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A bem da Nação

VIAGEM DE FIM DE SEMANA – 4

 

Perguntou-me um amigo o que é que eu fui fazer ao Porto. Respondi-lhe que fui ao jardim da Celeste, giroflé, giroflá... Como se, para ir ao Porto, fosse necessário lá ir fazer alguma coisa. Mas sim, fui lá propalar umas «coisas» e buscar outras – disse eu. O quê? – perguntou. Coisas – respondi. O meu amigo estava a perder a paciência com tanto enigma e eu soube que aquele era o momento de «arrear os suspensórios». Coisas? - perguntou. Então, levantei a ponta do véu e disse-lhe que fui levar um paralítico e um rei e trouxe outro rei e um caixote com grilos. E a conversa ameaçava enfadar-se com o non sense dos grilos e a enigmática transacção real. OK! Se não queres contar, passamos para outra... E, então, contei...

 

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Fui fazer uma palestra na Quinta da Bonjóia a convite duma Associação de que sou amigo e que, como eu, se dedica à lusofonia. A quinta é propriedade da Câmara do Porto que a herdou de um benemérito. Ali instalou uma Fundação com propósitos culturais para toda a cidade e sociais para a problemática população envolvente. A Associação minha amiga utiliza o magnífico auditório uma vez por mês para exteriorizar as suas actividades. E neste mês de Dezembro fui eu o convidado. Mas não falei de lusofonia e sim de lusofilia. Qué isso? - perguntou o meu amigo. Lusófono é aquele que fala português; lusófilo é aquele que gosta de Portugal. E eu dedico-me a trazer ao convívio com o Portugal pós colonial todos aqueles a quem chamo os «portugueses abandonados», ou seja, os descendentes daqueles que algures na História e algures no mundo foram administrados por nós e que ficaram nas suas terras após a nossa saída mais ou menos abrupta, defendendo os Valores que lhes legámos – religião, língua e genes – rodeados de hostilidade ou, no mínimo, por desdenhosa indiferença. E, nalguns casos, passados séculos da nossa saída, continuam a dizer-se portugueses manifestando sentimentos lusófilos tão sentidos como esse de quando Portugal ganha um jogo de futebol internacional virem para a rua desfraldando a nossa Bandeira aos gritos de Ganhámos!!! Sim, tanto a mim como aos meus amigos dessa Associação se nos faz um nó na garganta quando vemos tais manifestações de lusofilia. E rezo com fervor para que esses bravos não vejam um dos nossos temíveis telejornais e se lhes quebre o mito sobre aquele país distante cuja aura de grandeza o faz ser ainda maior que todos os sonhos por eles sonhados. E disto não têm as grandes potências materiais. Mas Portugal tem esta aura e eu – não propalando mentiras sobre um eldorado irreal – tudo faço para que ela não se desvaneça e digo aos abandonados que, afinal, há por cá quem se lembre deles e os queira confirmar na Lusitânia Armilar.

 

- Vou ter que me levantar para cantarmos o Hino Nacional – disse ele.

- Não – disse eu. Devo ser o pior cantor do nosso Hino.

- Porquê, não sabes a letra?

- Sei, sei! Mas treme-me o queixo e embarga-se-me a voz.

- E é nesse mundo que vives?

- Sim, é nesta utopia que vivo e, para mim, Portugal é um dogma.

- E, afinal, quem foi o paralítico e para que trouxeste um caixote com grilos?

- O paralítico era nascido em Odemira e governou metade do mundo.

- Como assim?

- Chamava-se Francisco Rodrigues, era Padre e em Goa foi Provincial do Oriente da Companhia de Jesus com jurisdição desde o Cabo da Boa Esperança até Nagasáki.

- E o caixote de grilos?

- Essa foi uma boca em sentido figurado para te aguçar o apetite.

- Mas eu não como grilos nem tenho apetite por eles.

- Tratou-se de trazer para casa a notícia sobre os frades grilos que deram o nome à Igreja de S. Lourenço, no Porto. Mas sobre isso falei numa crónica anterior. Vai lá ler.

- E disseste que levaste um rei para o Porto e que trouxeste outro de lá.

- Para lá levei a história do lisboeta Filipe de Brito e Nicote que foi Rei da Birmânia e do Porto trouxe a história de Carlos Alberto de Sabóia que foi Rei da Sardenha e que, para minha grande vergonha, tinha por ter sido algum actor de vaudeville. Mas sobre este também já falei noutra crónica anterior. Vai lá ler.

- Sim, sim, irei de certeza. Estou a gostar da conversa. E os teus ouvintes gostaram da palestra?

- Bateram palmas porque gostam do tema. Se gostaram da minha palestra, não sei. Mas como me convidaram para lá voltar em Fevereiro...

- Olha: vou ter que sair para ir buscar a minha mulher ao cabeleireiro. Vamos ter que continuar a falar destas coisas.

- OK, quando quiseres. Inté!

 FIM

Dezembro de 2016

 

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Henrique Salles da Fonseca

AS DUAS FACES DA CRISE – 3

 

Segunda face

 

O que de facto aconteceu não foi apenas uma crise económico-financeira mas na verdade uma crise estrutural porque se enfraqueceram atividades essenciais à natureza profunda de Portugal e dos Portugueses e à manutenção da sua independência, e ainda se praticou uma gestão ineficiente com aumento da democratização da corrupção.

 

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Com efeito foram destruídas empresas industriais e a Marinha que ficou quase reduzida à sua componente militar: a Armada, indevidamente denominada a Marinha Portuguesa pois esta é constituída pela Armada com certeza mas também pelas Marinhas de Comércio, de Pesca e de Recreio, que têm sido tratadas até agora de forma inaceitável por ignorância e preconceitos vários como seja a primeira ser colonialista, a segunda desprezada e a terceira fascista!

 

E mais ainda: a vida económica assenta em três fatores essenciais: o Estado, o Trabalho e o Capital.

 

A revolução de 74 tratou o Capital como inimigo a abater mas sem capital não há desenvolvimento. Talvez os mais novos não saibam que um dos chefes da revolução de Abril pouco tempo depois foi visitar o Primeiro Ministro da Suécia Olaf Palme quando este lhe perguntou quais eram os seus objetivos essenciais ele respondeu-lhe ser acabar com os ricos ao que o sueco retorquiu que na Suécia o objetivo era acabar com os pobres.

 

 Há capitalistas desonestos com certeza mas para nos defender há a polícia e as eficiência dos Órgãos de Soberania. Também há políticos desonestos é lá por isto não se acaba com eles, pois aí a polícia também fará o que deve. Há muita fuga aos impostos mas nem há fiscalização eficaz sequer aos serviços estatais nem há medidas de motivação para que todos cumpram melhor os seus deveres sociais. Há forte indisciplina quer no tráfego automóvel quer no pagamento dos impostos e em outros comportamentos desde o que ocorre na rua até ao mais elevado escalão que é a nossa Assembleia da República e também há corrupção democratizada que afeta toda a vida política, económica e social.

 

Assim outra face da crise: como será o futuro que eu desejo porque o que será depende não só de fatores externos, mas principalmente do que nós quisermos e cuja lista se apresenta a seguir.

