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A bem da Nação

O FORTE DE PENICHE E A VERDADE HISTÓRICA

 

Forte de Peniche.jpg

 

 

A polémica àcerca da concessão deste forte para um empreendimento turístico levou-me a este comentário dadas algumas confusões que parece haver quanto ao seu valor como monumento histórico relacionado com as lutas anti-salazarismo.

 

Como as lutas salazaristas eram sobretudo contra os comunistas que durante o período do Governo de Espanha ser por eles controlado, além de serem conhecidas as perseguições ali verificadas contra particularmente a religião católica e as que na União Soviética aconteceram para ser possível lá instalar o comunismo, um tal monumento que se realizasse no Forte de Peniche seria também de homenagem ao comunismo.

 

O que obviamente quem for a favor da liberdade em Portugal não poderá estar de acordo.

 

Ainda por cima recordo-me de ter ouvido nos círculos de anti-salazaristas, em que eu participava e não eram comunistas, a versão de que a fuga tinha sido muito apreciada por Salazar pois constava este ter a opinião de que Cunhal nunca deveria passar a ser um mártir e o ideal seria ele viver fora de Portugal.

 

Parece pois que a História precisa de ser bem contada…para que se possa ficar a saber a verdade!

 

Lisboa, 4 de Outubro de 2016

Eng. J.C. Gonçalves Viana

José Carlos Gonçalves Viana

ESTÁ COM TOSSE?

Inês, Pedro e....jpg

 

 

Eis como D. Pedro I tirou a Tosse ao escudeiro Afonso Madeira que ele muito amava «mais do que se deve aqui dizer...». Nunca fiando...


Embora havendo três filhos do seu segundo casamento e tendo vivido uma relação intensa com Inês de Castro, com quem também houve descendência, acerca do temperamento deste soberano, o cronista Fernão Lopes dedicou um capítulo que intitulou "Como El-Rei mandou capar um seu escudeiro porque dormia com uma mulher casada", permitindo entrever que o gesto teria sido motivado por ciúmes do monarca por seu escudeiro, de nome Afonso Madeira.

 

Madeira é descrito como um grande cavalgador, caçador, lutador e ágil acrobata, e regista: "Pelas suas qualidades, El-Rei amava-o muito e fazia-lhe generosas mercês."

 

O escudeiro, entretanto, apaixonou-se por Catarina Tosse, esposa do Corregedor, descrita como "briosa, louçã e muito elegante, de graciosas prendas e boa sociedade". Para se aproximar dela, Madeira fez-se amigo do Corregedor, seduzindo-a e consumando a traição.

 

O soberano, entretanto, tudo descobriu e não perdoou Madeira, castigando-o brutalmente. O cronista insiste no afecto do soberano, referindo enigmaticamente: "Como quer que o Rei muito amasse o escudeiro, mais do que se deve aqui dizer (...)", mas regista que D. Pedro mandou "cortar-lhe aqueles membros que os homens em maior apreço têm". O escudeiro recebeu assistência e sobreviveu, mas "engrossou nas pernas e no corpo e viveu alguns anos com o rosto engelhado e sem barba".

 

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Francisco Gomes de Amorim

AINDA RICOEUR

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Paul Ricoeur e os gatos fedorentos

 

TEXTO ESCRITO EM 7 DE AGOSTO DE 2005

 

Tendo deixado passar em branco no passado 21 de Maio, a morte de Paul Ricoeur, aos 92 anos de idade, recolho os meus apontamentos sobre ele. Ricoeur deixa mais que uma filosofia; deixa uma militância. O então (antes do NON) primeiro ministro francês, Jean-Pierre Raffarin, lamentou mais "que a perda de um filósofo". "A tradição humanista europeia chora a morte de um dos seus porta-vozes de maior talento".


