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A bem da Nação

Fátima Patriarca (1944-2016)

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OBITUÁRIO

 

Maria de Fátima da Silva Patriarca nasceu no Monte do Sol Posto, no Couço, concelho de Coruche, em 19 de Janeiro de 1944 e morreu em Lisboa, no Hospital da CUF, na manhã do dia 11 de Março de 2016.

 

A sua família era natural de Manteigas, e Fátima Patriarca nasceu no Riba­tejo por uma circunstância fortuita: o seu pai trabalhava no Monte do Sol Posto como contabilista da casa agrícola dos Ribeiro Telles e professor dos filhos dos trabalhadores daquela herdade.

 

Em 1949, a família partiu para Benguela, em Angola, onde Fátima Patriarca passou a infância e os primeiros tempos de juventude. Aí fez a escola primária, o curso comercial e o liceu, após o que veio estudar Germânicas na Univer­sidade de Lisboa. Tendo ingressado em Letras em plena crise académica de 1961, duas reprovações inesperadas – a Inglês e a Alemão – deram-lhe pre­texto para abandonar um curso que não a motivava, indo ao encontro do seu interesse pelos problemas sociais. Assim, transferiu-se em 1963 para o Insti­tuto Superior de Serviço Social, onde se diplomou, com 17 valores, em 1967. Em Novembro desse ano, participou nas acções de socorro às vítimas das cheias que devastaram a Grande Lisboa, e provocaram centenas de mortos. Recor­daria para sempre o cenário dantesco desses dias, um momento decisivo na formação cívica e política de muitos jovens da sua geração.

 

Entre 1968 e 1973, foi técnica de Serviço Social na Direcção-Geral de Pre­vidência e Habitações Económicas. A actividade desenvolvida aí permitiu-lhe enriquecer o seu já profundo conhecimento do país, sendo um factor determi­nante da futura carreira académica e da obra que produziu.

 

Tendo decidido ir para Paris em 1969, Fátima Patriarca foi, entre 1970 e 1972, bolseira da Fundação Gulbenkian. Nessa qualidade, frequentou o Troi­sième Cycle em Sociologia, na École Pratique des Hautes Études, VIe Séction, onde obteve o Diplôme d’Études Approfondies en Sciences Sociales (deass).

 

Após regressar de França, reassumiu funções na Direcção-Geral de Pre­vidência e Habitações Económicas e, em simultâneo, colaborou no Grupo de Sociologia do Gabinete Técnico de Habitação da Câmara Municipal de Lisboa. Em 1973, transitou para o Centro de Documentação e Informação deste orga­nismo, onde permaneceu até 1975.

 

Quando, em 1974/1975, colaborou, no Gabinete de Investigações Sociais (GIS), na investigação sobre “Conflitos de trabalho após o 25 de Abril”, sob responsabilidade de Maria de Lourdes Lima dos Santos, Marinús Pires de Lima e Victor Matias Ferreira, Fátima Patriarca possuía já alguma experiên­cia docente, pois leccionara entre 1969 e 1970 no Instituto Superior de Serviço Social, funções que retomaria em 1974/1975 (sendo responsável pela disci­plina de Sociologia do Trabalho). Neste ano de 1975 foi assistente do ISCTE, sendo igualmente em 1975 que ingressou no Gabinete de Investigações Sociais. A partir daí, inicia em pleno o seu percurso como investigadora, encerrando--se um ciclo de vida até então pontuado pelo trabalho como técnica de Serviço Social e por uma passagem pelo ensino, que não terá sido especialmente rele­vante para a sua obra posterior.

 

Em 1980, licencia-se em Sociologia no ISCTE, com a classificação final de 18 valores. A sua área de especialização – a Sociologia Industrial – levara-a a contactar directamente o meio fabril português, acompanhando de perto a laboração de empresas como a Lisnave, a Sidul, a Sorefame, a Setenave e, sobretudo, a Mague. Com a integração do GIS na Universidade de Lisboa, passa a Assistente de Investigação no Instituto de Ciências Sociais (ICS). Entre 1989 e 1991, primeiro sob orientação de Maria Filomena Mónica e Manuel de Lucena e, depois, de Adérito Sedas Nunes, desenvolve o projecto de investiga­ção “O processo de instauração do corporativismo, no domínio das relações entre o capital e o trabalho (1930-1947)”, o qual culmina na sua dissertação, em Janeiro de 1992.

 

Antes desse trabalho de grande fôlego, Maria de Fátima Patriarca estivera envolvida noutros importantes projectos: entre 1975 e 1978, com Marinús Pires de Lima e José David Miranda, “A acção operária nas empresas após o 25 de Abril – significado do movimento conflitual e grevista”; em 1978, num traba­lho financiado pela Junta Nacional de Investigação Científica e Tecnológica e intitulado “O trabalho e a acção operária na indústria metalomecânica pesada”; e, entre 1983 e 1986, “Sindicatos, contratação colectiva e greve: o caso dos metalúrgicos portugueses (1968-1972)”.

