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A bem da Nação

PERGUNTAS PROIBIDAS

FRANCISCO E LUTERO:

DOIS REFORMADORES

 

Mas por que foi Francisco à Suécia? Porque são importantes estes acontecimentos de há 500 anos? Afinal não somos apenas nós, Portugueses, que nos preocupamos com sucessos de há 500 anos?

 

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A 31 de Outubro de 2016, o Papa Francisco esteve em Lund a iniciar o aniversário dos 500 anos da Reforma, juntamente com representantes da Igreja Luterana. A 1 de Novembro celebrou uma missa para 25 mil católicos; não há muitos mais na Suécia.

 

Onde foi pregar o papa? À Suécia, um dos países mais descristianizados da Europa. Segundo o Eurobarómetro, em 2010, apenas 18% dos suecos “acreditam que existe um Deus”. Segundo a Gallup em 2009, 17% afirmam que “a religião é uma parte importante da sua vida diária”. Apenas 15% dos membros da Igreja Sueca acreditam em Jesus, enquanto outros 15% são ateus, e 25% agnósticos. Apenas 2% participam nas celebrações. Neste país, a religião é considerada com indiferença benigna.

 

Mas por que foi Francisco à Suécia? Porque são importantes estes acontecimentos de há 500 anos? Afinal não somos apenas nós, Portugueses, que nos preocupamos com sucessos de há 500 anos?

 

Na época de Lutero, a Igreja Católica considerava que ninguém deveria formar as suas próprias opiniões a não ser através da mediação da Igreja. Contra esse paternalismo, Martinho Lutero traduziu a Bíblia para o alemão, a língua comum. Assim recomendavam todos os humanistas cristãos: Erasmo, Colet. Moro. Budé, Vives.

 

Papa comemora a Reforma

 

A viagem de Francisco a Lund significa a primeira vez que um papa comemora a Reforma. A era ecuménica do “consenso diferenciado” começou há 50 anos com o Concílio Vaticano II e é agora reforçada na cerimónia luterano-católica.

 

Se Lutero tivesse sido apenas um teólogo com ideias inovadoras; se apenas tivesse escrito ou impresso tratados com as suas leituras e interpretações da palavra de Deus mas tivesse morrido a 30 de Outubro, o mundo seguiria o seu rumo.

 

Mas Lutero foi diferente. A 31 de Outubro pegou nas 95 Teses que denunciam a venda das indulgências e afixou-as na igreja de Wittenberg, o primeiro dos actos com que arriscou a vida pela fé cristã, e pelos valores da liberdade de consciência.

 

Em 1521, chegou a Worms perante o imperador Carlos V e ouviu a condenação dos juízes; após pedir 24 horas de reflexão, afirmou com lucidez e coragem: “Estou submetido à minha consciência e unido à palavra de Deus. Por isto, não posso nem quero retratar-me de nada, porque fazer algo contra a consciência não é seguro nem saudável.”

 

A loucura de Lutero

 

Esse foi o primeiro ponto de Francisco em Lund. Elogiar essa “loucura” do “Aqui estou e não posso fazer o contrário“, a loucura de quem arrisca tudo pela fé e para ajudar os outros.

 

A Igreja de Jesus Cristo nasceu em Jerusalém há quase dois mil anos. Teve um período verdadeiramente católico ou universal, até ao cisma de 1054, gerador da Igreja Ortodoxa na Europa do Leste e Rússia. Teve um período confessional desde a reforma de 1517 em que as guerras de religião se sucederam e as divisões diminuíram o fulgor evangélico. E iniciou um período ecuménico a partir do séc. XX em que o ateísmo e agnosticismo crescentes se tornaram ameaças maiores que as divisões internas.

 

Ecuménico significa o que abrange o planeta. Ecuménico é também o movimento em que catolicismo, protestantismo e ortodoxia, antes constrangidos por posições confessionais, redescobrem a unidade primordial em Jesus Cristo.

 

É a primeira vez que um papa comemora a Reforma mas a história do ecumenismo é mais longa. A Conferência Missionária Mundial de Edimburgo em 1910 foi um passo importante como o é o prémio Templeton, desde 1972 considerado Prémio Nobel da Teologia.

 

Ecumenismo

 

As Igrejas evangélicas iniciaram o ecumenismo com a Assembleia geral do Conselho Mundial das Igrejas em Uppsala (1968).

 

A Igreja Católica iniciou-o com o Concílio Vaticano II. O decreto ecuménico Unitatis redintegratio; a constituição dogmática Lumen gentium e a Constituição pastoral Gaudiam et Spes e o decreto missionário Ad gentes são os marcos desse ecumenismo. A recente Encíclica Laudato Sí, de 2015, expandiu este horizonte.

 

A “Declaração Conjunta sobre a Doutrina da Justificação” de 1999, apresenta a fórmula de “consenso diferenciado”. No documento “Do conflito à comunhão” da Comissão Internacional Católico-Luterana em 2013, afirma-se: Em 2017, devemos confessar que somos culpados diante de Cristo por termos rompido a unidade da Igreja.

 

Em 1517 a Igreja encetava com Lutero o caminho da separação. Em 2017 está no caminho para a unidade nas diferenças. A unidade está mais próxima: essa foi a segunda mensagem do Papa Francisco em Lund: as comunidades cristãs não podem resignar-se à distância que a separação criou.

 

Conta o cardeal Walter Kaspar no seu livro Martinho Lutero; lido em chave ecuménica 500 anos depois que a 1 de Novembro de 2009 plantou uma tília no jardim de Lutero em Wittenberg; em retribuição, os luteranos plantaram uma oliveira diante dos muros da basílica de São Pedro, construída com o dinheiro da venda das indulgências. Quem planta árvores tem esperança mas também tem que ter paciência.

 

O ecumenismo tem que se alimentar do mútuo reconhecimento; não é um produto de uma pessoa, um grupo ou uma igreja. Para os crentes, acontece como dádiva de Deus; para os não crentes, é o que o mundo necessita para sair dos impasses actuais…

 

Crenças comuns

 

A chanceler Angela Merkel, cristã luterana e filha do pastor Horst Kasner, apelou às igrejas protestantes e católica da Alemanha para salientar as crenças comuns em 2017.

 

Tal como Lutero, há 500 anos atrás, estava escandalizado que o bom dinheiro alemão era desperdiçado com os luxos da Roma mediterrânica e estava descrente desse grande projecto europeu que era a aliança entre o Império e a Igreja Católica Romana, a sr.ª Merkel tem um problema luterano de lidar com um povo que acha que o dinheiro alemão subsidia estrangeiros mal comportados.

 

Para o resolver vai ser preciso muito mais que perceber de finanças internacionais. Vai ser preciso construir com paciência a atitude ecuménica dos consensos diferenciados que as igrejas cristãs descobriram ao longo do século XX e que o reformador Papa Francisco veio celebrar em Lund com os reformadores luteranos.

 

Mendo Castro Henriques

Mendo Castro Henriques

Professor na Universidade Católica Portuguesa

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