Embora não fosse politólogo e menos ainda analista de temas internacionais, Paul Ricoeur tratou a questão pública de modo muito diferente do voluntarismo dos intelectuais; estes tomam posição a propósito de qualquer assunto, mesmo dos que não entendem; sobretudo do que não entendem, segundo Hegel, na Fenomenologia do Espírito. Ricoeur intervinha quando sabia o que se passava.


Associado à revista Esprit, fundada por Emmanuel Mounier em 1932, respondeu à crise da democracia liberal com a alternativa cristã aos desafios do fascismo e do comunismo. Quando Mounier morreu prematuramente em 1950, Ricoeur elogiou o personalismo num belo estudo. Paul Ricoeur produziu óptimas conferências e artigos sobre o significado do Evangelho na compreensão da política. Alertava sempre para a importância dos modernos estudos bíblicos que ajudam a contextualizar as fontes antigas e evitam as posições reaccionárias e atitudes fundamentalistas. Na sua Filosofia da Vontade enfrentou as questões políticas puras: Estado, Economia, Direito.


Em época de desencanto político, Ricoeur foi muito firme num ponto: a condenação da política como corrupta é enganadora, malevolente e infame. A política só é fonte de males devido ao lugar proeminente que ocupa na vida pública, e não por qualquer defeito intrínseco da politização. A política original é fonte de libertação, como sempre lembra José Adelino Maltez. A denúncia sistemática da política é a morte da cidadania. A tentação gato fedorento dos intelectuais europeus (ou será a tentação intelectual dos gatos fedorentos?) é demasiado fácil; os programas europeus de contra-informação acabam por ser o "ópio dos revoltados" que o sistema até fornece nas televisões públicas. Não é por acaso, certamente.


Com Ricoeur, portanto, militar é preciso. Informadamente.

 

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Mendo Castro Henriques

Professor, Universidade Católica Portuguesa

UM ACTO DE CIDADANIA ACTIVA...

 

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...NUMA SOCIEDADE QUE TEIMA EM NÃO ACORDAR

 

Coloco aqui o link do Livro que recomendo “EU E OS POLÍTICOS” (O livro proibido) de José António Saraiva.

 

Não leiam porque para muitos poderia tornar-se doloroso acordar; é um livro só para quem tem a coragem de se querer tornar consciente da situação que criamos e confirmamos. Certamente já conhecem a sensação que se tem ao regressar-se de um arraial; não leiam o livro para não terem essa sensação e poderem continuar a aplaudir o bailado dos dançarinos da política e a ter a consolação de sentirem o ritmo de uma política que se repete e até parece proveitosa na medida em que proporciona queixumes esporádicos que se tornam no tubo de escape das frustrações pessoais.

 

“EU E OS POLÍTICOS” é um livro que mostra

o lamaçal da política portuguesa.

 

Numa dança de Fantoches e Zés Pereiras, de anjos com coração de lobo, para este jardim infantil social que persiste em caminhar sem ver, tudo corre, tudo se repete e tudo passa ao ritmo da hipocrisia ateada que leva a esquecer e a condenar quem é crítico e se encontra mais perto da verdade e da população. Por isso há muitos interessados em fazer calar Saraiva.

 

José António Saraiva é um exemplo de cidadão a tentar contrariar a cidadania passiva que se tornou democraticamente cúmplice com a corrupção instalada no Estado e é tecida e cuidada por grande parte das nossas elites da bancarrota económica e cultural da nossa república.

 

Seria desejar demais, num país de “brandos costumes”, considerar este livro mais que uma pedrada no “charco da política nacional”. Desmascarar a fantochada feriria o cerne da República portuguesa e arranharia o próprio rosto, numa população que teima em viver só da imagem que tem dele. De certo modo Saraiva torna-se incómodo também para aqueles que defende porque, de cérebro bem lavado, não quer que se desmanchem prazeres numa vida para inglês ver.

 

Digite ou clique aqui:

 

file:///C:/Users/Antonio/AppData/Local/Microsoft/Windows/INetCache/

Content.Outlook/RKW633O7/Eu_Politicos_Final.pdf

 

Mais uma onda que passará sem fazer mover a nau de uma certa pseudoelite? Quem vive no Olimpo ri-se de algum Prometeu que será castigado por defender o humano!

