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A bem da Nação

QUEM FOI FRANÇOIS DE LA ROCHEFOUCAULD?

 

 

 

“Hipocrisia é a homenagem que o vício presta à virtude”.

 

“Muitas vezes praticamos o bem para podermos praticar o mal com mais impunidade”.

 

“Não desprezamos todos aqueles que têm vícios, mas desprezamos todos aqueles que não têm nenhuma virtude”.

 

“Se não tivéssemos defeitos, não sentiríamos tanto prazer em reconhecê-los nos outros”.

 

“Há pessoas tão levianas e tão frívolas que estão igualmente distantes de possuir verdadeiros defeitos e sólidas qualidades”.

 

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François de La Rochefoucauld

 

“A esperança, figura charlatã e evasiva, pelo menos conduz-nos na vida por uma boa estrada”.

 

“Todos nós temos força suficiente para suportar os males do outro”.

 

“Os velhos gostam de dar bons conselhos para se consolarem de não poderem dar maus exemplos”.

 

“Nunca somos tão felizes nem tão infelizes quanto imaginamos”

 

“As paixões são os únicos oradores que sempre convencem. São uma arte da natureza de regras infalíveis; e o homem mais simples que tem paixão convence melhor do que o mais eloquente que não a tem”.

 

“O orgulho é igual em todos os homens (ricos ou pobres), só diferem os meios e as maneiras de mostrá-los"

 

*  *  *

 

François, Duque de La Rochefoucauld (Paris, 15 de Setembro de 1613 – Paris, 17 de Março de 1680) foi um moralista francês, François VI, Príncipe de Marcillac e, mais tarde, Duque de La Rochefoucauld, foi destinado à carreira militar, tendo participado da campanha da Itália em 1629. Envolvendo-se em intrigas contra o Cardeal Richelieu, em favor da rainha Ana da Áustria, foi preso e exilado em Verteuil, no ano de 1631. Depois da morte de Richelieu, voltou a conspirar contra a corte, tendo participado activamente da Fronda, a guerra civil que agitou França entre 1648 e 1653.

 

Em 1652, gravemente ferido nos olhos, encerrou a carreira de soldado e conspirador. Passou em Paris os últimos anos da vida, destacando-se nos salões literários, especialmente no de Madame de Sablé.

 

La Rochefoucauld cultivou o género de máximas e epigramas, divertimento social que transformou em género literário, escrevendo textos de profundo pessimismo. O seu livro mais famoso, "Reflexões ou sentenças e máximas morais", apareceu pela primeira vez em 1664.

 

Até à quinta edição do livro, La Rochefoucauld foi condensando as suas máximas, ao mesmo tempo que restringia o seu típico amargor. Espírito cáustico, amargurado, atribui ao amor-próprio um papel preponderante na motivação das acções humanas. Todas as qualidades da nobreza – as falsas virtudes — têm a movê-las o egoísmo e a hipocrisia, atributos inerentes a todos os homens.

 

Segundo ele, a necessidade de estima e de admiração está por trás de toda a manifestação de bondade, sinceridade, gratidão. Claramente, um pessimista desencantado com o género humano.

 

Além das "Reflexões", La Rochefoucauld escreveu sua autobiografia, "Memórias de MDLR sobre as intrigas com a morte de Luís XIII, as guerras de Paris e da Guiana e a prisão dos príncipes", que engloba o período entre 1624 e 1632 e que serve de base para as conclusões desenvolvidas nas "Reflexões".

 

Outubro de 2016

 

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Henrique Salles da Fonseca

 

BIBLIOGRAFIA:

Wikipédia

VARINHA DE CONDÃO

 

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Penso que seria bom ter uma varinha de condão que resolvesse os problemas da minha amada.

Quem?

A Nação Lusíada, claro!

E o que faria essa varinha?...

Tocaria nos lusíadas – todos! - e deles faria Doutores.

Dos nossos problemas faria desígnios de vitória.

Das nossas tristezas faria hinos de glória.

Da nossa língua faria missão de paz.

Da nossa mente faria tudo aquilo de que o homem bom é capaz.

 

Inch Allah!

 

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Henrique Salles da Fonseca

(na grande mesquita de Delhi, Janeiro de 2008)

COMO BAIXAR A ABSTENÇÃO

 

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Uma vez mais se verificou haver enorme abstenção nas recentes eleições autárquicas nos Açores como tem sido normal em quase todas as eleições em Portugal.

 

O que significa um grau de desinteresse elevado da população pela vida política do País e que de acordo com os conhecimentos de gestão correntes temos que atribuir aos ocupantes dos lugares a eleger a respectiva responsabilidade.

 

Também é sabido que as empresas mais competitivas são aquelas em que os seus responsáveis em todos os níveis operacionais têm participação nos resultados obtidos em cada período controlado seja o balanço anual ou o final do mandato.

 

Portanto, seria desejável que no Estado a todos os ocupantes de lugares por eleição deveria ser-lhes retida uma parte do seu salário de forma a que no final do ano e do mandato pudesse ser avaliado o resultado do seu trabalho, em particular a abstenção e a competitividade nacional, e de acordo com os valores obtidos serem premiados ou punidos financeiramente.

