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A bem da Nação

SÓCRATES E AS SOBRANCELHAS

 

Frida Kahlo.jpg

 

 

Desde que algum ser começou a pensar, sobretudo quando percebeu que estava mesmo a pensar, a reflectir, e não somente a agir por instinto ou cautelosa repetição, que o homem, aquele que parece ser o único que por enquanto sabe reflectir (alguns!), mesmo que seja para matar, roubar ou destruir o que quer que seja, procura saber de onde veio e como surgiu neste planeta.

 

Até há menos de um século a versão mais defendida no chamado Ocidente, era que um Ser Superior, um Deus, teria feito um boneco de barro, e depois de lhe soprar, o sophos, ele passou a pensar. A seguir de uma costelinha teria feito uma mulher. Ainda hoje há milhões de sujeitos que juram a pés junto que foi assim... há uns 4 ou 5 mil anos, quando a ciência veio derrubar toda essa infantil e pobre, paupérrima, crença.

 

Depois apareceu Lamark e Darwin que mostraram como as espécies evoluíram desde... desde sempre. O “Santo Ofício” de Roma negou-se durante anos a aceitar essa ciência, proibiu que um jesuíta, cultíssimo, o padre Teilhard de Chardin, publicasse os seus trabalhos sobre a evolução da vida, apesar de jamais deixar de centrar o homem na fé, na Cristologia, e só reconhecido pela igreja quase trinta anos após a sua morte.

 

Um dos seus escritos faz-nos pensar na “dimensão” do mundo, seja ele terreno ou universal quando nos diz para, numa noite clara, olharmos para o céu e vermos as estrelas, milhares, bilhões de estrelas, sendo incapazes de imaginar as suas dimensões. Depois, que olhemos através de um microscópio electrónico a mais ínfima das bactérias ou qualquer ínfimo ser vivo. Comparando as duas imagens não é difícil estabelecer uma comparação entre elas, encontrar semelhanças e em consequência perguntar, a si próprio, qual é a minha dimensão, e a situação de um ser humano, no meio deste infindável universo?

 

A Terra começou como uma bola de fogo, um magma, alguns dizem que há cerca de 4,6 bilhões de anos. Outros, mais recentes afirmam que teria “n” vezes mais do que esse tempo.

 

Com a erupção das miríades de vulcões começaram a espalhar-se gazes de hidrogénio, oxigénio e carbono e um belo dia o “elo perdido” deixou de ser simples matéria para ser uma célula, com vida própria, e como diz Teilhard com a sua psique!

 

Uma notícia veiculada há dois dias pelo jornal “Diário de Notícias” de Portugal, diz-nos que “um grupo internacional de cientistas descobriu pela primeira vez uma molécula pré-biótica (PO) resultado da ligação química do fósforo (P) com oxigénio (O), que desempenha um papel fundamental na formação de ADN nas zonas onde as estrelas se formam.

 

A descoberta, publicada no The Astrophysical Journal, foi feita em regiões interestelares a 24 mil anos-luz da Terra por cientistas do Centro de Astrobiologia de Espanha, do Instituto Max Planck de Física Extraterrestre da Alemanha e do Observatório Astrofísico di Arcetri de Itália.

 

24 mil anos-luz é algo para nós tão inimaginável como o infinito: 24.000x365x24x60x60x300.000km!!!

 

Alguma coisa como 227.059.200.000.000.000 quilómetros! É logo ali...

 

Será essa molécula o “elo perdido”? Se for, só aqui chegará, se viajar à velocidade da luz, daqui a 24.000 anos. Não vou esperar para ver!

 

Ao mesmo tempo a Vida parece ter surgido na Terra há uns três bilhões de anos, quem sabe se com aquela molécula PO ou outra mais “familiar” aos terráqueos!

 

Vamos concluindo que:

 

- A visão do céu e suas estrelas, sua distribuição, complexidade e organização, não difere da visão de um qualquer nano ser que terá algo igualmente organizado.

