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A bem da Nação

«A SORTE PROTEGE OS AUDAZES»

 

COMANDOS

 

Por incrível que pareça, é com este lema do Corpo de Comandos do Exército Português (*) que Fritz Heinemann conclui o seu capítulo sobre a teoria do conhecimento na obra monumental que organizou denominada “A FILOSOFIA NO SÉCULO XX”[1] que saboreei durante mais de dois anos com a lenta gula típica dos aposentados que não encostaram às boxes e que são donos do tempo.

 

Ao contrário de muitos filósofos que «falam difícil» quais pitonisas predizendo o futuro dos clientes por palavras abstrusas cuja semântica dava para cobrir qualquer realidade que futuramente viesse a acontecer, Heinemann é claro e qualquer economista reformado ou no activo o compreende. Merece ser lido lentamente; prosa de sabor e de saber.

 

É, pois, pela sua prosa enxuta que se fica a saber que foi na Idade Moderna que a teoria do conhecimento se autonomizou como Ciência chegando mesmo a destronar a metafísica antiga e a teologia medieval da posição de disciplinas fundamentais. E o que faz a teoria do conhecimento? É John Locke que o diz: investiga «a origem, a certeza e os limites do conhecimento, conjuntamente com os fundamentos e graus da crença, da opinião e do nosso assentimento ao ajuizar».

 

São questões como o conceito de verdade, de falso, de racionalidade, de empirismo, de definição das fronteiras entre todos estes (e outros) conceitos que interessam à teoria que agora nos move. Encurtando razões, o autêntico problema da teoria do conhecimento é o aspecto do conteúdo do saber, por oposição à Lógica que se dedica ao formalismo mas se abstém de ajuizar o conteúdo.

 

E como se isto fosse «coisa» fácil, dá para perceber que não faltou quem ao longo da História se empenhasse em enrodilhar os cenários.

 

Hoje, como sempre aconteceu, também há muito quem debite «urbi et orbe» farta verborreia sobre todas as questões propalando sabedoria ou ignorância, sensatez ou maluqueira na tradição dos sempiternos «fala baratos» a necessitar de serem postos na ordem. E, por isso, o aparecimento de quem se dedicasse a teorizar sobre o conhecimento fazendo o «ponto da situação» sobre o que é o conhecimento e a sua ausência.

 

Foram muitas as paragens para que tivéssemos chegado à situação actual em que sabemos existirem várias verdades. Ou melhor, várias classes de verdades. Basta referir a verdade matemática, a verdade científica, a verdade teológica…

 

E caminhamos das teorias monovalentes do conhecimento dos idos platónicos em que a verdade era identificada com um Ser até à teologia medieval de S. Tomás de Aquino que a fez coincidir com – e apenas com – Deus («A verdade não está só em Deus; Deus é a própria verdade, a verdade soberana e primária») na suposição de que a cada palavra pertence uma essência e apenas uma; passamos às teorias bivalentes do conhecimento com a distinção entre a verdade empírica e a racional, ambas contrárias ao falso; concluindo pela polivalência do conhecimento… 

 

Sem nos deixarmos enrodilhar por tautologias, pleonasmos ou outras redundâncias, centremo-nos no essencial do conhecimento polivalente reconhecendo que há conhecimentos complementares, verdadeiros por si próprios e compatíveis com os demais.

 

Um conhecimento polivalente deve investigar os diferentes valores qualitativos e quantitativos em jogo assim se abrindo um campo inesgotável de investigação. Ou seja, partindo daquilo a que se chama «proposições de crença» (o inglês “feeling”, o português “cheiro”), investigam-se as condições mediante as quais essas bases se podem transformar em «proposições de conhecimento». Tudo isto, passando por axiomas, hipóteses e tanto por postulados teóricos como pela observação de factos empíricos até se chegar àquilo a que entretanto se convenciona chamar a verdade objectiva. Até que outro caminho descubra outra verdade e assim sucessivamente, com a investigação sempre a incidir na explicação dos fenómenos até então ocultos.

 

Tudo, afinal, partindo duma crença, base fundamental de todos os conhecimentos filosóficos, lógicos, matemáticos, científicos, religiosos, artísticos, etc.

 

Assim se vê como Platão e S. Tomás, esses teóricos estaminais do conhecimento monovalente, estão hoje distantes.

 

Sim, dá para crer em que só os audazes se lançarão na labiríntica quantidade de caminhos a desbravar para, lá longe, no infinito, se alcançar finalmente a verdade.

 

Henrique Salles da Fonseca.png

Henrique Salles da Fonseca

 

[1] Ed. Fundação Gulbenkian, 2010 (7ª edição) pág. 283 e seg.

(*) Frase de Virgílio.

CARTAS DO BRASIL – 1

 

 

Reprodução de algumas “Cartas do Brasil” escritas em 1999 e publicadas no defunto jornal “O Dia” de Lisboa.

