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A bem da Nação

ESTÁ COM TOSSE?

Inês, Pedro e....jpg

 

 

Eis como D. Pedro I tirou a Tosse ao escudeiro Afonso Madeira que ele muito amava «mais do que se deve aqui dizer...». Nunca fiando...


Embora havendo três filhos do seu segundo casamento e tendo vivido uma relação intensa com Inês de Castro, com quem também houve descendência, acerca do temperamento deste soberano, o cronista Fernão Lopes dedicou um capítulo que intitulou "Como El-Rei mandou capar um seu escudeiro porque dormia com uma mulher casada", permitindo entrever que o gesto teria sido motivado por ciúmes do monarca por seu escudeiro, de nome Afonso Madeira.

 

Madeira é descrito como um grande cavalgador, caçador, lutador e ágil acrobata, e regista: "Pelas suas qualidades, El-Rei amava-o muito e fazia-lhe generosas mercês."

 

O escudeiro, entretanto, apaixonou-se por Catarina Tosse, esposa do Corregedor, descrita como "briosa, louçã e muito elegante, de graciosas prendas e boa sociedade". Para se aproximar dela, Madeira fez-se amigo do Corregedor, seduzindo-a e consumando a traição.

 

O soberano, entretanto, tudo descobriu e não perdoou Madeira, castigando-o brutalmente. O cronista insiste no afecto do soberano, referindo enigmaticamente: "Como quer que o Rei muito amasse o escudeiro, mais do que se deve aqui dizer (...)", mas regista que D. Pedro mandou "cortar-lhe aqueles membros que os homens em maior apreço têm". O escudeiro recebeu assistência e sobreviveu, mas "engrossou nas pernas e no corpo e viveu alguns anos com o rosto engelhado e sem barba".

 

FGA-2OUT15.jpg

Francisco Gomes de Amorim

AINDA RICOEUR

Paul Ricoeur.jpg

Paul Ricoeur e os gatos fedorentos

 

TEXTO ESCRITO EM 7 DE AGOSTO DE 2005

 

Tendo deixado passar em branco no passado 21 de Maio, a morte de Paul Ricoeur, aos 92 anos de idade, recolho os meus apontamentos sobre ele. Ricoeur deixa mais que uma filosofia; deixa uma militância. O então (antes do NON) primeiro ministro francês, Jean-Pierre Raffarin, lamentou mais "que a perda de um filósofo". "A tradição humanista europeia chora a morte de um dos seus porta-vozes de maior talento".


Embora não fosse politólogo e menos ainda analista de temas internacionais, Paul Ricoeur tratou a questão pública de modo muito diferente do voluntarismo dos intelectuais; estes tomam posição a propósito de qualquer assunto, mesmo dos que não entendem; sobretudo do que não entendem, segundo Hegel, na Fenomenologia do Espírito. Ricoeur intervinha quando sabia o que se passava.


Associado à revista Esprit, fundada por Emmanuel Mounier em 1932, respondeu à crise da democracia liberal com a alternativa cristã aos desafios do fascismo e do comunismo. Quando Mounier morreu prematuramente em 1950, Ricoeur elogiou o personalismo num belo estudo. Paul Ricoeur produziu óptimas conferências e artigos sobre o significado do Evangelho na compreensão da política. Alertava sempre para a importância dos modernos estudos bíblicos que ajudam a contextualizar as fontes antigas e evitam as posições reaccionárias e atitudes fundamentalistas. Na sua Filosofia da Vontade enfrentou as questões políticas puras: Estado, Economia, Direito.


Em época de desencanto político, Ricoeur foi muito firme num ponto: a condenação da política como corrupta é enganadora, malevolente e infame. A política só é fonte de males devido ao lugar proeminente que ocupa na vida pública, e não por qualquer defeito intrínseco da politização. A política original é fonte de libertação, como sempre lembra José Adelino Maltez. A denúncia sistemática da política é a morte da cidadania. A tentação gato fedorento dos intelectuais europeus (ou será a tentação intelectual dos gatos fedorentos?) é demasiado fácil; os programas europeus de contra-informação acabam por ser o "ópio dos revoltados" que o sistema até fornece nas televisões públicas. Não é por acaso, certamente.


Com Ricoeur, portanto, militar é preciso. Informadamente.

 

 Mendo Castro Henriques.jpg

Mendo Castro Henriques

Professor, Universidade Católica Portuguesa

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