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A bem da Nação

MOÇAMBIQUE

 

VELHAS FORTALEZAS

 

As fortalezas mais conhecidas e conservadas são as da Ilha de Moçambique – Fortaleza de São Sebastião (1558), Forte de Santo António (1820) e Forte de São Lourenço (1580?) - e a do Maputo que foi quase sempre uma paliçada de madeira até que em 1946 se construiu em pedra, como monumento, sobre os alicerces originais de madeira.

 

As que se descrevem são as esquecidas, arruinadas, mas fazem parte da história e do património, mesmo que em ruínas.

 

1.- Praça de S. Caetano de Sofala

 

A fortaleza de Sofala foi fundada em 1505 com a finalidade de monopolizar o tráfico de ouro vindo do interior do Monomotapa, que estava nas mãos dos árabes, “as minas mais ricas que nenhumas outras daquelas partes”, como as classificou El-Rei D. Manuel, que deu ordens para a sua construção.

 

Em 1595 chegou Pêro de Anhaia para dar início à construção, que mandou dizer ao Vice-Rei, na Índia: “parecia escusada ali a fortaleza e gasto de gente, que não senhoreava nada, porque se com paz e amizade se não fizesse o resgate, ninguém lho poderia fazer por força, por a terra ser má de doença”. Em vez de construir algo em pedra, limitou-se a organizar “uma tranqueira” defendida por um fosso.

 

Gaspar Correia quando ali passou em 1512 dá uma visão da obra: “O Capitão mór, com o conselho de todos escolheu o lugar para construir, junto ao rio... e repartiu o trabalho por todos os homens, do qual trabalho, por a terra ser doentia, começou a gente a adoecer e morrer; pelo que houveram por bem acertado em não ter começado a fortaleza; e a tranqueira foi acabada em fim de Outubro, sendo muita gente doente dos maus ares da terra”.

 

Anhaia morreu pouco depois e o feitor, eleito Capitão, Manuel Fernandes construiu dentro da tranqueira um “cubelo de pedra e cal”.

 

Após um ataque movido pelos árabes, “o Capitão, que já nom avia homens doentes abrirão logo os alicerces e começaram a fazer a fortaleza... acabada em 1506”.

 

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Em carta de 1608 el-rei: “... a fortaleza está muito mal provida, sem presídio nem munições e exposta a ser ocupada dos inimigos”.

 

Em 1644 chegou ao reino a notícia de que a fortaleza estava arruinada, tendo o vice-rei D. Filipe de Mascarenhas proposto que fosse desmantelada, mas o rei, D. João IV escreve ao novo vice-rei, Conde Óbidos: “Conde sobrinho amigo... me pareceo dizervos que que não convém ser desmantelada a dita fortaleza, antes tratar-se da sua conservação...

 

Em 1758 Sofala tem a sua antiga fortaleza de pedra e cal, e hoje em partes lhe bate o mar, e a Igreja, da mesma antiguidade está demolida”, e em 1789 já “...a parte do mar está carcomida e muito arruinada.

 

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 Em 1885 – Desenho original de Augusto de Castilho

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1905

 

1906 – Último ano em que a torre de menagem esteve de pé. Poucos anos mais e tudo se afundou nas areias salgadas.

 

2.- Forte Princesa Amélia em Massangano

 

Situado a uma dúzia de quilómetros de Tete, na margem direita do Rio Zambeze, perto da confluência do Rio Luena, no alto da serra Bacampembuzuè (ou Inhampembuzuè), na aringa que foi dos “rebeldes” Bonga, Chatara e Motontora, em 29 de Novembro de 1888, o Governador-Geral de Moçambique, Augusto de Castilho e mais um monte de outra gente, tomou posse solene desta aringa, que ficava ocupava por um destacamento militar, já que a situação geográfica parecia importante para o controle da região. Arvorou-se a bandeira, deram vivas ao rei, etc. e lavrou-se o competente auto.

 

Em Outubro do ano seguinte o governador de Tete propôs que se construísse ali uma fortaleza de pedra e cal.

 

Em 1891 João de Azevedo Coutinho que passou na região, escreveu, dando “a obra em começo, era grandiosa de mais e perfeitamente deslocada para aquelas paragens”.

 

Já guarnecida 1892 só dois anos mais tarde se fez a inauguração solene. Mais autoridades, mais hastear de bandeira, mais vivas e... mais nada.

 

Não tardou muito que tivesse sido abandonada, caiu no esquecimento e em ruinas.

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No topo da serra, os restos, vendo-se o “tambor”, área circular num dos cantos do forte

 

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 Interior do forte sobre o lugar da aringa

 

3.- Fortim de Pemba

 

Terá sido Jerónimo Romero o autor da obra de um pequeno fortim em Porto Amélia, hoje Pemba (aliás nunca deixou de ser Pemba!) em 1857, quando se estabeleceu naquela localidade uma colónia de europeus, chamada “8 de Dezembro”.

 

Em 1858 foi encarregado o capitão Luis Feliciano Guerreiro Barradas de dar início às obras “nas pontas Norte e Sul, ou pelo menos um, que deverão ser fortificados com a brevidade possível”. Começou pela ponta de Miranembo, depois ponta Romero, “na praia do desembarque construiu-se uma palhota para agasalho de gente e depósito de materiais”. Logo a seguir mandou-se ao Governador Geral “uma planta para um fortim abaluartado” de traça pentagonal, que nunca obteve resposta.

 

Romero queria um Reduto com capacidade para 20 praças, cozinha, armazém, paiol para munições, etc.

 

Entretanto as intrigas contra a colónia “8 de Dezembro” começaram a vingar e em Setembro de 1861 só restavam cinco colonos e a colona Ana Barbosa.