 

Seria também uma forma de falarem menos e trabalharem correctamente mais do que acontece agora e repetindo o que já tenho dito algumas vezes recordar D. João II que, sem escrever coisa alguma, em vinte anos dotou Portugal da mais eficiente Marinha europeia e deixou de herança o poder global do País e o início da expansão europeia.

 

Lisboa, 17 de Outubro de 2016

 

Eng. J.C. Gonçalves Viana

José Carlos Gonçalves Viana

PERGUNTAS PROIBIDAS

Ocidentalismo

Ou de como o Ocidente é usado contra ele próprio

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Ocidentalismo, de Adel El Siwi

 

Existe um fio condutor cada vez mais evidente a ligar o burkini de Verão aos massacres de Aleppo, o contragolpe de Erdogan à Primavera Árabe falhada, a desconfiança para com os refugiados ao véu islâmico. Foi identificado num pequeno livro de 2004 de Avishai Margalit e Ian Burma chamado Ocidentalismo.

 

O Ocidente teve uma revolução científica e uma revolução industrial que o enriqueceu materialmente, ligando o crescimento económico à ruptura com a sociedade tradicional e com a religião. Esta imagem de modernização foi a rampa de lançamento do Ocidentalismo. Os líderes de países não-ocidentais quiseram reconstruir as suas sociedades com base num modelo científico que deitaria fora a tradição.

 

Já em 1700, Pedro o Grande da Rússia mandara os nobres cortar as barbas e os sacerdotes pregar as virtudes da razão. Desde então, muitas guerras foram declaradas ao Ocidente em nome da alma russa, da raça germânica, do Xintuísmo japonês, do comunismo soviético. De todas as revoluções do Terceiro Mundo, o presidente Mao foi o grande ocidentalista e destruidor de tradições.

 

Mas deixando de lado Mao Zedong, Estaline e Hitler que pertencem a outra constelação totalitária, concentremo-nos no ocidentalismo de Kemal Ataturk, na Turquia ou de Reza Pahlevi no Irão, de Nasser no Egipto e dos príncipes sauditas.

 

Chegado ao poder em 1923, Ataturk transformou a vida social da Turquia. Aboliu o vestuário oriental: véu, turbante, fez. Estabeleceu um sistema de educação secular. Tornou o secularismo uma religião política. E contra ele agora se revolta o partido de Erdogan, como aliás em Marrocos.

 

Quando Reza Shah Pahlavi tomou o poder no Irão com um golpe de Estado em 1921, trouxe a emancipação feminina e a destruição de privilégios tribais. Como outros modernizadores, atacou as formas tradicionais de vestuário. Soldados mandavam as mulheres retirar os véus, e os clérigos os turbantes. Os crentes foram proibidos de ir a Meca; os seminaristas que protestassem eram mortos a tiro.

 

O seu descendente, Mohammad Reza Pahlavi casado com Farah Diba, uma princesa que piscava os olhos ao Ocidente, tinha igual apreço pelo ocidentalismo e desprezo pela religião. Mas aos olhos dos revolucionários do Alcorão, era um idólatra e foi deposto em 1979 pela revolução islâmica. Taleqani (1910-1979) promoveu essa noção da idolatria dos ocidentalistas e moldou a ideologia da revolução islâmica no Irão e fundou o Fada’iane-e Islam, donde emergiram os Ayahtollas.

 

Sayyd Qutb, o ideólogo egípcio da Irmandade Muçulmana no séc. XX, inspirador da Al-Qaeda de al-Zawahiri e Bin Laden, via a idolatria em tudo. Desde o Cairo decadente aos bairros de Nova Iorque, o mundo vivia na luxúria, ganância e egoísmo. Para terminar isto, o mundo deveria ser governado pelas leis de Deus. O estado islâmico traria a guerra santa e permitiria aos homens superar ambições egoístas e opressores corruptos. Os alvos imediatos eram os governantes ocidentalizados das nações muçulmanas. A seu tempo viria a guerra contra os judeus e os países ocidentais.

 

Na Arábia, a aliança entre a dinastia saudita e o credo Wahhabita, pregadores e guerreiros, permitiu a conquista das cidades santas do Islão com o apoio dos britânicos na Primeira Guerra Mundial. O Wahhabismo tornou-se a ideologia oficial de uma sociedade muçulmana puritana nos anos 20.

 

Entretanto, jorrou muito petróleo dos poços e as riquezas sauditas mudaram as regras do jogo. Milhares de príncipes sauditas são milionários. Mantêm uma aparência de wahhabismo mas desfrutam de tudo o que o Ocidente pode oferecer. E o que Riade não fornece, Londres tem em abundância. Contra esta hipocrisia sem limites revoltou-se Bin Laden e lavra a guerra no Iémen de que pouco se fala.

 

Os islâmicos radicais culpam judeus e cristãos por sucumbir às novas idolatrias do dinheiro e da luxúria mas tentam saldar as contas com os ocidentalistas dos seus países, antes de se virarem contra os países ocidentais. Por vias guerreiras como o ISIS na Síria, ou com manobras eleitorais, como no Egipto.

