em 4 páginas e 10.000 exemplares, A Fraternidade, Guiné e Cabo Verde, folha destinada a socorrer as vítimas da estiagem da província caboverdiana, com artigos e comentários de simpatia de 41 guineenses, entre eles 6 senhoras. A Guiné já se tinha tornado independente do Governador de Cabo Verde há quatro anos, mas não queria poupar-se a esforços para suavizar os sofrimentos dos seus irmãos caboverdeanos e dava um exemplo da solidariedade dos países lusófonos, talvez o primeiro.

 

Em Cabo Verde, os jesuítas residiam ao pé da fortaleza real de São Filipe, onde ensinavam a ler e escrever às crianças. Depois de partirem, a população não cessou de reclamar o regresso da missão e o Padre António Vieira apoiou essa reclamação, escrevendo, nesse sentido, para Lisboa ao confessor do príncipe herdeiro, Dom Teodósio e ao Padre Provincial do Brasil (Padre António Brásio, 1946, O Padre António Vieira e as Missões de Cabo Verde, Portugal em África, Revista de Cultura Missionária, Segunda Série, Ano III, Número 17, Set. – Out. p. 298 - 305). As causas da curta duração da missão dos jesuítas estão ligadas à crise económica de Cabo Verde, anunciada na primeira década do século XVI, com o cancelamento, por Dom Manuel I, da concessão da carta de Dom Afonso V de 12 de Junho de 1466 e com a emigração para o Brasil duma parte dos operadores económicos caboverdeanos acompanhados de suas famílias, bens e haveres, incluindo trapiches e trabalhadores cativos e forros, crise que começou na década de 1560 e se acelerou por outras causas ecológicas e políticas, ficando Cabo Verde órfão, quando terminou o império português da Ásia, dois séculos depois da colonização.

 

A visita do Padre António Vieira, coincidiu com o declínio dos tratos e resgates nos rios da Grande Guiné dos moradores de Santiago (António Carreira, 1983, Panaria Caboverdeana-Guineense, Alguns Aspectos Históricos e Socio-Económicos, segunda edição, Instituto Caboverdeano do Livro, 226 p.) e da própria Grande Guiné, que já estava reduzida à Pequena Guiné de hoje mais a Casamansa.  A esmola concedida pelo Rei de Portugal Dom Filipe II para mantimento dos missionários jesuítas praticamente não era paga em Cabo Verde, pela fazenda real minguada de recursos financeiros, pois os navios negreiros espanhóis, primeiro, franceses, ingleses, holandeses e outros, depois, passavam a abastecer-se na costa africana, sem fazer escala em Cabo Verde, onde a alfândega ficou sem recursos financeiros.

 

Os jesuítas portugueses só deixaram obra grandiosa no Brasil. Outro grande missionário jesuíta, Dom Gonçalo da Silveira, chegou a pôr mãos à obra sòzinho, em Moçambique, mas por pouco tempo. Estava, ao Norte de Manica, a catequizar e ensinar a ler e a escrever às crianças com autorização do Monomotapa ou Senhor da Mutapa, quando foi estrangulado e o seu cadáver atirado aos crocodilos duma lagoa do rio Mossenguese. A decadência portuguesa já estava em marcha, com os comerciantes, artífices, industriais e trabalhadores independentes das cidades, que tinham feito, em Lisboa, a primeira revolução burguesa da Europa em 1383-85 (Álvaro Cunhal, 1975, As Lutas de Classes em Portugal nos Fins da Idade Média, Lisboa, Editorial Estampa, 132 p.), a serem discriminados, presos e queimados pelo Tribunal do Santo Ofício da Inquisição, depois de espoliados de bens de raiz e cabedais. Além da paz e reatamento das relações comerciais com os Países Baixos, um dos objectivos da missão diplomática confiada pelo Rei de Portugal Dom João IV ao Padre António Vieira, que este acabava de desempenhar na Europa, era, aliás, tentar reorientar os cabedais ou capital dos portugueses judeus e cristãos novos refugiados na França, Holanda, Inglaterra, Alemanha e Itália, em proveito da sua pátria e do império português, missão que fracassou e acabou de vez, com a prisão pela Inquisição Portuguesa, do grande Padre Missionário e Imperador da Língua Portuguesa, assim apelidado por Fernando Pessoa (António Brandão, 1972, O Padre António Vieira, 1663-67, A prisão dum Jesuíta pelo Santo Ofício, um cárcere insuportável, pedido de comutação desatendido, Volume I, Cap. XIV, Episódios Dramáticos da Inquisição Portuguesa., Seara Nova, 3 vol., 280 + 353 + 205 p.).

