Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

A bem da Nação

E SE KANT SOUBESSE ARITMÉTICA?

 

Oráculo de Delfos.png

 

 

As guardiãs do templo encarregavam-se de transmitir aos crentes as respostas dos deuses. Faziam-no por palavras vagas e sentidos amplos de modo a que todas as realidades que no futuro o problema respondido pudesse assumir ficassem cobertas pelas sábias respostas. Os deuses nunca se enganavam e o comércio divino ficava assegurado.

 

Embuste puro.

 

A clareza da comunicação está na razão directa da seriedade do comunicador e só embusteiros podem afirmar que a clareza se confunde com inocência.

 

Antes de agarrarmos na caneta (ou de começarmos a mexer os dedos sobre o teclado), temos que definir exactamente o que queremos dizer. Em primeiro lugar, temos que saber como a «história acaba» pois a escrita é a construção do silogismo que conduz à conclusão. Se assim não for, a divagação impera, a leitura cansa, os jogos de palavras ridicularizam o escritor, a mensagem esvai-se e corre-se o risco da crítica de que andamos por cá apenas a consumir oxigénio.

 

«E tudo espremido, deu em nada» – eis o que muito me apetece dizer quando leio certos filósofos que mais parecem pitonisas ou holandeses errantes ao leme de navio fantasma: parece não saberem onde querem chegar, não têm uma rota definida, jogam com as palavras como se fossem poetas, escrevem frases longuíssimas que parecem destinadas a levar o leitor à errância. E aplicam palavras de quilo demonstrando grande erudição, o que logo retrai a crítica.

 

Nós, os leigos que pagamos impostos, ficamos espantados com tanta sapiência, gastamos o chão a caminho dos dicionários da nossa própria língua e chegamos ao fim com a consciência de grande ignorância, se não mesmo de estupidez: fé no oráculo e espanto frente à pitonisa.

 

E, contudo, as coisas podiam ser muito mais fáceis. Corria-se o risco de perda do encanto perante raciocínios de grande erudição sobre conceitos tão gerais que só um deus concebe mas, em compensação, haveríamos de perceber a filosofia com relativa facilidade, a escrita enxuta seria a norma e a transparência dos raciocínios atrairia mais crentes.

 

E como os maiores filósofos da História tinham outras profissões que não essa diletância de andarem pelos jardins a filosofar, aqui fica a sugestão para quem optou dizer-se filósofo profissionalizando-se nesses pensamentos que de tão elevados ninguém de bom senso lhes chega: agarrem num desses filósofos e decomponham-lhes as frases de modo inteligível pelo comum dos mortais.

 

Mas antes de iniciarem a tarefa, vão aprender um pouco de aritmética e de matemática elementar pois todos sabemos que uma frase tem que ter sujeito, predicado e complemento directo mas caso este falte, conclua-se a frase com reticências para que tudo fique na tal vacuidade tão ao vosso gosto, filósofos de profissão.

 

E se se considerar que uma vírgula corresponde ao sinal mais (+) somando duas ideias e o «e» corresponde ao sinal vezes (x) conjugando duas ideias, tudo se torna mais lógico e enxuto. E não hesite em fazer frases curtas apenas com uma ideia pondo os conceitos complementares entre parênteses ou mesmo em notas de rodapé.

 

 

Prezado jovem filósofo de profissão: se tiver quem lhe pague rendas confortáveis, agarre-se à “Crítica da razão pura” do seu mestre Immanuel Kant e pode ter a certeza de que fica com trabalho para o resto da sua longa vida. Não ficará na História como um grande produtor de filosofias novas mas as hostes que lhe pagam as rendas hão-de ficar-lhe agradecidas por ter desmantelado um mito. Mas não explique, traduza apenas.

 

E se Kant soubesse aritmética? Eventualmente, os incrédulos tornavam-se crentes.

 

Barril-14AGO16-3.jpg

Henrique Salles da Fonseca

ÁFRICA - HISTÓRIAS E CONTOS

 

 

 

Ibondeiros.jpg

 

 

Angola, como todos os países africanos, usa muito provérbios. Faz parte inseparável da sua cultura e têm sempre uma profundidade grande. Vamos começar por um, angolano:

 

Muezu ua muadiakimi, a-u-sung ni ndunge (*)

Barbas de homem idoso, com jeito se puxam

(Com brandura, tudo se consegue)

 

Antes de continuar com contos tradicionais, duas histórias de portugueses em Angola, muito conhecidas da velha gente daqueles tempos, mas ainda hoje recordá-las é um prazer grande.

