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A bem da Nação

NAS SALSAS ONDAS

 

salsas ondas.png

 

 

Dizia-me há dias um amigo que nas férias, sem nada que fazer, lhe dá para escrever. Ao que lhe perguntei: - E do que mais gostamos do que de pensar? O texto que então me enviou acabava com a informação (cont.) que para mim significa que o prazer da aprendizagem não cessa ali. Aguardo os próximos…

 

Quanto a mim, já não distingo as férias das não-férias, os dias úteis dos outros (que, por exclusão de partes, devem ser inúteis), todas as horas de todos os dias são iguais e, como sou dono da minha agenda, tanto posso estar a estudar e a escrever às quatro ou cinco da manhã como a dormir às seis ou sete da tarde. Parece que o Doutor Salazar também fazia isso de estar a descansar (as pessoas importantes não dormem) a qualquer hora e estar a trabalhar quando todos os outros à sua volta estariam a dormir. De vigília? Não. Relativamente ao Doutor Salazar, quem estava de vigília era a PIDE; ele estaria a pensar e a decidir.

 

E cada vez mais me convenço que todas as horas são boas para aprender e que é frequente aprender alguma coisa quando menos se espera. Mas porque esse inesperado momento é isso mesmo, inesperado, todos os momentos em que descanso são putativamente perdidos no ganho de saber ou, no mínimo, de alguma sabedoria. Só que, dormir é necessário e não há que dormir menos do que o imprescindível para não se agarrar alguma moléstia cardíaca. Mais do que isso, é mândria. Vai daí, alguma aceleração atípica de um aposentado, o que também pode fazer mal ao coração.

 

Contudo, se todos estes argumentos aconselham ao abrandamento do ritmo, é um ditado popular que me alerta contra a aceleração: - Não é por muito madrugar que amanhece mais cedo.

 

E lá vem a aprendizagem inesperada. As últimas linhas do romance «A brasileira de Prazins» de Camilo Castelo Branco citam uma frase de Voltaire que me faz pensar redobradamente na volatilidade de todas as nossas preocupações: «Deixaremos este mundo tolo e mau tal qual ele era quando cá entrámos». Não sei se é verdade mas faz-me pensar.

 

E pensar é do que gosto tanto no alto da montanha como aqui onde estou, junto das salsas ondas.

 

Tavira, Agosto de 2016

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Henrique Salles da Fonseca

PORTUGAL A ARDER E...

 

 

Funchal a arder.jpg

 

Portugal arde no continente e até na ilha da Madeira; a devastação e os desastres são horríveis.

Em 2003 e em 2005 escrevi os textos abaixo a propósito de fogos:

 

Pegou  fogo! 

Ainda  a  propósito  e...  a  tempo?

 

Todos os anos a mesma cegada. Vem o verão, um calor insuportável, uma secura tremenda e aí está o país a arder.

Este ano, um dos anos mais quentes que a história regista desde há vários séculos, tinha que arder mais. E foi uma catástrofe. Grande parte fogo posto, grande parte os mesmos incendiários e, pelos vistos, por todo o lado a mesma insana benevolência, a que algumas almas obscuras chamam de direitos humanos, poupando duros castigos a semelhantes canalhas.

Há uns quinze anos ardeu uma grande parcela das matas da Serra de Sintra. O fogo andou por onde quis e o vento o levou mas, chegando a uma área de belíssimos cedros (uma das tais Pináceas), não entrou. Rodeou os cedros, que se limitaram a ficar chamuscados na orla, e seguiu adiante na sua destruição. Passada a desgraça lá restava imponente, de pé, ligeiras feridas do duro combate, uma, infelizmente pequena, mata de cedros, heróicos sobreviventes daquela violência.

A pergunta que surge de imediato a qualquer um: porque não se plantam mais cedros? Porque não se fazem “cinturões” ou “aceiros” de cedros, já que, por diversas vezes ficou demonstrado que estas árvores não deixam o fogo propagar-se, pelo menos com a impressionante velocidade dum pinhal ou eucaliptal?

A resposta é simples: um pinheiro ou um eucalipto levam pouco mais de meia dúzia de anos a crescer para corte - se entretanto o fogo não os devorar! - e um cedro uns trinta! Quem quer fazer investimentos a trinta anos?