 

Mas, nestes subsídios, vamos limitar-nos, tanto quanto possível, a Cabo Verde e à sua grande diáspora. A cultura caboverdeana é europeia, como sempre se provou, ou africana, como se pretende desde que sopraram as lestadas marxistas-leninistas da revolução africana sobre o Arquipélago? Depois de sublinhar a impressionante “fuga” à África do Arquipélago e de reconhecer a “diluição” da África na cultura e língua caboverdeanas, Mestre Baltasar Lopes da Silva, resolveu este dilema, em 1985, da seguinte maneira:

 

Sim, porque nos dizem, a nós das ilhas:

- Se vocês “não são de África”, o que é que são? Europa?

Ou, inversamente, mas creio que muito mais raramente:

- Se “não são Europa”, o que são? África?

Claro que a mesa assim posta não deixa liberdade nenhuma ao conviva, que possivelmente se retrairá de anunciar a única verdade etnológica:

- Nem uma coisa, nem outra, somos caboverdeanos.

 

Baltazar Lopes da Silva, 1985, Prefácio ao livro de Manuel Ferreira, A Aventura Crioula, Lisboa, Plátano, republicado em Baltazar Lopes, 2010, Escritos Filológicos e outros Ensaios, Praia, Instituto da Biblioteca Nacional e do Livro, 365 p.)

 

Queríamos só acrescentar, caboverdeanos há cinco séculos e meio, fincados naquelas ilhas verdes só quando chove, pequenas e pobres em recursos naturais, geralmente desamparadas pelos governos de Lisboa, levados e retornados pelos ventos dos oceanos para participar, nas sete partidas do mundo, ao trabalho da globalização do mercado, à revolução industrial e ao sustento das famílias e educação dos filhos. Porque, sem a sua diáspora, iniciada com a ida para o Brasil dos seus operadores económicos mais dinâmicos, a que aludimos mais acima, a nação caboverdeana fica mutilada e perdida no oceano, a sua língua reduzida a um “alfabeto”.

 

A defesa da caboverdeanidade por mestre Baltazar Lopes da Silva surtiu efeitos ao mais alto nível do luso-tropicalismo. Outra autoridade unanimemente respeitada, o Professor Adriano Moreira afirmou sem hesitações, nem dúvidas, que Cabo Verde “é a expressão mais perfeita do luso-tropicalismo no mundo” e repetiu, por outras palavras, que o caboverdeano constitui “o exemplo mais perfeito da cultura luso-tropical” (1962, Partido Português, discurso proferido em 5 de Setembro de 1962 na Praia, durante a sessão do Conselho de Governo de Cabo Verde, Livraria Bertrand, Lisboa, p. 123 - 150).

 

Desejaríamos analisar e esclarecer, nos próximos subsídios, se o Arquipélago é de origem vulcânica e se faz parte do continente africano e investigar a história da nação caboverdeana no mundo e da sua língua crioula, como nasceram e se propagaram e espalharam pelo mundo os caboverdeanos e a sua língua crioula. Depois do grande sucesso do projecto de desenvolvimento económico resultante do privilégio do monopólio de comércio com a África Ocidental (Subsídio 14), o trabalho da nação caboverdeana organizado e articulado pela sua língua crioula fez do Brasil uma grande potência económica, deu novos mundos ao mundo e novas línguas à África, à América, a ilhas perdidas nos oceanos e à Ásia também, tudo isto ao lado e de mãos dadas tanto com a nação portuguesa como com a sua grande e muito mal conhecida diáspora religiosa.