 

Henrique Galvão, que chegou a ser um homem da confiança do Salazar, depois o seu mais terrível adversário, foi preso em Lisboa, evadiu-se da cadeia, fez o primeiro sequestro mundial de um avião, da TAP, obrigando-o a ir para Casablanca, depois repetiu a iniciativa ao sequestrar o navio “Santa Maria” que deu um tremendo brado internacional, mas ninguém lhe pode negar que não tenha sido uma personalidade de valor. Meio louco como o seu compadre Humberto Delgado. Aliás, não simpatizavam um com o outro!

Delgado e Galvão.jpg

 

Quando Inspector Superior Ultramarino, numa das suas inspecções a Angola, quis visitar alguns Postos da Administração que jamais tinham sido inspeccionados por alguém.

 

Chega um dia a um desses postos, lá bem “perdido” no interior da savana africana; o Chefe do Posto, espantado, vê ao longe a poeira levantada por um carro, caso inédito, imaginando que seriam caçadores perdidos, espera que os viajantes desembarquem. Sai um deles que se lhe dirige e se apresenta:

- Henrique Galvão, Inspetor Superior Ultramarino.

O Chefe de Posto sabia que nunca ali tinha ido qualquer superior a ele, desconfiado, pensa que é piada e responde:

- Não precisa vir com essa conversa de Inspector, que aqui jamais veio gente dessa. Mas nem por isso deixarei de o receber o melhor que posso, neste fim do mundo onde tudo falta. Mas “papo” de Inspector é que não tem graça!

 

Henrique Galvão gostou da atitude do jovem Chefe de Posto, que acabou por saber que era mesmo o “chefe máximo” da Administração Ultramarina, elogiou-o e parece que depois o promoveu!

 

Lá no canto sudeste de Angola havia um outro Posto, junto à fronteira com o Sudoeste Africano, hoje Namíbia, igualmente isolado do mundo dos brancos e cuja função, além da política de ocupação, era mandar relatórios mensais sobre as actividades da sua área: chuvas ou secas, quantos nascimentos, quantas mortes, do povo e do gado, eventuais doenças que não havia nem brigas entre etnias, enfim um sossêgo, para que se fosse tendo noção do que ali se passava e, talvez, talvez, se fizesse no fim uma estatística geral de Angola! De mentirinha.

Como é de calcular, esses relatórios não tinham qualquer valor porque os nativos não iam ao Posto declarar nascimentos e mortes, nem informavam quantas vacas ou cabras tinham nascido. Era tudo “conversa fiada”, mas o Chefe do Posto tinha que enviar, mensalmente, um relatório com esses dados para o Administrador da Circunscrição que ficava talvez a uns 200 ou 300 quilómetros de distância. Essa entrega era confiada a um cipaio, uma espécie de polícia rural, a maioria analfabeta. Chamava-se a esse relatório, uma carta, mukanda!

 

Todos os meses o cipaio tinha que percorrer centenas de quilómetros e levar as mikanda, que, possivelmente o Administrador nem lia.

 

O Chefe do Posto de tantas mandar acabou por considerar aquilo um trabalho idiota e talvez inútil e decidiu agir de outra “melhor” forma: escreveu meia dúzia de pré monitorados relatórios, envelopou-os todos, com as datas exteriores programadas e bem destacadas, entregou-os ao cipaio e disse-lhe:

- Como você sempre fez, continuará a ir todo o mês levar uma mukanda à Administração. Eu vou deixar todas as mikanda aqui, e você, uma vez por mês tira a de cima e leva.

- Tá bem, patrão.

O Chefe deixou o Posto onde nada havia para fazer, passou a fronteira e foi passar uns meses de férias em Portugal, certo de que ninguém daria por isso.

 

Mas o cipaio, no começo do terceiro mês, olhou para as mikanda, ainda havia três para entregar, e pensou:

- Para quê ir lá todo o mês. Vou só mais uma e levo logo tudo.