Onde está o grande Rei (“R” maiúsculo!) D. Dinis? Imaginem que esse Rei tivesse a mentalidade tacanha que, de há muito, vem presidindo os destinos de Portugal? O que tinha acontecido? O mar já teria levado uma boa parte da costa e a grande epopéia que honra e mostrou ao mundo a fibra dos portugueses... nem sequer teria acontecido! Naquela altura ainda não se faziam embarcações em fibra de vidro.

Sempre ouvi dizer que governar é prever, segundo os chineses. Não será possível fazer um plano de reflorestação a 30, 40, 50 anos? Foi o tempo que demorou a completar a auto estrada Lisboa-Porto, iniciada pelo também Grande ministro o Eng. Duarte Pacheco no início dos anos 40. Se uma auto-estrada (auto-estradeca de 300 km!) leva 50 anos a concluir, o futuro do interior do país não pode ser planificado para um prazo desses?

Todos sabemos que depois do terreno queimado os problemas que se levantam são imensos e enormes: empobrecimento, erosão, assoreamento de rios e barragens, destruição total ou quase de todo o eco sistema, etc., mas insistir naquilo que todos sabem que não resulta - plantar somente pinheiros e eucaliptos - é sem dúvida estar a jogar dinheiro fora e continuar a pôr em risco a vida de muita gente e deixar para os vindouros um deserto!

Será isso que as gentes, e porque não os governantes, querem?

15/Set/03

 

Dois anos depois, 2005, voltei à carga:

 

Os  fogos  “populares” 

 

Há dois anos, grassava por Portugal um fogaréu imenso, como habitual, escrevi uma pequena crônica sobre os fogos, e lembrava um episódio que salvara uma boa área da serra de Sintra. Arderam eucaliptos e pinheiros mas o fogo não penetrou nos cedros.

Mandaria a lógica plantar mais cedros. Pelo menos fazendo com eles cortinas que pudessem conter a voracidade das chamas que sempre, sempre e cada vez mais, se declaram nesta época do ano em Portugal e não só. Temperaturas que rondam os 40° C e humidade do ar muita vez abaixo dos 30%, não há floresta que aguente.

Não se sabe qual o fenómeno que num passado não tão remoto, provocou, sempre no hemisfério norte, as glaciações com seus períodos interglaciares, mas o que se sabe é que com o aumento de temperatura do nosso planeta, e o também visível aumento da área de influência do deserto do Saara, somados à falta de limpeza das florestas e rarefação de agricultores, gente do campo, nas aldeias, que ao primeiro sinal de fumo acudia com baldes e boa vontade, a ameaça dos fogos só tende a piorar.

Vão talvez dizer que o problema não terá grande solução, visto que só se podem plantar pinheiros e eucaliptos, que são os que mais rapidamente crescem e melhor servem as celuloses!

Os que mais rapidamente crescem, vírgula, quando crescem, se o fogo os não destrói, o que está acontecendo com cada vez maior e mais rápida intensidade. As celuloses terão que estudar alternativas, porque entre material talvez não tão adequado - e nem saberia dizer se isto é verdadeiro ou não - e troncos queimados com terras cada vez mais improdutivas, a solução não parece difícil de tomar.

O projeto de conservação (?) das matas e florestas, em Portugal, é um projeto a prazo médio. Vinte, trinta anos. Talvez caro. Mas entre a hipótese de termos um país minimamente decente para os vindouros, ou um campo arrasado, queimado, improdutivo, e um gasto anual imenso para combater o incombatível, não parece haver muita dúvida no caminho a seguir.

Tem que plantar outras espécies a intervalos regulares. Porque não frutíferas? Até atraem alguma fauna, esta a flora, etc. Ou será melhor continuar a esterilizar as terras com a ganância da venda rápida de madeira (de paupérrima qualidade) ou aumentar os lucros das celuloses?

Tem muito engenheiro florestal que saberá dar uma reposta conveniente.

A pergunta que fica é simples, como a faria qualquer criança: porque não se começa a executar um tal plano? Não temos em Portugal engenheiros silvicultores capazes de elaborar, com muita rapidez, um plano destes, à escala até nacional? Temos, muito bons, com arquitetos paisagistas, à frente dos quais me atrevo a sugerir o prof. Gonçalo Ribeiro Telles. O que falta então? Vontade e força política? Para variar deve ser isso. Sempre a maldita política que, em nome do desenvolvimento do país, muitas vezes só isto faz: atrasa-o.