 

Depois, sabendo que as primeiras ferramentas de quartzo talhado, conhecidas, terão mais de três e meio milhões de anos, o que pode pressupor que haverá outras com mais umas centenas ou milhões, estamos a ver que desde a primeira célula viva, com a sua psique, até ao aparecimento dos primeiros hominídeos, a evolução levou, fazendo contas simples, cerca de 2.996.500.000, isto é, uns três milhões de anos. Desde esses sílex talhados até hoje consumiram-se só 1/10.000 desse tempo!

 

Se alguém tiver dúvida, e o duvidar faz reflectir, não deve ter muita dificuldade em concluir que somos todos feitos da mesma matéria, animais, vegetais e até os minerais de onde terão saído os gases que permitiram surgir a primeira célula.

 

Bem mais tarde, já pertinho dos nossos dias o homem, o tal sapiens, começou a querer saber tudo, principalmente quem teria sido o Génio que criou tudo o que existe, que deu vida a tudo, e deu largas à sua imaginação, criando deuses. Muitos deuses, cada um de sua região e de acordo com a sua interpretação.

 

Com a expansão do conhecimento foram-se eliminando muitos deuses sem que os povos tivessem abandonado completamente essas suas crenças.

 

Hoje o conceito dos filósofos e teólogos, de praticamente todas as principais religiões concordam em que deus, a haver será Único, e assim procuram respeitar, acima de tudo as religiões monoteístas. Terá sido o Criador de tudo quanto existe, na Terra e alhures. (Os mais cépticos ainda deixam a dúvida: e quem criou Deus? Um dia saberão.)

 

Mas, há sempre um mas, porém, contudo ou todavia, que leva a fazer a pergunta: quem é esse Deus Único? Entra agora nova complicação.

 

- Jeová, dos hebreus? Mas Jeová era o Deus deles, e só deles, dos hebreus, o Deus da guerra, a quem faziam sacrifícios para que os ajudasse nas guerras de extermínio que faziam a outros povos. Então não pode ser um Deus Único, porque os adversários também seriam “filhos” desse Deus.

 

- Alá? Aquele que segundo dizem, através do Arcanjo Gabriel, disse a Maomé para passar à espada todos os que não acreditassem nele? Impossível. Alá é um Deus privativo dos muçulmanos. Ou Maomé, por estar a dormir não entendeu bem as palavras do Arcanjo, ou o secretário Zaid ibn Thabit errou a escrita.

 

- Cristo? O Filho de Deus feito homem que foi enviado à Terra pelo Pai, para dizer a coisa mais elementar: Amai-vos uns aos outros. Este Deus Pai parece ser o Único que se apresentou como o Pai de toda a humanidade, de todos os seres vivos, de toda a Terra. Que levassem a Boa Nova aos pagãos!

 

Sócrates que morreu em 399 a.C. não conheceu essa Boa Nova, mas era um ser religioso. Respeitava os deuses da sua cultura e procurou toda a vida ensinar os jovens a seguirem sempre com verdade, ética e respeito aos antepassados e aos deuses.

 

Numa conversa com Aristodemo que não oferecia oferendas aos deuses e até troçava dos que o faziam, disse-lhe:

 

— Crês-te um ser dotado de certa inteligência e negas existir algo inteli­gente fora de ti, quando sabes não teres em teu corpo senão uma parcela da vasta extensão da terra, uma gota da massa das águas, e que tão-somente uma parte ínfima da imensa quanti­dade dos elementos entra na organiza­ção do teu corpo? Pensas haver açam­barcado uma inteligência que conseguintemente inexistiria em qual­quer outra parte, e que esses seres infi­nitos em relação a ti em número e grandeza sejam mantidos em ordem por força ininteligente? Quanto maior for o ente que se digna de tomar-te sob sua tutela tanto mais lhe deves homenagens.

 

— Pois olha, se achasse que os deu­ses se ocupam dos homens, não os negligenciaria.