 

Boa leitura!

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António da Cunha Duarte Justo

MULTICULTURALISMO E RECONHECIMENTO EM PAUL RICOEUR

  

Paul Ricoeur.jpg

 

O ponto de partida da reflexão de Ricoeur sobre o multi-culturalismo acha-se no texto publicado em 1961 pela revista Esprit, “Civilização universal e culturas nacionais”.

 

Nele, o filósofo assinala o nascimento de uma civilização planetária, uma civilização

mundial, apoiada na difusão da técnica e da ciência e na unificação do mundo sob a égide do saber científico.

 

O surgimento dessa civilização fez com que as descobertas que ocorreram nesse campo pertençam, de direito, a toda a humanidade. O correlato dessa situação é que o enclausuramento cultural não é mais possível, dada a participação de todos na civilização técnica única.

 

A civilização mundial implica em progresso, melhoria de vida e universalização, trazendo à luz, para a consciência colectiva, a ideia de uma única humanidade e promovendo a ascensão de imensas massas humanas a um bem-estar ao menos mínimo.

 

A contrapartida desse progresso é que a universalização pode acarretar a destruição das culturas tradicionais, ameaçando o núcleo ético e mítico, o núcleo criador das civilizações e da humanidade. Mais ainda: a multiplicidade de culturas, com a qual somos hoje confrontados, põe o problema de encontrarmos valores universalmente aceites, que ofereçam novos paradigmas de acção. O obstáculo para alcançar esses novos paradigmas: não há, imediatamente, entre as diferentes culturas, denominadores comuns evidentes, para apreciarmos as acções humanas.

 

Trata-se, para Ricoeur, de buscá-los; o critério universal para a apreciação das acções e que possibilita distinguir entre o que é aceitável e o que é intolerável, no âmbito da avaliação das acções dos indivíduos que pertencem a culturas diversas é a noção de respeito à pessoa humana.

 

Reconhecendo o outro como interlocutor e parceiro na megapólis em que o mundo se tornou, assinala o valor da razão e da palavra como condição da vida propriamente humana.

 

A aceitação da pluralidade é a antítese (e o antídoto) do dogmatismo, do fanatismo;

é afirmação da igualdade e da paz, reconhecimento da unidade da humanidade e de seu destino comum.

 

Ricoeur tenta apontar valores universais, mostrando o debate, a discussão, como caminhos para desvelar os universais em contexto ou potenciais, que possibilitem a emergência de uma comunidade metafórica entre culturas distintas.

 

A tematização dos conflitos culturais e da exigência de sua superação mediante a formulação de parâmetros éticos universais reaparece em Ce qui nous fait penser. La nature et la règle, obra, na qual o filósofo estuda as questões da fundamentação da ética, o problema da violência e do mal, e reflecte sobre a tolerância e a reconciliação.

 

Para o nosso autor, é preciso que muitas tradições encontrem modos de dialogar, desvelando a possibilidade de se considerarem co-fundadoras de uma vida propriamente humana, “se quiserem sobreviver, numa situação de contenda, às forças exteriores e internas de destruição”.

 

A superação das oposições entre religiões e culturas distintas não pode consistir numa unificação niveladora que reduz todas a um parâmetro único. Supõe o reconhecimento mútuo do melhor dessas tradições de modo que cada uma renuncie à posse da verdade, compreendendo que “o fundamental passa também por outras [culturas, está além] de suas “múltiplas” oposições, alcançando, assim, denominadores éticos comuns, através da razão.

 

Os obstáculos a serem superados, para que se possa alcançar esse mínimo ético, são: o da pretensão, em cada cultura, à posse da verdade ou a afirmação de uma verdade única, pois a verdade é plural; o da violência no plano da linguagem, pela ruptura de pactos e pela desconfiança na palavra do outro; o da violência no plano da acção que leva a atentar contra a “integridade física e psíquica dos outros“; o da violência no plano das instituições, que se expressa pela “guerra de uns contra os outros”; os conflitos económicos e políticos.

