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A bem da Nação

A COMPAIXÃO DE S. MARTINHO

 

s-martinho.jpg

 

 

Hoje, dia de S. Martinho, conto uma pequena história que me foi contada por um monge seguidor do Dalai Lama.

 

Perguntado sobre o que é a compaixão budista, o monge pediu a quem o escutava que imaginasse entrar numa sala e ver uma flor num vaso. Todos pensaremos em primeiro lugar se gostamos ou não daquela flor, se ela é bonita, enfim, se de algum modo nos satisfaz. Ou seja, todos teremos raciocínios ego centristas, egoístas, no limite: todo o raciocínio se desenvolve em torno de nós próprios, dos nossos parâmetros e interesses. Mas se ao vermos a flor naquele vaso pensarmos que ela estaria muito melhor se pudesse apanhar directamente a luz do Sol e o ar fresco, se pudesse estar entre as outras da sua espécie... Então nós abdicávamos do nosso egoísmo, do egocentrismo e focávamos o nosso raciocínio no interesse da flor. Ou seja, interessávamo-nos pelo outro e não mais apenas por nós. Esse cuidado com o próximo é a compaixão budista. Os cristãos chamam-lhe amor.

 

S. Martinho foi compassivo dando a sua capa a um velho que tinha frio.

 

Henrique no barco-Israel.JPG

Henrique Salles da Fonseca

POR QUE NÃO O URUGUAI?

 

Colónia Sacramento.JPG

 

UM FACTO HISTÓRICO POUCO CONHECIDO



Passo pelo centro da cidade e vejo, de repente, em plena Praça do Comércio, a bandeira da Guiné Equatorial. Lá estava ela ao lado das outras oito, da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa. Para nos lembrar como os interesses petrolíferos levaram à CPLP uma ditadura brutal onde há uma suposta moratória à pena de morte (que ninguém verifica), e onde o ditador rouba os recursos naturais do país, para que o seu filho seja um coleccionador de carros de luxo que não podem andar nas poucas estradas asfaltadas daquela desventurada terra.


Não que faltem razões históricas para uma relação com o povo da Guiné Equatorial, por onde os portugueses também andaram e onde há ainda quem fale um dialecto de base portuguesa na ilha de Ano Bom. Mas se essas fossem razões suficientes para entrar um país na CPLP, eu preferiria ter visto outro, na frente da fila: o Uruguai.


Antes que alguém diga: “mas o Uruguai tem como língua oficial o espanhol!” — interrompo para responder que não tem. O Uruguai não tem idioma oficial. E isso não acontece por acaso, mas pela razão histórica de que a República Oriental do Uruguai, como é seu nome constitucional, foi criada como uma espécie de Bélgica da América do Sul, ou seja, para servir de tampão entre o Brasil e a Argentina, sucessores do império português e do império espanhol. Por isso foi deixada propositadamente sem língua oficial, nem português nem espanhol, num esforço de neutralidade.


Muita gente já ouviu falar da uruguaia Colónia do Sacramento, que foi a mais meridional das cidades portuguesas e se situa mesmo em frente a Buenos Aires, na margem uruguaia do Rio da Prata.


Esta cidade foi intermitentemente portuguesa e espanhola durante século e meio, e serviu de moeda de troca nas negociações pela posse do território das Missões, no actual estado brasileiro do Rio Grande do Sul.


Mas há menos quem saiba que todo o Uruguai foi, no início do século XIX, parte do Reino Unido de Portugal, do Brasil e dos Algarves, com o nome de Província Cisplatina. Após 1822, o Uruguai passou a fazer parte do Império Brasileiro. Em 1825, o Uruguai tornou-se independente, não – como muita gente pensa – do império espanhol, mas, sim, do império brasileiro.


Este é um caso único na América de língua espanhola — mas o Uruguai é também, embora minoritariamente, de língua portuguesa. Há cidades de fronteira com o Brasil, onde o português é língua materna. O “portunholriverense”, também chamado de “fronteiriço”, é um dialecto de base portuguesa reconhecido pelo estado uruguaio.


E a língua portuguesa é de ensino obrigatório nas escolas do país.
Para mais, o Uruguai é um país democrático e respeitador dos direitos humanos. A pena de morte foi abolida em 1907. Foi um dos primeiros países no mundo a legalizar as drogas leves. E — esta é a melhor — já pediu e repetiu o pedido para ser observador na CPLP. Se tivéssemos sido um pouco mais activos ainda poderíamos ter tido José “Pepe” Mujica nas cimeiras da lusofonia.


É, por isso, que, de cada vez que eu passar pelas bandeiras da CPLP e lá vir a da Guiné Equatorial, hei-de suspirar e pensar: preferia o Uruguai.

 

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Rui Tavares

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