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A bem da Nação

PÁTRIA PEQUENA

 

POEMAS MAIATOS

MILHEIRÓS

 

No meio dos milheirais de Milheirós

Havia cantigas de gente

Em tempo de ceifa

E de toda a passarada

Em tempo de Primavera.

Pelos Invernos

Rigorosos

Ficávamos tempo esquecido à lareira

Ouvindo o vento que gemia

E os uivos dos lobos

Ao longe…

 

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ponte-de-alvura.jpg

 

Além da Ponte de Alvura

Vai meu amor acenando,

Além da Ponte de Alvura

Até quando, até quando?

 

Além da Ponte de Alvura

Vai pequenino ficando

Águas claras em dor pura

Vão os meus olhos chorando…

 

Além da Ponte de Alvura

Moinhos de água, moendo

Junto da água, em secura

Eu vou morrendo, morrendo…

 

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Junto com o milho

Debulhei lágrimas salgadas

Como as mulheres da beira-mar

As debulham

Nos cais da espera…

 

Maria Mamede.jpg  Maria Mamede

TU E O MEU BOLO DE CHOCOLATE

 

NOTA PRÉVIA: texto escrito para o Clube de Escritores (Porto) cujo 1º Encontro se realizou em 20 de Março de 2010; o mote era “Tu e o meu bolo de chocolate” e os textos teriam que caber numa página A4; não estive presente e alguém o terá lido para a audiência; não tenho informação sobre o volume da pateada, só sei que NÃO recebi qualquer prémio.

 

* * *

 

puppy-boy.jpg

 

Quando é que já se viu eu comer um bolo de chocolate e não lamber os dedos? Sim, quando? NUNCA! Era o que faltava eu deixar aqueles bocadinhos de gula desperdiçados num qualquer pano de resguardo de sebências ou afogá-los num frio lavatório e mandá-los pelo cano a baixo como se faz aos abortos. ERA O QUE FALTAVA! Os guardanapos são para limpar cerimónias; os lavatórios para excomungar porcarias. Chocolate, não… esse merece lambidela.

 

Mas diz a Tia Alzira que é feio lamber os dedos. Ah! E eu ralado. Feio é desperdiçar. Isso, sim, é que é muito feio! - Pois fique a Tia sabendo: eu lambo o chocolate dos dedos! E se for uma Bola de Berlim, também lambo o açúcar dos dedos!

 

- Olha, Caramelo! Tu sabes que o chocolate te faz mal, não sabes? E o Caramelo dá ao rabo porque eu estou a falar com ele. E porque vê o chocolate nos meus dedos e concorda comigo que tal preciosidade não deve ir pelo cano a baixo como alguém fez aos irmãos dele quando nasceram. E esses não eram abortos: eram cãezinhos completos e sãos… Então, sem os adultos verem, deixo a minha mão descair até à altura da boca do Caramelo e logo sinto a língua gulosa a lamber o chocolate…

 

Mas cão não tem rabo discreto e logo se põe a abanar o apêndice a pedir mais. E os adultos reparam que o Caramelo pede mais porque alguém o iniciou na lambarice. E esse alguém só posso ser eu. E então é a mim que zurzem… Porque isto e porque aquilo!!!, não têm mais nada que fazer do que chatear criança e cão por causa duns restos de chocolate nos dedos de um guloso amigo de um cão tão guloso como o dono dos dedos.

 

E sabem que mais? O Caramelo dá ao rabo de satisfação e eu não faço isso porque não tenho rabo mas também o faria se o tivesse e fosse cão.

 

Uma pergunta: como fazem os cães que não têm rabo? Deve ser muito triste. Acho que deve ser como a gargalhada que o mudo não dá.

 

Lamber os dedos é feio… E fazer abortos e deitar cãezinhos pelo cano a baixo é bonito?

 

Melo e eu - 3.jpg

Henrique Salles da Fonseca

MAIS DUAS “CARTAS DO BRASIL”

 

 

SAUDADE DE ÁFRICA

 

Se não tivesse escrito estas “Cartas do Brasil” estaria possivelmente a estas horas a escrevê-las ainda de Angola ou Moçambique! Vivi, vivi muito intensamente naquelas paragens mais de vinte anos, e até hoje guardo uma forte saudade daquele tempo, daquelas terras, daquelas gentes. Até do clima de Luanda que era mais bravo que o do Rio, com temperaturas menos altas mas teor de humidade mais elevado. O que lhe valia eram aquelas praias e a Ilha, maravilhosas...