 

Há dependências externas que não controlamos mas que devemos prever e saber tratá-las convenientemente com certeza.

 

Mas há muitas dependências internas que nos temos recusado analisar e sem as corrigirmos jamais poderemos recuperar a independência perdida e para começar teremos que corrigir as duas principais falhas verificadas nestas últimas décadas que são a excessiva corrupção e a gestão praticada principalmente no Estado mas também no setor privado ter sido pouco eficiente em especial no que respeita à tomada de decisões e à definição de responsáveis.

 

Na verdade desprezaram-se atividades produtivas essenciais em particular as de Marinha porque além de serem económicas foram e continuam a ser estruturais da independência nacional e acabámos mais recentemente por perder o controle das que restavam em nome duma privatização evitável e algo suicida.

 

É certo ter havido forte descapitalização durante o período dito PREC mas depois disso passado havia e tem que haver motivações reais para aumentar a capitalização quer pela via fiscal quer legislando de forma a dar aos capitais portugueses condições idênticas às que lhes são dadas por outros países europeus.

 

Por outro lado, há vários projetos, alguns deles com mais de 20 anos, que aguardam decisão de Governantes, sejam do Governo Central ou de Autarquias, e cujo atraso na criação de postos de trabalho já causou ao País prejuízos de muitos milhares de milhões de euros, e tudo isto perante o silêncio da nossa comunicação social.

 

Em resumo: ser realizada a optimização dos serviços do Estado, central e autárquico, de forma a ser mais eficiente no controle dos seus custos e do cumprimento pelos cidadãos dos seus deveres e deixar de ser entrave do progresso e passar a ser motivador da eficiência global.

 

De facto quem manda, para poder ser exigente, tem que dar o exemplo dessa mesma exigência.

 

E nunca esquecer que uma democracia, para ter sucesso, leia-se sucesso como a melhor qualidade de vida de toda a sua população, exige a participação activa de todos os cidadãos e não sermos como acusava Aquilino Ribeiro um país de estássemarimbandistas.

 

Em resumo: tanto a corrupção como a indisciplina existentes num país nunca são características da sua população, mas são sempre consequência das práticas deficientes das suas lideranças e destas não cumprirem os princípios da gestão eficiente. 

 

FIM

 

XXII Colóquio dos Olivais

 

Novembro 2016

Eng. J.C. Gonçalves Viana

José Carlos Gonçalves Viana

AS DUAS FACES DA CRISE – 2

 

 

A crise actual denominada de 2008

 

... que afectou o nosso país e praticamente todo o mundo, na verdade não só tem duas componentes, uma nacional e outra internacional, mas também teve início algum tempo antes, tempo esse conforme a componente a que se referir. Pois a componente nacional começou a definir-se na segunda metade da década de 80 enquanto a internacional tenho mais dificuldade em fixar o seu início mas certamente foi anterior.

 

Convém alertar o leitor para o perigo que advém de se considerar a nossa crise como uma consequência inevitável da internacional obviamente desresponsabilizando os maiores responsáveis quando na verdade não é assim totalmente pois se tivéssemos tido uma gestão eficiente por parte dos nossos Órgãos de Soberania, a nossa crise teria certamente sido muito mais ligeira.

 

Porquê falar agora e assim? Porque as acções a realizar na gestão, seja de uma família, de uma empresa ou de um país, têm que ter em conta o passado, particularmente o mais próximo e analisá-lo correctamente de forma a corrigir da melhor forma o rumo correcto tal como acontece quando se conduz qualquer veículo. Se assim não for feito, os resultados serão garantidamente desastrosos.

 

Ora o que tem acontecido desde 2008 é essa análise ter sido insuficiente e assim o rumo seguido continuar a gerar resultados muito negativos tanto para a nossa independência como para a nossa riqueza e portanto para a vida da nossa população.

 

Agora peço a vossa atenção para me acompanharem na recordação do caminho que eu próprio fiz na vivência desta crise.

 

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Primeira face:

 

As minhas primeiras intromissões activas na política portuguesa deram-se quando no início da década de 70, por volta de 72/73 me convenci que havia sintomas de grande fragilização no poder instalado e talvez ainda houvesse alguma possibilidade de ser feita uma “revolução interna” que permitisse corrigir alguns dos erros mais pesados do passado recente.

 

Assim como tinha um amigo que ocupava um lugar cimeiro do poder e eu era responsável por uma empresa de consultadoria de gestão, apresentei-lhe o resumo de um diagnóstico da situação e de uma alternativa de solução, mas após uma segunda reunião que ocorreu por volta de Outubro de 73 ficou claro não haver qualquer vontade concreta de tais mudanças serem realizadas e acabei por lhe dizer quando nos despedimos que não lhe dava mais de seis meses de permanência no poder.

 

E de facto assim aconteceu…

 

Mas tal como foi a revolução de 1910, que foi mais perdida por quem estava no poder do que ganha pelos revoltosos, também esta de Abril de 74 foi mais perdida pelo Governo de Marcelo Caetano que ganha pelo MFA como tive ocasião de verificar quando pude ler um relatório da PIDE para o então Presidente do Conselho de Ministros onde ficou clara a sua decisão de permitir a revolução com um presumido controle que de facto não era minimamente viável, e além disto com a minha própria experiência visto ter sido membro dos 2º e 3º Governos Provisórios e mais tarde do Governo da AD.

 

E o resultado foi idêntico ao de 1910: o regime recém instalado era frágil e a natural instabilidade durou quase uma década até se atingir com o IX Governo Constitucional a estabilidade indispensável que permitisse finalmente o desenvolvimento económico e social desejável para o País e para a população pois em tempos idos o País tinha estado melhor mas a população nem por isso.

 

Durante este período de meados da década de 80 a 98, inicia-se uma mudança a nível financeiro e económico mundial de desregulação e liberalismo com Reagan nos EU e Tatcher em Inglaterra que propiciaram no início grandes vantagens para estes países mas com consequências seguintes muito prejudiciais para os países mais fracos e para os que não souberam defender-se. O desenvolvimento das “futures” e de outros produtos financeiros de elevado grau de risco e muito susceptíveis de especulação veio aumentar a perturbação dos enormes volumes de dinheiro movimentado sem controle e acabou por iniciar uma crise mundial de especulações e imparidades que explodiu em 2008 afectando principalmente os países que não souberam defender-se eficazmente com uma gestão eficiente.

 

Convém para melhor se entender a minha visão deste tema notar que a crise internacional eclodiu em 2008 e a nossa três anos depois, o que significa que durante estes três anos não só nada se fez para prevenir os efeitos daquela eclosão como ainda nos afundámos mais…

 

Os anos 80:

 

A partir de segunda metade da década de 80 o rumo da política portuguesa foi seguidista do neoliberalismo em início de carreira por Reagan e Tatcher e logo a seguir com a entrada dos fundos europeus foi-se desenvolvendo em Portugal um clima de despesismo, não de investimento produtivo, que ajudado pelos baixos juros até 1998 já tinha destruído parte importante da nossa capacidade produtiva industrial, tinha impedido a recuperação de parte relevante da nossa Marinha de Comércio, tinha atropelado algumas iniciativas privadas como por exemplo o C. C. Belém, tinha desenvolvido o sector imobiliário havendo informações, embora pouco seguras, de que os valores dos empréstimos eram substancialmente mais altos que a realidade, tinham continuado a aumentar as despesas do Estado, também havia informações por vezes algo difusas da existência de elevadas quantias movimentadas fora do controle que aliás a desregulação em marcha só facilitava.