 

O Ocidente, definido pelos inimigos, é uma ameaça porque as promessas de conforto material, liberdade individual e dignidade de vida deitam abaixo as pretensões de vida heróica. Escreveu Werner Sombart em Mercadores e Heróis, de 1915, que a guerra cultural entre a Inglaterra e França, era um confronto entre os oportunistas da Europa Ocidental e a Alemanha que é a nação de heróis capazes de sacrificar-se por ideais. Um ocidental que usa o Ocidente contra si próprio, como muitos outros desde Ernst Juenger até aos movimentos de extrema-direita na Europa actual.

 

Esta noção de que falta sacrifício e heroísmo no Ocidente democrático, leva jovens a inscreverem-se no Daesh; leva os ocidentalistas a considerar o Ocidente como decadente no pensamento e nos costumes; e traz aos ocidentais atarantados a cegueira de que tudo se perdeu: a flauta mágica; a religião; o romantismo dos heróis.

 

Aos olhos dos ocidentalistas, a mente do Ocidente é sórdida, boa para escolher meios, mas inútil para encontrar o caminho certo. E os norte-americanos colocam-se a jeito para esta leitura, ao contrário dos esforços feitos pela Sociedade decente, o outro grande livro de Avishai Margalit onde se indica como ultrapassar o Ocidentalismo.

 

18 Outubro, 2016

Mendo Castro Henriques

Mendo Henriques

Professor na Universidade Católica Portuguesa

ÁFRICA

 

VIDA VIVIDA

 

Quando dizíamos à nossa primeira neta para ela “puxar pela cabeça”, ela tentava, com as mãos, puxar a cabeça para cima!

 

Agora sou eu que puxo pela cabeça para ver o que ainda lá dentro encontro de historinhas “daquele tempo”, quando o mundo girava à nossa volta, visto que agora somos nós que giramos à volta da canalhice institucionalizada!

 

Eram bons tempos? Eram, sim, sem dúvida.

 

Sem computadores, Internet, desenfreada especulação financeira, os povos primitivos, alguns, ainda felizes e sem fome, ignorados pelos “simpáticos” exploradores/cooperantes, havia alguns resquícios de escravidão, como hoje continuam, enfim, mas quer parecer que havia mais respeito, mais ética, mais hombridade nas relações, individuais e mundiais.

 

Mas vamos às historinhas.

 

A primeira galinha “à cafreal”!

 

Chegado a Angola, Luanda, começo de Agosto de 1954, quinze dias depois fui levado pelo meu colega, e chefe (!), a uma volta pelo interior para conhecer e me acostumar àquela terra.

 

Primeira visita na Quibala.

 

Uns irmãos, transmontanos, cujos nomes já estão fora do meu arquivo cerebral, estavam a montar, ou organizar, uma fazenda. O mais novo assumiu essa tarefa enquanto os dois mais velhos continuavam a trabalhar para arranjarem o necessário dinheiro. A visita baseava-se numa consulta para a compra de um tractor, e implicava uma demonstração.

 

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1954 – Com o Soba da Quibala

 

De manhã, tractor a postos, um pouco de terreno arado, discussão sobre os mais indicados implementos, condições de pagamento e outros assuntos chatos, chegou entretanto o meio-dia e todos com os estômagos a reclamar.

 

O proposto cliente tinha um único ajudante angolano para todas as tarefas necessárias, inclusive cozinhar. Era o Lisboa.

 

Enquanto o fazendeiro foi à “cidade” buscar uns garrafões de vinho, o meu chefe e eu ficámos a colaborar com o “mestre” Lisboa para apanhar uma das muitas galinhas que já ali criavam, à solta. Foi uma festa! O Lisboa fazia de goleiro enquanto nós corríamos atrás delas e as encaminhávamos para que ele as apanhasse. Lisboa voava, mas as ladinas aves sempre “metiam” golo. Eu já chorava de tanto rir, quando finalmente ele cai em cima de uma penosa, mete-lhe a indispensável faca na goela, depena-a e começa a assar, sempre com um punhado de penas na mão, que mergulhava num copo cheio de gindungo (piripiri) e pincelava a dita.

 

Entretanto o fazendeiro chegara com o vinho, fomo-nos sentar dentro da cubata improvisada, mas que, à boa moda transmontana, tinha pendurado do tecto um magnífico presunto! Talvez até de Chaves.

 

Lisboa, junto ao lume virando e pincelando a galinha e nós confortavelmente sentados em caixotes ou pedaços de árvores, cortando pequenas lascas do presunto, uns pedaços de pão (bom) e bebendo uns tragos.

 

Chegou a galinha! Linda. Gorda. Bem assada. Rapidamente destroçada e dividida, parte entregue ao artista da cozinha, e vá de saborear aquela maravilha.

 

O gindungo fora generosamente aplicado. As beiças ardiam desde perto do nariz até quase ao queixo, como se fossem elas que tivessem estado no fogo. O vinho, tinto de garrafão de capacete, num instante secou.

 

Já não lembro se o meu chefe fechou negócio. O Norte de Angola era área dele. A minha ficou o Sul.

 

Mas o que até hoje lembro com uma saudade imensa é do Lisboa e da galinha. A melhor galinha que comi em toda a minha vida!

 

* * *

O meu “ajudante”

 

Na Lusolanda, o meu primeiro trabalho em Angola, em Benguela (terra de tanta saudade), eu era o responsável pelo departamento de máquinas agrícola na metade sul de Angola.