 

Quando os (des)governantes da revolução de Abril (os meses escrevem-se mesmo com maiúscula) concluíram, na conferência de Alvor, que os únicos representantes das colónias eram os africanos, eu não tive dificuldade em verificar que, apesar do meu coração vibrar por África, a minha pele era clara! Dei o fora. Vim para o Brasil que me abriu as portas. Como um parente pobre, que tendo um só pão para comer, sem regatear, o dividiu comigo. Nessas alturas o meu país considerava-me fascista só porque ao fim de vinte e cinco anos de trabalho eu tinha atingido um escalão alto na hierarquia da minha profissão! Achei que era melhor não me meter no meio duma briga, que eu certamente acabaria por comprar, e aceitei o pão, suado, que o Brasil me oferecia.

 

Comi pão duro, mas dado com carinho, e à medida que a qualidade do pão foi melhorando procurei reparti-lo. Ao meu lado trabalham hoje (sim, porque eu ainda trabalho! Os meus vinte anos de África... a (in)segurança social portuguesa - tudo com minúsculas - não considera para me aposentar! Um dia volto a falar nisto.) mas estava dizendo que ao meu lado trabalha gente de todas as cores. Desde louros de olhos azuis, brasileiros há tantas gerações que desconhecem as suas origens, até um angolano de M´Banza Congo, que a fome fez imigrar há cerca de dois anos.

 

Como é de calcular, em mais de vinte anos de trabalho em África, juntei alguma coisa, sobretudo apertei o cinto para comprar uma casa. Casa, sendo um bem imóvel, teve que ficar, lá onde foi construída. Para mim acabou sendo, não um bem, mas um mal imóvel. Mais valia ter bebido o dinheiro que ali, tão suado, chorado e desperdiçado, investi. E se havia onde beber!

 

Mas os capitães de Abril, depois que enfiaram os cravos nas espingardas, fotografaram-se em posição de conquistadores do mundo, e... deixaram o país ao desgoverno. Total. Os líderes africanos, ao verem tamanha falta de disciplina e vergonha, impuseram as suas condições para a independência, como vencedores duma guerra que, para eles, não estava perdida, quando muito empatada. Quem por fim capitulou, vergonhosamente, foi Portugal. Abandonou os povos africanos e os timorenses ao seu triste destino e os portugueses que lá viviam aos seus próprios cuidados.

 

Tinha que acabar a guerra colonial? Evidente. Nunca devia ter começado. Mas não se podia ter virado costas. Uma página de vergonha na história de Portugal. Para esquecer, o que é difícil.

 

Mas, esta deveria ser uma Carta do Brasil. A saudade leva-me para África, e daqui a ter que me lembrar dos (in)capazes, os (ir)responsáveis pelo tal (des)governo que teve consequências dramáticas.

 

Veio muita gente de Angola e Moçambique para o Brasil. Não posso garantir se a maioria ficou ou acabou regressando a Portugal. Os que ficaram, quando descobrem alguém que andou por aquelas terras, ganham logo um novo amigo, e a conversa vai voando para as gambas de Luanda ou do Alto Maé, uma pescaria na baía de Benguela ou em Vilanculos, o encontro dos três mundos na Ilha de Moçambique, a beleza da Tunda Vala ou da Gorongosa, e acaba sempre com uns finos, que aqui são chopes! Há um não sei quê que veio d´além-mar que envolve as pessoas ad aeternum e de onde não adianta fugir, o que aliás ninguém quer. As recordações daquele tempo são muito fortes.

 

Ir à Bahia, onde veio viver e acabou morrendo o grande pintor angolano e muito querido amigo Albano Neves e Sousa, é quase uma viagem a Angola. Apesar da grande influência do Candomblé, trazido da região do Benin, em cada canto há um jeito de ser angolano, um requebro, um ensaio de capoeira. E, dando à cidade do Salvador um toque de magia, de conto de fadas, as baianas, gordas ou magras, velhas ou novas, impecavelmente vestidas de branco, só me lembram as mamanas de Luanda, imponentes nos seus trajes impecavelmente pretos.