 

— Como! Julgá-lo que não, se antes de mais nada, só ao homem, den­tre todos os animais, concederam a faculdade de se manter de pé, postura que lhe permite ver mais longe, con­templar os objectos que lhe ficam acima e melhor guardar-se dos perigos! Na cabeça colocaram-lhe os olhos, os ouvidos, a boca. E enquanto aos ou­tros animais davam pés que só lhes permitem mudar de lugar, ao homem presentearam também com mãos, com o auxílio das quais realizamos a maior parte dos atos que nos tornam mais felizes que os brutos. Todos os animais têm língua: a do homem é a única que, tocando as diversas partes da boca, articula sons e comunica aos outros tudo o que queremos exprimir. Nem se satisfez a divindade em ocupar-se do corpo do homem, mas, o que é o principal, deu-lhe a mais perfeita alma. Efectivamente, qual o outro animal cuja alma seja capaz de reconhecer a existência dos deuses, autores deste conjunto de corpos imen­sos e esplêndidos? Que outra espécie além da humana rende culto à divinda­de? Qual o animal capaz tanto quanto o homem de premunir-se contra a fome, a sede, o frio, o calor, curar as doenças, desenvolver as próprias for­ças pelo exercício, trabalhar por adqui­rir a ciência, recordar-se do que viu, ouviu ou aprendeu? Não te parece evidente que os homens vivem como deu­ses entre os outros animais, superiores pela natureza do corpo como da alma? Com o corpo de um boi e a inteligência de um homem não se estaria em me­nor condição que os seres apercebidos de mãos, mas desprovidos de inteli­gência. Tu, que reúnes essas duas vantagens tão preciosas, não crês que os deuses se carpem de ti? Que será preci­so então que façam para convencer-te?

 

Saiba, meu caro, que tua alma aposentada em teu corpo, governa-o como lhe apraz. Mister é acreditar, portanto, tudo dispor a seu grado, a inteligência que habita o universo. Quê! A tua vista pode abranger um raio de vários estádios e os olhos da divin­dade não poderiam tudo abarcar ao mesmo tempo! Teu espírito pode ocu­par-se simultaneamente do que se passa aqui, no Egipto, na Sicília, e a inteligência da deidade não seria capaz de em tudo pensar a um só tempo! Certo, se obsequiando os homens, aprendes a conhecer os que também são susceptíveis de obsequiar-te; se prestando-lhes serviços, vês os que por seu turno estão dispostos a retribuir-te; se deliberando com eles, distingues os que são dotados de prudência: assim também, rendendo homenagem aos deuses, verás até que ponto estão dis­postos a esclarecer os homens sobre o que nos ocultaram, conhecerás a natu­reza e a grandeza dessa divindade que tudo pode ver e ouvir contemporanea­mente, estar presente em toda parte e de tudo ocupar-se ao mesmo tempo.

 

Não te parece que aquele que, desde que o mundo é mundo, criou os homens lhes haja dado, para que lhes fossem úteis, cada um dos ór­gãos por intermédio dos quais experi­mentam sensações, olhos para ver o que é visível e ouvidos para ouvir os sons? De que nos serviriam os olores se não tivéssemos narículas? Que ideia teríamos do doce, do amargo, de tudo o que agrada ao paladar, se não exis­tisse a língua para os discernir? Ao demais, não achas dever olhar-se como ato de previdência que sendo a vista um órgão frágil, seja munida de pálpe­bras, que se abrem quando preciso e se fecham durante o sono; que para pro­teger a vista contra o vento, estas pál­pebras sejam providas de um crivo de cílios; que os supercílios formem uma goteira por cima dos olhos, de sorte que o suor que escorra da testa não lhes possa fazer mal; que o ouvido receba todos os sons sem jamais encher-se; que em todos os animais os dentes da frente sejam cortantes e os molares aptos a triturar os alimentos que daqueles recebem; que a boca, desti­nada a receber o que excita o apetite, esteja localizada perto dos olhos e das narículas, de passo que as dejecções, que nos repugnam, têm seus canais afastados o mais possível dos órgãos dos sentidos? Trepidas em atribuir a uma inteligência ou ao acaso todas essas obras de tão alta previdência?

 

Há 2.400 anos já Sócrates sabia para que serviam as sobrancelhas, que os deuses lhe haviam dado...