 

E tinha-se a noção de se ter formado uma classe de intermediários dos fundos europeus entrados no País constituída por elementos dos partidos políticos e privados que pouco ou nada produziam e eram pois essencialmente parasitas da nossa população produtiva.

 

Assim em 1998 convenci-me de que estavam criadas as condições para a eclosão, em data que eu não conseguia prever, de uma crise económico-financeira de enorme dimensão a nível global mas garantidamente também a nível nacional.

 

O que me levou a tratar rapidamente de resolver um problema familiar de partilhas que ficou resolvido em 2000 uma vez que toda a família concordou com as minhas previsões embora por alguns consideradas excessivamente pessimistas.

 

Antes de passar para a segunda face não posso deixar de recordar a minha estupefacção perante o facto de eu não sendo economista ter tido esta previsão e durante todo o período de formação da dita crise não ter reparado em qualquer chamada de atenção dos economistas e financeiros de serviço para o que se estava a preparar, particularmente para os que não trabalhavam na Banca pois estes estavam a ter chorudas gratificações com os lucros resultantes dos elevados montantes de créditos processados, que mais se verificou se terem tornado em imparidades.

 

É claro que o que se passou nos anos a seguir a 98 ainda é mais relevante porque as despesas do Estado a aumentarem, o volume crescente de entradas de dinheiro quer em fundos europeus quer em empréstimos ao Estado e aos privados e a manutenção sistemática do mesmo nível do PIB nacional não permitiam qualquer dúvida ao que acabou por acontecer em 2011.

 

E quanto a responsáveis pela crise o que há a dizer: quase toda a gente começando pelos políticos que governavam, isto é Órgãos de Soberania e Autarquias mas também os poderes corporativos e os muitos privados que se endividaram excessivamente mais para consumo que para investimento produtivo.

 

(continua)

 

XXII Colóquio dos Olivais

 

Novembro 2016

Eng. J.C. Gonçalves Viana

José Carlos Gonçalves Viana

AS DUAS FACES DA CRISE – 1

 

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Introdução

 

O que é uma crise e porque tem duas faces e não digo fases porque são mais do que o tempo que duraram pois são aquilo que nós ficámos a sentir como característico da nossa vida durante todo o período abrangido por ela.

 

Definição de crise: é uma palavra com significados diversos conforme o assunto a que se refere mas em geral trata-se de haver uma mudança da estabilidade de uma situação para outra eventualmente pior. Mas a palavra crise também está ligada ao significado de acção de criticar e discernir que é característica destes acontecimentos de mudança… e que criam a oportunidade de mudar para melhor ou não conforme as circunstâncias e a vontade dos protagonistas.

 

E portanto, tem duas faces: a primeira é a data em que ela é declarada em conjunto com os factos que a originaram e a segunda é caracterizada pelas oportunidades e pelos riscos das soluções possíveis. Assim, a primeira é analítica e histórica e a segunda deve ser um plano de acção para o futuro próximo até porque há sempre nestes momentos de crise bastante urgência em sair dela.

 

Mas para que a segunda face tenha condições propícias ao sucesso, que será aumentar principalmente a competitividade nacional e portanto o nível de vida da população e a independência do País, é forçoso e indispensável que a análise dos acontecimentos todos que ocorreram seja feita sem preconceitos e com profundidade e justiça.

 

Uma breve palavra sobre os preconceitos que são com frequência a causa dos maiores desastres na nossa história até porque muitas vezes estão ligados a fanatismo…Com efeito um preconceito é uma convicção sem fundamentação racional e mais do domínio do emocional com enorme influência no comportamento particularmente na tomada de decisões.

 

Por vezes alguns preconceitos aparecem ligados à luta pelo poder e à ganância como aconteceu com o preconceito anti semita, mas de facto o mais importante na prática é serem um obstáculo irredutível de uma análise correta das bases da decisão que se vai tomar. Como exemplo temos o preconceito de considerar as antigas colónias como províncias, embora nunca tivessem sido tratadas como tal, o que provocou as guerras coloniais que tantos prejuízos causaram a todos os intervenientes até hoje sentidos.

 

Quando falamos de crises e olhamos para a nossa história, nossa da humanidade e não apenas a portuguesa, ficamos com a noção que de facto ela é uma sucessão de crises umas vezes mais profundas outras vezes menos, umas vezes com final feliz outras não.

 

No caso particular português também foi assim mas houve uma com final feliz que merece ser recordada exactamente por essa razão que foi a de 1383-85 que acabou por levar ao trono D. João I por influência da burguesia do Porto, de Lisboa e de Lagos e permitiu a realização dos descobrimentos marítimos pela dinastia de Avis que ao contrário do que ensinam os manuais de história acabou quando D. João II morreu. O rei D. Manuel I já foi de facto um Bragança.

 

Assim conseguiu-se na segunda face desta crise evitar a perda da independência e da oportunidade de aproveitar toda a evolução realizada na primeira dinastia que não só consolidou o território mas também a população que era muito heterogénea e tinha ganho características muito influenciadas pela actividade marinheira derivada do grande desenvolvimento da nossa Marinha que permitiu em 1415 a utilização de cerca de 200 embarcações de maior porte durante mais de um ano na conquista de Ceuta, sem que houvesse notícia de decréscimo da actividade económica do País.

 

Em contrapartida se em vez de D. João Mestre de Avis tivesse ficado Rei D. João de Castela a respectiva elite dominante não seria a que tivemos mas a da nobreza ligada a Castela sem características marinheiras e Portugal passaria a uma região da Espanha.

 

E como já tive ocasião de afirmar várias vezes, repito: para Portugal o Mar sem Marinha não é mais do que paisagem.

 

(continua)

 

XXII Colóquio dos Olivais

 

Novembro 2016

Eng. J.C. Gonçalves Viana

José Carlos Gonçalves Viana

ALGO DAS CAUSAS DA VIOLÊNCIA ÁRABE-MUÇULMANA

 

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Volto ao convívio do grande poeta sirio-libanês Adonis, após a leitura do seu livro Printemps Arabes – Religion et Révolution, escrito antes de Violence et Islam, de que tratei num artigo anterior. Vivemos diariamente a tragédia da Síria e do Iraque, negligenciando um pouco a da Palestina sob o jugo do governo israelita, esquecendo de que a Síria e o Iraque foram o berço da civilização e do pluralismo na encruzilhada da história, da invenção da escrita, que modificaram a face da criação humana, do primeiro Estado árabe em Damasco, valorizando a cultura civil e a separação do político do religioso, da invenção da roda, da conquista do mar, da lei, das três religiões monoteístas e da Andaluzia muçulmana que contribuiu para a difusão da cultura grega e não sei que mais.