 

Estas vendiam legumes, frutas e pescado. Às vezes uns doces que a garotada adorava. Aquelas vendem acarajé, um bolinho feito de feijão fradinho, frito em azeite de dendém, servido com molho de pimenta, cebola e camarão! Uma delícia afro-baiana.

 

Em todas o mesmo sorriso simpático, as mesmas palavras carinhosas que nos deixam ficar suspensos no meio do Atlântico, desejando voltar aos tempos de menino e pedir que uma Mãe Preta nos acarinhe e cante uma cantiga de ninar!

Nestas condições eu até me proporia ser menino de novo!

 

FGA-O DIA.jpg

Jornal “O Dia” – 01/06/99

 

***

 

ALÔ! ALÔ! ESTÁ LÁ?

Lusíadas, Canto III, 5

Camões.jpg

 

Além disso, o que a tudo enfim me obriga

É não poder mentir no que disser,

Porque de feitos tais, por mais que diga,

Mais me há-de ficar inda por dizer.

 

Este intróito só pretende levar os leitores a ficarem com maior certeza de que o que escrevo, pode ter mais ou menos floreados, mas mentira não é. Pode ser inacreditável, anedótico ou triste conforme o ângulo ou a disposição de quem lê, mas é verdade.

 

A minha opinião sobre este imenso país está expressa, impressa e divulgada. Tem um povo maravilhoso, mas... de vez em quando, como diz um primeiro ministro muito conhecido nessa terrinha, isto parece a famigerada república das bananas.

 

No caminho do progresso e da desburocratização, o governo tem privatizado tudo quanto pode. Bem ou mal vai deixando de ser empresário, péssimo empresário aliás, para procurar centrar as suas atenções no óbvio. Assim pensam muitos como eu que acham que o governo, quase sempre desnecessário – a Itália já o demonstrou - tem que se preocupar com a saúde e educação e pouco mais. O resto é acessório, como por exemplo justiça, já que as leis dos homens... feitas pelos poderosos, dificilmente são igualitárias para os pobres ou miseráveis.

 

Continuemos a privatizar. Privatizou-se a rede de telefonia, dividindo-se o país em diversas áreas, separando-se a telefonia tradicional, fixa, da celular, móvel, e passou-se esse serviço para empresas concessionárias, entre as quais está um grupo português. Aplausos.

 

Há dias procedeu-se à separação do “que é de quem” introduzindo-se prefixos vários dando a opção ao usuário de servir-se de uma ou outra prestadora desses serviços.

 

Os jornais, tv, rádio, outdoors, indicavam mais ou menos: fale pelo 27 que é melhor, ou ligue pelo 35 que é o máximo, etc. sem que alguma explicitasse qual ou quais as vantagens de utilizar esta ou aquela servidora. Mas, tudo bem, brasileiro é paciente e aguardou para ver o que a concorrência lhe proporcionaria, se é que...

 

“Um... Dois... Três!” A partir das zero horas do dia “D”, felizmente na noite de sexta para um sábado, entrou o novo sistema em acção. Foi o fim da macacada! O sistema embananou-se de tal forma que ninguém conseguiu fazer uma ligação interurbana! Ligava-se para as informações e a resposta, mecanizada, informatizada, respondia as mesmas parvoeiras que na véspera! Ligava-se para a nova empresa e ela respondia o mesmo, isto é, nada. Todos perdidos. Um caos! Ninguém se entendia. E assim se passou o sábado e domingo.

 

Segunda-feira o assunto, como é evidente, era manchete nos jornais, nos noticiários de tv, etc. Afirmava o presidente da Anatel – Agência Nacional de Telecomunicações – órgão governamental encarregado de supervisionar e fiscalizar o serviço das concessionárias, que a culpa era das ditas. Estas, que era daquela. O ministro da justiça – letra minúscula é melhor - atribuía o desastre ao Ministério das Comunicações, zangavam-se os dois, e o problema, resolver-se é que nada.