 

Em 1862 inicia-se “a construção de um pequeno reduto ou parapeito para servir de defesa ao destacamento si estacionado, em forma hexagonal que ficou concluída em 4 de Janeiro seguinte, com uma muralha de 9,5 palmos de altura exterior e 2 palmos de espessura.

 

Em Julho o governador reconhecendo o fundamento reclamações dos sucessivos comandantes do destacamento, para que aos muros do reduto fossem dadas maior consistência e altura. “...porque sendo amiudadas vezes visitado pelo Leão e pelo Tigre resultava não se poderem ali conservar os soldados desde o começo da noite”.

 

Em 1865 o governador interino, Francisco de Paulo de Castro Domingues, escreveu: “Não serve para nada, está construído de tal maneira que tendo três peças montadas só podem fazer fogo para o ar. O quartel do destacamento está fora do forte e está a cair, é preciso construir outro dentro se lá couber”.

 

Hoje lá está um forte, todo remodelado, conforme foto do blog tronco-em-flor.

 

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Forte Jerónimo Romero – Pemba (foto recente)

 

18/06/2016

 

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Francisco Gomes de Amorim

UM SEFARDITA NA AMÉRICA

 

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 Jacob Rodrigues Rivera

(pintado por Gilbert Stuart)

 

A importância da comunidade judaica (em particular a sefardita) na vida económica e cultural das Américas, desde os tempos do descobrimento e ocupação do Novo Mundo, esquecida pela população em geral, vem sendo resgatada pela comunidade académica actual.

 

Fugidos da Inquisição Ibérica, os judeus de origem portuguesa e espanhola (sefarditas) do século XVI ao século XIX encontraram, a principio, no continente americano, um lugar para ganhar a vida e assumir a sua religião.

 

Após a expulsão dos holandeses de Pernambuco em 1654, boa parte dos judeus instalados no nordeste brasileiro fugiram para o interior da província ou partiram para as Colónias Inglesas (Barbados e Jamaica) e Holandesas do Caribe e Suriname, até chegar à Nova Amsterdam (hoje New York). Em geral eram plantadores de cana-de-açúcar, donos de escravos e engenhos, ou comerciantes oriundos da diáspora sefardita portuguesa que dispersados na Europa (Portugal, Espanha, Holanda, França e Inglaterra) haviam encontrado na América Portuguesa a possibilidade de viver, longe da Inquisição.

 

Na nova sociedade americana, esses cristãos-novos e bnei anussim (descendentes de judeus baptizados à força) mesmo sendo elementos estranhos à sociedade local, conseguiram formar uma comunidade cultural, económica e socialmente influente. Assim é que os sefarditas (judeus portugueses e espanhóis) como os asquenazitas (judeus da Europa oriental) sofreram modificações impingidas pelo meio-ambiente, tanto quanto pela religião que os regiam. Como um judeu português é diferente de um judeu Tedesco (alemão), o português católico comporta-se diferentemente de um judeu português.

 

A presença judaica sefardita, de influencia colonial americana, desenvolveu sem muitos escrúpulos o comércio de escravos e a transferência o riquezas (ouro, prata, açúcar, rum, peixe salgado, chocolate,...) de um lado para outro do Atlântico. Plantaram e manufacturaram, comercializaram e distribuíram produtos usando seus próprios navios. Enriqueceram, tornaram-se influentes através de casamentos, actividades culturais, filantrópicas e comerciais. Elevaram-se socialmente, despertaram a cobiça e a inveja em cristãos, holandeses e piratas. Apesar de os reveses, firmaram-se na nova sociedade americana onde contribuíram definitivamente com seu desenvolvimento.

 

A partir do século XVII, Newport progrediu mais fortemente, tanto no sector económico como no cultural, com a chegada da comunidade judaica que ali se instalou. Entre esses indivíduos destacou-se Jacob Rodrigues de Rivera, além de outros das famílias judias Lopez, Seixas, Gomes, de Toro ou Touro, Levy, Hays, Meyers, Hart. Trouxeram consigo tradições e desejos de liberdade que marcaram a identidade do povo americano. Famílias com larga prole, que se relacionavam em redes de negócios e casamentos, propiciaram uma grande influência económica e cultural na sociedade estadunidense.

 

Segundo a pesquisadora Sandra Malamed, Jacob Rodrigues de Rivera teria nascido em Portugal, em 1717, porém de família originária de Sevilha. Em criança foi para New York com seu pai. Fez carreira mercantil. Chegou a Curaçau onde havia comunidade judaica e entreposto comercial. Ali casou com Hannah Pimentel. Desse enlace nasceram em New York seus filhos Abraham e Sarah Rodrigues de Rivera que se casou com o primo de seu pai, Aaron Lopez (nascido Duarte Lopez, em Portugal), rico comerciante, traficante de escravos e armador de navios em Newport.

 

Naturalizou-se em 1746 (N.Y) e em 1748 mudou-se para Newport, onde, associado a Aaron Lopez, torna-se um dos mais importantes comerciantes da região.

 

Àquela época colonial americana, Newport era um verdadeiro “melting pot” de culturas e etnias, onde se abrigavam cidadãos católicos britânicos, hugenotes franceses, judeus sefarditas (fugidos da Inquisição) e escravos. Nessa cidade foi pioneiro com seu primo na introdução do comercio do espermacete, óleo retirado da cabeça de baleia (cachalote) usado na manufactura de velas ( técnica aprendida em Portugal e transferida para a América) e como lubrificante e combustível para lâmpadas. Com Nicholas Brown de Providence (RI), membro da família Brown, co-fundadora da Universidade de Brown, manteve rentável negócio praticado com as Índias Ocidentais e África, pois os barcos que transportavam as mercadorias (rum, açúcar, escravos, sabão, peixe, farinha, óleo de baleia, velas,...) eram também de sua propriedade ou da sociedade com seu primo Aarão Lopez, um dos mais importantes e ricos comerciantes de Rhode Island.