 

O recurso imediatamente disponível para se superar a oposição entre os homens, seria “o tesouro simbólico das grandes religiões”, capaz de oferecer um elemento unificador, dialógico, ao nível de uma sabedoria prática. A deliberação, os debates, a proliferação de comités de ética reforçariam um acto essencial de confiança, de recurso a um fundamento originário, de reafirmação da “coragem de viver, fazendo prevalecer a bondade sobre o mal”, reconhecendo o “melhor do cristianismo e do judaísmo, o melhor do budismo, etc.”, estabelecendo, assim, um denominador ético comum às diferentes culturas.

 

A ética da deliberação e a arte da reconciliação seriam os instrumentos para ultrapassarmos os conflitos graves em que nos encontramos, fazendo surgir a face plural e multifacetada da verdade, assim como a possibilidade da colaboração de todos em direcção a um destino comum, reconhecido por todos.

 

Uma última vez, na obra Parcours de la reconnaissance, publicada dois anos antes da sua morte, o filósofo retoma a meditação sobre o multi-culturalismo, no terceiro estudo que compõe o livro.

 

É no contexto da reflexão sobre: o reconhecimento de si e o reconhecimento do outro; a memória e a promessa; a atestação no plano social das identidades colectivas; a relação direitos-responsabilidades, passando “da ideia de capacidades individuais à de capacidades sociais, através de uma complexificação crescente da ideia de capacidades sobre o fundo estável do tema antropológico do poder de agir (...)”, que Ricoeur aborda o tema em questão.

 

Se a experiência imediata nos põe em face do conflito das culturas, como as análises do filósofo a respeito do paradoxo do político e do paradoxo do religioso evidenciaram, é uma nova cadeia conceptual que é posta à luz, no exame do problema do multi-culturalismo, na perspectiva ética.

 

É nesta reflexão que são retomadas, uma vez mais, “as ideias de pluralidade, de alteridade, de acção recíproca, de mutualidade”, que constituem o cerne do terceiro estudo do Parcours. Aí o filósofo aborda o tema do horizonte de uma política do reconhecimento, capaz de fundar a paz entre as culturas na lógica da reciprocidade e do dom.

 

Se nos escritos anteriores, Ricoeur enfatizou a consideração dos obstáculos ao convívio pacífico de povos diversos, apontando a dissimetria original entre as religiões, as culturas – na sua obra testamento assinala as condições da passagem da oposição à reciprocidade. A confissão da dissimetria e o reconhecimento das diferenças são condição de recordarmos o “carácter insubstituível de cada um dos parceiros envolvidos na troca; um não é o outro; trocam-se dons, mas não lugares”.

 

Mais ainda: o reconhecimento das diferenças “protege a mutualidade das armadilhas da união fusional (...)”, em escala comunitária ou cosmopolita, promovendo a justa distância e o respeito entre os povos.

 

A valorização da pessoa, que no plano interpessoal serve de fundamento à ética, assume, na meditação do filósofo francês, o carácter de referência, de baliza para distinguir o tolerável do intolerável, quando nos deparamos com tradições e costumes muito distintos entre si, num mundo caracterizado pela multiplicidade e pelo conflito das culturas. Assim, passa-se da pessoa natural à pessoa fictícia ou artificial, representante da humanidade uma, e sujeito de direitos. A extensão do qualificativo de pessoa a todo ser humano implica a ideia de reconhecimento mútuo, de “junção entre ipseidade e alteridade na ideia do Direito”.

 

A reflexão sobre o multi-culturalismo, no Parcours ..., está vinculada à proposição de uma política e uma luta pelo reconhecimento, análoga aos combates levados a efeito pelos movimentos feministas, minorias negras ou conjuntos culturais minoritários (...)”, mas não se confundindo com estes.