 

Vai levar uma semana a normalizar! informaram os órgãos de informação!

 

Ao fim de quase quatro dias, sexa, o Presidente da República decidiu intervir, pessoalmente. E montou um circo. Informação presente e os dois ministros em causa: Então o que se passa com as ligações interurbanas? Quero isso pronto em 72 horas.

 

Brilhante! Já o público estava informado que as empresas iam levar 72 horas para resolver a vergonha, quando o Presidente, energicamente, exigiu o mesmo prazo. Vejam lá se não é comovente! Dá a sensação que o governo durante os primeiros quatro dias não sabia o que se passava!

 

Dá para conceber um país de 180 milhões habitantes ficar com os telefones todos, todos não, mas três quartas partes deles, sim, sem conseguirem comunicar-se? Não dá.

 

O defeito terá sido no programa do computador. Como sempre o computador é que paga! Mas mexer num sistema que funcionava muito bem sem que se tivesse testado exaustivamente primeiro um outro, não parece coisa de empresas de primeiro mundo!

 

Três dias depois, as reclamações oficialmente registradas - em Portugal seriam registadas - eram cento e quarenta e quatro mil cento e oitenta e duas! Isto porque o brasileiro é bom, calmo, paciente, e está já condicionado a ter que esperar, sofrer e, no fim... pagar! Porque se fosse na Alemanha que tem só 60 milhões de habitantes, as reclamações teriam sido 20 milhões, admitindo que cada lar tem três habitantes! Nem um só se calaria. Exigiriam que o Bundesverfassungsgericht propusesse ao Oberlandesgericht que demitisse o Bundesregierung e ainda os membros do Bundestag e do Bundesrat, e apoiariam em uníssono o regresso de outro Hitler para arrumar a casa!

 

Mas aqui... não é a Alemanha, graças ao bom Deus que será brasileiro, segundo se diz e até se acredita. Mesmo que se procurasse com uma lupa não se encontraria nenhum Hitler, e se por milagre do demo aparecesse, não estaria disponível! Mas no que tange a Bundes... ahh! isso é outra história, porque enquanto na Alemanha as bundes parece pertenceram exclusivamente à política, aqui, com uma ligeira tradução, bundas, são altamente democratizadas. São de todo o povo, e por isso, neste país jamais alguém se atreveria a demitir uma única bunda! Pelo contrário.

 

Alô! Alô! Está lá? Não. As Bundas estão cá!

 

Então? Deus é brasileiro ou não é?

 

Pequeno léxico para ajudar os menos práticos na língua tedesco-política:

 

Bundesverfassungsgericht – Tribunal Federal Constitucional

Oberlandesgericht – Suprema Corte

Bundesregierung Governo Federal

Bundestag – Câmara baixa.

Bundesrat – Câmara alta.

 

 

Junho 1999

 

Francisco Gomes de Amorim

Francisco Gomes de Amorim

LIDO COM INTERESSE – 68

Maimónides.jpg

 

Título – O MÉDICO DE CÓRDOVA

 

Autor – Herbert le Porrier

 

Tradutora – Clara Alvarez

 

Editora – Bizâncio

 

Edição – 5ª, Junho de 2016

 

O médico judeu Moisés Ben-Maimon, conhecido no Ocidente por Maimónides, nasceu em Córdova em 1135 e morreu aos 69 anos no Cairo, corria o ano de 1204, depois de a errância o ter levado – com o pai e o irmão – a Fez e à Palestina.

 

Nesta história, cujo narrador é o próprio Maimónides, o autor confessa que, consultados os documentos históricos, foi fiel ao espírito mas não à letra produzindo uma obra de divulgação histórica de muito fácil leitura. Admito que o trabalho tenha partido de um amontoado de informação bruta que o vulgar leitor (eu, por exemplo) se recusaria a folhear e a ler sequer por alto.

 

Para além do pai do nosso personagem central, o rabi Maimon, ficamos a saber coisas interessantes sobre o muçulmano Averróis (Ibn-Rushd) muito pouco ou mesmo nada religioso que Maimónides sempre teve na mais alta consideração e que tomou por mestre desde os 12 anos, sobre o muçulmano de origem berbere (?) nascido em Algeciras de seu nome Al-Hajib al-Mansur por cá conhecido por Almançor que se gabava de ser analfabeto e sobre o curdo Saladino (Salah-al Din Yusuf) que ao conquistar o Egipto se «agarrou» ao nosso herói para dele beber o máximo de cultura.