 

Presumo que ninguém acredita que o Iraque, a Síria, a Líbia e o Yemen estejam em melhor situação do que no tempo dos seus ditadores, dois deles liquidados por intervenção Ocidental, um terceiro (Síria) salvo in extremis pela intervenção da Rússia e Irão, em resultado de guerra declarada pelos EUA e da União Europeia ao terrorismo islâmico, e um quarto país bombardeado pela Arábia Saudita, utilizando a violência sobre essas nações para, supostamente, implantarem a democracia, quando na Arábia Saudita impera uma teocracia que não respeita nenhum dos direitos humanos; será que o Ocidente contesta ou pune as barbaridades cometidas pela execrável ditadura teocrática da Arábia Saudita que bombardeia populações e instituições civis no Yemen por razões puramente religiosas? Combater o terrorista árabe-muçulmano retribuindo-lhe o terror nunca poderá ter sucesso, porque o terrorista crê piamente que os princípios do Islão são absolutos e transcendentes. Se a arma tecnológica for insuficiente, disporá de outra, do seu próprio corpo transformado em bomba, dado que “o jihad (guerra santa) por Alá é o pivot do Islão”, garantindo-lhe entrar no Paraíso, em caso de morte, onde gozará de delícias infinitas reservadas aos mártires pela causa islâmica, num espaço (Céu) imaginário de jardins, hortas, rios, mel, jovens e virgens – as tais huris – de olhos grandes para gozo sem fim.

 

Procura-se, por todos os meios, liquidar o terrorista árabe-muçulmano sem compreender como surgiu, sem entender a complexidade da sua existência. Adonis, que é árabe e agnóstico, ajuda-nos a entender essa realidade. Diz não chegar a análise da realidade árabe somente sob o ponto de vista económico, social, político e cultural, sem analisar a estrutura religiosa profunda e obsessiva das sociedades árabes.

 

A democracia só se institui através da liberdade individual. A liberdade, neste sentido, não é somente uma expressão verbal, é também a liberdade de se exprimir, de viajar, de se organizar, de falar e de ter ou não uma religião, o que não vem acontecendo com os árabes.

 

Relativamente à promissora Primavera Árabe, ela limitou-se a mudar o poder político sem tocar nas instituições nem nos fundamentos passados das mentalidades reinantes. Foi uma revolta, não uma revolução, por não ter subvertido o statu quo, não ter proclamado a construção da sociedade civil árabe e de Estado laico. Sem atingir a liberdade de práticas religiosas e de crenças, ficou tudo praticamente na mesma, ou pior, como aconteceu antes, por exemplo, no Irão aquando da “revolução” do ayatola Khomeini da República Islâmica. A revolução deve ser política e cultural, derrubando os pilares religiosos, tribais e confessionais do regime derrubado. Não negar a religião, mas tão-somente a sua instrumentalização política e social. A religião constitui o universo do indivíduo, os direitos da sociedade e os do homem são, por definição, civis e sociais. A Charia (muçulmana) aplica-se exclusivamente ao indivíduo crente e não à sociedade. A sua norma religiosa, segunda a qual se julga o homem como crente ou incréu, só exprime a injustiça, a tirania e o anti-humanismo, por ser norma segregacionista que ignora toda a ideia de alteridade (respeito pelo próximo) e a emancipação da mulher com os mesmos direitos do homem. Tanto o Islão “político”, como o “moderado”, ignoram os direitos da mulher, pelo que a badalada moderação nada significa.

 

Os árabes não conseguiram, ao longo de quinze séculos, fundar um Estado de direito reconhecido universalmente, por fazerem fi das liberdades civis e se apegarem ao fundamentalismo religioso. Todo o discurso dos intelectuais e dos líderes revolucionários árabes sobre unidade, nacionalismo, pan-arabismo, socialismo, etc., transformou-se em palavreado inútil. O homem deve interiorizar, antes da pátria, da política e do regime, a essência dessa liberdade, mesmo antes de todas as crenças e de ideologias, terrestres e celestes. O pensamento único prevalente no árabe, que conhecemos do sistema de partido único, não é mais do que uma servidão política, ideológica, económica e social que convém à ditadura. Para impor o respeito desses direitos (civis), o corpo cultural árabe deve sair da etapa de subordinação e do compromisso para poder entrar numa fase de confrontação, como sugere Adonis. Já não bastam as críticas, há que passar à acção num campo de direitos e liberdade que ultrapassa toda a ideologia, toda a doutrina, sobretudo a religiosa fundamentalista que aprisiona os espíritos. A sociedade é uma estrutura civil não doutrinária. A sociedade é para todos, a religião para cada um, individualmente, segundo a sua consciência e fé, não imposta pelo Estado, o que não acontece nos regimes árabe-muçulmanos.

 

O mal dos árabes é o poder estar indissociavelmente ligado à religião e comandado por clérigos que actuam como se ainda vivessem na Idade Média – um mundo habitado por religiosos com doutrinas fechadas, não por cidadãos civilizados -, à semelhança do que se passou com os cristãos nessa época, antes da Renascença e da Revolução Francesa. “Violar a religião é declarar guerra a Alá”, como declaram os membros da Comissão Jurídica do Parlamento Iraniano. A vocação da teologia na Idade Média foi transformar Deus em propriedade privada do clero e do poder subalternizado a este.

 

Nos países árabes, o regime substitui-se à pátria. O cidadão transforma-se em cidadão do regime-pátria, isto é, da tribo, do clã e da família, não da nação. Constamos alguma semelhança com os regimes de partido único, em que, acima do Estado e da Nação está o Partido.

 

Porque será que os árabes nunca conseguiram estabelecer, até à data, uma sociedade civil onde a cidadania constitui o fundamento do Estado, em substituição da religião e da doutrina? Os árabes estão amarrados ao seu passado e não põem em causa as “verdades” de há séculos, a ponto de querem reconstituir esse passado que vão ruminando; até nas vestes imitam Maomé, usando saia e roupa branca. Afinal, a verdade é que a sociedade nunca progride em função ou partindo do passado mas de outras iniciativas que até podem pôr em causa o passado.

 

O que o Alcorão apelida de “gentes do Livro”, isto é, os não-muçulmanos – cristãos e judeus – que viviam nas sociedades muçulmanas, pagando um tributo às autoridades para serem protegidos, já não pagam tributo nenhum, mas não têm direito de se apresentarem como candidatos à magistratura suprema do seu próprio país e não têm nenhuma segurança.

 

O árabe-muçulmano toma à letra o que vem no Alcorão, como, de resto, alguns cristãos, quando se sabe que os textos religiosos, quer sejam muçulmanos, cristãos, judeus, budistas, dizem uma coisa e o contrário. Contêm tolerância e fanatismo, rejeição e respeito do próximo. Intrigante é os árabes, não o Islão, terem sido os primeiros a se interessarem pela alteridade grega, pela sua sabedoria. A razão islâmica aceitou, entre outros, os dois filósofos Platão e Aristóteles, embora não-muçulmanos, interpretou as suas obras a partir dos quais uma filosofia árabe-muçulmana foi fundada. Hoje, tudo se modificou por se ter privilegiado uma perspectiva diferente por uma leitura política da religião com os seus dogmas.