 

Se bem pensou. assim o fez e a manobra foi descoberta! O Chefe já não retornou ao Posto!

 

Os contos tradicionais africanos, quer sejam de Angola ou de outro país são quase sempre de animais, por onde se tiram lições para os humanos e revelam um profundo conhecimento da vida animal e as transpõem, com humor, para a dos homens.

 

Um tigre voltava para casa depois de um dia a caçar, quando de repente se encontra num curral de carneiros. O tigre que nunca havia visto um carneiro, aproximou-se com ar humilde e perguntou: “Como te chamas, amigo?”

 

O carneiro, com a sua voz rouca e colocando uma pata no peito do tigre respondeu: “Sou um carneiro. E tu quem és?” “Um tigre”, respondeu cheio de medo. Mais morto do que vivo, despediu-se do carneiro e correu para casa.

 

Um chacal vivia perto da casa do tigre e este disse-lhe: “Amigo chacal, estou sem alento e meio morto do susto, pois acabo de me encontrar com um animal de aspecto horrível, com uma grande cabeça, que me disse com uma voz rouca: “Sou um carneiro.”

Mas tigre que tonto és!” gritou, rindo o chacal. “Deixar escapar um pedaço de carne tão tenra e assustar-se por um carneiro! Porquê? Amanhã de manhã iremos lá os dois e o comeremos juntos.”

 

No dia seguinte caminharam os dois para o curral do carneiro e quando este, que havia saído para ver onde encontrava comida fresca, viu que no alto do morro apareciam o tigre e o chacal, temeu que aquilo acabasse mal, correu para avisar a sua esposa, e disse-lhe: “Temo que hoje seja o nosso último dia porque o tigre e o chacal vêm contra nós. O que vamos fazer?” – Não te assustes – disse a esposa – toma um dos filhos nos teus braços, sai com ele e belisca-o para que chore como se tivesse fome.” Assim fez o carneiro, enquanto os dois companheiros se acercavam. Quando o tigre voltou a ver o carneiro encheu-se de medo outra vez, queria voltar-se e ir embora, mas o chacal, prevendo isso, amarrou-se ao tigre com uma tira de couro, e dizia-lhe - “Anda. Segue-me ” - quando o carneiro gritou alto e forte enquanto beliscava o filho:

- “Fizeste bem, amigo chacal, de trazer-me este tigre para comer, pois ouves como chora o meu filho pela fome que tem?”

 

Ao ouvir estas terríveis palavras o tigre, apesar dos rogos do chacal, arrancou a correr cheio de pânico, o mais rápido que podia e arrastou o chacal por montes e vales, através de arbustos espinhosos e rochas chegando a casa com o chacal quase morto.

 

E assim se escapou o carneiro!

Zebras.jpg

Ikumbakumba yoñhosi ihai imbi engolo okunwa (**)

Os urros do leão não impedem a zebra de beber água.

 

(*) Provérbio quimbundo – Missosso – Vol 1 – Óscar Ribas

(**) Provérbio cuanhama – A sabedoria do povo Cuanhama – Padre Charles Mittelberger

 

06/06/2016

Francisco G. Amorim-IRA.bmp

Francisco Gomes de Amorim

Mais sobre mim

foto do autor

Sigam-me

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2019
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2018
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2017
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2016
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2015
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2014
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2013
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2012
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2011
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2010
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2009
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D
  144. 2008
  145. J
  146. F
  147. M
  148. A
  149. M
  150. J
  151. J
  152. A
  153. S
  154. O
  155. N
  156. D
  157. 2007
  158. J
  159. F
  160. M
  161. A
  162. M
  163. J
  164. J
  165. A
  166. S
  167. O
  168. N
  169. D
  170. 2006
  171. J
  172. F
  173. M
  174. A
  175. M
  176. J
  177. J
  178. A
  179. S
  180. O
  181. N
  182. D
  183. 2005
  184. J
  185. F
  186. M
  187. A
  188. M
  189. J
  190. J
  191. A
  192. S
  193. O
  194. N
  195. D
  196. 2004
  197. J
  198. F
  199. M
  200. A
  201. M
  202. J
  203. J
  204. A
  205. S
  206. O
  207. N
  208. D