 

Jacob Rodrigues de Rivera era um cidadão de espírito público. Sua actuação se dava também em âmbito cultural. Além de organizar o Clube Hebraico de Newport, teve seu nome associado com a formação da Biblioteca Red Wood e com a construção da Sinagoga de Yeshuat Israel. Em 1773 foi nomeado administrador do Cemitério Judaico de Savannah.

 

Na ocasião da Revolução Americana, Jacob Rodrigues de Rivera teve que partir para Massachussets em 1777, devido ao bloqueio marítimo britânico à cidade. Esteve em Boston e depois em Leicester, onde sua filha e genro estavam. Mais uma vez ali seu nome aparece ligado à cultura local. Torna-se então um dos benfeitores do Yale College. Ofereceu um quadro do rabi Hajim Issac Carigal ao Colégio, agradando Erza Stiles, teólogo, professor e director da Instituição.

 

No período da Revolução Americana, devido ao tipo de negócio que desenvolvia, teve graves reveses financeiros. Mas o seu espírito, tino comercial, redes e associações fizeram com que ele se recuperasse. Conta-se que, já superadas as dificuldades financeiras, convidou seus antigos credores para um jantar, onde debaixo de cada prato havia a quantia de seu crédito com os seus convidados, com os juros e correcção monetária!

 

Em 1782 retornou a Newport, e passou a residir numa casa hoje referência arquitectónica do período Colonial Americano. Quando morreu em 1789 deixou para os herdeiros um abastado património. Seus livros, a sua Torah, ouro e prata ficaram para seu filho Abraham. Os bens restantes foram divididos entre Sarah, Hannah e Abraham. Gilbert Stuart retratou-o num quadro doado à Redwood Library (Newport).

 

Muitas foram as benfeitorias da comunidade judaica na antiga Colónia inglesa e no desabrochar da identidade da nova nação norte-americana. Universidades, livrarias, sinagogas, lojas maçónicas, entrepostos comerciais, indústrias, bancos, clubes. Instituições hoje reconhecidas mundialmente.

 

No entanto, a diáspora sefardita, o número crescente de consórcios entre judeus e não judeus, as perseguições político-religiosas, as intolerâncias abertas e as veladas, fizeram com que a identidade judaica se diluísse no mundo ocidental. Mas, apesar de tudo, é inegável que a garra desse povo está historicamente presente na cultura e na força financeira dos países onde houve empenho no trabalho e tolerância étnico-religiosa.

 

Uberaba, 21/06/16

Maria Eduarda Fagundes

 Maria Eduarda Fagundes Nunes

 

Dados compilados de:

Mercadores e Gente de Trato ( Dicionário Histórico dos Sefarditas Portugueses). Direcção Científica de A. A. Marques de Almeida. Lisboa 2009. 1ª edição.

Os Judeus, o dinheiro e o mundo (Jacques Attali)

Enciclopédia Judaica 1906 (por Cyrus Adler , L. Hühner)

BREXIT

FICA, INGLATERRA!

 

Escolho o dia anterior ao referendo britânico sobre o “Fico” ou “Saio” da União Europeia, para me pronunciar sobre o tema. Antes de saber os resultados, desde já declaro, com risco, que creio que vencerá o “Fico!”

 

E creio que será um melhor resultado para os europeus e para o mundo. Creio que também será melhor para os britânicos, mas respeitar as democracias nacionais significa respeitar o que elas decidirem.

 

Antes de mais, aquilo a que os manipuladores de opinião chamam Brexit – termo de si já traiçoeiro – oculta um consenso entre os ingleses pró e contra: não gostam que a democracia britânica receba ordens da burocracia de Bruxelas. É uma premissa maior partilhada pela esmagadora maioria dos ingleses.

 

Mas depois dividem-se, claro, na premissa menor. Os da “Saída” usam toda a casta de argumentos, desde as lamúrias neoliberais e conservadoras à maneira da senhora Thatcher – “Quero o meu dinheiro de volta!” – até ao nacionalismo tacanho do UKIP com medo dos estrangeiros e nostalgias do império, passando pelo racismo e xenofobia que levaram ao tenebroso assassinato da deputada Jo Cox, do “Fico”.

 

Os do “Fico” fazem contas de que abandonar a Europa sairá muito caro - menos 5% do PIB a prazo; falam da responsabilidade social e política da Inglaterra para com o projecto europeu, como Corbin; e, tal como Cameron, falam da instabilidade política. Uns poucos dizem ainda que a Grã-Bretanha fechou o ciclo do império e tem de acolher a Europa, o Erasmus e a mobilidade.

 

Se olharmos para o mapa das sondagens, sabemos que Escócia e Grande Londres votam maioritariamente pelo “Fico” e que Gales o Ulster também assim votam, em menor grau. E que as províncias inglesas votam maioritariamente pela “Saída” com manchas mais difíceis de racionalizar.

 

Os argumentos económicos e financeiros já foram explicados cem vezes. A City dos negócios financeiros gosta da UE. Os exportadores ingleses gostam da UE. Os ingleses das cidades menores e províncias têm medo de perder empregos e pagar impostos para os “ preguiçosos do sul” com quem passam férias sem trabalhar. Os escoceses e, em menor grau, galeses e irlandeses do norte gostam da UE porque assim não estão vinculados apenas à “little England”.