 

A questão do multi-culturalismo põe em relevo a exigência de igualdade e de respeito às culturas, “desenvolvida no interior de um mesmo quadro institucional”, com a afirmação da identidade das minorias, mediada por instituições públicas. Desse modo, as minorias podem superar imagens depreciativas e aviltantes de sua dignidade.

 

A reflexão de Charles Taylor sobre o assunto serviu de ponto de apoio à aproximação do tema, em Ricoeur.

 

O multi-culturalismo, diz respeito, num primeiro momento, às condições de convivência de culturas e de grupos distintos no interior da mesma sociedade. A convivência, para ser harmónica, supõe o reconhecimento da igualdade de direitos dos grupos componentes dessa comunidade institucional.

 

Uma segunda aproximação ao tema, feita pelo nosso autor, comporta o exame das contribuições de Habermas e de Honneth ao assunto. A versão universalizante da ideia da dignidade das diferentes culturas envolve a consideração do “carácter marcadamente ‘dialógico’” que o reconhecimento de suas identidades assume apoiado numa política de aceitação das diferenças.

 

Fugindo da noção de igualdade entendida como anulação das diferenças entre as culturas, o filósofo põe em relevo a dignidade destas, propondo uma nova concepção do termo. Igualdade é o direito à diferença; afasta-se, desse modo, o risco de identificação da dignidade universal do humano com a homogeneidade ou subordinação de todas as culturas a um modelo hegemónico.

 

O problema urgente para os Estados é a sua reconfiguração, levando em conta as diferenças etno-culturais e o problema das minorias nelas inscritas. Trata-se pois de definir uma política do reconhecimento que produza como resultado benéfico o crescimento da estima de si e da estima do outro, por parte dos indivíduos que compõem as sociedades de modo a promover a confiança e o respeito, entendidos como capacidades novas que favorecem a superação dos conflitos e a instauração da paz.

 

Expressão do amor, mais que da justiça, a lógica da reciprocidade apresenta contudo, paradoxos na sua manifestação. O primeiro deles é expresso pelo laço entre dar, receber e devolver; o segundo, pela contraposição entre justiça e amor.

 

A mutualidade recobre as trocas entre os indivíduos; a reciprocidade, o carácter sistemático da troca e da partilha de valores bem como o sem preço do dom. Instaura-se desse modo um reconhecimento simbólico do bem sem preço, dos bens não vendáveis – como, por exemplo, a dignidade moral, a integridade e a beleza.

 

A boa partilha implica não apenas dar, mas o bem receber. A reciprocidade assim instaurada, possibilita a superação da violência e da vingança, por uma generosidade que está além da justiça e da lei, na proposição da equidade. Na vida das culturas, as trocas simbólicas, mediante o reconhecimento da dignidade do outro, abrigam fecundas possibilidades de coexistência pacífica, pelo respeito mútuo que se imporia.

 

Uma justa distância, bem como a afirmação do direito à diferença e à dissimetria em escala cosmopolita, acentuariam o sentido da dialéctica da reciprocidade entre os parceiros.

 

Em resumo, para o nosso filósofo, um único princípio serve de apoio à coexistência pacífica de culturas distintas, num mundo plural: o respeito pela pessoa humana, pela sua dignidade sem preço.

 

Tal é o parâmetro, para Ricoeur, de qualquer diálogo que se pretenda ético.

 

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Constança Marcondes César

Pontifícia Universidade Católica – Campinas, Brasil

 

 

A CULPA AINDA É DOS PORTUGUESES?

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(Continuação das “Cartas do Brasil de 1999”)

 

 

Uma carta deve ser curta e sucinta. Mas escrever bem assim... só Camilo. Desculpem-me se por vezes me alongo. Para evitar a monotonia, vou insistir, aos poucos, contando impressões desta terra de Vera Cruz (ou será hoje Ver a Cruz?) que acabou com o nome dum pau, o bresile, que os franceses daqui levavam, e era importante para tingir de vermelho! Imaginem quanto valia, já naquele tempo, princípio do séc. XVI, a cor vermelha, que se impôs à Cruz! A túnica de Cristo seria vermelha, o Benfica também se vai impondo em alternância com o azul às riscas, e durante muito tempo, quem pontificou foram os adeptos, filosóficos, do PCP. Enfim, o Brasil acabou com o nome de um pau.