 

Todas as constituições árabes anunciam que o Islão é religião do Estado, como acontecia com os países europeus na Idade Média. Esta cláusula é a negação do respeito pelo outro e aviso para eventual violência, quando não respeitada. Há que separar o político do religioso e reconhecer ao indivíduo o direito de ter ou não ter religião, decisão que prevaleceu na Europa após a Revolução Francesa, que o Catolicismo teve de aceitar e praticar, fazendo a sua revolução, separando a religião da política, e, actualmente, o Papa Francisco relembra esse direito aos crentes. Sem isso – o que acontece entre os muçulmanos – continuaremos a ter regimes teocráticos e fundamentalistas como, por exemplo, a Arábia Saudita, que até prescinde de uma constituição, do Irão e outras monarquias e “repúblicas” do Próximo Oriente, com a agravante de serem aceites e protegidos pelo Ocidente, por serem ricos, aliados, bons consumidores de armas e bens ocidentais e utilizarem os seus bancos.

 

A tão promissora Primavera Árabe iniciada na Tunísia não chegou a ser revolução por não ter levado à subversão radical da sociedade árabe abrindo-lhe o horizonte à democracia, à liberdade civil, política e particularmente religiosa. O Islão deve ser uma religião do indivíduo, jamais colectiva, do Estado. Por necessidade histórica, o Estado deve ser laico, não religioso. Estes dois sistemas nunca se encontram, dado que a religião transcende a realidade, enquanto a laicidade a precede; portanto, dois contrários.

 

A cultura do assassinato permanente é apanágio árabe, mesmo no período áureo da Andaluzia. Não há, entre os árabes, a cultura do debate, do diálogo, mas a da confrontação porque o outro, o próximo, não crente ou com outra crença, deve ser eliminado, como estipula o Alcorão, sem perceber que a nossa identidade é uma relação com o outro, sendo o outro um elemento constitutivo do eu. Os árabes são escravos do Islão, o que agrada aos seus governantes venais.

 

Vamos assistindo, diariamente nas televisões, à violência dos terroristas árabes, aos kamikazes (homens-bomba) com coletes de bombas que explodem indiscriminadamente no meio de civis, militares e polícias; jovens que vivem no Ocidente se oferecem para se sacrificarem pela chamada guerra santa (jihad), por Alá; os bombardeamentos e destruição de cidades com morte de inocentes numa resposta ao terrorismo islâmico, sem querer saber, nem levar em conta, a possibilidade de solução por outros meios, de conhecer as causas reais desse desespero que levou a essa violência árabe-muçulmana. Quais as fontes dessa violência insana, desse terrorismo? Cito algumas: a corrupção, o analfabetismo, o desemprego, a opressão, a tirania e a agressão estrangeira sob as suas diferentes formas. De salientar a catástrofe humana que dura há meio século na Palestina e a política israelita de praticar toda a espécie de barbaridades coloniais: deportação, destruição de casas e de campos de cultura, marginalização, exclusão e expatriação do povo palestino com confiscação de bens, prisão, massacres, indiferença e não respeito das resoluções das Nações Unidas relativamente ao direito dos palestinos a terem uma nação ao lado dos israelitas na terra que sempre ocuparam, de que foram excluídos, desrespeito que não implica sansões, pelo contrário, Israel continua a receber anualmente três biliões de dólares dos EUA, que utiliza na aquisição de armas, na instalação de colonatos em território pertencente aos palestinos (o novo embaixador dos EUA de Trump para Israel concorda plenamente com a extensão dos colonatos) e beneficia do veto dos EUA no Conselho de Segurança da ONU para as resoluções deste. 

 

Para acabar com o terrorismo será necessário eliminar as suas causas. Em vez disso, tanto os EUA como a UE tomam o terrorismo como fachada de uma outra guerra para impor a sua dominação e poder. Invadem países sem invasão e ocupam sem ocupação. Protegem e suportam regimes árabes aliados infames sem tratados de aliança.

 

Não me parece que estejamos no bom caminho nem que venhamos a trilhá-lo no combate pela democracia, pelos direitos individuais, políticos e sociais, face à prevalência de populismo e insegurança, à recente eleição de Trump, cujos elementos do governo neoliberais têm por alvo a anulação da liberdade, à hipótese de um Trump presidente brasileiro (Jair Belsonara), de um político evangélico, senador e bispo da seita IURD, Crivela, eleito prefeito do Rio de Janeiro, e aos governantes de matriz fascista e nazi da extrema-direita que dirigem alguns países europeus e poderão vir a governar outros. Não podemos ser neutros face a essa deriva política, dado que a neutralidade da chamada maioria silenciosa acaba sempre por favorecer quem se propõe criar mais muros e a abater as pontes que nos podem levar ao futuro em democracia.

 

Parede, Dezembro de 2016

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Arsénio Fermino de Pina

O QUE OS PORTUGUESES COMIAM NO NATAL HÁ 100 ANOS

 

 

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Está a ver aquela posta alta e deliciosa de bacalhau cozido com couves, cenouras, batatas e muito azeite por cima? No início do século XX, isso era coisa que só existia no Norte do país. Do Porto para baixo, a véspera de Natal era passada no mais rígido e rigoroso jejum. A partir do início do Advento, as famílias faziam jejum de carne e, na véspera de Natal, no Sul do país, era jejum total até à Missa do Galo.

 

A tradição é recordada por Maria de Lourdes Modesto num artigo publicado no jornal Público, em 2009. A maior especialista em comida portuguesa lembra-se que, na década de 30, depois da missa tinha finalmente direito a comer qualquer coisa – e normalmente os pais serviam um doce para quebrar o jejum. No dia 25, então, era servido um almoço completo e, no Alentejo, onde vivia com a família, era sempre porco – peru nem vê-lo.

 

No Funchal, a tradição também era a do jejum na véspera e a do porco no Dia de Natal. De madrugada, depois da Missa do Galo, era servida uma canja e um cálice de vinho. Na verdade, a festa só começava depois da missa.

 

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Hoje em dia, a ceia da véspera de Natal tem tanta importância como o almoço de dia 25. Mas, há 100 anos, era coisa que existia essencialmente no Norte do País, acima do Porto. Aí, sim, havia uma tradição de jantar em família, com bacalhau – cozido ou em pastéis –, polvo guisado, arroz de polvo e outros peixes. Na véspera de Natal, a família reunia-se à mesa para celebrar a festa em conjunto. E Missa do Galo não existia na região.

 

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Quando foi viver para Lisboa, no final do século XIX, o escritor Ramalho Ortigão indignou-se mesmo contra aquilo a que chamou "uma invasão do lar pela sacristia", um "intrometimento sacerdotal" que interrompia um jantar com uma missa. "Os padres, sem de modo algum lhes discutirmos o muito que eles sabem do pecado, não sabem nada acerca da família".