 

Contudo, o tutano dos argumentos de ambos os lados, nas entrelinhas, nos subentendidos, nos understatements de que o ingleses tanto gostam é outro: é a defesa apaixonada da democracia de que os ingleses justamente se ufanam desde a Magna Carta; é o sentido do humanismo individual que vem desde o anónimo de York no séc XI, até Tomás Moro no séc. XVI, e Winston Churchill na segunda Guerra Mundial. “Their finest hour” foi sempre contra os feudais, contra os fundamentalistas, contra Napoleão, contra os nazis. Será que Bruxelas é um papão deste tipo? Ou será que a Inglaterra tem um complexo de superioridade?

 

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Fica, Inglaterra!

 

Bruxelas não é papão como os fundamentalistas e os nazis. Mas a enorme propaganda dos tablóides agitados pela sede de poder de Boris Johnson e Nigel Farage e os activistas do Brexit fazem passar essa imagem. Entretanto, os Britânicos com coragem e coração dizem o contrário e não abusam das palavras “independência” e “liberdade”.

 

A tradição das liberdades civis Inglesas tem muito de mito histórico, mas foi narrada tantas vezes que se tornou um acervo real. A Inglaterra fez a revolução há tanto tempo – cortaram a cabeça ao rei em 1640 – antes de 1789, antes de 1820, antes de 1917 – que parece ter tido uma transição gradual para a democracia. Claro que o parlamento do século 18 não era democrático. E o sufrágio só começou a mudar na década de 1880.

 

E assim chegamos à tradição da democracia. Na Inglaterra, a oposição pode levar o governo a renunciar. Na União Europeia, não é assim. O Parlamento Europeu é uma coligação de grandes partidos, o que até evita conflitos. A Comissão que não é eleita faz as vezes de um governo real. Assim, as críticas sobre a natureza anti-democrática da UE são justificadas. Agora só um ingénuo julgaria resolver os conflitos de interesses entre as nações por referendos e decisões de maioria: seria a morte dos pequenos países. Os problemas podem ser resolvidos por negociação e consenso.

 

Ficando a Inglaterra na UE a 23 de Junho, nada fica resolvido dos podres de Bruxelas. O euro é cada vez mais uma fonte de divisão europeia. O euro dos credores vale mais que o euro dos devedores e o BCE não só não resolve esta divisão como a agrava. O euro empurra para a união monetária e esta empurra para um estado confederal. Com o “Fico”, ou com a “saída”, este problema continua em cima da mesa.

 

Mas com o “Fico”, há uma grande diferença que todos os europeus saberão saber apreciar. Com o “Fico”, a Grã-Bretanha terá dado um enorme sinal de que quer continuar a contribuir para domesticar os ímpetos burocráticos de Bruxelas, em vez de deitar a toalha ao chão: e que pretende continuar a alimentar a seiva democrática.

 

A permanência da Grã-Bretanha será um sinal para todos os Europeus que Ingleses, Escoceses, Galeses e Irlandeses do Norte não querem ser substituídos pelos mecanismos de tomada de decisões em Bruxelas. Que poderemos contar com eles, para organizar a vida em comum do século XXI e acolher o mundo numa fase de grandes desafios.

 

Por isso, do alto lugar da minha insignificância, eu apelo: Fica, Inglaterra!

 

22 Junho, 2016

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Mendo Castro Henriques

Faculdade de Ciências Humanas, Universidade Católica Portuguesa

NÃO TRAZ O DESASTRE

 

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Correm os jornais, rádios e televisões a inventar escândalos, guerras e flagelos ou será que tais fenómenos ocorrem efectivamente hoje e antigamente nada acontecia? Ou será que antigamente as ‘coisas’ aconteciam como hoje mas actualmente sabemos delas na hora enquanto antigamente demoravam meses e anos a cá chegar? Mas quer elas sejam reais ou inflacionadas, hoje andamos a saber de tudo ‘no quente’ enquanto que antigamente já a febre da ocorrência esfriara quando a notícia chegava ao conhecimento dos nossos antepassados.

 

O que não merece dúvidas é que, comparando com os antigos, hoje vivemos muito mais velozmente e o stress é estado típico do estilo de vida que de nós tomou conta.

 

O imediatismo sensacionalista do conhecimento global é certamente algo do interesse dos cardiologistas, dos psiquiatras, dos psicólogos clínicos, dos fabricantes de ansiolíticos. Não esquecer os órgãos da comunicação que se regem pelas audiências, alavanca dos preços da publicidade que facturam. A exploração do antigo brado dos ardinas “traz o desastre!!!”, a denúncia e exploração mediática do vício alheio e da morbidez típica dos pobres de espírito que se querem tantos quantas as ambições dos títeres, eis a época do tele-massacre que nos devora a paciência. Pior ainda quando a demagogia dos caciques na Oposição – sejam eles quem for – leva as plateias a crerem que tudo lhes é devido, que tudo devem exigir enquanto os caciques no Poder – sejam eles quem for mas em alternância com os anteriores – só pedem apertos de cinto para que algo lhes sobre com que realcem o brilho.

 

E enquanto o mundo passa duma era de energia barata para a da cara ou vice-versa, eis que no “A bem da Nação” tratamos serenamente, sem precipitações nem alarme, de temas que não enchem as parangonas do jornalame por esse planeta além... E fazemo-lo com tranquilidade, a tal que não é compatível com pressas, alarmismos, gritos.

 

Mas também não temos a preocupação da originalidade.

 

Conhecemos a frase de Hölderlin quando ele, queixando-se da grande ignorância dos seus contemporâneos acerca do que tinham dito e feito os antepassados, afirmava que “somos originais porque não sabemos nada”.  