 

A vaidade, futilidade e pedantismo de muita gente, não só não sabe isso, como substitui o que Deus lhes deu por um risco feito com tinta!

 

31/05/2016

 

FGA-2OUT15.jpg

Francisco Gomes de Amorim

GRANDE SARILHO

 

«Geschlecht» – tribo, sexo, raça

 

 

Vá o Leitor ao Google Translator ou a qualquer outro dicionário «Alemão – Português» e encontrará vários significados para a palavra alemã ali em cima com que dou início a esta historieta.

 

Um casal meu amigo emigrou para a Alemanha a certa altura das suas jovens vidas e ambos começaram por se inscrever num curso intensivo de alemão.

 

A certa altura, já conseguindo a turma comunicar em diálogos simples, o professor entendeu pôr os alunos a dissertar sobre o respectivo «Dia Nacional».

 

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Todos os alunos se foram desenrascando, o meu amigo disse meia dúzia de balelas e o professor ficou satisfeito. Mas a minha amiga, mais expansiva, decidiu falar sobre aquilo a que até pouco tempo antes por cá chamávamos o «dia da raça». E, vai daí, procura o dicionário, encontra o significado de «raça» em alemão e, catrapus, avança com o «Geschlecht».

 

Dissertação brilhante sobre o nosso «dia da raça» e o professor, maroto, deixou-a falar à vontade sobre o assunto mas dando a «Geschlecht» o seu sentido mais comum, o de «sexo». E a minha amiga esteve não sei quanto tempo a falar sobre o «dia do sexo» como sendo o Feriado Nacional de Portugal. O professor, então, perguntava o que se fazia no nosso «dia do sexo» e a minha amiga, inocentemente, respondia que se faziam paradas triunfais, se dava medalhas aos melhores e trinta por uma linha...

 

- Dão medalhas aos melhores? Mas isso deve ser um país fantástico!!! Por que é que Vocês vieram para a Alemanha? Não receberam nenhuma medalha, está visto!

 

Até que o professor entendeu que devia parar com a brincadeira e explicar à pobre inocente o significado comum de «Geschlecht».

 

Risada geral na turma que assim aprendeu como também o alemão pode ser uma língua muito traiçoeira.

 

E, passados mais de quarenta anos, ainda hoje os meus amigos contam a história no meio de grande risota.

 

Maio de 2016

 

Henrique Salles da Fonseca

Henrique Salles da Fonseca

(NOV15, algures no Tamil Nadu)

 

CURTINHAS Nº CXL

 

Estado de Direito.jpg

 

Ai estado, estado, a quantas andas!

 

  • Tenho para mim que uma das mais pesadas cangas que nos tolhem os movimentos enquanto Estado é, precisamente, o mau uso que damos à palavra “Estado”.

 

  • Boa parte do que tenho escrito por aqui e por ali gira em torno desse péssimo uso e das suas ainda mais perversas consequências. Mas, reconheço, são invariavelmente considerações tecidas em abstracto que acabam por deixar mais dúvidas que certezas. Um exemplo viria mesmo a calhar.

 

  • Então, aqui vai: “Mais Estado”. O que entender por isto?

 

  • Para alguns é aumentar, tornar mais denso e mais minucioso o corpo de leis e regras que moldam a organização do Estado. Um Quadro Normativo de malha mais apertada, mas que pode ser perfeitamente compatível com o modelo da regulação (Tudo o que não esteja expressamente proíbido, está tacitamente autorizado). Uma interpretação que não tem de ser inimiga da inovação e da iniciativa individual.

 

  • Para outros, os que identificam “Estado” com “Governo”, é colocar a tónica no modelo da regulamentação (Tudo o que não esteja expressamente permitido, está tacitamente proíbido). Uma forma de pensar que se traduz, geralmente, no reforço dos poderes discricionários avocados por Governos mais voluntariosos (L’État, c’est moi).

 

  • Enfim, para tantos, é, mais prosaicamente, ampliar o aparelho administrativo do Estado (a Administração Pública) sujeitando ao estatuto do funcionalismo público cada vez mais actividades económicas – quase sempre sob o argumento da universalidade e gratuitidade do acesso a “bens públicos”.

