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A bem da Nação

PERGUNTAS PROIBIDAS

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Guterres e os Directórios

 

A eleição de António Guterres como secretário-geral da ONU é uma certeza, após a nomeação pelo Conselho de Segurança onde teve o apoio dos 5 grandes

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O processo de nomeação foi mais duro e transparente do que é habitual, como ficou à vista com o falhanço da manobra desesperada de última hora do Partido Popular Europeu, ao tentar promover a búlgara Georgieva.

 

Os dirigentes do centro direita europeu perderam essa batalha contra os dirigentes do centro esquerda. Contudo, tal como nas antigas guerras de religião entre católicos e protestantes não contava a fé mas sim o poder, também nesta eleição foi o poder da Alemanha orientada a leste que se tentou sobrepor à ideologia.

 

Membros permanentes do Conselho de Segurança

 

A Alemanha não integra os 5 membros permanentes do Conselho de Segurança. E desde 2004 formou o Grupo dos Quatro, com o Brasil, Índia e Japão, a fim de aumentar a sua influência na ONU. Com as dores de cabeça que lhe dá a Europa ocidental, quer reforçar a política de Leste antes de explodir a crise bancária.

 

Com o apoio dos EUA e a abstenção benevolente da Rússia, venceu a candidatura de um católico, socialista e humanista. Venceu o Vaticano que tem diplomatas e um lugar na ONU e no Papa Francisco um modelo para António Guterres. Venceram os países da Lusofonia que o promoveram. Venceu a Europa ocidental, neste caso organizada por François Hollande. Afinal, apoios previsíveis.

 

Mas o pano de fundo da vitória de Guterres é a insatisfação geral com o sistema de directório que pretende governar o mundo desde 1989. A “nova ordem mundial” tem sido empurrada com a barriga pelos directórios informais, coalition of the willing, o gélido G-7. Venceram as nações que sabem que só uma chicotada psicológica tornará a ONU um factor a ter de novo em conta e que, para esse fim, muito depende da personalidade do secretário-geral.

 

António Guterres tem capacidade de diálogo e debate, factores de softpower que contam nas relações internacionais. Provou que sente as questões sociais e favorece uma sociedade inclusiva. Tem princípios e valores com que mobiliza pessoas e recursos contra os lobbies. Em resumo, é uma pessoa decente.

 

Os decentes e os hipócritas

 

A sua candidatura à ONU sob o lema “Nós, os povos” mostra essa visão. Que Guterres venha de uma nação que foi uma super potência do passado mas que hoje conta pouco na Realpolitik, será importante para nós, portugueses. Mas não foi por isso que o mundo o escolheu. Escolheram-no para dar sinais de um mundo novo.

 

É mais que natural que, após a vitória de Guterres, todos se tenham regozijado. Os decentes e os hipócritas. A decência é a qualidade moral que se pede aos que lutam pela inclusão e contra as injustiças.

 

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A hipocrisia é a homenagem que o vício presta à virtude – escreveu o moralista La Rochefoucauld.

 

António Guterres vai ter que operar neste mundo onde os directórios soberanos como o G-7 não estão nas mãos de gente decente e onde a gente decente só tem agora controlo sobre a ONU, que não é um poder soberano.

 

Hillary Clinton, a próxima presidente dos EUA, afirmou num dos seus discursos de 250 mil dólares, divulgado pela WikiLeaks: “Estou muito longe das lutas da classe média, devido à vida que vivi e a fortuna económica de que eu e o meu marido agora desfrutamos”.

 

Vladimir Putin, o ex-KGB, pôde apoiar a Turquia e o Irão, reclamar a Crimeia, como em breve reclamará a Bielorússia e o que houver a reclamar da Ucrânia, com o apoio de ⅔ do seu Parlamento e fraca oposição internacional.

 

Theresa May, a gestora que hesita entre o Brexit duro e um Brexit mole é uma Margaret Thatcher fora do prazo de validade e diz que o que lhe interessa é o maior acesso possível aos produtos, serviços e capitais para ambos os lado. Não fala de pessoas.

 

Poder-se ia continuar esta lista dos dirigentes do Directório. A China vai ficar cada vez mais enredada em si mesma. A França já não é o que era. As super potências emergentes como a Índia e Brasil deixaram de ascender. O mundo está complicado. E sem a visão do realismo moral, mais complicado ficará.

 

Quem chega ao lugar onde António Guterres chegou tem uma visão realista do que pode fazer. Sabe que está numa organização de softpower num mundo cuja política é pressionada pelos directórios. Sabe que tem que dar uma chicotada psicológica na ONU. Sabe que na ACNUR conseguiu diminuir 20% do pessoal e aumentar 30% dos apoios financeiros aos refugiados.

 


António Guterres representa o que a comunidade internacional precisa mas sabe que a sua magistratura é de exemplo e influência. Cabe-lhe dar os sinais certos para que o mundo do G-7 se aproxime do mundo de Guterres. O desfecho é incerto.

 

11 Outubro, 2016

Mendo Castro Henriques

Mendo Castro Henriques

Professor na Universidade Católica Portuguesa

 

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