 

Nós sabemos ir buscar à História os ensinamentos. Nós conhecemos as fontes. Nós não discutimos a glória desportiva e outras alienações. Nós somos serenos. E só.

 

Por isso não corremos a trás dos acontecimentos mais ou menos trágicos ou mais ou menos escandalosos. Pensamos por nós próprios mesmo sem nos outorgarmos o monopólio da razão. Ficamos satisfeitos ao levantarmos questões originais propondo-lhes as soluções que consideramos correctas. Soluções tão simples quanto possível, mesmo que não originais.

 

Eis o que respondo a quem acha que o “A bem da Nação” devia ser mais escaldante: abrimos aceiros e definimos rumos; não ateamos fogos nem somos bombeiros.

 

E fazemo-lo “a bem da Nação”.

 

Henrique no parlamento de Anuradhapura, Sri Lanka.

Henrique Salles da Fonseca

(no Sri Lanka)

BREXIT

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SEM A GRÃ-BRETANHA A UNIÃO EUROPEIA FICARIA ENTREGUE AOS NACIONALISMOS

A Influência de Organizações não-governamentais ganharia mais força

 

Quinta-feira os britânicos decidem, através de referendo, sobre a saída ou permanência da Grã-Bretanha na União Europeia.

 

A Alemanha tem sido a grande aliada do Reino Unido no palco da UE. Em conjunto forçavam a economia livre e da concorrência remando contra o nacionalismo francês. Por vezes seguiam ao sabor de uma “política real” segundo o princípio os fins justificam os meios!

 

O Reino Unido movido por intenções nacionalistas pretende defender os rostos nacionais na UE; como grande potência tem conseguido para si regalias especiais perante a UE mas mesmo assim os britânicos estão descontentes. Uma potência tem sempre possibilidade de condicionar os outros parceiros. Mas se a Grã-Bretanha saísse da UE o nacionalismo de Estado da França teria mais facilidade de se impor à Europa porque a Alemanha ficaria mais isolada na defesa de interesses e estratégias nórdicas. Dar-se-ia um deslocamento de influências em direcção do sul.

 

No que respeita ao desenvolvimento da filosofia de Estado na Europa penso que se daria um atraso. A Crença de Estado francesa afirmar-se-ia então, sem grande concorrência, e influenciaria mais ainda os Estados periféricos latinos. O eixo da influência Alemanha-França acentuar-se-ia. A Europa tem-se encontrado, até agora, a ser influenciada pelos estados nórdicos na sua maneira de fazer economia e política.

 

Com o Brexit as crises aumentariam e a fúria legislativa da oligarquia de Bruxelas que era limitada pela Inglaterra e Alemanha passaria então a interferir mais na sociedade e na cultura. A nível de legislação na UE, a Influência da economia nórdica arrefeceria um pouco e aumentaria a influência de organizações não-governamentais que querem ver tudo mais regulamentado. A influência dos Verdes e a ideologia do género ganhariam mais força.

 

O Euro desvalorizaria e as economias dos restantes estados europeus sofreriam arrombamentos. A economia alemã não sofreria grande coisa porque a desvalorização do Euro seria compensada com as suas exportações; talvez sofresse um pouco na indústria automóvel.

 

Há uma certa insegurança nas empresas porque não se sabe que regras de cooperação surgiram até 2020, data de conclusão do Brexit. As empresas teriam de negociar de novo os contratos. A Alemanha e os britânicos arranjar-se-iam. O resfriamento da economia europeia enfraqueceria, mais os outros estados que a Alemanha. Esta, ordenada e disciplinada é demasiado forte pelo que não sofreria muito com qualquer eventualidade. O mundo das finanças tem andado apavorado, mas depois do atentado na Grã-Bretanha o grupo favorito em favor do Exit sofreu uma diminuição significativa passando para apenas 35%; isto provocou euforia no DAX. O Brexit provocaria muito desemprego especialmente com a saída de empresas dos países parceiros.

 

Um perigo grande para a UE seria se Bruxelas, para compensar os 56 milhões de consumidores britânicos, abrisse as portas à Turquia na qualidade de seu membro. As regiões periféricas iriam sentir ainda mais a concorrência da nova nação que passaria a ser mais populosa no grupo da UE.

 

Os britânicos estão fartos da demasiada regulamentação e não conformes com uma política de portas abertas para refugiados e queriam, neste referendo, mostrar o seu descontentamento.

 

David Cameron jogou com a democracia indo à pesca de eleitores quando fez a promessa do referendo. Agora sente-se em maus lençóis temendo o resultado do Brexit. O assassínio da deputada trabalhista Jo Cox, defensora da permanência do Reino Unido na União Europeia, provocou uma mudança radical nas perspectivas de voto vindo ajudar os defensores da continuidade na EU movendo também parte do eleitorado britânico que doutro modo ficaria em casa.

 

O Reino Unido só entrou em 1973 para o projecto da UE começado em 1958 como a Comunidade Económica do comércio livre e da livre circulação de pessoas.

 

A UE tem razão para temer a saída, por isso se empenha tanto em convencer os britânicos da derrocada que também significaria para eles uma tal decisão.

 

O crescente nacionalismo europeu, caso a Grã-Bretanha saísse receberia um grande impulso devido às forças anti UE que vêem os interesses nacionais mais bem defendidos fora da UE.

 

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António da Cunha Duarte Justo

IDEOLOGIA

 

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Perguntado sobre se a ideologia melhora ou piora o homem, sou levado a responder que melhora na medida em que dá um sentido à vida e que piora se se transforma numa alienação.