 

Mas hoje quero falar de outra coisa.

 

Vamos ao tema de hoje: o choro dos brasileiros em não terem sido colonizados por ingleses ou irlandeses, como aconteceu com a América do Norte. Agora, pensem bem: um inglês, num clima tropical bruto, cheio de mosquitos e cobras, sem arenque ou bacalhau e sem trigo, bebendo vinho de açaí e fritando peixe de rio em óleo de babaçu! Morria. O português, que come até tripas – as do Porto são uma delícia – aguentou. Fez das tripas coração!

 

O Brasil não tinha trigo, nem pesca como bacalhau. Portugal, território piquinininho e pobre, também não, mas assim que os Corte Real descobriram a Terra Nova e os seus bancos pesqueiros, começou a pescar naquelas águas longínquas. Naquele tempo, pescar na Terra Nova, levar para Portugal, preparar e depois transportar o bacalhau para o Brasil, tinha um custo enorme. Mas vinha. Os primeiros colonos tiveram que se adaptar a um outro tipo de alimentação, mais fraca e de inferior qualidade, como por exemplo os pães feitos de farinha de mandioca. Os ingleses, lá no norte, encontraram ainda melhores condições do que na sua terra para a produção de trigo e criação de gado, e tinham o peixe à porta, além de um clima magnífico. Se o Brasil fosse assim tão bom, os nossos velhos aliados tinham-nos roubado também a terra. Face a esta dureza limitaram-se a ficar com o ouro!

 

Creio que a única vantagem dos ingleses sobre os portugueses foi a inexistência da famigerada Inquisição, que não deixava ninguém evidenciar-se, nem o Padre António Vieira! Em compensação perseguiram os católicos!

 

Quando mais tarde veio a Revolução Industrial, a nobreza de carácter dos ingleses, não tendo mercados suficientes para os seus produtos, impôs ao mundo a abolição da escravatura, o que foi uma muito bem planejada operação de marketing. Entretanto construíram máquinas, navios a vapor, e vá, de cima da sua supremacia (estou a pensar nos Estados Unidos e no Iraque, agora) de dar bordoada nos portugueses e nos brasileiros, aprisionando lhes navios negreiros, e não só, a bem da humanidade. Os navios apreendidos, inclusive dentro das nossas águas territoriais, e até dentro dos portos brasileiros, mesmo depois do Brasil se ter tornado independente, nação soberana, eram vendidos em Inglaterra em hasta pública, por preços incrivelmente baixos, entre amigos. Trocavam bandeira e, com o maior descaramento vinham depois, nos navios que nos roubaram, aqui vender as suas manufacturas. Uns caras muito legais que, até hoje, sobretudo os baianos, não suportam!

 

O século XIX foi sofrido no Brasil. A luta pela independência, a luta pela abolição da escravatura, a sanguessuga inglesa, muito pior do que o colonialismo, e a luta pela industrialização, para o que lhe faltava, além de técnicos, o carvão de pedra, combustível essencial. Só tinha, nalgumas regiões, turfa, pobre.

 

Quando o homem de maior visão industrial que até hoje teve este país, o Visconde de Mauá, estava desenvolvendo em ritmo fantástico a indústria pesada, os caminhos de ferro e a banca, a inveja - sempre a mesma miséria - acabou concedendo, uma vez mais privilégios especiais aos ingleses em detrimento da emergente indústria nacional, que o obrigaram a falir! E assim se atrasou o desenvolvimento do Brasil por mais de meio século.

 

Claro que os portugueses nada tiveram com isso, a não ser pelo simples fato de serem antepassados do grande Visconde de Mauá e também dos invejosos. O trivial!