 

No Norte, ninguém rezava pelo Menino Jesus à meia-noite. A essa hora toda a gente estava sentada à mesa, à volta de um polvo ou de um bacalhau. Só as famílias da nobreza nortenha fugiam à tradição. Numa investigação sobre "os alimentos nos rituais familiares portugueses", Maria Antónia Lopes, do Centro de História da Sociedade e da Cultura, da Universidade de Coimbra, publicou um menu de uma ceia de Natal de uma família nobre do Norte, em 1891: puré de jardineira, arroz de fantasia caseira, costeletas nacionais e "ervilhas idem" e couve flor composta. Para sobremesa, bolo experimental, pudim incógnito e broas de Natal, entre outros.

 

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No final da II Guerra Mundial, o bacalhau começou então a espalhar-se por todo o país. Segundo Nuno Miguel Costa, do Museu Marítimo de Ílhavo, o Estado Novo via no bacalhau um prato "simples" e "humilde" que ajudava a educar o povo a ser poupadinho e bem comportadinho. Com a massificação da televisão e a distribuição de bacalhau garantida pelo Estado, a ditadura aproveitou para impor uma propaganda nacional em defesa do bacalhau, tornando-o tradição em todo o país.

 

Hoje, bacalhau cozido é coisa que não falta no dia 24 em casa da Família Mistério. Adoro aquelas postas altas e deliciosas de bacalhau que se separam em lascas suculentas. Mesmo as crianças estão rendidas a esta maravilha. Aliás, cá em casa, só há um alimento que cria um intenso e dedicado debate: o bolo-rei. Eu compro sempre, já a minha querida e prezada Mulher Mistério odeia.

 

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Em Portugal, aliás, este bolo nunca foi consensual. A receita foi trazida para Lisboa em 1869 pelo dono da Confeitaria Nacional que, no ano passado, ganhou a rigorosíssima eleição de Melhor Bolo-Rei de Lisboa organizada por este vosso casal amigo e que teve como jurados o chef José Avillez e a Marta. Baltasar Rodrigues Castanheiro Júnior provou, pela primeira vez, o bolo-rei em Paris e começou a vendê-lo na Confeitaria. Rapidamente, o bolo se tornou um sucesso especialmente na época do Natal.

 

Mas, com a implantação da República, um bolo com "Rei" no nome virou um ultraje. A venda foi proibida pelo Estado e só a gula e a imaginação dos portugueses é que o conseguiu manter vivo. Antes que os políticos percebessem o que se estava a passar, já as pastelarias vendiam o mesmo bolo, chamando-lhe Bolo de Natal, Bolo de Ano Novo ou até Ex-Bolo-Rei.

 

Eu, por mim, como-o com qualquer nome ou de qualquer maneira e feitio. Tal como o bacalhau, o polvo, o peru ou qualquer outra maravilha da tradição culinária portuguesa. O que é importante é que seja delicioso.

 

Uma óptima ceia de Natal para si onde quer que a tradição esteja.

 

 

Recebido por e-mail, Autor (Casal Mistério) não identificado.

 

 

VIAGEM DE FIM DE SEMANA - 3

 

 

 

Invicta cidade do Porto, entrando na Praça Carlos Alberto...

 

Ah, esta falsa cultura! O «Teatro Carlos Alberto» levou-me a pensar durante muitos anos que tal personagem teria sido um actor e foi necessário entrar na Praça com o seu nome para que a nossa anfitriã, perguntada, me dissesse que era um Rei italiano que se exilara no Porto.

 

Mas na Praça havia uma feirinha de velharias e outras curiosidades pelo que não fiz mais perguntas, deixei as Senhoras entreterem-se e aprazei comigo próprio alguma investigação internética sobre o tal Rei.

 

E fiquei a saber que residiu no Palacete dos Viscondes de Balsemão (na actual Praça Carlos Alberto) e morreu na Quinta da Macieirinha (onde funciona actualmente o Museu Romântico). Mas, ao todo, entre a chegada e a morte, esteve por cá apenas três meses.

 

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 Carlos Alberto de Sabóia, rei da Sardenha

 

Nascido em Turim no ano de 1798, ficou conhecido por "o Hesitante", foi Rei da Sardenha de 1831 até que abdicou em 1849 a favor do filho (Victor Emanuel II) após a derrota na Batalha de Novara contra os austríacos. Foi avô de Humberto de Sabóia, último Rei de Itália que também se exilou em Portugal, cá viveu muitos anos em Cascais e cá morreu.

 

Ainda hei-de vir a saber como é que «o Hesitante» conseguiu em três meses impressionar a sociedade portuense a ponto de lhe terem dado o nome a uma Praça e a um teatro, facécia que não conseguiu na sua própria terra durante os dezoito anos que reinou.

 

Mas foi mesmo no final das buscas internéticas que me deparei com o pequeno parágrafo que transcrevo de seguida:

O seu rápido fim causou um halo de benévola simpatia (que nunca recebeu quando em vida), corrente que cresceu até rasar a hagiografia.

 

Admito que tenha sido este halo hagiológico que tenha suscitado tanta admiração por parte dos portuenses. A ser assim, gosto.

 

O seu corpo foi trasladado para o Panteão dos Sabóia em Itália mas a sua meia-irmã, Frederica Augusta de Montléart, mandou construir uma capela nos terrenos da Quinta da Macieirinha actualmente incorporados nos jardins do Palácio de Cristal onde os seus devotos lhe poderão orar.

 

Capela_de_Carlos_Alberto_da_Sardenha.jpg

 

 

Armoiries_Sardaigne_1831.png

 Armas do Rei da Sardenha

 

Dezembro de 2016

 

HSF-Café Magestic, Porto DEZ16.jpg

Henrique Salles da Fonseca

 

BIBLIOGRAFIA:

Wikipédia

NATAL

N. Senhora e Jesus.jpg

 

 Época difícil, esta. Mexe com a consciência.

 

Por dever de etiqueta, as pessoas sentem-se obrigadas a mandar mensagens (dantes eram bilhetes postais) enfeitadas com estrelinhas, papais Noel ou pai Natal, árvores com presentes e bolinhas coloridas penduradas e outras alegorias próprias. Próprias?

 

Afinal o que é próprio do Natal?

 

Celebrar o nascimento do Menino que, feito Homem, nos veio dizer para nos amarmos uns aos outros, que cuidássemos dos desfavorecidos, dos doentes, dos idosos e que cuidássemos também da natureza para que pudéssemos viver mais felizes e a entregássemos pura aos vindouros.

 

E o que fazemos nós?

 

Alguns vão à Missa do Galo, a maioria procura juntar parte da família, quando possível, porque hoje as famílias estão dispersas pelo mundo e porque, apesar de muitos nascerem, outros já foram, e acabamos por contar mais aqueles que nos faltam do que os novos que vão chegando.

 

Enchemos a barriga de peru ou bacalhau, bebemos o que de melhor temos à mão e desejamos que o próximo ano nos traga a Fada Madrinha para resolver TODOS os problemas, que muitas das vezes nós vamos adiando à espera... à espera de quê?

 

E ainda entregamos presentes uns aos outros, os ricos dão Ferrraris e os pobres uma lembrancinha do tamanho das suas posses, quando alguma têm.

 

Com esta análise simplista quer parecer que fazemos exactamente o oposto daquilo que, aparentemente, deveria ser o Espírito do Natal.