 

  • É certo que a lista de “bens públicos” varia de acordo com o ideário político. E daí nenhum mal virá ao mundo – desde que o debate se centre no que se entenda serem “bens públicos”, em vez de se limitar à teima “mais Estado”, “menos Estado” - sem ninguém vir a terreiro explicar “que Estado”.

 

  • Só na aparência estas três interpretações apontam no mesmo sentido. Na realidade, é fácil imaginar “mais Estado” com um Governo bastante contido e discreto (vidé, a Suíça). Ou, mesmo, “mais Estado” com um aparelho administrativo reduzido ao mínimo por obra e graça do reforço da regulação e supervisão (vidé, a Austrália) – estas, sim, indiscutíveis funções de soberania.

 

  • Como se imagina também sem dificuldade uma Administração Pública de tal modo extensa e complexa que reduz o Governo à impotência, por mais voluntarioso que este seja. Ou um Quadro Normativo que tolera as intervenções discricionárias do Governo ao ponto de se perder de vista os princípios fundamentais que enformam o Estado. (Exemplos para um e outro destes casos é o que não falta por esse mundo fora.)

 

  • Mas o que mais me surpreende é o facto de este debate se circunscrever à vertente interna: o que seja “mais Estado”, cá dentro. Como se nós, crendo-nos sozinhos no mundo, só tivessemos de nos preocupar com o nosso próprio umbigo.

 

  • Onde pára o debate político sobre como queremos e podemos afirmar os nossos interesses no contexto global?

 

  • A ideia que fica é que abdicámos a favor da UE, não só este ou aquele aspecto da nossa soberania - mas toda a soberania, por atacado. Afinal, um pêso que nos excedia e que alijámos de bom grado com um suspiro de alívio (e não me venham com a desculpa da troika, da Dívida Pública Externa ou da defesa do Estado Social).

 

  • Enquanto for este o quadro mental que entre nós prevalecer, domesticamente continuaremos confundidos por aquilo que alguém, sábio, baptizou como “ignorância racional” - e externamente não nos daremos ao respeito.

 

Junho de 2016

Palhinha Machado.jpg

 A. Palhinha Machado

 

MARDICAS E TOPAZES

 

 

Ocussi Ambeno.jpg

 Ocussi Ambeno

 

O fado ou morna (?) indonésio, também se canta na África do Sul, em Afrikaans. Foi levado da Indonésia pelos mardicas do Exército holandês, também conhecidos, na altura, por malaio-portugueses. Da língua, que falavam, relexificada em holandês e descrioulizada em contacto com o novo superestracto holandês, no Cabo, resultou o afrikaans, hoje língua de cultura e língua nacional daquele país, com falantes de todas as cores e de todas as classes sociais e escrita nos alfabetos latino e árabe, na África do Sul e também na Namíbia. Em Cabo Verde, o crioulo ainda está no processo de se tornar efectivamente uma das duas línguas nacionais do país, mas uma língua da sua família, o afrikaans, já é, com o inglês, uma das duas principais línguas nacionais da África do Sul.

 

Mardica vem do holandês mardijker = forro, Topaz, ou Topasse parece que deriva do tamila = bilingue ou intérprete.

 

Os mardicas vieram da Guiana e talvez também das ilhas ABC.   Os holandeses ofereceram cartas de alforria a todos os escravos que quisessem alistar-se no Exército e ir para a Indonésia.

 

Os segundos vieram da Índia e sobretudo do golfo de Bengala, com os portugueses, cerca de um século antes e chegaram até Flores, Timor, Ternate e Filipinas, com a sua língua, como soldados, nas guarnições de fortes e fortalezas.

 

Tanto os mardicas como os topazes se apresentavam como portugueses, vestiam à portuguesa, tinham orgulho em serem portugueses e zangavam-se muito, quando ingleses e outros lhes diziam que não podiam ser portugueses, porque eram pretos. Eram de origem cabo-verdiana e falavam crioulo de Santiago.  