 Jose Carlos Horta.jpg

José Carlos Mucangana

 

 

* Foi já traduzido e publicado com título errado: Pele Negra Máscaras Brancas, 2008, Salvador da Bahia, EDUFBA,194 p.  Para esta côr, em francês há uma única palavra noir, ao passo que em português há duas preto e negro.  Em inglês black é a côr e negro, como, em francês nègre não é uma côr e só se aplica a uma “raça” humana com elevada taxa de melanina dérmica ou black skinned (= com pele de côr preta). Já ficou provado, que não existem raças na espécie humana. Fanon referia-se à cor da pele e sabia francês. Referia-se à côr da pele noire ou preta, não escreveu nègre (= negro), porque não se referia a nenhuma raça “raça”. O tradutor deve ter-se esquecido, ou não sabia, que negro tem sentido pejorativo, quando se trata de “raça”, mas, no título deste livro, não se trata de “raça”, é só a côr da pele. Traduttore, traditore, diz-se em italiano, ou tradutor, traidor, em tradução portuguesa, mas, às vezes, é só incompetência, aqui talvez também ideologia mal digerida ou preocupação comercial.

 

CARVALHO CALERO

 

Carvalho Calero.jpgA fala da Galiza, o português de Portugal, o português do Brasil e o português dos distintos territórios lusófonos, formam um único diassistema linguístico conhecido entre nós (Galiza) como galego e internacionalmente como português.

Ricardo Carvalho Calero (Ferrol, 1910 — Compostela, 1990) foi um filólogo e escritor galego do século XX, o primeiro Catedrático de Língua e Literatura Galegas, considerado o grande pensador do reintegracionismo linguístico. Escritor, nacionalista, teórico do reintegracionismo e professor universitário, é uma das figuras mais proeminentes do universo intelectual galego do século XX.

Wikipédia

A MORTE DE FIDEL CASTRO

HSF-Fidel e o seu Cohiba.jpg

 

O mundo acordou dia 26/Nov. com a notícia da morte de Fidel Castro. Era de se esperar uma grande repercussão, afinal, a história do ditador, além de estar ligada à história dos movimentos revolucionários latino-americanos, está fortemente imbricada com a história da maior potência do ocidente, os EUA (Estados Unidos da América).

 

O pequeno parágrafo que acabei de escrever acima já seria suficiente para suscitar uma discussão interminável sobre duas palavras: ditador e revolucionário. A maioria das pessoas verá nelas uma contradição, pois "ditador" é algo tido unanimemente como ruim (ao menos supostamente) enquanto que "revolucionário" é tido pela maioria das pessoas como algo bom. Isso porque o mundo ocidental vive uma revolução cultural promovida pelos agentes do marxismo cultural que já dominam quase que totalmente as instituições de ensino, os meios de comunicação social e a Igreja Católica. Por conta disso, as pessoas têm, já naturalizados, concepções impostas sobre determinadas palavras. Revolução é uma delas. No universo da lusofonia, Bluteau regista a palavra na primeira quadra do século XVIII ainda com um possível significado de volta a uma situação anterior, no sentido de recompor um ordenamento, baseado na ideia de revolução dos corpos celestes e na tradição. Mas também regista o significado de mudança. Se entendermos que uma volta ao passado, nesses termos, estará marcada por uma mentalidade presente que pode corromper o modelo original e que a mudança pela mudança, em si, leva ao vazio do relativismo, verificaremos que revolução é, aprioristicamente, algo ruim. Se entendermos revolução com o significado que a palavra tem na actualidade, já bosquejado por Bluteau, mas acrescentada e associada à ideia marxista de ruptura total com as estruturas existentes para a construção duma sociedade baseada em novos alicerces, é algo pior ainda, pois quando as estruturas anteriores são totalmente destruídas, perde-se, sob qualquer ponto de vista, tudo que vem de antes, seja bom ou ruim. Mas nenhuma dessas considerações muda a percepção que a maioria esmagadora das pessoas no mundo hodierno tem acerca da palavra "revolução", que é entendida sempre como algo bom. Assim é, infelizmente, queiramos ou não. É um dado da realidade. Pois bem, Fidel foi um revolucionário, no conceito moderno da palavra. E, como tal, deixou um rastro de destruição.

 

Então, deixemos de lado os prolegómenos e vamos directamente tratar daquilo que o título sugere.

