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A bem da Nação

SITUAÇÕES ESPECIAIS

 

I

 2016-05-20-Portugal-selecao-nacional.jpg

 

Tenho uma cunhada doutorada em química que é investigadora numa Universidade no Canadá e anda com frequência a fazer conferências em Congressos da especialidade um pouco por toda a parte. Tão depressa está em Tóquio como em qualquer parte dos EUA, na Europa, etc.

 

Aquando da final do Europeu de Futebol, estava por acaso em Paris num desses Congressos onde teve que botar faladura sendo que a organização do certame decidiu fazer um intervalo nos trabalhos para se assistir à final França – Portugal. Foi ela a última oradora antes do intervalo e, para além de muito louvada pelo conteúdo da sua palestra, concitou também a simpatia geral por ser a única congressista da nacionalidade do «pequeno» País que iria nesse dia disputar a final do Campeonato Europeu de Futebol. Louvores importantes; simpatia por faits divers.

 

Havendo várias televisões espalhadas pelo recinto do Congresso para que os participantes se pudessem agrupar por centros de simpatia, com a minha cunhada apenas se solidarizaram os poucos italianos presentes; todos os demais congressistas aderiram aos favoritos franceses.

 

Mas quando Portugal se sagrou Campeão Europeu de Futebol, metade dos congressistas franceses deixou de falar à minha cunhada.

 

Se isto se passou com uma elite científica, dá para perguntar o que se passa de tão estranho na Nação francesa que inverte valores entre a importância duma brincadeira futebolística e a duma conferência científica de ponta a nível mundial.

 

Oxalá que não se passe nada de muito grave mas é claramente uma situação especial.

 

 

 

II

 

D. Manuel II usando as vestes da Ordem da Jarretei

 D. Manuel II usando as vestes da Ordem da Jarreteira (1909)

 

Decidiu Sua Majestade o Rei D. Luís condecorar Fontes Pereira de Melo. Reunido o Conselho das Ordens Honoríficas, foi o Rei aconselhado a conceder o grau de Grande Oficial da Ordem da Jarreteira ao seu Ministro.

 

Como era costume, o Rei concordou com a sugestão do dito Conselho mas logo decidiu que a cerimónia se realizaria no Palácio da Ajuda quase em segredo uma vez que, naquela Ordem, a fórmula de aceitação da condecoração implicava o juramento de fidelidade a Sua Majestade… o Rei de Inglaterra.

 

Claramente, uma situação muito especial que bem poderia ter sido evitada se o Conselho das Ordens Honoríficas se tivesse contido dentro das hipóteses condecorativas genuinamente portuguesas. Se o Rei tivesse recusado a insensata sugestão poderia ter “arriado uma grande bronca” mas evitaria o absurdo do juramento de fidelidade, perante si próprio, de um seu súbdito a um Rei estrangeiro.

 

Situação claramente especial se não mesmo absurda e recheada de ridículo. Inversamente, imagine-se o Rei de Inglaterra a condecorar um seu súbdito com o Grande Colar da Torre e Espada de Valor, Lealdade e Mérito ou com a francesa Légion d’Honneur...

 

 

III

 

Erdogan.jpg 

Para acabar, a situação mais especial que me preocupa verdadeiramente é a da «inventona» de Erdogan nesse país formidável que era a Turquia.

 

Apesar da purga contra a herança laica de Atatürk nas Forças Armadas, Erdogan vê-se na necessidade de decretar o «estado de excepção» o que pode significar que não se sente tranquilo. Mas também significa certamente que a islamização sistemática vai prosseguir, eventualmente com a reintrodução da pena de morte.

 

Adesão à UE comprovadamente morta, resta saber como vai a NATO reagir.

 

A ver vamos…

 

Para além de especial, é uma situação claramente dramática.

 

Como eu gostava da Turquia.

 

Julho de 2016

Henrique Salles da Fonseca, Barril-8AGO15-2.jpg

Henrique Salles da Fonseca

BREXIT

 

A derrota do sucesso

 

Ainda estamos a digerir o que sucedeu em Inglaterra desde o referendo de 23 de Junho. A começar pelos ingleses, pois cada vez é menos evidente se o Brexit vai avante. Por muitas razões.

 

Muita água correrá debaixo das pontes do Tamisa até surgir uma solução. Mas uma coisa é certa. Os critérios para explicar o fenómeno do Brexit não são económicos, nem financeiros nem sequer políticos mas sim culturais e vão até ao tutano do ser humano.
 

Desde 23 de Junho desenrola-se um espectáculo tão agitado quanto uma tragédia de Shakespeare, alimentado pelos demónios à solta da xenofobia, ganância, ressentimento e traição, e de uma falta total de bom senso e pragmatismo, tudo isto no país europeu que julgávamos corresponder a este estereótipo.

 

O poema Waste Land de T. S.Eliot aplicou-se nos anos 20 a uma sociedade devastada pelos desastres da Grande Guerra. Um século depois, a minha percepção do que se passa em Inglaterra é que uma sociedade também é devastada pelo sucesso.

 

Nenhuma praça financeira é tão orgulhosa quanto a City de Londres onde trabalham mais de meio milhão de pessoas. A City só tinha a ganhar em ficar na Europa. Mas a City perdeu no referendo.