 

Os topazes começaram por ser escravos presos e vendidos pelos régulos e reis da África Ocidental, depois de guerras, que tinham perdido.   Depois de comprados pelos moradores de Santiago, eram baptizados, ensinados e treinados na base de apoio de Cabo Verde, em Santiago, para se tornarem ladinos, falando crioulo, e para serem enviados, como escravos de armas, a guarnecer as fortalezas e fortes portugueses da Ásia. Só na Índia houve perto de cem fortes e fortalezas. Foram os escravos de armas, que se bateram como leões por Portugal e pelo seu império da Ásia.   Penso que o seu número, durante cerca de dois séculos, deve ter chegado a dez mil, ou mais.   Com o fim do império da Ásia, lá ficaram ao serviço de holandeses e ingleses.

 

Os antepassados dos mardicas saíram de Cabo Verde para o Brasil, no início do século XVI, quando Fernão de Noronha assinou o contracto do pau de brasil e chamou alguns cristãos novos moradores de Cabo Verde. Em Pernambuco, plantaram cana e fizeram açúcar, nos seus engenhos e trapiches vindos de Cabo Verde, com os seus trabalhadores escravos e forros, nos porões dos navios. Estes cabo-verdianos foram os primeiros colonizadores do Brasil.  Durante o Brasil Holandês abriram a sinagoga de Recife, a primeira da América.   Depois, voltaram a carregar os porões dos navios com os seus utensílios de trabalho e trabalhadores e seguiram com os holandeses para a Guiana, onde se falam hoje, quatro dialectos da língua cabo-verdiana, ou línguas da família deste primeiro crioulo da globalização.   A língua da tecnologia mais avançada daquela época era o crioulo.   Era a língua materna e língua de trabalho dos cabo-verdianos sem distinções de cor, nem de estatuto social, era a língua materna dos patrões e dos trabalhadores forros e escravos, dos que aprendiam português nas escolas das igrejas e sinagogas e dos da maioria, que não ia à escola e ficava analfabeta.  

 

Quando os portugueses cabo-verdianos da Guiana, como assistentes técnicos, e os portugueses de Amesterdão, como financiadores, foram chamados pelos governadores das Antilhas inglesas e, depois, francesas para fazer açúcar, os escravos, que já lá estavam e os que, em grandes números, chegaram depois, tiveram que aprender crioulo ao mesmo tempo que aprendiam a trabalhar e produzir.  Todas as línguas crioulas das Caraíbas são dialectos cabo-verdianos ou línguas da família cabo-verdiana.  Só encontrei um que é dialecto do crioulo de São Tomé, o palenqueiro da Colômbia.

 

O “português adulterado” da Ásia de hoje não é português, é crioulo de Cabo Verde, ou seus dialectos e línguas da sua família. O “português adulterado” da Ásia de ontem era o próprio crioulo, antes de evoluir em contacto com novos adstractos linguísticos.

 

Topasses da Larantuca, Flores oriental foram para Timor, em grande número, depois do seu achamento por um navio português. Quando os holandeses invadiram Timor ocidental com os seus mardicas, ocupando Kupang, os portugueses com os seus topazes perderam a batalha. Depois os topazes portugueses passaram a governar Timor, ou melhor as ilhas da Sunda Oriental e tomaram conta do comércio do sândalo. Dois governadores acabaram por voltar para Goa e Timor ou melhor a sua capital no porto de Lifau (hoje enclave de Ocussi-Ambeno), foi governada por duas famílias topazes, que fizeram as pazes com os holandeses. As famílias Hornay (mardica?) e Costa (topaz) aliadas, por casamento com régulos timorenses tomaram conta do comércio do sândalo e governaram Timor, durante os séculos XVII e XVIII. Foi pena, que não tivessem governado mais tempo, porque, no início da década de cinquenta do século XIX, um governador reinol vendeu aos holandeses as outras ilhas e foi-se governar a si próprio com o magote de dinheiro, para outras latitudes.

 

Timor já enviou professor de português para Tugu?   As Flores precisam de mais do que um, Damão e Diu também…, sem falar de Ceilão e de Malaca, onde o crioulo de léxico português está em vias de extinção, as famílias já ali falam inglês com os filhos.   Além de Timor, o Brasil é que tem dinheiro para isso, Angola parece que já não tem. 