 

Fidel Castro nasceu numa Cuba ainda vivamente marcada pela derrota de 1898 onde os EUA, ao vencerem a Espanha, ficaram com uma influência maior sobre Cuba, além de terem ficado com o domínio de Porto Rico, Ilhas Guam e Filipinas, enfim, uma verdadeira tragédia para o mundo hispânico. Esse cenário fez com que Fidel trouxesse, "do ventre", uma mentalidade anti-americana (no sentido de anti-estadunidense) ainda que mesclada com uma grande admiração, haja vista que independentistas cubanos contavam com a simpatia dos Estados Unidos para sua causa. Sucede que o processo de independência de Cuba aconteceu concomitante com a guerra hispano-americana. O resultado é que Cuba nasceu sob o jugo dos EUA. Ressalve-se que, apesar de, originalmente, Hispânia poder ser afecto também à Portugal, faço uso do termo de forma alusiva tão-somente à Espanha moderna na sua territorialidade e zona de influência política, cultural e linguística, em todo mundo, termo cunhado historicamente e devidamente aceito como demonstra o uso corrente da palavra, e que não inclui o mundo português.

 

A partir da independência, Cuba passa a ser governada por representantes das oligarquias locais, aliadas aos interesses dos EUA. A vitória do liberalismo em Espanha, consequência do iluminismo e da Revolução Francesa, de há muito tinha moldado governos com a ideia distorcida do que era monarquia. Governos centralizados num ambiente cultural como o espanhol produziram, na América Hispânica, caudilhos e chefetes que conduziram processos políticos autoritários rumo à independência onde as elites decaídas estavam descoladas da sociedade tal como um corpo estranho, inorgânico. Ainda assim as instituições ocidentais continuaram, em essência, preservadas.

 

Fidel Castro cresceu num ambiente de grande desconfiança em relação "grande irmão" do norte e, educado por jesuítas, assimilou todo o sentimento de revanche presente entre os inacianos, ordem que, embora tenha religiosos de várias origens, sempre foi alinhada com os interesses castelhanos desde sua fundação. Com efeito, os loyolistas viram a Grande Armada ser derrota pela velha Albion em 1588, viram os estadunidenses tomarem mais da metade do território do México em meados do século XIX e, outro grande desastre, a derrota de Espanha para os EUA em 1898, como já referimos acima, derrota que abalou e feriu de morte o orgulho hispânico e, mais uma vez, para o inimigo de sempre, os ingleses e seus descendentes no novo mundo. Está nesse sentimento de recalque dos hispânicos o alimento para o que viria a ser o movimento "anti-imperialista". Os jesuítas trataram de manter esse sentimento vivo através de todas as suas instituições de ensino na América Latina. Pouco antes do nascimento de Fidel, resulta vitoriosa a Revolução Russa. As ideias socialistas influenciarão fortemente a formação dele.

 

A revolução que levou Fidel ao poder teve, de início, o apoio de toda a sociedade. Havia uma grande insatisfação com o regime de Fulgêncio Baptista. As classes médias e a burguesia cubanas apoiaram, maioritariamente, Fidel. Mas esse cenário não daria a ele o embate que queria com os EUA. Nesse sentido, a ideologia marxista-leninista foi o meio que ele teve ao seu alcance para expressar esse antagonismo. Fidel já vinha de uma militância em partidos de esquerda e sua radicalização seria algo natural, principalmente quando um potencial grande aliado se aproximou: a URSS (União das Repúblicas Socialistas Soviéticas).

 

Fidel costumava dizer que a Cuba de Baptista era uma ditadura, um bordel dos EUA, tinha uma economia baseada no mercado negro e o povo na miséria. Na verdade, Cuba tinha vários aspectos de subdesenvolvimento mas era, no contexto latino-americano, um país com indicadores sociais acima da média e que, desde que superasse um sistema político que negava a participação à maioria da população e contasse com instituições mais fortalecidas, tenderia a ter um futuro com muito progresso aproveitando-se das parcerias comerciais com os EUA e com a Espanha. Implantada a revolução, começa um período de repressão com a eliminação física dos opositores mas também de aliados que ousassem divergir do rumo que Fidel dava ao processo político. Fidel instaura um regime comunista totalitário a passa a seguir as determinações de Moscovo que tinha dois objectivos prioritários: estabelecer uma cunha em território próximo aos EUA e exportar a revolução para o resto do continente.