 

A ser verdade que «cada cabeça, sua sentença» e que «da discussão nasce a luz», então a ideologia serve de trave mestra na definição de parâmetros que enquadrem a discussão evitando derivas extravagantes. Mas se cada interveniente se colar monoliticamente à sua ideologia, então deixará de haver diálogo e tudo passa ao confronto entre teimosos graníticos. Está por escrever o diálogo entre duas pedras.

 

Daqui concluo que a ideologia é boa desde que os seus professos mantenham um espírito de abertura que lhes permita verificar se os seguidores de outras ideologias não terão alguma lógica também por si aceitável ou, no mínimo, compreensível.

 

A falta de uma ideologia representa a aridez mental propícia à manipulação, nomeadamente pela «mão invisível» tão actuante nestes dias que correm...

 

O culto da aridez mental, eis a prática dos ditadores e dos órgãos de comunicação generalistas; os temáticos manipulam tão descaradamente que se tornam ridículos e só apanham papalvos.

 

Sim, é preferível que se tenha uma ideologia.

 

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Henrique Salles da Fonseca

(na grande Mesquita de Nova Delhi, Janeiro de 2008)

DIREITOS DE IMIGRANTES DA UE REDUZIDOS...

... PELO TRIBUNAL DE JUSTIÇA EUROPEU

 

Abono de Família encurtado ou eliminado no Sentido das Exigências britânicas

 

 

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No conflito entre a legislação social britânica e a Comissão Europeia, o Supremo Tribunal Europeu de Justiça deu razão à Grã-Bretanha. Estrangeiros da UE que não vivem ou não vivam sempre na Grã-Bretanha não tinham direito, segundo a legislação britânica, ao abono de família britânico, embora a Comissão Europeia em Bruxelas fosse de opinião contrária.

 

O Processo com o número de arquivo C-308/14 relativo ao abono de família para estrangeiros da União Europeia veio criar clareza através da decisão do tribunal que dá razão à Grã-Bretanha.

 

A decisão, ao dar razão à Grã-Bretanha, vem fortalecer a posição dos Estados membros em relação à política da Comissão Europeia. Esta medida do tribunal é vento contrário nos moinhos dos britânicos defensores da saída da Grã-Bretanha da EU (Brexit). Este vento não será porém suficiente para a manter na UE.

 

Os juízes fundamentaram a decisão com o argumento de que as directivas relevantes da UE não criam um regime comum de segurança social europeia, permitem diferentes regulações nacionais e um governo não deve perder de vista o seu próprio orçamento. Deste modo, mesmo que o pai de uma criança viva na Grã-Bretanha e o filho na Roménia, este só passará a receber o abono de família correspondente ao da Roménia e não ao da Inglaterra. Mobilidade livre na Europa não significa direito de acesso a todos os apoios do Estado.

 

Países como a Alemanha, que pagavam imensas quantias de abono de família a crianças a viver na Roménia e em outros países da União Europeia, esfregam as mãos de contentes com tal medida do tribunal. Também se torna muito diferente se a quantia do abono de família pode ser feita em referência ao país de residência ou ao país de origem. Assim uma criança que até aqui era abonada em 180€ na Alemanha independentemente do local de residência, logo que a legislação alemã seja aferida à decisão do tribunal europeu, passará, a receber apenas 10 € de abono num país que só abone a criança com essa quantia. A prática anterior que se revelava numa medida de ajuda ao desenvolvimento e uma medida compensatória para países da periferia com a correcção do tribunal favorece o espirito nacional em relação ao europeu.

 

Com esta medida Bruxelas vem de encontro aos países mais ricos que se viam prejudicados ao terem de tratar os seus imigrantes e familiares independentemente da sua residência.

 

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António da Cunha Duarte Justo

CIVILIZAÇÃO E CULTURA

 

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Recorrendo à Wikipédia ficamos a saber que:

 

1 - Civilização é um complexo conceito da antropologia e história. Numa perspectiva evolucionista é o estágio mais avançado de determinada sociedade humana caracterizada basicamente pela sua fixação ao solo mediante construção de cidades, daí derivar do latim civita que designa cidade e civile (civil) o seu habitante. Observe-se que essa noção traduz os conceitos etno-cêntricos do início da antropologia onde se contrapõe as sociedades complexas às primitivas. É nesse contexto que também aparece a sequência evolutiva selvajaria – barbárie – civilização, entendida por Gordon Childe como os estágios evolutivos obrigatórios das sociedades antigas desde a passagem de um sistema social/económico/tecnológico de caçadores-colectores ("selvajaria") para agricultores e pastores ("barbárie") até à concentração em cidades e divisão social ("civilização"). É Gordon Childe que populariza os conceitos de revolução neolítica (ou revolução agrícola) e revolução urbana para marcar a passagem entre tais estágios evolutivos da humanidade.

Para Darcy Ribeiro, a evolução sócio cultural consiste no movimento histórico de mudança dos modos de ser e de viver dos grupos humanos, desencadeado pelo impacto de sucessivas revoluções tecnológicas (agrícola, industrial, etc.) sobre sociedades concretas, tendentes a conduzi-las à transição de uma etapa a outra, ou de uma a outra formação sócio-cultural.

Observe-se porém, que tal conceito de evolução difere da perspectiva evolucionista nos estudos clássicos da antropologia pois considera o movimento de evolução sócio- cultural como um processo complexo de civilização, marcado por mudanças e permanências, seja por aceleração evolutiva (ou estagnação cultural) devido à dinâmica da própria cultura, seja por actualização ou incorporação histórica devido a contactos inter-culturais.

Para Darcy Ribeiro, progressos e regressões são dois mecanismos de configuração histórica que representam o avanço ou retrocesso dos aspectos produtivos, sociais e culturais de uma determinada sociedade em seu percurso evolutivo relativo a outras sociedades e não a um fim específico, que é a nossa sociedade, como os evolucionistas pressupõem.