 

Na loja, que incluía, no stand de vendas, o meu lugar de trabalho (mesa e um pequeno armário com catálogos e arquivos), depósito de peças lá atrás e mais um pátio para outras máquinas e caixotes ainda por abrir, além de mim, agora “chefe”, trabalhava o encarregado do depósito, o Mário Brás, um pseudo comunista, que me divertia em filosofias e discussões políticas, e o ajudante, António, super humilde, atencioso, sempre pronto a atender qualquer pedido que lhe fizesse.

 

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O António (ao fundo, a minha mesa e a estante)

 

Volta e meia precisava duma ferramenta, chamava o António, e dizia:

- Vai lá dentro e traz-me...

 

Não tinha tempo de dizer o resto. António, prestimoso, corria lá dentro para ir buscar... o quê?

 

Apanhava a primeira coisa que lhe viesse à mão e voltava então, ar envergonhado, mãos atrás das costas, segurando qualquer objecto! Eu tentava ver o que ele trazia e quando descobria, dizia-lhe

- António: você nem ouviu o que disse “Eu queria um martelo!”

 

António, sorrindo, feliz, mostrava então que tinha trazido “o” martelo! Mas não era o que eu precisava.

- Muito bem. Agora escuta e não vai embora. Traz-me um alicate (ou qualquer outra coisa).

 

Vapt, vupt, António em poucos segundos estava de volta com o requerido alicate!

 

Esta cena repetiu-se inúmeras vezes, mas o António nunca deixou de querer resolver tudo a correr.

 

António, secretário particular

 

Os primeiros quase três meses em África, vivi-os “solteiro”. Já casado, tive que para lá seguir sozinho porque nos planos da empresa havia, além de uma estadia de duas semanas na África do Sul, num estágio na fábrica da Massey-Harris em Vereeniging, cerca de 50 kms a sul de Johannesburg, e percorrer parte do interior que me estava atribuído, para começar a conhecer o país, e, óbvio, alguns agricultores.

 

De Portugal levara uns quantos móveis, tinha alugado casa, que fui montando com a ajuda do “secretário particular” que nas minhas ausências dormia lá para “tomar conta”.

 

Estando em Benguela, o programa era simples. No fim do dia de trabalho, montava na minha bicicleta, António sentado no quadro e lá íamos até casa.

 

À noite saíamos, na mesma condição veicular, levava o António até perto da casa dele e eu ia jantar.

 

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O “chefe”, sua viatura (de dois lugares e um “cavalo” de força) e a casa alugada (o andar de cima – óptimo!)

 

Uma noite, cortando caminho por ruas pouco frequentadas (eram todas assim, mas...) o farol da bicicleta aceso, surge no meio da rua uma cobra! Imensa! Aí com um metro e pouco? Talvez. António saltou logo fora e afastou-se como se tivesse visto o demo! Eu aproximei-me com a bicicleta. Consegui pôr-lhe a roda da frente em cima, atrás da cabeça, e... e depois? Ah! E depois disse ao António para arranjar alguma coisa, um pau, por exemplo, para matar a dita e aterrorizante serpente, que ninguém sabia se era venenosa ou não!

 

António lá encontrou a conveniente arma, mas não era capaz de se aproximar!

 

Naquele tempo o traje para andar em África era simples: calção e bota grossa, daquelas que se ensebavam com sebo de carneiro... e eram magníficas. Como a cabeça da bichinha estava imobilizada não foi difícil resolver o “perigo” com uma forte pisadela.

 

Só então, e depois de atirarmos o cadáver para um canto, António se aproximou, entrou no seu lugar na “viatura” e seguiu até casa!

 

Ainda tem outra história com o António, já contada no meu livro “Se as minhas Imbambas falassem”, escrito entre 1999 e 2000, mas vou deixar para a próxima!

 

17/10/2016

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Francisco Gomes de Amorim

"MANHÃ DE CHUVA"

 

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Quando hoje acordei, ainda fazia escuro

Embora a manhã já estivesse avançada.

Chovia.

Chovia uma triste chuva de resignação

Como contraste e consolo ao calor tempestuoso da noite.

Então me levantei,

Bebi o café que eu mesmo preparei,

Depois me deitei novamente,

Acendi um cigarro e fiquei pensando...

– Humildemente pensando na vida

E nas mulheres que amei.

 

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Manuel Bandeira

(1886 – 1968)

 

In Poesia completa e prosa

 

UMA FRAUDE E UM PERIGO CHAMADOS SÓCRATES

 

 

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Sei que muita gente está convencida que Sócrates jamais regressará ao primeiro plano da política, mas a verdade é que o tempo de crise e de populismo em que vivemos é perfeito para alguém como ele.

 

Sócrates é simultaneamente a maior fraude e o homem mais perigoso da política portuguesa. E ninguém julgue que abandonou a política. Nunca o fará. Nunca fez outra coisa e não sabe fazer mais nada. Comecemos pela fraude. Nas recentes aparições, Sócrates anunciou que iria publicar um novo livro. Chama-se, aparentemente, Carisma. Sócrates e os livros remetem-nos para uma das maiores fraudes da vida literária nacional durante os últimos anos, o seu primeiro livro, A Confiança no Mundo. Segundo relatos públicos, nunca desmentidos, não terá sido escrito por Sócrates. Aliás, gostaria que um jornalista investigasse se Sócrates chegou a acabar o mestrado. Terá Sócrates o grau de mestre? Ou será um mestre como era engenheiro?