 

O comunismo é um regime totalitário e, como tal, destrói o estado de direito para impor-se. A tentativa da exportação da revolução trouxe consequências para todo o continente. Uma das características da acção dos comunistas é que ela aproveita-se da democracia para corrompê-la e levar o processo político na direcção por eles desejada, infiltrando-se nas instituições e em todos os sectores da vida nacional. Nesse sentido, vale dizer que Gramsci, com sua tese de hegemonização, é o campeão do leninismo pois aperfeiçoou o que Lenine planejara de forma mais rude e tosca. Para o comunista, a democracia é mero expediente táctico para alcançar a estratégia que é a implantação do regime totalitário outrora chamado "ditadura do proletariado". O que Lenine elaborou propondo a infiltração nas fábricas e no exército, Gramsci elaborou com muito mais sofisticação propondo o domínio de todos os segmentos da cultura, meio académico e comunicações. Algumas expressões mais visíveis da praxis Gramsciana são o politicamente correcto, a ideologia de género e o multiculturalismo. Esse processo pressupõe um quadro revolucionário que culmina com a ruptura de todo o quadro político institucional. Ou seja, o estado de direito e as instituições ocidentais, base da democracia, deixam de existir.

 

 

Cabe aqui uma pequena digressão sobre a diferença entre totalitarismo e regimes autoritários do tipo que tivemos na América Latina, antes e depois da Revolução Cubana. A diferença é muito clara. Esses regimes autoritários, alguns deles ditaduras militares, não destruíram o Estado de Direito nem as instituições ocidentais. Em muitos casos, como no Brasil, eles surgiram para impedir um golpe comunista e salvaram a democracia restringindo algumas liberdades para que fossem preservados os direitos mais importantes pois não há democracia sem Estado de Direito ou instituições fortes. Já num regime totalitário, como o cubano, as pessoas perdem seus direitos primevos: o direito de ir e vir, o direito à propriedade, o direito a professar sua religião qualquer que seja ela, o direito de educar seu filho sem a interferência do estado, o direito à inviolabilidade de correspondência e esses direitos nunca foram suprimidos na América Latina à excepção de Cuba. Actos institucionais de excepção nesses regimes autoritários estavam claramente definidos como tal, ou seja, não foram considerados como dentro da normalidade de um arcabouço jurídico. Num regime totalitário, TODAS as instâncias da vida nacional funcionam sob a directriz do governo e do partido único. Os actos de força que restringem as liberdades não são considerados actos de excepção mas, sim, da normalidade do sistema. Os juízes são do partido que governa. Não há independência do judiciário. O parlamento, quando existe, é composto exclusivamente por membros do partido. E o pior de tudo, no regime totalitário não basta não se meter em política para não ser importunado, há que manifestar seu apoio ao governo e denunciar quem não estiver apoiando. Quem não lembra do menino que ganhou uma medalha do Estaline por denunciar seu pai que não entregou a cota de produção agrícola ao Estado? Nos regimes autoritários que tivemos, houve, sim, a supressão da liberdade de expressão e de organização partidária. No mais, tudo diferente. Tomando outra vez o Brasil como exemplo, durante a ditadura militar: os direitos básicos foram mantidos, o judiciário manteve o acesso por concurso e os juízes mantiveram sua independência e autonomia. O judiciário nunca foi aparelhado e tampouco ideologizado. Foram muitas as pessoas acusadas de subversão que foram absolvidas até mesmo por tribunais militares. O judiciário continuou a funcionar normalmente e protegeu sempre os direitos fundamentais dos brasileiros. O parlamento continuou a funcionar e uma oposição continuou a existir. Nunca alguém foi seriamente importunado por ter um parente envolvido em subversão. Nunca algum inocente foi instado a denunciar outra pessoa por crimes políticos. E quem não quis se meter em política, pôde levar sua vida sem sobressaltos ou constrangimentos e prosperar.

 

Cuba tem até hoje um estado policial. Sem instituições que funcionem, porque foram destruídas, os cubanos não vislumbram uma saída que não passe pela intermediação de seus algozes, pois toda e qualquer oposição foi eliminada fisicamente.

 

Enquanto contou com o dinheiro vindo da URSS Cuba manteve-se relativamente estável. Durante esse período de estabilidade, contou também com recursos vindos de Angola, país entregue à URSS pelos comunistas infiltrados no Exército Português que fizeram a quartelada de 25 de Abril. Com a "débâcle" da URSS, Cuba entra em colapso. O país não estava preparado para viver sem essa ajuda e tem uma economia totalmente desestruturada, incapaz de produzir os géneros mais básicos para a população.