 

Portanto, com excepção do bruto conquistador almóada da Península, todos eram personalidades da mais elevada cultura. E como nesta história não dá para distinguir com exactidão onde acaba a realidade comprovável pelos estudiosos para começar a imaginação do autor, tudo se enquadra na plausibilidade do que temos como verídico no âmbito do confronto das Civilizações, i. e., das Religiões, ao nível do esmero cultural de cada uma dessas personagens.

 

Trechos que chamaram a minha atenção:

 

Não eras, como eu, educado de pais para filhos para enfrentar a adversidade; não pertencias ao meu povo que nunca deixou extinguir o pavio da esperança no auge da tempestade, no mais escuro da noite. Há mais de doze séculos que temos um encontro capital marcado a que não podemos faltar: no ano que vem, em Jerusalém. (...) Terás certamente notado que nunca invoquei Deus. Ele terá a sua hora. Tem-nas todas. (pág. 13)

[No âmbito da Civilização] quando o fio carnal tinha interrupções, no vínculo do espírito não havia hiatos. (pág. 99)

Um judeu a fingir que é muçulmano para salvar a pele? Mais vale um cão vivo que um leão morto. Os Árabes são senhores da forma e nada distingue, à primeira vista, uma forma vazia de uma forma cheia. Que nos pedem? Que digamos que Alá é grande e que Maomé é o seu Profeta. (...) tudo é permitido desde que não nos deixemos apanhar. (...) cada um é livre de se empenhar à sua maneira no caminho da salvação. (pág. 121)

Para além de ter cortado a cabeça ao responsável máximo da Universidade de Córdova, Almançor mandou queimar a biblioteca num alegre auto-de-fé para gáudio da populaça, ou seja, dos que não tinham [tido] acesso à festa, [para] o prazer daqueles que o prazer [da cultura] havia excluído. (pág. 130)

A constante da nossa herança [judaica] era o hábito do provisório. O exílio não deveria constituir excepção. (pág. 143)

O que é um povo?, interrogava-se o meu pai. São muitos homens que se alimentam do mesmo reservatório de língua e de cultura, que se submetem sem esforço a um complexo de tradições idênticas, que se reclamam duma história comum e dum futuro convergente. (pág. 161)

Averróis descurava o rito da oração. Encontrava-se preso na contradição irredutível entre o peripatetismo e o dogma corânico, principalmente no que respeitava ao conceito da criação. – Que Deus tivesse feito o mundo a partir do nada, era inconcebível para um espírito humano pois nada pode nascer do nada, como nenhuma quantidade pode estar contida no nada, a menos que desviemos a noção de nada do seu significado essencial. (...) Ao que Maimónides respondeu que não convinha tomar à letra a palavra revelada e que havia que a aceitar como pura alegoria. (pág. 164 e seg.)

Que idiotas são os que nos atacam por errarmos pelo mundo. (...) faço questão de me afastar do seu caminho pois nunca ninguém convenceu um idiota da sua idiotice. (pág. 197)

 

Estas, algumas das «coisas» que despertaram o meu interesse. Muitas outras passagens, quiçá mais importantes, ficam à disposição do futuro leitor desta curiosa obra. A não perder.

 

Setembro de 2016

 

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Henrique Salles da Fonseca

TEORIA ECONÓMICA APLICADA

 

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É um dia calmo numa pequena cidade da Irlanda. Está a chover e as ruas estão desertas. Os tempos são de crise, toda a gente deve dinheiro e vive a crédito. Chega à cidade um rico turista alemão, dirige-se ao único hotel e põe uma nota de 100 dólares[1] em cima do balcão, dizendo ao proprietário que deseja inspeccionar os quartos para escolher um para passar a noite.