 

Também a nova Associação de Professores e Formadores Lusófonos, com a CPLP (Conferência dos Países de Língua Portuguesa) e a futura CPLPC (Conferência dos Países de Línguas Portuguesa e Crioulas) podiam procurar arranjar recursos para resolver estas carências do ensino da língua portuguesa.

 

 

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José Carlos Horta

AUTORIDADES TRADICIONAIS EM TIMOR

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Os Liurais, autoridades tradicionais timorenses, sempre foram desde tempos imemoriais, séculos antes da chegada dos Portugueses em 1515, os “condutores” dos seus povos e seus representantes, na paz e na guerra.

 

A presença portuguesa na ilha só foi possível pelos acordos desenvolvidos com os liurais que, mantendo a sua lealdade, eram prestigiados e distinguidos pelo poder real português.

 

Quando o Governador António Coelho Guerreiro chegou a Timor, acompanhado por somente 82 homens, em 1703, foi recebido por 17 liurais da terra, todos já usando o prefixo Dom antes do seu nome (dos 60 reinos existentes ao tempo em Timor, 25 aceitaram imediatamente a suserania portuguesa).

 

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 Liurais no Vaticano em 1957

 

António Coelho Guerreiro estabeleceu então uma espécie de militarização da estrutura política tradicional, dando aos liurais patentes de coronel do Exército Português e aos seus ajudantes ou chefes de suco, patentes decrescentes. Esta organização militar iria durar trezentos anos, até aos nossos dias.

 

Com a evolução política do mundo, sobretudo após a Segunda Guerra Mundial, também o poder fáctico dos régulos e liurais foi sofrendo uma inevitável erosão sendo progressivamente contestado pelas novas gerações cada vez mais “esclarecidas”.

 

A perda de influência dos liurais sobre os seus povos foi criando problemas de difícil solução na sociedade timorense.

 

Ainda cheguei a conhecer em Atsabe, o Régulo Guilherme Gonçalves durante a minha comissão na zona da fronteira de Timor entre 1965 e 1967. Era considerado um autocrata com enorme influência regional, dizia-se que até para lá da fronteira, devido a laços familiares na parte indonésia da ilha.

 

Sinal dos tempos, em 1971, Guilherme Gonçalves foi condenado em julgamento público no Tribunal da Comarca de Díli, acusado de crimes de “cárcere privado simples e cárcere privado agravado”, a 3 anos de prisão maior”! A inaudita situação, provavelmente sem exemplo na história moderna de Timor, deixou sequelas, como veremos. O Régulo Guilherme Gonçalves não ficou imediatamente preso porque o seu advogado logo recorreu da sentença para o Tribunal da Relação de Lourenço Marques, Moçambique. Ignoro qual o resultado desse recurso, mas não encontrei qualquer indicação de que o acusado tenha cumprido a pena a que foi condenado.

 

De qualquer modo o então Governador de Timor, brigadeiro/general José Nogueira Valente Pires (1968-1971), em carta particular (que publico) dirigida ao Ministro do Ultramar, Prof. Joaquim Moreira da Silva Cunha, tentou conseguir a anulação da sentença judicial.

JBB-carta particular Valente Pires a Silva Cunha.j

 

Outra sequela desta condenação protagonizou-a o prestigiado Régulo de Maubara, Gaspar Gusmão Silva Nunes. Sentindo ameaçado o poder dos liurais, “solicitou” ao Governador, “e nisto me acompanham os Chefes tradicionais mais representativos”, “que seja extinto o regime de autoridades tradicionais”.

JBB-carta régulo a Valente Pires.jpg

JBB-carta régulo a Valente Pires-2.jpg

 

 

O Governador, preocupado, volta a endereçar uma carta particular ao Ministro.

 

JBB-carta Valente Pires a Silva Cunha.jpg

 

Seria interessante saber qual o poder das autoridades tradicionais nos dias de hoje.

 

José Bárbara Branco.jpg

José Bárbara Branco

 

 

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