 

Qual foi o legado de Fidel Castro para Cuba? Subdesenvolvimento e pobreza à beira da miséria. Tudo aquilo que Castro falava sobre a Cuba de Baptista manteve-se apenas com a troca de "americanos" para "europeus", mormente espanhóis. Cuba é hoje uma ditadura muito pior porque totalitária, é um bordel dos espanhóis, tem uma economia baseada no mercado negro e um povo muito pobre e sem perspectivas pois não houve desenvolvimento económico na ilha durante esses mais de 50 anos. Além disso, existe a exploração de trabalhadores em condições que os esquerdistas taxariam de análogas à escravidão se ocorressem em países capitalistas. Cito apenas um exemplo: empresas europeias contratam engenheiros cubanos para obras na ilha pelos quais pagam, por exemplo, 2 mil euros por mês. Esse contrato é intermediado pelo governo cubano que recebe os 2 mil euros mas só repassa 200 euros aos engenheiros contratados. Cito só esse dado porque é reconhecido pelo próprio governo cubano, não podendo ser contestado. Fora da ilha, o governo cubano procede da mesma forma como quando, por exemplo, mandou médicos para o Brasil num trato com o governo comuno petista de Dilma Rousseff.

 

E as tais conquistas na saúde e educação? Tudo balela. A educação em Cuba contempla somente o lado do adestramento para servir ao regime e preencher algumas funções pré determinadas. Não pode haver um bom sistema de ensino no seu sentido mais amplo pelo simples motivo de que não há pluralidade de ideias e os alunos nos seus diversos níveis só lêem o que o regime permite além de não poderem escolher a sua profissão. A saúde teve progressos no que tange à medicina social e regista algumas ilhas de excelência mas muito abaixo do nível da medicina de outros países latino-americanos e a saúde do povo é agravada pela falta de comida.

 

No Brasil a repercussão da morte de Fidel foi imensa e assistimos dois dias seguidos de propaganda comunista nas estações de TV só interrompida pelo trágico acidente aéreo na Colômbia com os atletas do clube Chapecoense. O avanço da revolução cultural no Brasil com os agentes do marxismo cultural actuando em todas as instituições e frentes possíveis criou uma mentalidade de esquerda principalmente nas classes médias e na burguesia, segmentos mais permeáveis à acção desses celerados. Falaram muito da preocupação de Fidel com os mais pobres e muito "en passant" sobre o regime político. A palavra ditador só usaram quando falaram de Fulgêncio Baptista. Em nenhum momento foi usada para definir Fidel que, para eles, foi um revolucionário preocupado com os mais pobres que cometeu alguns pequenos erros. Pelo que se pôde ver em canais internacionais, foi um pouco assim por toda a parte.

 

A morte de Fidel também expôs tragicamente para o ocidente, de forma definitiva, que Bergoglio tem um projecto político que passa pelo apoio ao comunismo e à tal "Pátria Grande" à qual ele aludiu logo nos primeiros dias como Papa. É a ideia de hegemonização, bem ao estilo gramsciano, de todo o continente baixo influência da Teologia da Libertação, tentativa impossível de conciliar cristianismo com marxismo, em aliança com os comunistas, para melhor fazer vingar o plano de contrapor-se ao bloco capitalista e às nações do hemisfério norte, que Bergoglio julga culpadas por todas as mazelas do mundo subdesenvolvido. Mas essa já é outra história...

 

Às margens da Lagoa Rodrigo de Freitas, da Mui Leal e Heróica Cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro, em o dia dois de Dezembro de 2016

Marcos Levy Crespo.jpg

Marcos Levy Pina Gouvêa Crespo

EL PURO D’EL COMANDANTE

 

 

 

Voltando a Fidel Castro, reconheço que se tratava de personagem carismática. Mas não me restam grandes dúvidas de que era um verdadeiro malandro que parece ter mandado matar mais gente do que a ditadura militar do seu antecessor, o boçal sargento Fulgêncio Batista (auto-arvorado em Coronel e em Comandante Chefe das Forças Armadas do seu país) e muitíssimo mais do que a ditadura militar no Brasil. Na ausência de estatísticas fiáveis, fiquemo-nos pelo que se diz.