 

Mas pior do que as dúvidas sobre a autoria do livro, foi o episódio bizarro e vergonhoso de distribuir dinheiro por colaboradores para comprarem centenas de cópias de uma só vez para colocar o livro nos tops das vendas. Um homem que pensa e executa uma fraude destas é capaz de quase tudo. Quando o novo livro for publicado, como poderemos estar certos que o autor é mesmo Sócrates? E se não for Sócrates, quem será o verdadeiro autor? E se é um livro de colaboração entre dois autores, inteiramente legítimo, por que não assinam os dois? Parece que Sócrates tem necessidade de viver permanentemente na mentira, de construir uma personagem que não existe na realidade. Quis parecer mais rico do que é, vivendo com luxos claramente acima do que os rendimentos declarados permitiriam. Ele próprio admitiu que durante anos viveu com ajudas financeiras de um amigo, o que não é habitual nem, na minha opinião, digno no caso de um homem adulto com responsabilidades públicas. Agora parece ter necessidade de passar uma imagem de intelectual e de académico, igualmente falsa. Na vida de Sócrates, tudo parece estranho e postiço. Depois dos envelopes do amigo, vieram os livros de outro amigo. Tudo isto é fraudulento. E não estamos a falar de um cidadão comum, mas de um antigo ministro e primeiro-ministro.

 

Passemos agora ao perigo. Ao contrário de muitos, li o livro de José António Saraiva. Para mim, a revelação mais significativa do livro, e sobre a qual não vi ainda qualquer referência, é o facto de Proença de Carvalho e de Pinto Monteiro almoçarem frequentemente a dois. Numa altura em que Sócrates estava a ser investigado, o facto do seu advogado e do Procurador-Geral da República encontrarem-se com regularidade parece-me grave. De duas uma, é mentira e os visados já deveriam ter desmentido Saraiva. Se não desmentem, assumo que será verdade. Se for verdade, é mais um elemento para confirmar a teia de poder que Sócrates construiu durante os seus anos de São Bento.

 

Mas também li o livro de Fernando Lima, Na Sombra da Presidência. Lendo o livro e recordando o período entre 2005 e 2011, a estratégia de poder de Sócrates foi impressionante. Para ele, não havia limites. Tudo valia. A sua estratégia de poder consistia em controlar o sistema de informações, a justiça, a banca e a comunicação social. O controlo dos quatro pilares centrais da sociedade moderna dar-lhe-ia um poder quase absoluto.

 

Sócrates criou um sistema de informações a partir do seu gabinete, sem qualquer controlo democrático. Usava, sem escrúpulos, o seu poder de nomeação para controlar a justiça. A imagem de Pinto Monteiro e de Noronha Nascimento no lançamento do seu primeiro livro constitui um dos momentos mais embaraçosos da vida pública nacional. Até nas faces dos próprios se via o embaraço. Na banca, controlava a Caixa Geral de Depósitos – e hoje os portugueses ainda estão a pagar por isso –, aliou-se a Ricardo Salgado e conquistou o BCP; ou seja, os três maiores bancos portugueses. Na comunicação social, usou uma empresa controlada pelo Estado, a PT (a qual ajudou a destruir mais tarde com o negócio ruinoso da fusão com a Oi), para tentar comprar o canal de televisão que mais o criticava, a TVI.

 

Tudo isto revela um homem sem escrúpulos que não hesita em usar os meios ao seu dispor para aumentar o seu poder de um modo ilimitado. Mostra um político que não sabe lidar com as críticas e com o pluralismo. Evidencia um tipo paranóico para o qual a vida pública se reduz a uma luta sem quartel contra os seus inimigos. Sócrates olha para a política como Hobbes e Carl Schmidt. Uma pessoa destas no poder constitui um perigo para a liberdade e para a democracia portuguesa.

 

Ora, este é o homem que tem um plano para regressar ao poder político. A tentativa de transformar o caso judicial num ataque político mostra que Sócrates nunca deixou a política. Se não for condenado, voltará em força e será de novo perigoso. O seu objectivo é Belém e a presidencialização do regime. Por isso, os seus grandes adversários são Marcelo Rebelo de Sousa e António Costa. Não foi por acaso que atacou os dois nas suas intervenções públicas recentes. Sei que muita gente está convencida que Sócrates jamais regressará ao primeiro plano da vida política. Mas o tempo de crise e de populismo em que vivemos é perfeito para alguém como Sócrates. Há pouco mais de um ano, todos diziam que Trump nunca seria o candidato republicano. Não só é, como pode ser Presidente. Os tempos estão perigosos e, por isso, bons para os homens perigosos.

 

Para memória futura.