 

Curioso notar como os problemas, dezassete anos depois, permanecem, infelizmente, actuais.

 

Dessas “Cartas” fez-se um livrinho e, à laia de introdução escrevi o “Porquê” das ditas.

 

Aqui vão algumas.

 

RIO DE JANEIRO

 

O PORQUÊ DESTAS “CARTAS”

 

Porquê? Primeiro, porque me apeteceu escrevê-las! Elas representam a opinião de um imigrante português, a quem o Brasil, como sempre e a todos, abriu as portas e os braços.

 

As fronteiras do mundo vão caindo e, mais do que nunca, qualquer cidadão, estrangeiro ou não, deve participar activamente no processo de desenvolvimento do país onde vive.

 

O convencional xenofobismo para com os portugueses, desenvolvido basicamente durante o período do império, se foi desagradável, e ainda o é, mas já raro, para os patrícios, teve a virtude de unir à volta da figura do Imperador, sobretudo D. Pedro II, os dezoito Estados de que se compunha então o jovem país, uma monarquia perdida num mundo tropical, cheio de problemas e de novos e revolucionários conceitos de liberdade e republicanismo que estavam a conquistar o mundo. O Reino, aliás Império do Brasil, pôde assim ter-se mantido como o maior país da América do Sul.

 

Se não se tivesse conseguido encontrar um inimigo comum, contra quem unir o povo, o país talvez se tivesse dividido em mais dezoito republiquitas, algumas miseráveis, como aconteceu com os territórios de língua castelhana.

 

Por essa razão, e só por essa, creio que foi útil ter-se criado, muito artificialmente, o tal inimigo público! Na ocasião era de bom-tom mudar-se o nome de Costa, ou Pereira ou Araújo para Ipiacaba, Paraguaçu ou Tibiriçá, para ser brasileiro autêntico, ignorando-se a maioria da população negra, porque já não era de bom-tom ter-se um Imperador de escravos!

 

Se deste modo o Brasil atingiu os objectivos que ambicionava, ainda bem que descobriram um inimigo dentro da família! Não houve que dar satisfações a ninguém mais. Foi uma briga de família, que está sanada.

 

Apesar de tudo, e individualmente, o brasileiro sempre teve, e tem, muito carinho pelos portugueses. Quem não tem um pai, tio, avô, bisavô ou bisavó português?

 

Quem não está sempre sonhando em poder, um dia, quando?, visitar a terra dos seus antepassados, comer um bom chouriço e beber um copo de vinho tirado da pipa?

 

No fundo, bem lá no fundo, todos têm esse sonho, irrealizável, infelizmente, para a grande maioria da população.

 

O imigrante português tem uma característica que possivelmente lhe é quase exclusiva: a terra que o acolhe é tão sua como a que o viu nascer. Nela trabalha, luta, vibra, cria raízes e família e por ela dá a sua vida.

 

Os problemas que a afligem tiram-lhe também o sossego e o sono. Discute política e economia com o mesmo fervor que outro qualquer natural. E porque não?

 

As opiniões manifestadas nas “Cartas”, que foram publicadas em jornais de Portugal, tiveram como finalidade ajudar a denunciar e criticar a prepotência e erros dos mandões, sempre procurando deixar bem clara a minha extrema simpatia por um povo simples e com um coração grande, aberto, imenso, tal como as suas intermináveis fronteiras o configuram.

 

Por isso o Brasil é assim: AME-O OU DEIXE-O.

 

Dezembro, 1999

 

***

 

FGA-O DIA.jpg

 

ALÔ! MEU BEM!

 

Ninguém sabe ao certo há quanto tempo o homem chegou a estas regiões brasílicas. Dez mil? Vinte mil? Quinhentos mil anos? O que importa? A culpa de tudo o que acontece é, efectivamente, de uma tal Eva, africana, que terá sido a mãe de toda a humanidade!

 

Como devem calcular, os queixumes e lamúrias deste povo não vão tão longe, até porque não tem bem a certeza de que essa senhora tenha sido sua antepassada! Mas os portugueses, esses sim, continuam sendo, ainda hoje, 177 anos depois do grito que o senhor Pedro I / IV terá dado às margens do Ipiranga, por alguns mentecaptos complexados, acusados de muitas das desgraças do país. Os arrependidos destes antepassados suspiram: Ah! se tivéssemos sido colonizados pelos ingleses...

