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A bem da Nação

PERGUNTAS PROIBIDAS

CHEGOU A BANCA SOCIAL

Há mais de um século que a banca social se tem afirmado em vários países europeus, através de um propósito que ultrapassa em muito a noção redutora de lucro...

 

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… – visa acrescentar as dimensões ambientais, culturais e sociais à análise de aplicação de recursos próprios, sejam eles provenientes de capitais ou de depósitos.

 

Agora, a 26 de Novembro, a Banca Social chegou a Portugal através da criação da FESCOOP, uma cooperativa com finalidades parabancária e que resulta da consolidação de um sonho de várias entidades e pessoas agrupadas na Associação CELTUS e em que se destacam João Gil Pedreira, Fabrice Génot e Emídio Ferra.

 

A FESCOOP deve muito a esse sonho da CELTUS, uma entidade sem fins lucrativos com vista à criação e ao desenvolvimento de respostas nas áreas dos serviços financeiros, das moedas complementares e alternativas e das relações económico-produtivas solidárias e sustentáveis.

 

O dinheiro está nas mãos da banca. Dos bancos ditos resgatados. Dos bancos ditos bons e dos bancos ditos maus. Dos bancos alimentados pelo Banco Central Europeu e que se comportam como zombies na conjuntura. O sistema bancário e financeiro em Portugal contribuiu com mais de 20,6 mil milhões de euros em dívida soberana e com mais de 12,6 mil milhões de euros de deficit nos orçamentos de Estado entre 2007 e 2015.

 

Por tudo isso, Portugal carece de um exemplo de uma banca que, através do compromisso e da transparência, possa vir a ser a vaga do futuro. A banca social poderá vir a desempenhar um papel fundamental de retorno à confiança. É como o carro com motor eléctrico: ainda não está massificado, mas já sabemos que é o futuro.

 

A confiança criada pela banca social resulta da transparência com que funciona, face às aplicações ou créditos concedidos; qualquer accionista ou depositante tem acesso ao destino das suas aplicações e depósitos; sabe como é utilizado o seu dinheiro. Que não vai para offshores, nem alimenta fábricas de armas, nem tráfico de órgãos. O accionista ou depositante pode comprovar se o propósito social e ético está a ser cumprido, e pode intervir através de modelos de governança participativos, que garantem uma ponte entre accionistas, depositantes e o banco social.

 

O exemplo trazido a Portugal pela FESCOOP tem antecedentes próximos na segunda assembleia da área Fiare e Banca Popolare Etica, em Março de 2014 em Barcelona, duas entidades das mais significativas respostas bancárias e parabancárias ao nível social e ético do sul da Europa.

 

A questão central da banca ética ou social é a economia a criar, acelerar e desenvolver com o nosso dinheiro. A transparência é o princípio de base, para que a comunidade envolvida possa visualizar como a sua vontade, o seu querer e o seu propósito se materializam nesta nova forma de pensar os serviços financeiros.

 

O dinheiro faz girar o mundo? Sim, até eu começar a perguntar como o aplico. Ao perguntar por que compro, ganho consciência sobre quem sou e o que pretendo fazer. Ao perguntar o que compro, começo a interrogar-me sobre o que se passa no planeta. Ao perguntar a quem compro, ganho informação sobre a sociedade. Em tudo isto, ganhamos consciência de que, além de consumidores, participamos na dimensão cultural, social, política, económica e ambiental da sociedade.

 

Com o dinheiro depositado nos bancos, o questionamento é semelhante Ao interrogar-me o que o banco faz com o dinheiro que nele deposito, estou a interrogar-me se as aplicações do banco têm um cariz social e ético; se o banco tem propósitos transparentes; assim inicio a mudança social, mudando os meus comportamentos.

 

A Banca social ainda será estatisticamente insignificante na Europa, mas é já o sinal de que existem alternativas: algumas com capitais na casa dos muitos milhões de euros como o Triodos. E apresenta resultados mais sustentáveis do que os dos bancos convencionais. A sua taxa de incumprimento é muito baixa.

 

O Grameen Bank, a primeira instituição financeira do mundo em microcrédito, surgiu em 1976 em Jobra, no Bangladesh, fundado por Muhammad Yunus. Em 1983, o Grameen Bank adquiriu o estatuto formal de banco. Hoje, o Grameen Bank recebe de volta cerca de 98,85% dos empréstimos que concede como empresa privada lucrativa e que ajuda os mais carenciados e desfavorecidos. O contra exemplo ideal face aos “bancos resgatados” da Europa.

 

Por tudo isto, devemos saudar a edificação em Portugal no passado dia 26 de Novembro de uma entidade para bancária com propósitos adequados aos desafios sociais e económicos, como seja o resgate de famílias e empresas sobre endividadas e o financiamento do terceiro sector associativo, cooperativo e comunitário.

 

A FESCOOP propõe-se estar ao lado da agricultura biológica e biodinâmica, da permacultura, das energias limpas e renováveis, das comunidades auto-sustentáveis, das entidades de comércio justo, entre outras representativas de um novo paradigma.

 

Agora resta desejar a melhor sorte do mundo aos seus fundadores. Eles estão do lado do futuro saudável, numa Europa farta de soluções bancárias doentias.

 

13 Dezembro, 2016

 

Mendo Castro Henriques

Mendo Castro Henriques

Professor na Universidade Católica Portuguesa

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