 

O dono do hotel entrega-lhe as chaves de vários quartos e assim que o visitante sobe as escadas, o hoteleiro pega na nota de 100 dólares e vai à loja ao lado para pagar a sua dívida ao dono do talho. Este, pega na nota e corre rua abaixo para pagar o que deve ao Criador de porcos, seu fornecedor. Este, por sua vez, pega na mesma nota e vai a correr pagar a sua dívida ao fornecedor de rações. Este, pega nos 100 dólares e corre para pagar a sua conta no pub da terra. O dono do bar, discretamente, entrega a nota à prostituta que frequenta o bar que, também vivendo tempos difíceis, tinha sido obrigada a fazer uns “servicinhos” a crédito. Esta corre para o hotel e paga a conta do quarto que habitualmente utiliza.

 

O dono do hotel volta a colocar a nota de 100 dólares em cima do balcão quando, momentos depois, o turista alemão desce as escadas dizendo que os quartos que viu não lhe agradam, pelo que vai seguir viagem. Apanha a nota de 100 dólares e deixa a cidade.

 

* * *

 

Ninguém produziu nada, ninguém ganhou nada. Contudo, todos pagaram as suas dívidas e encaram o futuro com muito mais optimismo!

 

Eis a circulação monetária no seu melhor!

 

Autor Anónimo.png

 

(recebido por e-mail, Autor não identificado)

 

[1] Para evitar qualquer conflito cambial, podem substituir dólares por euros, ienes, rublos ou yuans.

MAIS UM LUSODESCENDENTE

 

 OS PORTUGUESES NO MUNDO

 

“Em todas as partes do mundo por onde andei, ao ver uma ponte perguntei quem a tinha feito, respondiam «os portugueses»; ao ver uma estrada fazia a mesma pergunta e respondiam: «os portugueses». Ao ver uma igreja ou uma fortaleza, sempre a mesma resposta: «portugueses, portugueses, portugueses».

Desejava pois que, da acção francesa em Marrocos, daqui a séculos, fosse possível dizer o mesmo dos franceses...”

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Marechal Lyautey*

In http://lusosucessos.blogspot.com/

 

*Louis Hubert Gonzalves Lyautey (17 Novembre 1854 à Nancy - 27 Juillet 1934 à Thorey) est un militaire français, officier pendant les guerres coloniales, Résident Général au Protectorat français du Maroc en 1912, Ministre de la Guerre lors de la Première Guerre Mondiale, puis Maréchal de France en 1921, académicien et Président d'honneur des Scouts de France. Sa devise, empruntée au poète anglais Percy Bysshe Shelley, est restée célèbre : «La joie de l'âme est dans l'action».

(Wikipédia)

AFINAL, O QUE SOMOS?

 

 

 

«A ultrapassagem do metafísico pelo positivo só se sustentou enquanto este último viveu da herança dos estádios anteriores (teológico e metafísico). Porém, o sucessivo afastamento e descuido em relação àquelas fontes deixou-o animicamente esvaído e eticamente desamparado».

 

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Este raciocínio de D. Manuel Clemente a págs.40 e seg. do seu livro “PORQUÊ E PARA QUÊ – Pensar com esperança o Portugal de hoje” assenta como uma luva à geração pós-moderna actual.

 

Contudo, a ética cristã de solidariedade e benevolência para com o próximo, de honradez e de trabalho, tem uma versão laica que pergunta, com enorme simplicidade, «o que é que eu posso fazer por ti sem o prejudicar a ele, esse terceiro que nem sequer conheço?». E esta atitude não carece de fundamento teológico.

 

No início do século XX, a sociedade portuguesa vivia numa quase hierocracia e foi contra esse domínio que a laicização da ética tentou abrir caminho. Mas não terá conseguido vingar no ambiente de iliteracia que então reinava e hoje, passado um século, continuamos a padecer as consequências desse desencontro.

 

Uma população tutelada pela ameaça da ira divina, não teve arcaboiço para se harmonizar eticamente sem tutela num espaço que se pretendia republicano, responsável. Aos portugueses, iletrados e habituados a uma estrutura social muito parametrizada, foi então pedido que assumissem uma plena cidadania. Mas, na verdade, nada lhes foi pedido: foi-lhes consumado o facto e, desenquadrados, deixados entregues a si próprios.