13-jul-05

 

 

Passam os anos e nada muda. Lembro outro episódio passado também há anos no Norte de Portugal. Grassava outro incêndio. A chefe dos Serviços Florestais conseguiu prender o incendiário e, de acordo a lei (direitos humanos e outras cretinices) entregou-a à polícia. Já não recordo o desenvolver do drama: ou a polícia ou o tribunal, ouviram o delinquente e... soltaram-no!

Hoje continua a passar-se o mesmo. E a “justiça” parece não perceber que esses delinquentes são ferozes assassinos. Destrói-se o meio ambiente, as propriedades particulares – casas e bens – morre gente queimada e... os assassinos ficam à espera da próxima oportunidade.

Ou há um lapso de dignidade, de lei ou de coragem para pôr esses energúmenos na cadeia por 40 ou 50 anos. Ou, para um tratamento mais rápido, ser levado de helicóptero e deixado no meio do fogo. Lá bem no centrinho onde o churrasco fosse mais quente. De certeza que a aprenderia... tostado.

Lembro ainda um juiz que proferia sentenças inéditas que eram criticadas nos jornais, sempre positivamente;

Uma delas: um jovem que ao andar nos carros elétrico (bondes) sempre tinha mão baixa para a meter nas bundas das jovens ou senhoras. Apanhado, preso, foi a julgamento. Sentença: durante dois anos não pode andar nos transportes públicos! Perguntaram ao juiz: E como ele se vai deslocar? – Nos mesmos transportes; mas vai ser o indivíduo mais bem comportado lá dentro. Se prevaricar apanha uns quantos anos de prisão!

Aceiros para evitar a expansão do fogo... não valem muito. Limpeza dos ramos secos nas matas... quem vai apanhá-los, como se fazia há 50 anos para ter lenha em casa?

As florestas estão cheias de combustível, a terra aquece cada vez mais, e ninguém parece querer ver mais além do que o “próximo ano”, pedindo aviões emprestados para ... para o que? Atenua? Talvez, mas não resolve.

Parece que quem comanda o país tem como lema “Deixa arder que eu pago!

É triste ver como se abandona o pouco que se tem.

 

11/08/2016

FGA-2OUT15.jpg

Francisco Gomes de Amorim

CURTINHAS nº CXLVII

 

equívocos & vistas curtas

 

  • Bons tempos aqueles em que bastava um Banco (ou qualquer outra sociedade comercial) manter intacto o seu Capital Social (isto é, as entradas de capital que os seus sócios realizavam, ou se comprometiam a realizar) para fazer o que melhor lhe aprouvesse.

 

  • Representasse, apenas, uma ínfima parcela do seu Balanço, fosse manifestamente insuficiente para absorver as perdas prováveis nos riscos a que se expunha – tanto se dava. Importante, importante mesmo, era não perder o Capital Social por efeito de má fortuna (leia-se: prejuízos acumulados).

 

  • E foi à sombra deste cânone que a Banca portuguesa viveu os seus dias de ouro, com Balanços em expansão acelerada e Capitais Próprios a marcar passo, o que proporcionava invejáveis rentabilidades – e instilava a ideia de excelente gestão.

 

  • O Acordo Basileia II (2006) veio anunciar o fim desses tempos – e a crise financeira internacional (2007-2010?) enterrou-os de vez.

 

  • Hoje em dia os Bancos têm de dispor de Capitais Próprios suficientes para absorver, não só as perdas já incorridas, mas também as perdas prováveis, mesmo em conjunturas bastante adversas. O Capital Social, esse, pertence irremediavelmente ao passado – uma vez realizado, não interessa para mais nada.

 

eduardo_de_martino_-_veleiro_em_alto_mar.jpg

 

  • Imagine, Leitor, um Banco como um veleiro: a dimensão do Balanço são as velas que, aproveitando o vento (os riscos a que o Banco se expõe), imprimem velocidade (lucros brutos); os Capitais Próprios são a quilha para lhe conferir estabilidade, mesmo com vento rijo (riscos elevados), mesmo no meio de tormentas (conjunturas especialmente adversas).

 

  • Actualmente, os Capitais Próprios de um Banco são vistos, antes do mais, como a garantia que os seus accionistas prestam a favor de quem tenha interesse directo legítimo na continuidade desse Banco (depositantes, obrigacionistas, outros credores).