2/10/2016

 

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 João Marques de Almeida

 

 

COMPLICANDO O FÁCIL

 

 

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Já para não voltar a «traduzir» Kant, passei-me para outros registos até que foi a vez de Paul Ricoeur de quem li interessadamente várias obras sendo que, a certa altura, se me deparou a TEORIA DA INTERPRETAÇÃO – O DISCURSO E O EXCESSO DE SIGNIFICAÇÃO[1] cujo título do primeiro capítulo é A LINGUAGEM COMO DISCURSO.

 

Transcrevo um pequeno trecho...

 

“No Crátilo, Platão já mostrara que o problema da «verdade» das palavras isoladas ou nomes deve permanecer indecidido porque a denominação não esgota o poder ou a função da fala. O logos[2] da linguagem requer, pelo menos, um nome e um verbo e é o entrelaçamento destas duas palavras que constitui a primeira unidade da linguagem e do pensamento. E mesmo esta unidade suscita uma pretensão à verdade; a questão tem ainda de decidir-se em cada caso.”

 

... e traduzo-o para linguagem mais comum:

 

“No Crátilo, Platão já mostrara que o problema da «verdade» das palavras isoladas ou nomes deve permanecer indecidido porque a denominação não esgota o poder ou a função da fala. O significado da frase requer, pelo menos, um sujeito e um predicado e é o entrelaçamento destas duas palavras que constitui a primeira unidade da linguagem e do pensamento. E mesmo esta unidade suscita uma pretensão à verdade; a questão tem ainda de decidir-se em cada caso pelo complemento directo.”

 

Confesso que já não me lembro se foi na Escola Primária se no Liceu que nos ensinaram que uma frase, para ser inequívoca, tem que ter sujeito, predicado e complemento directo.

 

E dizia eu há dias que ia deixar de traduzir filósofos para a linguagem corrente...

 

Que maçada! «Para o que anda uma mãe a criar um filho».

 

Ainda não perdi a esperança de um dia encontrar um filósofo que escreva despretensiosamente, acessível ao comum dos mortais.

 

Outubro de 2016

 

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Henrique Salles da Fonseca

 

[1] Edições 70, Janeiro de 2013

[2] Logos é a razão, o significado

QUE CAMINHOS SEGUIR PARA TORNAR O MUNDO MELHOR?

 

 

Mário Vargas Llosa

 

     No passado domingo à tarde, assisti num canal televisivo a uma entrevista do escritor peruano Mario Vargas Llosa. Questionado, afirmou que o mundo em que vivemos é hoje bem melhor do que o foi no passado, apesar das nossas queixas e lamentações. Pode ser verdade, mas o padrão de avaliação envolve parâmetros de vária natureza e depende do quadrante geográfico de quem o faça. A opinião de um europeu ou americano não será seguramente a mesma de um africano ou asiático.

 

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     Ponto assente, isso obriga-nos a revisitar Alvin Toffler, escritor e jornalista americano (Outubro de 1928 - Junho de 2016), autor do best seller “A Terceira Vaga”, quando afirma que a História da humanidade é feita de sucessivas vagas de mudança operadas pelo processo civilizacional. A primeira vaga foi a Revolução Agrícola, a segunda a Revolução Industrial e a terceira a presente era da informação, da cibernética e da robótica, de que somos hoje beneficiários. Em Abril deste ano, Toffler proferiria uma conferência na Reitoria da Universidade de Lisboa, onde desenvolveu a sua teoria sobre aquilo que designou por Quarta Vaga – Bioeconomia, defendendo que a economia não pode mais desligar-se de práticas que ignorem a sua sustentabilidade numa equilibrada relação com o meio ambiente. Terá sido das últimas intervenções públicas do escritor, que faleceria dois meses depois, em 27 de Junho, aos 87 anos.

 

     O bem-estar que o homem almeja depende, inapelavelmente, da forma como vive e explora os recursos do planeta, como se organiza e como resolve os seus conflitos. As mudanças civilizacionais foram moldando a percepção do homem sobre os modelos de organização política e social e as formas de exercício do poder político. Na Primeira Vaga, o poder era personificado e exercido autocraticamente ou quanto muito assistido por um conselho. A noção de território e o sentimento de consciência nacional progressivamente foram tomando forma e consolidando-se. Na Segunda Vaga, com a Revolução Industrial e o Iluminismo, surge o Estado-Nação e desde logo o poder ganha formas de maior sofisticação, mediante estruturas jurídicas que orientam e regulam o exercício da soberania e a defesa dos interesses nacionais em confronto com outros povos.

 

     Hoje, as mudanças determinadas pela Terceira Vaga e a iminência da Quarta Vaga vieram pôr em cheque o modelo das instituições que nos governam desde há séculos tornando-as obsoletas e questionando a sua validade operativa. Embora permaneça o mito das soberanias nacionais, é cada vez mais difícil para um governo tomar decisões com a independência de outrora, sem ter de levar em conta factores exteriores que ganham relevo crescente com o processo de globalização proporcionado pela Terceira Vaga. Talvez seja a razão por que hoje há dificuldade em descortinar líderes de perfis que desejaríamos idênticos aos de um Churchill, de um De Gaulle, de um Roosevelt ou de um Adenauer. Mas estes líderes, transpostos para a nossa época, provavelmente iriam evidenciar as mesmas debilidades e insuficiências que a opinião pública aponta a par e passo aos governantes de hoje. Com efeito, a complexidade dos problemas sociais da actualidade não tem paralelo com o passado. O líder dos estados de direito democráticos não consegue exercer a sua autoridade pessoal sem ser contido pelas constituições ou expedientes jurídicos como as providências cautelares ou pressionado pela opinião pública através dos mais variados meios de comunicação.