 

Numa mensagem de anos anteriores lembrava que o Natal é uma época dolorosa e que custa ver a “obrigação” de saudar os amigos que afinal estão, permanentemente, mesmo longe da vista, nos nossos corações.

 

Tenho saudades das ceias de Natal que passámos com os filhos ainda pequenos junto com os centos de garotos sem família na Casa dos Rapazes, em Luanda e depois na Casa do Gaiato em Lourenço Marques.

 

O Natal ali era sentido mais verdadeiro, porque mais simples, e porque a alegria reinava estampada nas caras daquela pequenada com a humilde festa que se fazia.

 

É evidente que a todos, amigos e até inimigos, se tiver, não vou desejar que tenham Boas Festas, mas sim um Natal Santo, que a Paz do Menino entre cada vez mais fundo no coração de todos.

 

E muito presente, sem sair do coração, penso nas crianças e adultos de Aleppo, das garotas roubadas na Nigéria, das famílias cristãs e não cristãs a serem dizimadas na Síria e Iraque, nos curdos até hoje humilhados pelas potências vizinhas e que lutam pelas suas vidas, cultura e dignidade, e por todos os que sofrem a injustiça e prepotência dos homens.

 

Não mandarei um abraço mais forte para os amigos. Estaria a desconsiderar os outros.

 

Nesta época é quando penso mais naqueles que, podendo, não são amigos.

 

Mas que todos recebam em seus espíritos o Abraço da Paz, e sobretudo que lutem muito para que esse abraço abrace o mundo.

 

15/dez/2016

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Francisco Gomes de Amorim

FOLHEANDO OS MEDIA

 

TV generalista.jpg

 

     Não faltam análises a denunciar a má qualidade da nossa comunicação social na actualidade. Na verdade, sobram razões para destratar os media nestes tempos em que o vale tudo serve para disputar o mercado.

 

     Certo tipo de televisão está a tornar-se um autêntico agente de intoxicação mental. Os canais generalistas inundam-nos com programas recreativos decalcados do mesmo modelo rasca e repetitivo. Anos a fio o fazem. “Entertainers” de rasa cultura, mais palhaços de rua que profissionais de televisão, contudo destoando dos palhaços por não terem graça nenhuma, saturam-nos diariamente em longos horários matutinos e vespertinos com uma mistela de pseudo espectáculo de variedades, concursos e vulgaridades que muitas vezes roçam a ordinarice e a abjecção. Não adianta fazer zapping que o lixo é o mesmo. É evidente que há escapatória para quem dispõe dos canais da TV Cabo ou tem outras opções lúdicas e recreativas. Mas pobres dos velhos reformados e de magros recursos, faixa considerável da população que fica à mercê de tamanho atentado à inteligência e ao bom gosto!

 

    O mesmo é falar do chamado horário nobre (entre o telejornal e a meia-noite). A chapa é rigorosamente igual entre os três canais generalistas. Não há alternativa. Telenovelas, concursos ou “reality shows”, ou então uma que outra série de ficção, não raro sobre temas em que predomina a violência e a sordidez do comportamento humano, pouco espaço sobrando para programas culturais, educativos e formativos, que deviam, esses sim, justificar a dita nobreza do horário.

 

     Relativamente aos telejornais emitidos pelos canais em causa, o modo, o estilo e o timbre são rigorosamente iguais. Hoje em dia, quase que se tornaram dispensáveis os telejornais porque normalmente são caixa-de-ressonância das notícias que foram sendo repetidas ao longo do dia nos canais de especialidade informativa (RTP 3, SIC, TVI24 e CMTV). Por isso, a não ser que alguma figura pública seja eventualmente convidada para comentar os conteúdos noticiosos, assistir aos telejornais é um exercício de “déjà vu”. Mas inacreditável é quando a notícia já tratada em dias transactos é apresentada como se dada em primeira mão. Outro incómodo intolerável é o excesso de intervalos, sempre longos, para publicidade, muitas vezes decorridos apenas dois minutos depois de iniciado o serviço. Perante este cenário deprimente, actualmente não vejo os telejornais em directo. Só depois de transmitidos, com recurso ao processo de gravação automática. É a maneira de reduzir o tempo do telejornal a uns escassos 10 ou 15 minutos, alijado da ganga inútil, notícia enjoativamente repetida e publicidade.

 

     Escusado é falar nos programas em que se discute futebol porque esses deviam suscitar uma insurreição nacional. O objectivo desses programas não é o futebol como desporto e espectáculo recreativo, é explorar o lado javardo e indigno da natureza humana. O futebol, de que sou adepto, não tem culpa dos que dele se aproveitam para fins pouco recomendáveis. Mas valha a verdade dizer que alguns debates televisivos entre políticos pouco diferem em elevação e correcção.

 

     Seria ocioso, e talvez pouco avisado, ocupar o pouco espaço desta crónica com uma incursão na imprensa escrita. Mas a extrapolação que me proponho nesta crónica não dispensa falar do diário de maior tiragem na nossa imprensa escrita. Há nesse diário uma exploração “ad nauseam” da morbidez, do “voyeurismo”, da insinuação, do intriguismo, da denúncia, do instinto de abutre, do justicialismo primário, as mais das vezes com recurso a informações que fogem inexplicavelmente ao domínio de quem as devia guardar em segredo, o que é mais grave quando se trata de órgãos da Justiça. Esse jornal enche as suas páginas de criminalidade de toda a sorte, acidentes de viação, casos de pedofilia, violações sexuais, violência doméstica e outros derivados da degenerescência da natureza humana. O objectivo é mais explorar comercialmente o “voyeirismo” e o sensacionalismo do que informar por informar. Por exemplo, que interesse tem saber diariamente que a “Miss Bumbum” andou atrás do Cristiano Ronaldo ou que este tem um caso com esta e aquela? Citar Cristiano Ronaldo é como citar qualquer desses cidadãos ou cidadãs que enchem as páginas finais do jornal em apreço, regra geral pessoas de fraco ou nenhum calibre social e cultural, que estão longe de constituir exemplos de cidadania.

 

     A técnica do jornal é habilmente congeminada: notícias curtas, doseadas e variadas dentro da temática preferida, no entanto entremeadas com curtos e bons artigos de colunistas de mérito reconhecido e que assim lhe emprestam, talvez acriticamente, uma suposta credibilidade. É um facto que o jornal tem sucesso. Todavia, tal só poderia ser objecto de gratificação e reconhecimento públicos se o seu conteúdo primasse por uma razoável qualidade e não tivesse como principal, se não único, móbil o objectivo puramente comercial, sem olhar a meios para atingir os fins. Mas o modelo do jornal é idêntico ao de outros que pontificam por esse mundo fora onde há liberdade de imprensa. Nada tem de original.

