Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

A bem da Nação

DIÁLOGO COM UM JOVEM À RASCA

 

jovem à rasca.jpg

 


- Então, foste à manif da geração à rasca?

– Sim, claro.

- Quais foram os teus motivos?

– Acabei o curso e não arranjo emprego.

- E tens respondido a anúncios?

– Na realidade, não. Até porque de Verão dá jeito: um gajo vai à praia, às esplanadas, as miúdas são giras e usam pouca roupa. Mas de Inverno é uma chatice. Vê lá que ainda me sobra dinheiro da mesada que os meus pais me dão. Estou aborrecido.

- Bom, mas então porque não respondes a anúncios de emprego?

– Err...

– Certo. Mudando a agulha: felizmente não houve incidentes.

- É verdade, mas houve chatices.

- Então?

– Quando cheguei ao viaduto Duarte Pacheco já havia fila.

- Seguramente gente que ia para as Amoreiras.

- Nada disso. Jovens à rasca como eu. E gente menos jovem. Mas todos à rasca.

- Hum... E estacionaste onde? No parque Eduardo VII?

– Tás doido?! Um Audi TT cabrio dá muito nas vistas e aquela zona é manhosa. Não. Tentei arranjar lugar no parque do Marquês. Mas estava cheio.

- Cheio de...?

– De carros de jovens à rasca como eu, claro. Que pergunta!

– E...?

– Estacionei no parque do El Corte Inglés. Pensei que se me despachasse cedo podia ir comprar umas coisinhas à loja gourmet.

- E apanhaste o metro.

- Nada disso. Estava em cima da hora e eu gosto de ser pontual. Apanhei um táxi. Não sem alguma dificuldade, porque havia mais jovens à rasca atrasados.

- OK. E chegaste à manif.

- Sim, e nem vais acreditar.

- Diz.

- Entrevistaram-me em directo para a televisão.

- Muito bom. O que disseste?

– Que era licenciado e estava no desemprego. Que estava farto de pagar para as reformas dos outros.

- Mas, se nunca trabalhaste, também não descontaste para a segurança social.

- Não? Pois... não sei.

– Deixa-me adivinhar: és licenciado em Estudos Marcianos.

- F***-se! És bruxo, tu?

 – Palpite. E então, gritaste muito?

– Nada. Estive o tempo todo ao telemóvel com um amigo que estava na manif do Porto. E enquanto isso ia enviado mensagens para o Facebook e o Twitter pelo iPhone e o Blackberry.

- Mas isso não são aparelhinhos caros para quem está à rasca?

– São as armas da luta. A idade da pedra já lá vai.

- Bem visto.

- Quiriquiri-quiriquiri-qui! Quiriquiri-quiriquiri-qui!

– Calma, rapaz. Portanto despachaste-te cedo e ainda foste à loja gourmet.

- Uma merda! A luta é alegria, de forma que continuámos a lutar Chiado acima, direitos ao Bairro Alto. Felizmente uma amiga, que é muito previdente, tinha reservado mesa.

- Agora, os tascos do Bairro aceitam reservas?

– Chamas tasco ao Pap'Açorda?

– Errr... E comeram bem?

– Sim, sim. A luta é cansativa, requer energia. Mas o pior foi o vinho. Aquele cabernet sauvignon escorregava...

– Não me digas que foste conduzir nesse estado.

 – Não. Ainda era cedo. Nunca ouviste dizer que a luta continua? E continuou em direcção ao Lux. Fomos de táxi. Quatro em cada um, porque é preciso poupar guito para o Verão. Ah... a praia, as esplanadas, as miúdas giras e com pouca roupa...

– Já não vou ao Lux há algum tempo, mas com a crise deve estar meio morto, não?

– Qual quê! Estava à pinha. Muita malta à rasca.

- E daí foste para casa.

- Não. Apanhei um táxi para um hotel. Quatro estrelas, que a vida não está para luxos.

- Bom, és um jovem consciente. Como tinhas bebido e...

– Hã?! Tu passas-te! A verdade é que conheci uma camarada de luta e... bem... sabes como é.

– Resolveram fazer um plenário?

– Quê? Às vezes não te percebo.

- Costuma acontecer. E ficaram de ver-se?

– Ha! Ha! Ha! De ver-se, diz ele. Não estás a ver a cena. De manhã chegámos à conclusão que ela era bloquista e eu voto no Portas. Saiu porta fora. Acho que foi tomar o pequeno-almoço à Versailles.

- Tu tomaste o teu no hotel.

- Sim, mas mandei vir o room service, porque ainda estava meio ressacado.

- Depois pagaste e...

– A crédito, atenção. Com o cartão gold do Barclays.

-... rumaste a casa.

– Sim, àquela hora a A5 não tinha trânsito. Já não havia malta à rasca a entupir o tráfego.

- Moras onde? Paço d'Arcos? Parede?

– Passas-te, ou quê…!? Que horror! Não, não. Moro na Quinta da Marinha, numa casita modesta que os meus pais se vêem à rasca para pagar. Para a próxima, levo os comigo.