 

     O que é verdade na esfera interna dos estados é particularmente reflexivo nas relações entre os estados e no plano em que se concertam com maior ou menor eficácia as políticas e as estratégias nacionais ou comunitárias. Dentro da União Europeia é cada vez mais nítida a percepção de que as soberanias nacionais se esbatem face às instituições comunitárias e aos desafios da globalização, e isso levanta interrogações, sobretudo nos sectores políticos mais à esquerda. O controlo dos orçamentos e a formatação das principais políticas nacionais obedecem às directrizes e imposições comunitárias. Mas o pensamento futurista de Alvin Toffler leva-nos ainda mais longe fazendo-nos ver que sem uma política mundial devidamente concertada o planeta compromete os seus equilíbrios e pode soçobrar.

 

 https://www.youtube.com/watch?v=E2sDnfoC3Hk

 (falhada a ligação directa, copie-se a URL acima para o browser e veja-se o vídeo de apresentação de "A Quarta Revolução")

 

     Então, os desafios são inumeráveis sem que as respostas se perfilem por enquanto com a urgência e a clareza desejadas. No seu livro “A Quarta Revolução − A Corrida Global para Reinventar o Estado”, Adrian Wooldridge e John Micklethwait denunciam a crise da governação do mundo actual e a ineficácia do Estado no Mundo Ocidente, afirmando que é necessário revolucionar o sistema político e apontando caminhos para melhorar o futuro da sociedade humana. É verdade que a globalização trouxe benefícios óbvios ao mundo não obstante reger-se por um viés neoliberal, com os defeitos vários que lhe têm sido apontados, dos quais o mais preocupante é o impacto ecológico negativo em consequência do consumismo desenfreado e da devastação dos recursos naturais. Mas o processo da globalização é imparável e as sociedades humanas têm de se ajustar aos seus impulsos.

 

     Assim, se os problemas planetários atingem uma dimensão de tal ordem preocupante que não se compadecem mais com a inoperância de Estados soberanos fechados em si, incapazes de gerar os melhores consensos no plano internacional, não haverá outra solução senão repensar o seu modelo. Ora, se a economia depende cada vez mais da dinâmica global, é natural que as soberanias tenham de encontrar pontos de convergência em espaços supranacionais onde as decisões políticas se sirvam dos mesmos instrumentos que lograram a agilização e a expansão da economia. A democracia não deixará de ser válida, importante e insubstituível como sistema de governo, mas ela terá de ser transposta eficazmente para as relações internacionais, de par com a diplomacia, aperfeiçoando os seus mecanismos de representatividade, auscultação e sondagem de opiniões, em ordem à melhor concertação de vontades para a melhor solução dos problemas globais.

 

     Neste processo, a Europa e os Estados Unidos não podem continuar a dar sinais de perderem o pé ante o ressurgimento da Rússia e a emergência das potências asiáticas. Caso contrário, deixará de fazer sentido a opinião de Mario Vargas Llosa quando, ao afirmar que o mundo está melhor, tomava como padrão de referência o Mundo Ocidental.

 

Tomar, 10 de Outubro de 2016

 

Adriano Miranda Lima (2016).jpg

Adriano Miranda Lima

INCURSÕES DENTRO DE UMA CABEÇA CANSADA

 

 

Catolicismo, de católico, do grego Katholikós, geral, universal. Até aqui todos sabemos.

 

Ser católico não necessita obedecer à hierarquia de Roma, nem tão pouco ser cristão.

 

Basta sentir e viver a universalidade do ser humano, de respeitar e tratar TODOS como irmãos, deixando que cada um faça as suas orações e ou meditações como, quando e a quem entender.

 

Sempre respeitando a liberdade de qualquer Outro, e sempre o considerando irmão.

 

E assim católico, recorrendo ao valor etimológico da palavra poderá ser qualquer um desde cristão a animista, judeu ou muçulmano, quando põe os valores universais acima dos seus.

 

Mas, desde os tempos atrás dos tempos, há uma pergunta que não cala, nem responde, perturba muito, até os que se dizem ateus ou mais dissimulados os agnósticos que preferem não pensar e simplesmente dizerem que “nada sabem”:

 

Deus será um Ser? Que Ser? Só uma Força? De onde vem essa Força?

 

Deus será bom? Será um Deus da guerra que só protege os hebreus? Será como Alá que o Profeta decidiu interpretar e à sombra do Qual se mata o, para eles, não crente? Crente em que? Em quem?

 

Ou será a filosofia chinesa e hindu, o Tudo e o Nada, para que cada homem se liberte e se encontre dentro de si mesmo?

 

Deus é a natureza, Tudo e Nada! Tudo e todos.

 

O que não é, quase de certeza, porque certezas neste campo não existem, é a imagem daquele velhinho, ar bondoso, barbas brancas, pendurado numa moldura, para onde se olha quando se lhe quer pedir algo!

 

Pedir? Rezar?