 

Hoje o Brasil não precisa mais de carvão de pedra. Tem energia eléctrica, mas precisa de petróleo, porque o que sai do seu subsolo é de fraca qualidade. Desenvolveu, para suprir um pouco o enorme gasto de divisas com a sua importação, um combustível próprio, o álcool da cana, energia renovável, de altíssima qualidade, mas que os governos teimam em olhar para ele como corrente alterna: apoiam – esquecem – apoiam – esquecem, e assim as fábricas de automóveis que chegaram a produzir 90% de carros a álcool, hoje, pela insegurança na produção deste combustível, quase não os fabricam porque ninguém mais os quer.

 

Bacalhau, continua a vir da Noruega, já que a época gloriosa do bacalhau do Porto, que começou nos primeiros anos de quinhentos agonizou com o fim dos lindíssimos lugres de três e quatro mastros. Assim mesmo o bacalhau de melhor qualidade, aqui, é chamado de bacalhau do Porto, mas creio que nem o próprio peixe sabe onde fica essa simpática cidade (foi lá que nasci!).

 

Mas no fim de contas o mais curioso é que, quem se afasta de Portugal não são os brasileiros. São os portugueses. Aqui podem inventar e como inventam nomes próprios: Edvanildo, Norival, Miquetiçon, Sosígenes, Jociléia, Defuntina, Ambrísia, Vélintom (isso mesmo, Vélintom) mas continuam a ter como sobrenomes Silva, Ferreira, Sousa, Pereira, Castro, etc. Em Portugal mantêm-se os João, José, Manuel e Joaquim e Marias, mas os sobrenomes passaram a ser Alface, Repolho, Bezerra, Milho, Lagarto, Melancia e outros alimentos sem esquecer os Nabos.

 

Aqui, dos primeiros damos risada, e os segundos comemos. Equilibra!

 

Jornal “O Dia” – 31/05/99

 

*****

 

E BELEZA, O QUE É?

 

O conceito de beleza é algo que só por diletantismo se pode discutir. Por muito valor que o mundo possa atribuir a um quadro de Picasso, eu só tenho pena de não ter um deles por causa do seu valor traduzido em fidúcia. Porque de resto, que me perdoem os estetas e professores das artes belas, mas a “Cabeça de Mulher” é um aleijão muito pior do que as melhores representações de Quasímodo, assim como “O Clarinete e a Garrafa de Rum” de Braque só ficou belo depois de ter o rum entornado. Mas há gosto para tudo e, neste mundo “O Rei continua Nu”! Ai de quem disser que não gosta.

 

Esta coisa de racismo é um fenómeno que, quer se queira ou não, é genético, e a quase totalidade das pessoas, de qualquer raça e cor de pele, tem um fundo rácico, do qual, por muito que lutem contra, não conseguem desligar-se totalmente. Inclusive porque a sociedade não deixa.

 

Se um/a branco/a casa com um/a preto/a, podendo se amar e querer doidamente, no seu subconsciente surge, por exemplo, o problema dos filhos, que sendo mestiços vão enfrentar uma sociedade que não os aceita indiferentemente. Todos sabemos que, regra geral, um indivíduo de pele escura tem ainda muito mais dificuldade em progredir profissionalmente do que outro loirão, de olhos azuis, a menos que este seja mesmo uma besta! Mas de nível profissional igual...

 

Nota-se, hoje em dia um esforço grande, evidenciado por parte dos americanos, em querer mostrar ao mundo que, também lá nos USA, está tudo bem! Os filmes têm quase sempre generais e almirantes escurões, e até para cúmulo do caricato, oficiais do exército confederado durante a Guerra Civil Americana, mas todos sabemos que a realidade é outra!

