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A bem da Nação

FÉRIAS EM MACEIÓ

 

maceio.jpg

 

 

Atravesso-te Atlântico meu

Leito d’água

Berço de lusas naus

Em rotas de descoberta

E sou nuvem

Ventre de pássaro branco

Cruzando ares

Ao encontro do calor

Que meu País vai perdendo

Levado pelo Outono

Que arrefece.

Atravesso-te

Em velocidade de cruzeiro

A muitos pés d’altura

E sou feliz por te cruzar…

Preconizaram-me que um dia

O havia de fazer

E eis-me aqui

Trazida pelo amor filial

E o retorno do que dei

Em passados próximos

Ou longínquos

E todo tempo

É coração feliz e alma cheia!

 

14/Set./2016

 

Maria Mamede.jpg

Maria Mamede

ÁFRICA

 

Vida Vivida – 2

 

Mais algumas memórias, rebuscadas com saudade e tristeza. O trazê-las de novo à vida faz que não desapareçam.

 

Num dos últimos textos falei de um grande amigo, o Renato Lima, e só me faz bem relembrar mais uma pequena passagem da sua vida. Como já disse o Renato era um bom garfo e um razoável copo. Nada demais, e sobretudo um grande e alegre companheiro.

 

No tempo em que ainda se caçava, com disciplina e sem destruir o meio ambiente, lá fomos, num fim-de-semana, um grupo normalmente “capitaneado por outro Grande Amigo, o Zé Neto – José Ferreira Neto – grande caçador e também um magnífico companheiro.

 

Tanto o Renato como o Zé Neto teriam uns 15 a 17 anos mais do que eu, mas considerávamo-nos como irmãos.

 

FGA-Renato Lima.jpg

Renato Lima aí por 1960 e... tal

 

Nesse dia, depois de muito penar, caçou-se um antílope, talvez um Sembo ou Nunce (Redunca arundinum), macho solitário, bem grandinho, que devia pesar uns 65 a 70 kilos. E sempre a carne destes antílopes era coisa de reis. Melhor, de imperadores!

 

De Portugal, por navio, um amigo tinha mandado ao Zé Neto dois garrafões dum vinho, safra “especial” da sua propriedade! Então, face a essa gulosa perspectiva, assentou-se que seria em sua casa que se faria a almoçarada acompanhada da viajada preciosidade.

 

Como eu era parte do espólio cinegético, propus levar mais um convidado, o Renato, que não conhecia os donos da casa.

 

A dona da casa, Arlete, era uma excelente pessoa. Nunca a vi reclamar de nada e sempre recebia os amigos com uma especial lhaneza. Uma senhora e mãe de família que sempre admirei e muito estimei. E tinha um óptimo cozinheiro.

 

FGA-Zé Neto.jpg

Zé Neto, grande amigo e grande caçador

 

Antes do almoço chegar à mesa, abre-se o primeiro garrafão... estragado! E o segundo. As rolhas não aguentaram a viagem e o tal “magnífico”... azedou. (Por isso o bom vinho de garrafão seguia de Portugal para África com um grande capacete de gesso). A garrafeira da casa supria esse lamentável prejuízo, além das Cucas que eu podia providenciar. Entretanto, avança sala dentro o magnífico Sembo, assado, lindas batatas bem coradas à ilharga, que se foi sempre regando, indirectamente, com uns quantos copos de vinho ou de cerveja.

 

No fim do pantagruélico repasto, o Renato, com os seus 90 ou mais kilos estava com um tremendo peso nas pálpebras e só conseguiu dizer que precisava dormir um pouco. Ninguém causou problema.

 

- Nesta casa está à vontade.

 

Foi-se deitar na cama de um dos quatro filhos e roncou umas boas duas horas! Quando acordou estava envergonhadíssimo. Mas fazer cerimónia, em Angola, entre amigos, era coisa inexistente, apesar de ir dormir a sesta quando se vai pela primeira vez a casa de alguém...

 

Voltemos ao meu secretário, o famoso António

 

Como disse em texto anterior, o António era o guardião da minha casa quando eu me ausentava de Benguela, antes da minha mulher lá ter ido.

 

E também contei que tinha ido fazer um estágio numa fábrica na África do Sul. No final do estágio e do jantar de despedida, a fábrica entregou a cada um seu diploma, constando que tinha feito o estágio, de tal a tal dia, assinado por dois diretores, e autenticado, como era de praxe, com um selo de lacre e duas fitinhas de gorgorão (também sei coisas femininas!) nas cores vermelha e amarela, as cores das máquinas. Muito bonitinho.

 

Um mês ou dois depois do regresso, da sede da Lusolanda, em Luanda, o patrão mandou dizer-me que devia emoldurar o diploma e colocá-lo na loja para valorizar a nossa organização perante os clientes. Tudo bem.