 

Como já contei noutra crónica (http://abemdanacao.blogs.sapo.pt/na-morte-de-fidel-castro-1747911), a minha tia Amélia Teixeira casou nova com o tio Pairó[1], cubano de origem galega, advogado e que viria a ser professor catedrático de Direito Civil na Universidade da sua Havana natal. E foi por ela que eu soube que a vida em Cuba não era fácil.

HSF-Fulgêncio Batista.jpg

 

Durante o período de Fulgêncio Batista, a boçalidade reinava e Cuba pouco mais seria do que um parque de diversões – eufemismo de prostíbulo – ao largo da Flórida para americanos à busca de diversão mas gerido com grande intervenção da Máfia. Mas os cubanos viviam. Diga-se em abono da verdade que viviam com as dificuldades típicas de um país gerido por gente iletrada, boçal, complexada e, portanto, tendencialmente violenta.

 

Letrado, Fidel pôs um ponto final nesse cenário.

 

O tio Pairó tinha sido professor de Fidel e, conhecendo-o relativamente bem, atribuía aos americanos a culpa da viragem que ele fez para o comunismo. Lembro-me perfeitamente de ouvir a tia Amélia dizer «o Manolo diz que o Fidel não era comunista e que só se virou para a Rússia quando os americanos lhe fizeram a vida negra». E nós, conhecendo o tipo de raciocínio hermético do americano vulgar para quem o mundo é a América e tudo o mais não passa de arrabaldes desprezíveis, estamos mesmo a ver como o caldo se entornou: Fidel fez um Inferno aos negócios da Máfia em Cuba, a Máfia queixou-se ao Governo Americano e este fez um Inferno a Fidel. Não era que a Máfia mandasse no Governo Americano; este apenas pensou que os interesses americanos estavam a ser prejudicados em Cuba e não quis saber de mais nada. A partir daí, todos conhecemos a História...

 

E o que foi a revolução cubana? Muito simplesmente, o alastramento do Inferno a toda a sociedade. Os adeptos do comunismo tecem loas à educação e à saúde mas esquecem-se do pequeno-almoço, do almoço e do jantar; a louvável expulsão dos americanos mafiosos não foi acompanhada da instauração de uma economia virtuosa que criasse níveis mínimos de bem-estar; pelo contrário, o dogma tomou conta de tudo e a economia colapsou. E como a «pureza» da tirania já perdura há quase 58 anos[2], são várias as gerações de cubanos que não sabem viver se não na miséria. E a alta instrução que obtiveram, aplicam-na gerindo stocks de senhas de racionamento e mantendo relações públicas (vulgo, prostituição) com quem lhes acene com moeda forte já que o ordenado médio mensal equivale (em moeda não transaccionável) a € 5,00 e um engenheiro ganha cerca de € 8,00.

 

E não me venham, comunistas, com a conversa mais do que estafada dos malefícios do bloqueio americano. Esse bloqueio não passou de um bluff infantil só «para inglês ver» pois estava super furado pelos próprios americanos disfarçados de canadianos e os outros países cooperaram sempre com Fidel. O problema tem sido um e um só: o modelo económico comunista não funciona e, portanto, não presta. Vi com os meus próprios olhos, não emprenhei de ouvido.

 

E foi por causa do desastre do modelo que muitos cubanos optaram por mandar a «pureza» às urtigas e fugiram em botes, jangadas e câmaras-de-ar devidamente insufladas; os outros, esperaram pelo fim do puro d’el Comandante, esse que não precisava de esperar pelo fim do mês para fumar charutos.

 

HSF-Fidel e o seu Cohiba.jpg

 El Comandante y su puro

E agora?

 

Agora, a ver vamos como dizia o ceguinho. Como assim? Quem é que já viu um comunista abandonar o poder voluntariamente ou em resultado de eleições livres?

 

Não tenho uma bola de cristal que me informe dos passos seguintes em Cuba (nem fora de Cuba) mas creio que tudo terá que ser construído a partir do zero pois o comunismo destruiu completamente a sociedade civil, assim destroçando a Nação cubana que, das duas, uma: ou vive no Partido em obediência cega ou fora dele, numa clandestinidade mais ou menos literal e rigorosa.