 

As perguntas avolumam-se. O que é rezar? Recitar palavras impressas e difundidas desde há milhares de anos por milhões de pessoas e que se repetem, muitas vezes por obrigação?

 

Pedir a Santo António que lhe encontre um par? É bonito ter fé, mas há preces que são autênticas vigarices, como por exemplo quando alguém quer “negociar” um favor divino e em muitos casos ainda lhe pedem para pagar por isso!

 

Rezar é falar para dentro de si mesmo, ou quando a Fé é muito grande, como uma velhota angolana que eu vi, há muitos anos, em Luanda, na Igreja da Nazaré, a discutir em voz alta com a imagem da Virgem, porque ela já ali tinha ido rezar uma porção de vezes, pedindo auxílio já não sei para que, mas a ajuda não acontecia. E a boa velhota discutia, em voz alta, com a Virgem como discutiria com qualquer outra pessoa. Maior fé é difícil, e não deixou de me impressionar. Gostaria de ter tamanha fé.

 

Em quê?

 

Quando, em prece nos dirigimos ao “Senhor”, teremos consciência do que estamos a fazer, ou somente a pedir? Pedir que nos faça melhores pessoas para logo em seguida continuarmos a ser os mesmos, como é habitual fazer-se na passagem do ano quando se “juram promessas” de nos redimirmos?

 

Criar a ilusão de que não vamos mais nos interessar pelos dispensáveis “bens” terrestres, quando continuamos a querer um carro melhor ou mais um dinheirinho para compras de coisas que não nos fazem falta?

 

Ou para tentar imobilizar o nosso Ego, dedicar todo o nosso tempo disponível a “Não-Agir”, meditar e darmo-nos aos Outros?

Como pode alguém encontrar-se dentro de si mesmo, pelo Não-Agir? Para nos darmos aos outros temos que Agir! Daqui o Tudo e Nada, inseparáveis

 

Como pode alguém ausentar-se do mundo, para, com muito egoísmo, se dedicar à procura do Nirvana individual? Mais uma vez a sublimação do nosso Eu é derrotar o egoísmo.

 

Como pode ausentar-se e afastar-se daqueles que, cada dia mais, precisam de quem lhes dê a mão?

 

Não-agindo na matéria, derrotar o egoísmo e encontrar dentro de si a paz absoluta, só quando se entrega inteiramente aos que o rodeiam.

 

Jesus veio. Para servir e não para trazer dar proveitos e privilégios a quem quer que seja.

 

Veio e, em oposição à antiga lei onde o ser “bom” era não fazer aos outros o que não gostaria que lhe fizessem, deixou a Nova Lei, a Boa Nova: FAZ, age, ajuda o teu irmão, começa pelos mais necessitados, sê caritativo, o que não significa dar esmola e virar costas, mas DAR-SE sem exigir nada em troca.

 

A cabeça fica meia tonta com tanto pensar em todas estas coisas que no fundo se resumem a uma só: cuida do teu irmão! E do meio ambiente. Sem este, são, tudo estará perdido.

 

Para os que invejam, cobiçam e lutam pelas “preciosidades” vãs e terrenas, os Ego-istas, deviam ouvir mais vezes Carmina Burana, uma série de poemas medievais (sec. XI - XII) musicados magistralmente por Carl Orff. Além de ouvirem a música tentar assimilar bem a sua letra, sobretudo o poema de abertura e final:

 

Oh! Fortuna!

És como a lua, mutável, sempre aumentas ou diminuis;

A detestável vida, ora oprime e ora cura para brincar com a mente;

Miséria, poder, ela os funde como gelo.

Sorte imensa e vazia, tu, roda volúvel és má,

Vã é a felicidade sempre dissolúvel, nebulosa e velada também a mim contagias;

Agora por brincadeira o dorso nu entrego à tua perversidade.

A sorte na saúde e virtude agora me é contrária.

Dá e tira mantendo-me sempre escravizado;

Nesta hora, sem demora tange a corda vibrante; porque a sorte abate o forte, chorai todos comigo!

Eu lastimo pelas feridas da fortuna, choro as feridas infligidas pela fortuna com olhos lacrimejantes,

Pois seu tributo de mim cobra agressivamente;

Na verdade, está escrito que a cabeça coberta de cabelos

A maior parte das vezes revela-se, quando a ocasião se apresenta calva.

No trono da fortuna eu sentara, elevado, coroado com as flores multicoloridas da prosperidade;

Apesar de ter florescido feliz e abençoado, agora do alto eu caio privado de glória.

A roda da fortuna gira; eu desço, diminuído; outro é levado ao alto;

Lá no topo senta-se o rei no ápice? Que ele tema a ruína!

 

FGA-Carmina Burana.jpg

 A roda da fortuna, no codex dos Carmina Burana

 

Mas se procuram a Verdade, a humildade e a caridade podem cantar com alegria o Aleluia de Händel:

 

O reino deste mundo já passou a ser de nosso Senhor, do Cristo.

Ele Reinará para sempre;

Rei dos Reis (Para sempre e sempre, aleluia, aleluia)

E grande Senhor (Para sempre e sempre)

Aleluia, Aleluia

 

12/10/2016

 

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Francisco Gomes de Amorim

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