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A bem da Nação

TEMPERAMENTOS FILOSÓFICOS

 

 

 

Já alguma vez lhe aconteceu chegar ao fim da última página de um livro e voltar logo de seguida à primeira? Pois foi o que me aconteceu com este livrinho de Peter Sloterdijk com apenas 103 páginas de texto. E fiz mesmo mais: reli também o prefácio para ter a certeza de que agora, sim, também ali, havia de saborear coisas que à primeira me pudessem ter escapado.

 

Peter Sloterdijk.png

 

O livro tem um subtítulo que o identifica como «um breviário de Platão a Foucault» e reúne os prefácios que Sloterdijk fez para cada filósofo integrado numa obra algo monumental com os principais textos originais dos 19 Autores bibliografados. Ficaram de fora Heidegger e Adorno cujos herdeiros, detentores dos respectivos direitos, não permitiram a reprodução dos textos seleccionados. Herdeiros também têm temperamento, não só os filósofos.

 

Sem lermos, portanto, a dita obra monumental com os principais textos originais – sem comentários de comentário a comentários – ficamos com uma panorâmica extremamente interessante (e sintética) do pensamento europeu desde alguns séculos antes de Cristo (Platão viveu entre 427 e 347 a.C.) e o pleno século XX (Foucault viveu entre 1926 e 1984).

 

E porque não ouso comentar, limito-me a respigar algumas das frases que chamaram a minha atenção.

 

Platão

(...) a filosofia logo no seu início é inevitavelmente uma iniciação ao grande, ao maior, ao maior que tudo; apresentou-se como escola da síntese universal; ensina a pensar o múltiplo e desmedido numa totalidade boa; é a introdução a uma vida sob um progressivo peso intelectual e moral; julga estar à altura da oportunidade de corresponder à crescente complexidade do mundo e à soberania intensificada de Deus através do esforço constante para alargar as almas; convida a uma mudança para uma nova construção muitíssimo espaçosa para a casa do ser; quer fazer dos seus alunos habitantes de uma Acrópole lógica; desperta neles o impulso para se sentirem em casa nas sete partidas do mundo.

 

Santo Agostinho

A alma do augustianismo sóbrio está maculada por uma corrupção insanável. Por isso, o trabalho da recordação do bem supremo terminará no conhecimento desesperado de que ela nunca mais pode reencontrar, pelas suas próprias forças, a participação incólume na luz do bem. (...) o amor de Deus já não tem sequer o carácter de uma dedicação que afirma uma simpatia universal e incondicional mas sim o de um indulto fortemente selectivo, condescendente. (...) Na esfera augustiniana, mesmo os mais pios retêm até ao fim razões para duvidar da sua salvação.

 

Descartes

O que foi a Guerra dos Trinta Anos se não o combate de meras verosimilhanças que saltaram dos seminários teológicos para os campos de batalha? (...) Simboliza como ninguém a vitória do engenheiro sobre o teólogo.

 

Leibniz

O universalismo leibniziano significa a (...) sucessão tipológica do mago da Renascença no cientista universal, barroco. (...) conduzir estes impulsos “fáusticos”, cujas formas selvagens desembocavam em charlatanice (...) Onde estava a magia há-de estar a politecnia. (...) Leibniz, o último, o mais brilhante e mais frio dos doutores fáusticos, aplanou o caminho ao cortejo triunfal de uma ciência não fáustica

 

Kant

Civilidade significa pôr-se do lado civil entre filosofia monástica e filosofia civil (...) no sentido do republicanismo erudito (...) em que o homem kantiano é de raiz o companheiro de espécie e, nessa medida, cosmopolita. (...) Exige-se a todo o indivíduo racional que actue não só como membro útil da sua sociedade nacional como também que dê provas igualmente, e sobretudo, como funcionário da espécie dotada de razão. (...) Na sua religião civil os santos hão-de se tornar juristas e os heróis, parlamentares.

 

Fichte

O ofício de pregoeiro foi descoberto e justificado no princípio segundo o qual a aquisição da liberdade significa nada menos do que uma ressurreição dos mortos – daqueles mortos que continuamos a ser enquanto vegetamos na idolatria da realidade exterior. (...) como há-de ser bem sucedido o entendimento entre os vivos que estão bem vivos e os mortos que vão vivendo? Como é que os não alienados se hão-de dirigir aos alienados? (...) não terão os vivos de desesperar sempre dos mortos recalcitrantes? (...) A guerra civil entre o espírito filosófico e o senso comum é uma constante da história cultural da Europa antiga. Mas enquanto os antigos sábios se ocultavam em resignação da massa imutavelmente estúpida, têm os modernos, como iluministas, de passar ao ataque pedagógico. Fichte, o autor da sublime falácia segundo a qual a vida do género humano avança segundo um plano fixo que será alcançado porque deve e tem de ser alcançado.