 

O sucessor do «tio Manolo» na cátedra de Direito Civil (será que ainda existe?) na Faculdade de Direito da Universidade de Havana vai ter muito trabalho a descodificar as normas partidárias para que, um dia no futuro, Cuba discuta democraticamente um renovado quadro legal e possa finalmente ser aquilo que nunca foi verdadeiramente: um Estado de Direito. Um dia...

 

E que os mafiosos se mantenham à distância.

 

Novembro de 2016

 

HSF-27NOV16.jpg

Henrique Salles da Fonseca

 

[1] Manuel Diaz Pairó - Universidad de La Havana, Facultad de Derecho

[2] - Fidel Castro chegou ao poder no dia 1 de Janeiro de 1959

RESTAURADORES EM 1 DE DEZEMBRO DE 1640

 

 

Lisboa-Restauradores.jpg

Lisboa - monumento aos restauradores da sobernia nacional 

 

Afonso de Menezes, D.

Álvaro Coutinho da Câmara, D.

Antão Vaz d’Almada, D.
António de Alcáçova Carneiro, D.Alcaide-mor de Campo Maior
António Álvares da Cunha, D. 17º Senhor de Tábua
António da Costa, D.
António Luís de Menezes, D.1º Marquês de Marialva
António de Mascarenhas, D.

António de Melo e Castro
António de Saldanha – Alcaide-mor de Vila Real
António Teles da Silva – Governador do Brasil
António Telo, D.

Carlos de Noronha, D.
Estêvão da Cunha
Fernando Teles de Faro, D.

Fernão Teles de Menezes – 1º Conde de Vilar Maior
Francisco Coutinho, D.

Francisco de Melo
Francisco de Melo e Torres – 1º Marquês de Sande
Francisco de Noronha, D.

Francisco de São Paio
Francisco de Sousa, D.1º Marquês das Minas
Gaspar de Brito Freire
Gastão Coutinho, D.

Gomes Freire de Andrade
Gonçalo Tavares de Távora
Jerónimo de Ataíde, D.6º Conde de Atouguia
João da Costa, D.1º Conde de Soure
João Pereira, D.

João Pinto Ribeiro, Dr.
João Rodrigues de Sá
João Rodrigues de Sá e Menezes, D.3º Conde de Penaguião

João de Saldanha da Gama
João de Saldanha e Sousa
Jorge de Melo
Luís Álvares da Cunha
Luís da Cunha
Luís da Cunha de Ataíde, D.Senhor de Povolide,
Luís de Melo, Alcaide-mor de Serpa
Manuel Rolim, D. – Senhor de Azambuja

Martim Afonso de Melo – Alcaide-mor de Elvas
Miguel de Almeida, D.4º Conde de Abrantes
Miguel Maldonado
Nuno da Cunha de Ataíde, D.1º Conde de Pontével
Paulo da Gama, D.

Pedro de Mendonça Furtado – Alcaide-mor de Mourão
Rodrigo da Cunha, D.Arcebispo de Lisboa
Rodrigo de Menezes, D.
Rodrigo de Resende Nogueira de Novais
Rui de Figueiredo – Senhor do morgado da Ota
Sancho Dias de Saldanha
Tomás de Noronha, D. - 3º Conde dos Arcos
Tomé de Sousa -  Senhor de Gouveia
Tristão da Cunha e Ataíde - Senhor de Povolide
Tristão de Mendonça

 

TOTAL = 55

Pág. 6/6

Mais sobre mim

foto do autor

Sigam-me

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2019
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2018
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2017
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2016
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2015
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2014
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2013
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2012
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2011
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2010
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2009
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D
  144. 2008
  145. J
  146. F
  147. M
  148. A
  149. M
  150. J
  151. J
  152. A
  153. S
  154. O
  155. N
  156. D
  157. 2007
  158. J
  159. F
  160. M
  161. A
  162. M
  163. J
  164. J
  165. A
  166. S
  167. O
  168. N
  169. D
  170. 2006
  171. J
  172. F
  173. M
  174. A
  175. M
  176. J
  177. J
  178. A
  179. S
  180. O
  181. N
  182. D
  183. 2005
  184. J
  185. F
  186. M
  187. A
  188. M
  189. J
  190. J
  191. A
  192. S
  193. O
  194. N
  195. D
  196. 2004
  197. J
  198. F
  199. M
  200. A
  201. M
  202. J
  203. J
  204. A
  205. S
  206. O
  207. N
  208. D