 

Rui Herbon.jpg

Rui Herbon

LUGAR AOS MAIS NOVOS

Presidente Marcelo.jpg

 

Dei-me conta de que há quatro Ex-Presidentes da República entre nós, a saber: Eanes, Soares, Sampaio e Cavaco. Acontece o mesmo em outros poucos países, como nos Estados Unidos. Temos aí: Carter, Bush (Pai), Bill Clinton, Bush (Filho) e Obama. É sinal de que o espírito democrático está bem arraigado entre nós, respeitando as instituições e, sobretudo, a Constituição, apesar de todas as imperfeições que possa conter.

 

O Presidente Marcelo parece querer inaugurar uma nova era: a de um só mandato, o que é interessante; tratar-se-ia de dar lugar ao ‘Senhor que se segue’. Se por algum motivo as democracias mais evoluídas impuseram um limite de dois mandatos, parece legítimo concluir que foi para evitar cargos ‘vitalícios’ e bom mesmo seria um só mandato, e o segundo como excepção apenas.

 

Ouvi aos colegas nos tempos da Universidade, mais metidos na política, comentarem que Salazar tinha frustrado ambições de muitos políticos, que quereriam ascender a cargos de topo, por ter ficado de pedra e cal por mais de 40 anos. Estar muito tempo, pode facilitar o trabalho, dar poder e domínio sobre os circuitos de mando. E, querendo, pode o incumbente ser reeleito indefinidamente, em especial quando o regime é de ‘liberdade condicionada’.

 

Os inconvenientes disso são óbvios: os governantes também se estagnam, perdem flexibilidade e não entendem os novos tempos e exigências; além disso, por melhor que tenham governado, um novo dirigente pode ajudar a sarar mais depressa as feridas criadas pelas decisões do passado, fomentando a reconciliação, por não ter sido parte implicada.

 

Nalgumas situações poderá justificar-se ou ser ‘obrigatório’ fazer os dois mandatos, para não fugir às responsabilidades: é claramente o caso de Eanes no tempo pós-revolucionário, com a democracia jovem e frágil e ‘alguns’ a verem o ‘cavalo do poder’ passar-lhes justinho à porta… Também no caso dos outros três ex-Presidentes, para consolidarem a democracia. Mas o actual Presidente já pode iniciar uma fase nova da democracia adulta.

 

O actual Presidente tem abundado em distribuir afecto. Inaugurou um novíssimo estilo de aproximação do cidadão, com presença nos acontecimentos relevantes; muitos considerarão como banalização da intervenção. E democratizou, muitos dirão popularizou, o reconhecimento dos bons serviços, com condecorações para as mais variadas modalidades e gostos, concedidas ao longo do ano todo, sem esperar por um qualquer novo dia ‘da raça’. Importa que haja muito reconhecimento; as pessoas motivam-se assim a continuar com elevado nível de prestação, excedendo-se no esforço.

 

A eleição por sufrágio universal para o cargo, para actuar em brevíssimos momentos de situação pré-crise, e pouco mais, parece demasiado para fazer pouco. Por isso, pode ser bom o Presidente intervir mais, onde for oportuno: para elevar o tom e dignificar os acontecimentos. Se houver exageros já se auto-limitará. Melhor mais do que menos.

 

Além dos dotes de inteligência, vem preparado: Professor de Direito; comentador na TV, ‘viveu’ a política... Tudo isto dá um à-vontade para intervir com autoridade e ter um raciocínio arguto, rápido e treinado na geração de alternativas e na sua avaliação, ao tratar de encarar situações-problema delicados…

 

Vivendo com intensidade o papel de Presidente, o seu trabalho profissional deixa uma nota de exigência para cada cidadão para que realize também o seu trabalho com dedicação, pondo entusiasmo, para se realizar profissionalmente e desfrutar dele.

 

Servir o país como Presidente deve ser esgotante; um mandato de cinco anos dá para fazer o importante. Outros que vierem depois farão a sua parte. Carter e Bush (Pai), antes referidos, foram para mim os melhores Presidentes daquele elenco; deixaram boas recordações e foram os únicos do grupo com um só mandato.

 

Eugénio Viassa Monteiro.jpg

Eugénio Viassa Monteiro

Professor da AESE-Business School e Dirigente da AAPI-Ass. de Amizade Portugal-India

 

Também publicado no Público

Mais sobre mim

foto do autor

Sigam-me

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2019
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2018
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2017
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2016
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2015
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2014
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2013
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2012
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2011
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2010
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2009
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D
  144. 2008
  145. J
  146. F
  147. M
  148. A
  149. M
  150. J
  151. J
  152. A
  153. S
  154. O
  155. N
  156. D
  157. 2007
  158. J
  159. F
  160. M
  161. A
  162. M
  163. J
  164. J
  165. A
  166. S
  167. O
  168. N
  169. D
  170. 2006
  171. J
  172. F
  173. M
  174. A
  175. M
  176. J
  177. J
  178. A
  179. S
  180. O
  181. N
  182. D
  183. 2005
  184. J
  185. F
  186. M
  187. A
  188. M
  189. J
  190. J
  191. A
  192. S
  193. O
  194. N
  195. D
  196. 2004
  197. J
  198. F
  199. M
  200. A
  201. M
  202. J
  203. J
  204. A
  205. S
  206. O
  207. N
  208. D