 

Hegel

Se o espírito mete ombros à tarefa da sua dispersão através dos tempos, é porque só ao longo deles amadurece até ao fim dos tempos e acima do tempo. A nossa afeição ao provisório deve perecer até que tudo se tenha transformado em cinza e saber. (...) poderão intelectos finitos, num qualquer modo enfatuado, estar no fim? Poderão eles, com razões que sejam mais que presunções vaidosas, afirmar de si próprios que eles próprios anunciam e encarnam o fim? (...) Bem pode a maioria dos mortais prender-se ao provisório e vegetar até ao fim da sua existência na obscuridade e na obstinação (...) o reconhecimento de todos por todos estaria formalmente consumado através do acesso de todos ao estatuto da cidadania.

 

Schelling

(...) estava finalmente entre nós alguém que conhecia os segredos de Deus, a falar a partir do absoluto. (...) muitos houve que fitaram as suas peças de bravura com o olhar de lagarto da mediania serena. (...) No grandioso afastamento das grandiosidades impertinentes da razão, dá-se a conhecer a assinatura do pensamento contemporâneo e da filosofia do «ainda não».

 

Marx

Compreender as inspirações marxistas significa debruçar-se sobre a história espectral dos conceitos que, enquanto poder que se tornou Estado, espírito que se tornou técnica e dinheiro que tudo liga, sugam mais do que nunca a vida dos indivíduos. (...) O núcleo da sua crítica da economia política é necromancia.

 

Sartre

Explicável apenas pela sua liberdade, o homem é o ser sem perdão. (...) a Igreja católica foi um asilo para todos aqueles que se viram desprovidos de solo firme. (...) A vanguarda entre os absurdos anónimos que constituem o núcleo da modernidade (...) adquiriu um ponto de apoio sólido em atitudes e na vida talhada à medida da moda.

 

E porque o rol já vai longo, por aqui me fico. Outras frases bem interessantes poderia transcrever mas tiveram que ficar no tinteiro as de Aristóteles, Giordano Bruno, Pascal, Schopenhauer, Kirkegaard, Nietzsche, Husserl, Wittgenstein e Foucault.

 

Quer conhecê-las? Leia o livro completo e não se vai arrepender:

 

TEMPERAMENTOS FILOSÓFICOS

Autor: Peter Sloterdijk

Tradutor: João Tiago Proença

Editora: EDIÇÕES 70, Lisboa

Edição: Fevereiro de 2012

Henrique Salles da Fonseca, Barril-8AGO15-2.jpg

Henrique Salles da Fonseca

NO RESCALDO DOS FOGOS

Funchal a arder.jpg

 

REGIONALIZAR E DEMOCRATIZAR A ECONOMIA

 

Exigências sem Orçamento económico que as acompanhe são Fogo-preso


Arouca ardeu e Portugal continua a arder, o povo sofre e protesta mas Lisboa não ouve, nem pode ouvir, porque se encontra demasiado longe da província e o governo está demasiado empenhado na plantação dos seus eucaliptais de ideologia. O povo, tal como a floresta, é passivo e portanto propício a ser sempre surpreendido pelas chamas dos interesses corporativos.

 

O Fogo consome a Caça e o Povo é posto à Caça de Gambozinos

 

O OBSERVADOR refere que já em 2005 Arouca perdera 90 quilómetros quadrados devorados pelas chamas do fogo sem que, em consequência disso, algo importante acontecesse. Agora que arderam “170 quilómetros quadrados” de Arouca – uma catástrofe para a fauna-flora e turismo - surgiram iniciativas exigindo limites à plantação de eucaliptos.

 

Sem um conceito económico base, feito pela Câmara a acompanhar as reivindicações e sem uma política governamental de aproveitamento económica das florestas nem um programa do governo de investimento florestal que sustente as reivindicações, tudo não passará de mais umas folhas de eucalipto a estalar nos ares da informação.

 

As medidas de reflorestação exigiriam, para se tornarem eficientes, um programa concreto geral do Ministério da Agricultura, Florestas e Desenvolvimento para investimento na floresta em parceria com os fundos europeus.