 

E como as elites republicanas se limitaram a copiar as homólogas monárquicas que as tinham antecedido digladiando-se em lutas renhidas pelo Poder, o vulgo continuou ignaro, não opôs resistência quando o mandaram morrer na Flandres e não fez «cara feia» quando apareceu alguém disposto a pôr ordem onde se instalara a desavença constante, o «tira-te tu para me pôr eu», a falência.

 

Seguiu-se nova parametrização social, rigor financeiro, resfriamento das vontades que se apresentavam aquecidas.

 

Essa parametrização durou 40 anos. Tantos como agora levamos de militância pós moderna.

 

Teremos entretanto conseguido fundamentar a liberdade de que queremos usufruir empreendendo uma síntese do que aprendemos entretanto para nos retomarmos como humanidade? Tenho esta como a questão portuguesa historicamente mais pertinente.

 

Ou será que não aprendemos nada? E andará por aí alguém com poder de síntese?

 

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Henrique Salles da Fonseca

SEMPRE ACTUAL

 

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AGRICULTURA, A RESPOSTA DE BENTO XVI PARA A CRISE ECONÓMICA


 

A crise económica actual, sobre a qual se tratou também nestes dias na reunião do chamado G20, deve ser concebida em toda a sua seriedade; esta tem numerosas causas e exige uma revisão profunda do modelo de desenvolvimento económico global (cf. encíclica Caritas in veritate, 21). É um sintoma agudo que se somou a outros também graves e já bem conhecidos, como o perdurar do desequilíbrio entre riqueza e pobreza, o escândalo da fome, a emergência ecológica e, actualmente, também geral, o problema das greves. Neste quadro, parece decisivo um relançamento estratégico da agricultura. De facto, o processo de industrialização às vezes ensombrou o sector agrícola, o qual, ainda contando com os benefícios dos conhecimentos e das técnicas modernas, contudo, perdeu importância, com notáveis consequências também no campo cultural. Este parece ser o momento para um convite a revalorizar a agricultura, não em sentido nostálgico, mas como recurso indispensável para o futuro.


Na situação económica actual, a tentação para as economias mais dinâmicas é a de recorrer a alianças vantajosas que, contudo, podem acabar sendo prejudiciais para os Estados mais pobres, prolongando situações de pobreza extrema de massas de homens e mulheres e esgotando os recursos naturais da Terra, confiada por Deus Criador ao homem – como diz o Génesis – para que a cultive e proteja (cf. 2, 15). Além disso, apesar da crise, consta que nos países de antiga industrialização, se incentivam estilos de vida marcados por um consumo insustentável, que também acabam prejudicando o ambiente e os pobres. É necessário dirigir-se, portanto, de forma verdadeiramente concertada, a um novo equilíbrio entre agricultura, indústria e serviços, para que o desenvolvimento seja sustentável, não falte pão para ninguém e para que o trabalho, o ar, a água e os demais recursos primários sejam preservados como bens universais (cf. Caritas in veritate, 27).


Para isso, é fundamental cultivar e difundir uma clara consciência ética à altura dos desafios mais complexos do tempo presente; educar-se num consumo mais sábio e responsável; promover a responsabilidade pessoal junto à dimensão social das actividades rurais, fundadas em valores perenes, como o acolhimento, a solidariedade, a partilha do cansaço no trabalho. Muitos jovens já escolheram este caminho; também muitos licenciados voltam a dedicar-se à empresa agrícola, sentindo responder assim não somente a uma necessidade pessoal e familiar, mas também a um sinal dos tempos, a uma sensibilidade concreta pelo bem comum.

Cidade do Vaticano, 14 de Novembro de 2010

 

Bento XVI em Fátima.jpg

Bento XVI

PÁTRIA PEQUENA

 POEMAS MAIATOS

 

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GUEIFÃES

 

 

Desponta a manhã

Da Senhora da Saúde

E Gueifães é uma festa.

Dancemos também

De roda, no adro

Aproveitando o tempo que nos resta

Já que o Hoje

Foge apressado

E o Amanhã

Trará a partida…

 

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Loiras searas pedem a ceifa.

Cachos maduros chamam a vindima.