 

Isto vinha a propósito de beleza e seus conceitos, e, nalguns aspectos os portugueses deram provas, ao percorrerem os Sete Mares, que, em se tratando de mulheres, a diferença, sobretudo à noite, luz apagada, quando mais escura fosse a pele, mais sedosa ela se apresentava! Era beleza por apalpação! Durante o dia era bem possível que os seus olhos se hipnotizassem mais depressa por um rosto claro, cabelo louro e olhos azuis. Natural. Genético. Mas à noite, ou lusco-fusco...

 

Mais tarde vieram os concursos de beleza, feminina. E nestes aparecem mulheres lindíssimas de todas as cores, etnias, origens, mas, pelo menos eu, que sou bastante incrédulo, não acredito muito no julgamento dos jurados, porque apesar de crescer a tendência, política, de valorizar as gentes até há pouco ignoradas, a verdade é que é difícil a um europeu julgar a beleza africana, pelos padrões que os africanos a vêm, o mesmo se passando com indianos, chineses, etc.

 

Assim, esquecendo as características próprias de cada um, conceituam-se e classificam-se os outros através de olhos europeus.

 

Quem ganha com isso são as mestiças. Para os olhos dos brancos elas passam a ter tudo que é bom! Formas mais arredondadas, sem exagero, pele mais macia, olhos mais amendoados, que tudo no conjunto lhe dá um toque de exotismo especial.

 

No entanto se o mesmo concurso de beleza acontecesse lá, lá, longe da influência de estranhos, o resultado seria possivelmente outro.

 

Aqui, por estas terras, onde os matizes não têm fronteiras, e a mistura continua em progresso, encontram-se representantes de todos os tipos, desde os mais exóticos e originais. Gente de pele negra e feições arianas, outros no lado oposto. E o que é mais bonito? Lábios finos ou grossos? Lembram-se quando apareceu a Brigitte Bardot? Porquê ela fez tanto sucesso? Claro que tinha um corpo escultural, mas o que a destacou das outras concorrentes da época, foram as beiças grossas!

 

O europeu gosta de nariz fino e beiça gorda! E o africano? Nariz e beiça gorda. Qual está certo? E o persa não gostará do nariz comprido, assim como o chinês do olhinho quase fechado? E que tal as beiças furadas com um osso enfiado? E o osso a atravessar o nariz?

 

A fome de mulheres que traziam os marinheiros de Cabral quando aqui chegaram e viram as nativas, serenas, despidas, físicos saudáveis, foi suficiente para que o Pêro Vaz não hesitasse em mandar dizer à sua majestade que ...as moças, eram bem moças e bem jentijs com cabelos mujto pretos pelas espadoas.... Todos temos a certeza que naquelas circunstâncias ninguém se preocupou com conceitos de beleza. As moças eram gentis e isso era já uma dádiva divina.

 

Como se tudo o resto não o fosse também. Apesar de eu não estar muito de acordo com outros conceitos tradicionais, como por exemplo que tudo o que existe sobre a Terra foi criado para servir o homem, acredito, sim, que tudo o que nos rodeia é uma dádiva divina, seja qual for a classificação de beleza que lhe queiram atribuir.

 

Podemos, às vezes com facilidade, classificar a beleza de lugares neste mundo, não deixando que alguém ponha em causa que em beleza natural o Rio de Janeiro vem em primeiro lugar, as praias do Nordeste do Brasil pedem meças às do Caribe e das ilhas do Pacífico, a Amazónia não tem concorrente, e, sem falar em música, brasileira claro está, que fica para uma das próximas Cartas, pode-se até dizer que a caipirinha é uma das maiores invenções do homem depois da roda.

 

E ainda, sem perigo de sermos contrariados, afirmar que tem mulatas no Brasil que são das mulheres mais lindas do mundo, assim como tem africanas e arianas. Tem também orientais, em menor número, mas do mesmo padrão, mas eu, mais uma vez me atrevo a garantir que mesmo as que não têm beleza concursável no físico, têm uma beleza, hors concours, por dentro.

 

É isso aí.

 

Se era assim em 1999, hoje... continua assim!

 

Francisco Gomes de Amorim

Francisco Gomes de Amorim

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