 

     Não surpreende este comportamento generalizado dos media, entre nós como em quase toda a parte, porque sociologicamente há uma explicação. A comunicação social é o barómetro do nível social, cultural, político e económico de uma sociedade. Perante a realidade que se lhe depara, ela tem duas opções: ou rema contra a maré e tenta contribuir para melhorar o nível cívico e cultural do cidadão leitor ou espectador; ou fornece-lhe precisamente o que ele quer ou do que mais gosta. E dispensa grande trabalho de auscultação prospectiva. No nosso caso, basta olhar para algumas carências cívicas que ainda não conseguimos suprir de todo e em que pontifica um espírito insuficientemente crítico. Reflexo do nosso escasso investimento na educação durante séculos, a situação não é também alheia à influência que a perversa Inquisição exerceu na nossa alma.

 

     De facto, alguns dos nossos comportamentos, como o intriguismo, a inveja e a denúncia são reminiscências doentias dos efeitos daquela maligna instituição criada pela Igreja Católica quando ela tropeçou no percurso da sua história. É muito disso que alimenta as estratégias para aumentar as boas tiragens ou as audiências, no pressuposto de que competir no mercado explorando o lado nobre do jornalismo não produz bons resultados comerciais. 

   

     Resta auspiciar tempos novos em que a comunicação social não precise de depender tão largamente da disputa do volume de vendas ou audiências, para assim poder libertar-se e prestar ao público um serviço de real qualidade e utilidade social. O mundo digital está em franca e acelerada expansão e é possível que venha a assistir-se num futuro próximo a uma mudança radical das regras que norteiam a vida humana. Só assim haverá verdade absoluta nas palavras de Hegel quando disse que a leitura dos jornais é a oração matinal do homem moderno. Ora, nos tempos actuais essa oração só pode invocar a presença fatídica de demónios, em vez de ungir os espíritos.

 

     Bem, todo este fenómeno de libertinagem é indiscutivelmente fruto da liberdade e da concorrência que são filhas dilectas do Estado de Direito democrático. Mas o argumento de que as rosas têm espinhos não nos pode servir de lenitivo. Porque é pena que a democracia aceite no seu seio anticorpos que atentam contra o seu aperfeiçoamento como sistema político.

 

     Encontro na imprensa regional um espaço ainda imune à contaminação que assola o sector, não obstante também ela passar por dificuldades de sustentabilidade económica.

 

     Feliz Natal ao jornal Templário e seus leitores!

 

 

Tomar, Dezembro de 2016

 

Adriano Miranda Lima (2016).jpg

Adriano Miranda Lima

O POPULISMO DE CIMA E O POPULISMO DE BAIXO

POPULISMO ERUDITO CONTRA POPULISMO VULGAR

E VICE-VERSA

 

Está em moda criticar-se irreflectidamente o populismo, ignorando que vivemos em democracia, como se o povo fosse algo a desprezar ou como se alguém fosse o senhor da verdade e dos interesses a defender e a transmitir ao povo. Na última campanha eleitoral dos USA tivemos a actuar em palco, em termos de igualdade, o populismo de cima expresso em Clinton e o populismo de baixo representado em Trump.

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Na arena pública da democracia temos a classe dominante com um tipo de discurso: o discurso do politicamente correcto (o populismo erudito, o populismo dos de cima) que implica uma certa restrição da liberdade de expressão e defende mais os interesses da sua classe, apresentando-os como os interesses do “povo”; temos, por outro lado o discurso mais simplificado (o populismo vulgar, o populismo de baixo) que diz pretender defender os interesses do “povo”.

 

Em democracia tudo é povo pelo que não fica bem que a classe dominante se reserve para ela o direito da interpretação e da opinião correcta em questões da coisa pública. Já cheira a esturro, o facto de em quase toda a Comunicação Social europeia dominante (do politicamente correcto) serem uníssona em criar preconceitos contra subculturas políticas rivais, como se os pretensos preconceitos dos que representam os interesses dos de baixo não tivessem nada a ver com os preconceitos e os interesses da camada dos de cima.

 

O populismo vulgar tem porém um aspecto positivo que o populismo erudito não tem: consegue apresentar assuntos complexos de forma compreensível para a generalidade da população; coisa que os políticos e os meios de comunicação social não conseguem! A esta forma de expressão simplificada poder-se-ia denomina-la de populismo de baixo ou populismo vulgar (a maneira de ver do cidadão em geral).

 

É também moda dizer-se na Comunicação Social que o populismo vulgar reage por medo. Esta é uma conclusão apressada e generalista, dado confundir “grande preocupação” com “medo”. Enfim, o que temos em democracia são grupos de interesses onde a orientação pelo bem-comum, por todo o povo, seja ele mais alto ou mais baixo, parece estar ausente!

 

É da natureza da comunicação publicada haver muitas formas de discurso, na defesa de interesses organizados, que geralmente se usam do populismo (erudito ou vulgar) de esquerda e de direita.

 

Na polis, a luta pelos votos é cada vez mais renhida e brutal porque os grupos de interesses que ganham têm muito a ganhar e os grupos de interesse que perdem têm mesmo muito a perder: e isto acontece porque, na realidade, mais que o interesse do bem-comum está em jogo os interesses dos grupos rivais; assim, cada grupo procura defender a sua ideologia e os seus interesses com o mau princípio de que os fins justificam os meios e na esperança de que o povo pense que é defendido e não note o que verdadeiramente está em jogo: poder e influência, ceder o mínimo e receber o máximo.

 

O espírito da época (Zeitgeist) e o pensar politicamente correcto são a forma mais populista que há. Este populismo engravatado é publicitado automaticamente como pensamento correcto e é, geralmente, encenado pelos regimes políticos dirigentes e pelos que beneficiam mais do sistema.

 

A pressão do Zeitgeist e do pensar correcto é tão forte que leva muitíssimas das pessoas a trazerem em público a tesoura da censura na própria cabeça, uma instância que limita a criatividade e a liberdade de expressão, porque a autocensura age sob o medo de provocar reacções inesperadas. Esta censura interior e inconsciente corta com tudo o que possa contrariar a corrente porque se orienta pela oportunidade do conveniente. Esta forma de populismo fino é comum em todas as Eras da história e é comum a todos os regimes e ideologias.

 

O populismo vulgar é mais próprio dos tempos de crise política, cultural ou social. Não interessa a defesa do politicamente correcto (ideologia da classe dominante), do politicamente incorrecto nem tão-pouco do espírito conspirativo de um lado ou do outro, o que interessa é que no emaranhado dos interesses em debate, em primeiro plano, esteja a preocupação da defesa do Bem-comum no reconhecimento da complementaridade que leva ao compromisso e não a defesa de interesses de uns contra os outros, porque nesta dinâmica ganha geralmente o mais forte e é fomentado o fanatismo ideológico.

 

O conceito de povo, e de estado democrático como forma de representação de interesses, implica a inclusão e não a exclusão e uma forma de discurso com regras mas que não impeçam a criatividade. A dominância de grupos é legítima no respeito pelas minorias.

 

O Homem, o cidadão é o ser soberano, mesmo em relação à mais alta instituição; quer se encontre em cima ou em baixo, tem todo a mesma dignidade, como defende o cristianismo! “O Estado é a obra mais nobre do Homem mas o Homem é a obra mais nobre de Deus”, reconhecia já em 1793 o Supremo Tribunal Federal dos Estados Unidos.

 

ACDJ-Prof. Justo-3.jpg

António da Cunha Duarte Justo

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