 

  • E, para serem uma garantia que conforte capazmente, têm de estar investidos em activos facilmente liquidáveis e com valor realizável que não ofereça dúvidas.

 

  • A ideia, tão querida entre nós, de que o Capital Social é a primeira fonte de financiamento das actividades de um Banco não tem, assim, o menor fundamento – é um equívoco grave, mas, por cá, muito comum. Estamos todos a pagá-lo bem caro.

 

  • Voltando à CGD. Que necessita de maiores Capitais Próprios, é ponto assente. De quanto? Tudo dependerá: (i) das perdas já incorridas, mas que não estão ainda deduzidas aos Capitais Próprios (tarefa do Auditor Externo); (ii) das perdas prováveis a que se encontrar exposto o seu Balanço actual (tarefa do Supervisor); (iii) do modelo de negócio que vier a adoptar (tarefa do Accionista).

 

  • Os dois primeiros pontos são a herança do passado - o que está feito, está feito, não há volta a dar. O ponto verdadeiramente importante é, porém, o último: como enfrentar o futuro.

 

  • Ora, é precisamente aqui que entronca a tese segundo a qual “a missão da CGD é financiar a economia”.

 

  • Um equívoco mais, posto que a CGD tem outras missões para além de financiar: (i) é uma peça fundamental no nosso sistema de pagamentos (esta, aliás, a missão de longe mais importante); (ii) desempenha um papel muito relevante no incentivo ao aforro - quando emite instrumentos financeiros remunerados e resgatáveis à vista (Depósitos a Prazo).

 

  • Começando por aquela primeira missão. Tempos houve em que a CGD era “a Caixa Geral do Tesouro” – o que é dizer, a instituição em que o Tesouro depositava todos os seus haveres e através da qual fazia os seus pagamentos. Não mais.

 

  • Desde a década de ’80 que o Tesouro tem, ou pode ter, conta em qualquer Banco. Esta dispersão dos saldos do Tesouro impede que tais fundos sejam usados como um elemento estabilizador (e primeira defesa!) do mercado monetário interbancário em Portugal. Na ausência de um Banco de Tesouro (onde o IGCP se integraria), eis uma função que poderia muito bem ser confiada à CGD - onde, aliás, já esteve - com apreciáveis vantagens.

 

  • Os instrumentos financeiros resgatáveis têm, para os investidores/aforradores mais avessos ao risco (que são a grande maioría), uma dupla vantagem: para além de renderem, o emitente deve restituir na íntegra o capital investido, mesmo se liquidados antecipadamente.

 

  • É certo que Fundos de Tesouraria (Unidades de Participação) e Estado (Certificados de Aforro) também os emitem. Mas os Depósitos a Prazo, mesmo que rendam menos, oferecem: (i) uma segurança (a cobertura pelo Fundo de Garantia dos Depósitos, o facto de o Banco emitente dispor de Capitais Próprios que respondem pela dívida e ter acesso às facilidades de liquidez do Banco Central) que não está ao alcance das Unidades de Participação; (ii) uma flexibilidade (diversos prazos, resgate a qualquer momento) que os Certificados de Aforro, por serem Dívida Pública, não têm, nem podem ter (porque tal encareceria o respectivo custo do capital).

 

  • E quanto a financiar? Financiar o quê e como?

 

  • Nestes últimos 25 anos, a CGD pouco ou nada se distinguiu dos restantes Bancos Comerciais. Todos competiram por: (i) financiar o Estado; (ii) financiar a tesouraria corrente e alguns projectos de investimento de empresas; (iii) financiar a compra de habitação própria; (iv) financiar a compra, pelas famílias, de outros bens e de serviços. E, de quando em vez, também entravam no capital de empresas (lá tinha que ser).

 

  • O peso de cada uma destas, digamos, “linhas de negócio” ia variando ao sabor dos dias - e variava também de Banco para Banco. Mas, no essencial é um modelo de negócio centrado no financiamento da procura interna - cujos efeitos cedo (logo em 1999) começaram a ser visíveis: os desequilíbrios crescentes (e insustentáveis) da BTC têm origem nele.