Num sentido mais amplo e comummente empregado, a civilização designa toda uma cultura de determinado povo e o acervo de seus característicos sociais, científicos, políticos, económicos e artísticos próprios e distintos.

A civilização é um processo social em si, inerente aos agrupamentos humanos que tendem sempre a evoluir com a variação das disponibilidades económicas, principalmente alimentares e sua decorrente competição por estes com os agrupamentos vizinhos.

Alguns historiadores têm defendido que o surgimento de grandes civilizações sempre depende da progressiva acumulação de recursos naturais por um determinado grupo étnico e tem por detonador a acumulação de poder bélico nas mãos de certos líderes e suas famílias. A hegemonia de tais grupos sobre outros acaba sempre por influenciar culturalmente toda a região e o produto, invariavelmente, redunda num novo estabelecimento de regras sociais, impressionantes construções e a produção de obras de arte numa etapa posterior.

Para Norberto Elias, o conceito de civilização é uma apropriação de um “termo nativo” (utilizado em França e Inglaterra a partir do século XVI, principalmente) e implica não só uma realidade específica, empiricamente observável, como também uma abstracção teórica, um modelo de interpretação da história e da sociedade, entendida como um processo e constituída a partir de uma rede de interdependência funcional. O processo civilizador manifesta-se numa cadeia de lentas transformações dos padrões sociais de auto-regulação e caminha "rumo a uma direcção específica de forma não linear e evolutiva, de modo contínuo, com impulsos e contra-impulsos alternados".

 

2 - Cultura (do latim cultura) é um conceito de várias acepções, sendo a mais corrente, especialmente no senso comum, a definição genérica formulada por Edward B. Tylor segundo a qual cultura é "todo aquele complexo que inclui o conhecimento, as crenças, a arte, a moral, a lei, os costumes e todos os outros hábitos e capacidades adquiridos pelo homem como membro da sociedade". Embora a definição de Tylor tenha sido problematizada e reformulada constantemente, tornando a palavra "cultura" um conceito extremamente complexo e impossível de ser fixado de modo único. Na Roma antiga, o seu antepassado etimológico tinha o sentido de "agricultura" (significado que a palavra mantém ainda hoje em determinados contextos), como empregado por Varrão, por exemplo.

Cultura é, também, associada comummente a "altas" formas de manifestação artística e/ou técnica da humanidade, como a música erudita europeia (o termo alemão "Kultur" – "cultura" – aproxima-se mais desta definição). Definições de "cultura" foram realizadas por Ralph Linton, Leslie White, Clifford Geertz, Franz Boas, Malinowski e outros cientistas sociais. Num estudo aprofundado, Alfred Kroeber e Clyde Kluckhohn encontraram, pelo menos, 167 definições diferentes para o termo "cultura".

Por ter sido fortemente associada ao conceito de civilização no século XVIII, muitas vezes a cultura confunde-se com noções de desenvolvimento, educação, bons costumes, etiqueta e comportamentos de elite. Essa confusão entre cultura e civilização foi comum, sobretudo, em França e Inglaterra dos séculos XVIII e XIX, onde cultura se referia a um ideal de elite. Ela possibilitou o surgimento da dicotomia (e, eventualmente, hierarquização) entre "cultura erudita" e "cultura popular", melhor representada nos textos de Matthew Arnold, ainda fortemente presente no imaginário das sociedades ocidentais.

O uso de abstracção é uma característica do que é cultura: os elementos culturais só existem na mente das pessoas, nos seus símbolos tais como padrões artísticos e mitos. Entretanto, fala-se também em cultura material (por analogia a cultura simbólica) quando do estudo de produtos culturais concretos (obras de arte, escritos, ferramentas etc.). Essa forma de cultura (material) é preservada no tempo com mais facilidade uma vez que a cultura simbólica é extremamente frágil.

A principal característica da cultura é o chamado mecanismo adaptativo: a capacidade de responder ao meio de acordo com a mudança de hábitos, mais rápida do que uma possível evolução biológica. O homem não precisou, por exemplo, de desenvolver longa pelagem e grossas camadas de gordura sob a pele para viver em ambientes mais frios – ele simplesmente se adaptou pelo uso de roupas, do fogo e de habitações. A evolução cultural é mais rápida do que a biológica. No entanto, ao rejeitar a evolução biológica, o homem torna-se dependente da cultura pois esta age em substituição de elementos que constituiriam o ser humano; a falta de um destes elementos (por exemplo, a supressão de um aspecto da cultura) causaria o mesmo efeito de uma amputação ou defeito físico, talvez ainda pior.

Além disso, a cultura é, também, um mecanismo cumulativo. As modificações trazidas por uma geração passam à geração seguinte, de modo que a cultura se transforma perdendo uns e incorporando outros aspectos mais adequados à sobrevivência, reduzindo o esforço das novas gerações. Um exemplo de vantagem obtida através da cultura é o desenvolvimento do cultivo do solo, a agricultura. Com ela, o homem pôde ter maior controlo sobre o fornecimento de alimentos minimizando os efeitos de escassez de caça ou colecta. Também pôde abandonar o nomadismo; daí a fixação em aldeamentos, cidades e Estados.

A agricultura também permitiu o crescimento populacional de maneira acentuada, que gerou novo problema: produzir alimento para uma população maior. Desenvolvimentos técnicos – facilitados pelo maior número de mentes pensantes – permitem que essa dificuldade seja superada, mas por sua vez induzem a um novo aumento da população; o aumento populacional é assim causa e consequência do avanço cultural.

 

Isto, portanto, o que os outros dizem.