 

Como a casa era espaçosa para um jovem casal, um dos quartos serviu durante muito tempo para guardar as tralhas que aos poucos se iam arrumando. Em casa, dei volta a tudo, sobretudo nesse quarto da arrumação, que era uma desarrumação, com o pouco que tínhamos no princípio da nossa vida, mas o tal de diploma, aparecer é que nada. A minha mulher já estava lá em casa e nada sabia do bendito diploma. Mistério!

 

Mesmo com a dona de casa em casa, no início da sua estadia, quase todos os dias, depois do trabalho, o António ia até lá para ajudar a arrumar caixas e minudências, ganhando assim mais um trocado.

 

O António era um tipo sensacional.

 

Foi ele que me ajudou a desencaixotar os trastes, idos de Lisboa, que em Angola viraram imbambas ou bicuatas.

 

Bom a conversa está muito boa, mas e o diploma? Cadê o diploma?

 

É verdade. Depois de me certificar que não o encontrava, conclui que só o António poderia saber do seu paradeiro, visto ser a única pessoa, além do casal, que tinha acesso a nossa casa e àquele quarto, donde nunca, nunca, tirou uma migalha. Já tínhamos contratado um cozinheiro, mas além de mim e da minha mulher só ele entrava no quarto que tinha espalhado no chão um monte de coisas, como louças, livros, bibelôs, etc. Não só não tínhamos móveis suficientes onde os guardar, precisavam de ser separados e arrumados, mesmo que ficassem no chão.

 

Ali, algures, por cima daquela tralha, daquela bagulhada, tinha sido guardado o diploma.

 

O António quando lhe falei nisso fez-se vermelho (é verdade, sim, os pretos também coram, lá por terem a pele escura, vê-se muito bem) e quase jurou que não tinha visto o tal papel bonitinho.

 

Cacei o mistério!

 

- António! Eu quero esse diploma aqui, amanhã! Sem falta.

 

No amanhã o diploma estava lá! Um pouco amarrotado com a viagem de ida e volta até casa do António, claro, mas... o lacre e as fitinhas de gorgorão não regressaram!

 

Aquelas fitinhas e o lacre foram mais fortes do que a resistência do António contra tentações! Pratos, copos e outros quejandos ele conhecia bem, havia visto muitos toda a sua vida, mas um papel com aquele enfeite bonito...

 

Resultado: não se emoldurou o diploma, não voltei a falar nele ao pobre homem que caíra naquela terrível tentação, guardei-o por muito tempo, amarrotado e sujo, porque a história me enternecia e por culpa agora das nossas muitas outras viagens mundo fora, com a casa às costas, o diploma... sumiu!

 

Ficou a saudade. Grande António! Saravá António!

 

--- * ---

O cozinheiro e as pescadinhas

 

Como não é difícil de imaginar, a dona da casa... não demorou a ficar à espera do primeiro filho. E passou por aquela clássica fase do enjoo!

 

Um dia chego a casa para almoçar, mamãe deitada, enjoada, nem sequer podia ouvir falar em comida! Almocinho, que é bom, nada!

 

O cozinheiro aguardava instruções, paciente, sentado na mureta exterior da entrada da cozinha, em equilíbrio de fazer inveja ao Cirque du Soleil, e a uns 4 ou 5 metros de altura dormia que nem um justo, que era.

 

Passo-lhe a mão por fora, para que ele não se assustasse quando o chamasse, não fosse cair dali abaixo, dou um grito (meio grito!) perto do ouvido dele, que em vez de se assustar, abriu tranquilamente os olhos.

 

- Sebastião (faz de conta que ele se chamava assim), não tem almoço!

- Não, patrão.

- E agora?

- Se o patrão quiser eu vou ali ao mercado e compro umas pescadinhas.

- Quando custam?

- Um e quinhenta, seis.

 

Achei um disparate. Seis pescadinhas por um angolar e meio! Dei-lhe meia cinco, isto é, dois e cinquenta, e lá foi ele. E eu fiquei à espera que ele voltasse a dizer que o dinheiro não tinha chegado.

 

O mercado era perto da nossa casa. Não tardou muito o Sebastião voltou com as seis pescadinhas, lindas, fresquinhas, enfiadas num junco e... um angolar de troco!

 

Fê-las de “rabo na boca”, batatinhas cozinhas, eu almocei correndinho e voltei para o trabalho.

 

Mamãe, mesmo o cheiro, magnífico, das pescadinhas não quis testar!

 

Ah! Como eram lindos aqueles tempos!

 

E como era, e ainda é, maravilhoso o peixe daquelas águas!

 

23/10/2016

 

Francisco Gomes de Amorim

Francisco Gomes de Amorim

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