 

Propostas políticas que não tenham inerentes a elas um conceito económico que proporcione rentabilidade para lhes dar chances de aplicação serão destruídas pela briga política habitual que distrai do essencial para viver de regulamentações feitas em cima dos joelhos.

 

Concretamente, Arouca e o Governo, além dos industriais da zona deveriam elaborar um programa económico tendente a solucionar o problema dos incêndios na região. Esse programa poderia receber muitos milhões de euros dos fundos estruturais (e outros) da União Europeia. Para isso precisam-se, nas Câmaras, técnicos especializados em projectos de investimento que prestem apoio a iniciativas locais feitos em parceria com empresas ou proprietários locais e apoiados pela UE.

 

Aprender da Idade Média para democratizar a economia

 

Falo disto porque estou habituado a verificar que, na Alemanha, iniciativas culturais, ecológicas, de protecção de animais, de produção de energia renovável, etc. fazem acompanhar as suas exigências com propostas ou estratégias de aproveitamento económico ou são justificadas pela defesa do património histórico e cultural. Num tempo em que a economia é credo tornam-se inocentes medidas teóricas sem que mostre a possibilidade de servir a ecologia e a região sem proporcionar lucros económicos. Em cada Camara municipal terá de haver órgão conglomerador de iniciativas que reúna sob o seu tecto parcerias entre Camara, associações sem fins lucrativos e grupos económicos interessados em investimento. Projectos concebidos sob tal constructo têm imensas chances de conseguir meios económicos para as iniciativas que tomem em mão e implementem.

 

A ausência de uma política económica e ecológica para as florestas torna a discussão num lugar para o escape de sentimentos frustrados e um motivo de sorriso cínico para os Ministérios, se continuar na mesma óptica do passado. O corporativismo muito arraigado em Portugal e que se tem revelado muito útil para a maçonaria e para outros grupos, reverter-se-ia em benefício público se fosse organizado a nível camarário na tradição dos homens bons e de “Os 24 mestres do povo” que defendiam os interesses das profissões e das regiões. Talvez seja preciso voltar à Idade Média para democratizar a economia! Para isso há que tirá-la dos monopólios de corporações ideológicas para as disponibilizarmos em proveito do povo. Na Idade Média vimos na Casa dos 24 o surgir da ideia da democratização da economia (política regionalista) através dos interesses de uma burguesia surgente que se debatia contra os interesses monopolistas do clero e da nobreza.

 

Vamos nacionalizar e regionalizar os partidos!

 

Os políticos apoderaram-se do lugar do clero na sociedade e o grande capital ocupou o lugar da nobreza. Hoje para sermos modernos e para democratizarmos a economia será necessário reencontrar a ideia medieval da regionalização e da indústria regional, sendo, para isso, necessário acabar com os monopólios ideológicos que deixam a província arder enquanto se aquecem nas suas chamas no parlamento e nas centrais do poder. Os deputados das regiões terão de redescobrir o campo e a floresta e a não os trocarem pelos areais das ideologias partidárias com bom assento no parlamento.

 

Concluindo: No rescaldo dos fogos torna-se urgente democratizar e regionalizar a economia. Imagine-se que os representantes do povo passavam mais tempo em torno da terra e do seu povo e não se exilavam vivendo todo o tempo na capital em torno do partido e do parlamento.  A política que urge não é tanto nacionalizar bens e terras mas nacionalizar e regionalizar os partidos; então as ideologias abandonarão as suas honras e coutadas de interesses ideológicos para descerem ao povoado e se democratizarem e assim se possibilizar uma verdadeira democratização do povo e consequentemente uma democratização dos partidos.

 

Exigências sem um Orçamento económico que as sustente correm grande risco de se tornarem em espectáculos de Fogo-preso para agradar à vista muito longe de uma orto-praxia.

 

*O dinheiro que o Estado ganha ou pede emprestado é canalizado para os vales da administração, aquela que oferece sustentabilidade para os adeptos do partido. O dinheiro já não chega para pagar tantos empregados do Estado com horário de 35 horas nem para o pagamento das aposentações porque os funcionários do estado aposentados passaram a ser um número maior que os funcionários no ativo e a política do Estado não investe na produção real! Quem pode vai vivendo de quem pode menos, à imagem das labaredas dos fogos.

 

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António da Cunha Duarte Justo

 

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