 

Mas eu sou mais lacónico:

 

Civilização é o resultado da religião e inerentes códigos de conduta moral e ética;

Cultura é, enquadrada numa determinada civilização, o quadro específico do saber geral duma comunidade nacional, regional ou local.

 

Eis por que a minha unidade de facturação não é a linha nem a minha profissão a de palrador.

 

 

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Henrique Salles da Fonseca

(num templo hindu algures em Goa, Nov15)

“ATÉ AGORA, TUDO BEM"

 

 

Vivemos hoje em Portugal uma das situações mais terríveis e perturbadoras da humanidade: a lenta gestação de uma catástrofe. No futuro, quando olharem para o nosso tempo, as pessoas terão muita dificuldade em entender a apatia nacional que conduziu ao colapso de 2017-2018. Nessa altura muitos perguntarão como foi possível tal cegueira, ignorando os verdadeiros problemas, até se cair na ruína? Nós temos a resposta a este terrível enigma em directo e ao vivo.

 

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Os sinais de crescente desequilíbrio são gritantes há muito: banca e economia descapitalizadas, crescimento empatado, orçamento deficitário. Se hoje tomássemos a situação a sério, a cura ainda seria longa, dolorosa e incerta. Em vez de tentar, o governo prefere fingir que está tudo bem, garantindo que a austeridade acabou. Enquanto houver quem acredite, os desequilíbrios crescentes podem ir passando ao lado das preocupações ministeriais. Aquilo que ocupa as atenções mediáticas são projectos espúrios, polémicas tolas, planos mirabolantes, enquanto a tragédia cresce. Como em tantas calamidades antigas, a ilusão irresponsável das autoridades é boa parte da desgraça. No meio desta situação sumamente delicada e dramaticamente decisiva apenas um dos partidos que apoia o governo parece saber aquilo que quer, e isso pouco tem que ver com o interesse nacional.

 

O Partido Socialista, que já foi um dos pilares centrais da democracia, transformou-se no catavento do regime. Já esteve no poder com o CDS em 1978, com o PSD em 1983-85 e agora é apoiado pelo PCP, BE, PEV e PAN. A única orientação que mantinha, ser um partido democrático e europeísta sem relações com forças anticapitalistas e anticomunitárias, foi precisamente aquilo que António Costa desprezou para chegar a primeiro-ministro. Agora é evidente que o partido está disposto a tudo para conseguir sugar as delícias do poder. Devido a esta toxicodependência encontra-se na abjecta posição de pagador de promessas e feitor do caderno de encargos que a esquerda lhe impôs.

 

O Bloco de Esquerda, na boa tradição do newspeak do Big Brother orwelliano, onde as palavras invertem o sentido, é precisamente o oposto de um bloco. Amálgama de orientações diferentes, ainda consegue ser mais desorientada que o PS. Todas essas linhas só se unem na aversão, quando se trata de criticar, condenar e ridicularizar. Não admira que tenham dificuldade em dar contributos positivos.

 

Desde Novembro, tendo influência no poder, não conseguem apresentar ideias relevantes. Para lá das questões do baixo-ventre, onde gostam de se especializar, destacaram-se apenas na proposta de mudar o nome do "cartão de cidadão" para "cartão de cidadania", o que certamente evitaria graves melindres.

 

O PCP é um fenómeno político especial, o único partido estalinista ocidental com alguma relevância. Este sucesso deve-se a uma linha muito simples, seguida com rigor e persistência. O partido conseguiu resistir à derrocada soviética e a todas as impressionantes mudanças sociais das últimas décadas porque se transformou numa força corporativa.

 

Através da Intersindical, o PCP serve para proteger os interesses de funcionários e serviços públicos. Ironia do destino, os comunistas viraram salazaristas. Mas assim são os únicos que nesta conjuntura sabem aquilo que querem, sendo quem está por detrás das únicas medidas marcantes do governo, da recompra da TAP às 35 horas do funcionalismo, passando pelo encerramento dos colégios privados. O PCP é o único claro vencedor da conjuntura.

 

Com cada uma das forças governamentais perdida no seu labirinto, a sociedade portuguesa está ao abandono, com os desequilíbrios a inchar. Tal como no governo de José Sócrates, a ilusão vai manter-se até ao colapso final. Só então vão cair os mitos e se tomarão as medidas desesperadas. Nessa altura as culpas da situação serão atribuídas à crise mundial, Europa, austeridade, exploração capitalista; a todos menos aos governantes que, quando ainda havia alguma coisa a fazer, ignoraram as dificuldades, envolvidos que estavam nas suas intrigas e projectos.

 

A 15 de Maio de 2006, escrevi neste jornal: «Portugal está como o homem que caiu do arranha-céus e quando, a meio da descida, um amigo da janela lhe pergunta como está, ele responde: "Até agora, tudo bem!"». Nestes dez anos o país já bateu no fundo, já se levantou e está de novo a cair. No Congresso do Partido Socialista, a mensagem de António Costa foi: "Até agora, tudo bem". Só que desta vez a queda será mais curta pois o fundo está mais perto.

 

Junho de 2016

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João César das Neves

EXPRESSÕES CURIOSAS DA LÍNGUA PORTUGUESA

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GUARDAR A SETE CHAVES


No século XIII, os reis de Portugal adoptavam um sistema de arquivamento de jóias e documentos importantes da corte através de um baú que possuía quatro fechaduras, sendo que cada chave era distribuída a um alto funcionário do reino. Portanto eram apenas quatro chaves. O número sete passou a ser utilizado devido ao valor místico que se lhe atribuí desde a época das religiões primitivas. A partir daí começou-se a utilizar o termo "guardar a sete chaves" para designar algo muito bem guardado...

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