 

  • A questão é esta: poderá a CGD prosseguir neste modelo de negócio? Não me refiro já aos efeitos nefastos na BTC. Tenho em mente, apenas, a sua solidez e estabilidade financeiras.

 

  • Um Banco financiar o seu próprio Estado deixou de ser bem visto: em conjunturas adversas (crises financeiras, etc.) a economia fica ainda mais fragilizada. Mas a CGD não está impedida de o fazer, desde que possa afectar à Dívida Pública em carteira Capitais Próprios que lhe permitam passar nos testes de stress (de EBA/BCE) sem comprometer a sua capacidade para continuar a financiar tudo o resto.

 

  • A CGD financiar o investimento empresarial? Certamente. Com duas ressalvas: (i) enquanto permanecerem no seu Balanço, estes empréstimos põem o sistema de pagamentos em contacto directo com riscos financeiros - o que é perigoso; (ii) o prazo médio dos seus depósitos é muito inferior aos prazos de financiamento mais adequados à generalidade dos projectos de investimento – e isso abala os alicerces da sua solidez financeira.

 

  • Tal como nos projectos de investimento, quem pretende comprar casa própria, não pede só dinheiro emprestado, pede também prazo para pagar (15 anos, ou mais). Ora, se estes empréstimos hipotecários forem mantidos no Balanço até serem integralmente pagos, a CGD não tem como se financiar nos mercados financeiros em prazos tão alargados.

 

  • Uma vez mais, é o desequilíbrio acentuado entre prazos de exigibilidade do Activo e prazos de exigibilidade do Passivo (no jargão técnico: mismatch) – e o risco de refinanciamento que lhe está associado - que poderá deitar tudo a perder ao primeiro sinal de crise.

 

  • Mas a hipoteca de imóveis não é uma garantia sólida que supre tudo isso? Sim e não. Vender um imóvel em execução de uma hipoteca, isoladamente, pode ser rápido e até por um preço satisfatório. Agora, vender de uma assentada muitos imóveis não é fácil, uma vez que, por cá, não existe um mercado imobiliário digno desse nome: o mais certo é os preços virem por aí abaixo - e o valor realizável do bem hipotecado não dar para cobrir o crédito em incumprimento.

 

  • A dura realidade, Leitor, é que as hipotecas (de casas e outras) não valem grande coisa em períodos de crise – e a CGD sabe isso melhor do que ninguém. Importa, pois, que o modelo de negócio escolhido a deixe bem preparada para enfrentar crises e conjunturas adversas.

 

  • Grande parte do crédito ao consumo tem por destino financiar a aquisição de bens e serviços importados. Por isso, não creio que seja a isto que a tese “financiar a economia” aluda. Acresce que, nesta linha de negócio, o risco de crédito é também extremamente sensível ao desemprego que acompanha as conjunturas recessivas – cujos efeitos negativos tende, aliás, a ampliar.

 

  • Todas estas quatro linhas de negócio acima resumidas têm em comum serem soluções de financiamento com endividamento. Para uma economia que se encontra há cerca de 15 anos em situação de sobreendividamento, é capaz de não ser muito avisado pretender relançar a CGD à custa de mais dívida do Estado, das Empresas e das Famílias.

 

  • Então, por que não orientar a CGD para a oferta de soluções de financiamento sem endividamento – como seja a subscrição de capital das empresas (Acções, Quotas)? Afinal, sempre ajudaria a recapitalizá-las, amortecendo-lhes o endividamento excessivo.

 

  • Por três razões principais: (i) em geral, Acções (e Quotas) não são aplicações elegíveis para os Capitais Próprios de um Banco (ver mais acima porquê); (ii) é um erro que se paga muito caro financiar com dívida (em larga medida, depósitos cujos prazos contratados raramente excedem 3 anos) posições de carteira que, por definição, não têm prazo fixado para o respectivo reembolso (como é o caso das Acções e das Quotas); (ii) se cada empréstimo bancário em Balanço torna o sistema de pagamentos (que deve ser mantido ao abrigo do mais ínfimo risco, recordo) vulnerável ao risco durante um prazo bem determinado, cada Acção (ou Quota) no Balanço mantém essa vulnerabilidade ad perpetuum.

 

  • Então, perguntará o Leitor, em vista de tudo isto, o que sobra?

     

    (cont.)

    Agosto de 2016

Palhinha Machado.jpgA. Palhinha Machado

 

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