 

Acho que têm razão, porque se em vez de portugueses aqui se tivessem estabelecido ingleses, holandeses, ou outros, os problemas talvez nem teriam começado. Explico: em primeiro lugar a história mostra que o único europeu que se aguentou neste clima bravo foi o português, o que não é de todo verdade. Quem se aguentou mesmo foram os filhos que ele foi deixando, cruzamentos com qualquer outra raça. Mamelucos e mulatos e depois a mistura entre estes, que absorveram a cultura, pouca ou muita dos pais, a sua determinação e grande adaptabilidade e a resistência e a afabilidade das mães, naturais dos trópicos. E de toda esta mistura fez-se um povo que pode ter muitos defeitos (quem não tem?) mas onde ninguém sequer vislumbra a menor hipótese de um dia poder surgir um confronto racial. Desde o mais escuro, com pele azulada ao mais branquela, tipo finlandês, olhos escuros ou azuis, todos bebem caipirinha, dançam o samba, dividem o mísero espaço das favelas, dos bairros de classe média ou outros e são todos brasileiros.

 

Isto significa que se os tais pioneiros, portugueses, não se tivessem aguentado e lutado bravamente para expandir até aos Andes a sua área de actuação, o Brasil hoje seria... o quê?

 

Viver nos Estados Unidos, ou até em Portugal pode ser muito melhor em termos económicos, mas onde é que por esses lados se encontra alguém, que nunca se viu e com quem se vai tratar de negócios, ou nos atender numa loja ou somente vender o bilhete do ónibus e que, em vez de falar secamente sem sequer nos olhar de frente, nos trata por Meu bem, Meu amor, envolvendo-nos numa doçura que nos faz pensar sermos o Tarzan? E ninguém faz isto com intenção maldosa ou inequívoca. É natural. É simpático. É humano. É Brasil.

Só esta ternura vale pelo calor que se sofre durante o Verão, e não só. Não alivia a miséria, mas atenua as agruras da vida, parecendo que nesta terra sempre tem uma mãe extra para nos acarinhar.

 

Ainda hoje telefonei para uma empresa reclamando sobre um disparatado aumento dos preços dos seus produtos, e a dona Lurdes, do departamento de vendas que me atendeu, só me dizia: Meu bem, eu acho que eles (aqui o “eles” eram os seus patrões!) não sabem o que fazem. Eu se fosse cliente deixava de comprar os nossos produtos e eles então iam ver! Olhe, meu amor, vou lhe dar o telefone dum representante nosso que talvez o possa ajudar!

 

A dona Lurdes pode não ser a melhor escrava que a empresa precisa, mas é no mínimo uma mulher corajosa, sensata e extremamente simpática! Não sei se alguma vez vou ter oportunidade de conhecer pessoalmente esta senhora, mas amanhã vou mandar-lhe uma rosa. A rosa aliás nada vale perto da sua simpatia!

 

Um dos grandes males deste país é a ganância. Todos querem enriquecer, hoje! Pudera, não. O governo interfere constantemente na economia e não permite que se façam planos a médio prazo. O longo então é inexistente.

 

A máquina administrativa além de ineficiente (como em todo o lado tem funcionários óptimos, infelizmente minoria) cria leis para complicar o empresário, o trabalhador e o próprio funcionário público, beneficiando unicamente os fiscais, que como varejeiras proliferam nesta terra. E inventam maneira de extorquir alguma coisa de quem quer trabalhar.

 

Uma dessas fiscalizações levou há dias de um supermercado mais de duzentas caixas de produtos alimentícios de um só fabricante, para conferir se os pesos estavam dentro do indicado! Diz a lei que podem levar até trinta, trinta, peças de cada produto para estabelecer a média! Por aqui já se vê como é fácil! Muito bem, no fim de exaustivo exame oficiaram ao fabricante, mandando rectificar a embalagem onde encontraram um item passivo de autuação, por não estar de acordo com a lei: a abreviatura de grama não pode ser gr mas sim g. Assim se zela pela segurança do consumidor!

 

No mesmo dia uma senhora, para aproveitar uma destas tardes frescas que de quando em vez tornam o Rio um paraíso de temperatura, foi para um jardim em frente em sua casa passear com um netinho de um ano de idade. Bébé no colo. De repente um impacto. Uma bala perdida, vinda lá dum morro qualquer, acertou a criança que morreu. Incrível, horroroso, inaceitável. Não adianta perguntar onde Deus estava naquele momento. Em todos os momentos do dia, em toda a parte do mundo, parece que Deus não está em lugar algum. Talvez esteja arrependido de ter descansado no sétimo dia. Algo ficou imperfeito. O homem.

 

Os morros do Rio são uma desgraça. Onde nem o Exército entra. Os morros, as favelas, são territórios autónomos que vivem sob o absoluto comando do tráfego de drogas, onde crianças de dez e doze anos manejam metralhadoras de guerra como quem brinca com um carrinho de plástico. Dinheiro para brinquedos para as crianças pode não haver. Mas não falta para comprar qualquer tipo de armamento. Até lança mísseis já lá foram encontrados.

 

É o mundo cão.

 

No meio de tanta confusão quem não gosta de ouvir de uma desconhecida, numa voz doce e melodiosa: Alô, meu bem!

 

FGA-2OUT15.jpg

Francisco Gomes de Amorim

 

 

Jornal “O Dia” – 12/05/99

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