 

Nenhuma monarquia europeia parece tão legítima e enraizada quanto a britânica. Mas a rainha Isabel II arrisca-se a ser a última do Reino Unido se a Escócia quiser ser independente e europeia.

 

E, sobretudo, nenhum povo europeu tem a reputação de ser tão democrático quanto os britânicos. Contudo, o dia 23 mostra o pior da democracia como ditadura da maioria que vai buscar legitimidade ao grotesco abuso de poder da maioria conjuntural.

 

Se uma maioria – mesmo qualificada – votasse restabelecer a pena de morte, quem acharia legítimo? 75% dos jovens britânicos votaram pela Europa e claro que são contra o fim de direitos como a liberdade de circulação no espaço europeu.

 

A democracia nunca deve ser uma ditadura da maioria, seja na região da Madeira, na Coreia do Norte, ou no Reino Unido. Não pode sujeitar-se a decisões conjunturais que se contradizem. O 1º referendo ao Brexit disse Não. O 2º disse Sim. Quase 5 milhões já pediram um 3º referendo mas seria ridículo e gravoso seguir esse caminho.

 

Uma consulta popular com implicações constitucionais exige uma maioria qualificada. E as constituições democráticas restringem algumas opções legislativas a fim de proteger pessoas e minorias. Em nome do bem comum que não pode ser destruído por demagogos.

 

Mas foi isso mesmo que sucedeu no 23/6. Após uma campanha de mentiras e xenofobia do lado dos Brexiteers e após uma campanha mole do Remain, a apontar os males da saída e nunca os benefícios da União. Boas razões havia de ambos os lados. Há sempre. Chama-se política.

 

Creio que ainda ninguém assinalou que o 23 de Junho é o Midsummer’s night dream, o sonho de uma noite de S. João, com uma galeria de personagens dignas de Shakespeare.

 

Sonho de uma noite de Verão.png

A Midsummer Night’s Dream

“The Reconciliation Of Oberon And Titania” by Joseph Noel Paton

 

David Cameron demitiu-se na manhã de 24. Tem muitas culpas no cartório. No início terá sido um “Blair dos Conservadores”. Mas a ambição levou-o a propor um novo referendo para roubar votos ao UKIP. Agora vai atravessar o deserto.

 

O carismático Boris Johnson demitiu-se no dia 27. Após sair de mayor de Londres, passou-se em Fevereiro para o Leave. Seria o herdeiro de Cameron. Mas logo a 24, sem fazer declarações e vaiado percebeu que era um rato numa armadilha.

 

Nigel Farage, o ex-dirigente do UKIP da extrema-direita, mostrou um grau de irresponsabilidade total. No dia 24 começou a negar as promessas do Brexit. A 5 de Julho foi-se embora, com a sua fatiota bem engomada e o ar de palerma. Foi o tiro final no porta-aviões.

 

Jeremy Corbin, um dinossauro socialista que não aprende nem esquece nada deixou que o seu eleitorado trabalhista, farto de sofrer, desse a vitória ao Brexit. Deverá ser o próximo a demitir-se.

 

Michael Gove, Teresa May e outros talibans Conservadores que traíram o seu líder, David Cameron, irão disputar a liderança. São verdadeiras bruxas de Macbeth a preparar o cálice de veneno (1).

 

Caso o Brexit avance, fica à vista o desastre: o desinvestimento, a queda da libra, a independência da Escócia, os problemas das fronteiras da Irlanda, de Gibraltar, de Calais, a montanha de nova legislação… a lista é grande.

 

O resultado do referendo não é vinculativo. O Parlamento pode decidir de outro modo. Quem vai despoletar a granada do artigo 50? Quem quererá fazer o harakiri britânico ?

 

Quem mais depressa entendeu que nem tudo estava decidido em Inglaterra foi a chanceler Angela Merkel. Desmentiu as declarações duras e estúpidas da reunião dos Seis no Luxemburgo e veio abrir a porta a um estadista razoável em Inglaterra.

 

Há quem goste de esquecer que a Alemanha actual é a nação europeia que bebeu até ao fim, com Hitler, o cálice do populismo. Por isso proíbe os referendos na sua Constituição e recusa a ditadura das maiorias.

 

Neste momento, resta esperar que se erga alguém do Partido Conservador com a coragem de dizer que o Brexit é um crime contra a história da Inglaterra e contra a Europa das nações.

 

Os ingleses hão-de recuperar mas têm pela frente o ano mais longo das suas vidas. Apesar de tudo é o país de Churchill e de Shakespeare. De estadistas capazes de decisões corajosas e anti populistas e de gente capaz de parar para pensar, como só a cultura é capaz.

 

O Brexit não foi bom nem mau: foi a consequência de uma sociedade degradada até ao tutano pelo sucesso aparente, da sua libra orgulhosa, das suas instituições tradicionais. Mas nada disso vale quando desaparece aquele espírito de sacrifício, abnegação e bem comum que faz as nações viver.

 

A finalizar. O lado bom deste mal inglês, desta derrota do sucesso, foi ter alertado para o outro mal crónico da Europa: o pan-germanisno. Mas esse fica para o próximo artigo.

 

5 de Julho de 2016

Mendo Castro Henriques

Mendo Castro Henriques

Faculdade de Ciências Humanas, Universidade Católica Portuguesa

 

 

(1) Teresa May foi entretanto nomeada Primeira Ministra

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