Por ti,

Clamam meus olhos e meus braços

Neste tempo de colheita…

 

Maria Mamede.jpgMaria Mamede

O CINTO DA NOSSA CASTIDADE

 

As críticas à política de redução da despesa pública só fazem sentido por parte de quem considera que o pagamento das dívidas é «coisa de criança». Ora, o poço sem fundo que esses críticos julgam existir é mais uma ilusão que apenas revela o irrealismo de quem crê que o dinheiro nasce do prelo. Não, o dinheiro é o resultado da produção de bens e serviços, transaccionáveis ou não, mas sempre tendo origem no esforço de alguém que não a rotativa da moeda falsa.

 

Se conjugarmos a política de consolidação orçamental no sentido da anulação dos défices anuais e dos acumulados com a da restrição monetária para evitar o crescimento dos preços na espiral doentia por que já passámos, então a emissão monetária assume dimensões que quem nos conduziu ao colapso apelida de cilício ou até aponta como o cinto da nossa castidade.

 

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A crítica que temos de aceitar é a de que no meio de todo o processo de financiamento das dívidas soberanas dos Estados mais perdulários há movimentos especulativos na certeza, porém, de que por enquanto nos resta pagar o que devemos (menos prosaicamente, «servirmos a dívida») e não esbracejarmos muito para conseguirmos que nos respondam positivamente enquanto formos progressivamente pedindo cada vez menos até que os saldos primários sejam positivos e possamos então começar a reduzir o stock total da dívida.

 

A pureza não especulativa dos capitais que nos financiam (e aos outros perdulários deste mundo) é matéria a que Dominique Strauss Kahn ameaçou dar tratamento e todos fomos testemunhas da «estrangeirinha» que alguém lhe armou; o ostracismo a que James Tobin foi remetido em Yale lá pelos idos de 80 do século passado também há-de querer dizer qualquer coisa... Sim, é desejável que cheguemos a um acordo a nível dos 27 Estados europeus com vista à taxação dos movimentos transfronteiriços de capitais especulativos. Mas de momento interessa sobretudo cuidar do acesso de Portugal aos meios necessários ao financiamento dos seus défices e menos avaliar as intenções dos proprietários desses mesmos capitais cuja origem se deseja transparente. Mas para ter acesso a esses meios de cobertura das suas necessidades, torna-se imprescindível que Portugal pague atempadamente as suas dívidas sob pena de deixar de merecer a confiança dos seus credores e o pagamento atempado dessas dívidas só se consegue no imediato pelo recurso a capitais alheios, sucessivamente menores até que desnecessários. Gerir as taxas de juro não é coisa que um devedor maneje com desenvoltura. Eis por que a Taxa Tobin poderia ser importante nesta altura.

 

Tudo para concluir que o «modelo de desenvolvimento» por que voltámos neste 2016 a trilhar em direcção ao abismo tem que ser modificado de modo a que regressemos à produção dos bens transaccionáveis que entretanto nos habituámos a importar pois só desse modo poderemos reduzir défices externos, criarmos as condições para abrandar e anular o ritmo de endividamento externo do sistema bancário e recuperarmos a credibilidade externa que já por diversas vezes nos falhou. Sempre falhou quando a política foi – e voltou agora a ser – de fomento da Procura e desleixo da Oferta.

 

Mas esta reviravolta só seria possível acordando uma população adormecida pelos «cantos de sereia» que a demagógica compra de votos (nos sucessivos actos eleitorais) fez soar ao longo de quase 40 anos e, num país como o nosso que deve bater o recorde europeu na propensão marginal à importação, o primeiro toque de alvorada tinha que seguir a pauta da drástica redução do consumo. Este, também, um dos motivos para restringir os meios internos de pagamento, ou seja, o não incremento da massa salarial global.

 

Daqui resulta obviamente um grande desconforto entre os consumidores e isso desde a base social até às elites.

 

A solução está à vista: redução drástica da despesa pública corrente e relançamento da produção de bens transaccionáveis com firme incremento do empreendedorismo da juventude saída das Universidades que merecemos.

 

Enquanto não optarmos por modelo produtivo e deixarmos de formar a juventude em cursos balofos, resta-nos apertar o cinto da nossa desbragada castidade na espera duma putativa redenção por obra de milagre que a razão não produz.

Henrique Salles da Fonseca

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