 

Em Janeiro de 1992, concluiu as provas da carreira de investigação no ICS, com a classificação máxima. Para o efeito, apresentou a dissertação “Pro­cesso de implantação e lógica e dinâmica de funcionamento do corporati­vismo em Portugal – os primeiros anos do salazarismo”, volumoso trabalho, mais tarde publicado em livro, em dois tomos, com o título A Questão Social no Salazarismo, 1930-1947 (Lisboa, INCM, 1995). A obra é dedicada a Adérito Sedas Nunes, a quem agradece “uma total liberdade e uma crítica implacável, condições indispensáveis ao trabalho e maturidade intelectuais”. Além desse agradecimento, Fátima Patriarca manifesta a sua gratidão a diversos colegas, mas destaca dois: Maria Filomena Mónica, com quem colaborou durante anos sobre as “questões operárias”, e Manuel de Lucena, que apelida de “pioneiro nos estudos sobre o corporativismo”, e ao qual agradece o estímulo e, em par­ticular, as críticas e as sugestões nascidas de uma “leitura atenta e rigorosa” do texto, traço que é fácil reconhecer por todos quantos beneficiaram da argúcia e generosidade de Manuel de Lucena.

 

Além da dissertação, prestou provas complementares, tendo apresentado o trabalho “Projecto de investigação: sindicatos e luta social no regime corpo­rativo – dos anos 50 a 1974”. Tratava-se de um projecto que prosseguiu mesmo após a sua jubilação, ocorrida em Outubro de 2005. Ao jubilar-se, Fátima Patriarca concluía uma carreira que a fizera percorrer todos os passos de um exigente caminho, de Assistente a Investigadora Principal.

 

Maria de Fátima Patriarca concentrou praticamente toda a sua actividade no ICS. Foi aí que, com Maria Filomena Mónica, criou em 1979 o Arquivo Histórico das Classes Trabalhadoras, mais tarde Arquivo de História Social do ICS. No GIS e, depois, no ICS, exerceu as mais diversas funções, entre as quais as de vogal do Conselho de Gestão e do Conselho Científico do GIS, membro do Conselho de Redacção do Boletim de Estudos Operários, representante dos investigadores do ics na Assembleia da Universidade de Lisboa, responsável pelo Arquivo de História Social do ICS, membro da Comissão Permanente do Conselho Científico, do Conselho de Redacção da Análise Social, da Imprensa de Ciências Sociais e presidente da Assembleia de Representantes.

 

O reconhecimento dos seus méritos como cientista social e o apreço pela integridade do seu carácter fizeram com que fosse chamada a desenvolver tra­balhos sobre questões relacionadas com o ensino superior e a investigação. Entre 1991 e 1993, participou na pesquisa dirigida por José Mariano Gago sob o título “Papel das investigações científicas e tecnológicas e do ensino supe­rior no planeamento estratégico de Lisboa”. Entre 1993 e 1994, foi membro do Grupo de Trabalho – Inquéritos, no quadro da avaliação da Universidade de Lisboa. Sendo muito vasta a sua acção nestes domínios, seria fastidioso recordar cada um dos momentos em que Fátima Patriarca neles teve intervenção, bas­tando mencionar a sua participação em 2004 – e a convite de António Barreto –no painel de avaliação de projectos de investigação apresentados à Fundação para a Ciência e Tecnologia (FCT) e ao Ministério da Segurança Social.

 

É certo que, como atrás se referiu, a sua obra como investigadora se des­taca em face da actividade docente. No entanto, Fátima Patriarca ministrou cursos e palestras, organizou conferências e, sobretudo, mobilizou e integrou várias equipas de cientistas sociais. Neste contexto, entre 1974 e 1976 leccionou no ISCTE o “Seminário sobre a sociedade portuguesa – área de conflitos de trabalho”. Em paralelo, de 1975 a 1983 iria, com Marinús Pires e Lima e Maria Filomena Mónica, promover a realização de palestras e seminários de investigadores estrangeiros, como Alain Touraine, Michelle Perrot, ou Patrick Friedenson. Foi também convidada a proferir conferências ou leccionar em seminários de pós-graduação ou cursos de mestrado nos mais variados luga­res – Escola Nacional de Saúde Pública, ISCTE, FCSH da Universidade Nova de Lisboa, ICS. Foi, todavia, em colaboração com Maria Filomena Mónica que mais frequentemente trabalhou, seja nas iniciativas atrás citadas, seja na organização, em 1981, do colóquio “O movimento operário em Portugal”, seja, enfim, na coordenação do seminário “Fontes e arquivos com importância para o estudo do movimento operário”, de 1984.

 

Além do Budo, que praticou durante quase 50 anos, cultivava outras artes, igualmente marciais. Entre elas, a maior de todas, a amizade. Por leal amizade, tomou entre mãos e chamou a si tarefas que a obrigaram a abandonar a sua “zona de conforto”, como agora se diz, mergulhando a fundo, por exemplo, na coordenação científica da exposição “1936 – Tarrafal – Guerra Civil de Espa­nha”, inaugurada na Torre do Tombo em 2006. Antes disso, recolhera apoios para a elaboração, a que procedeu, de um fac-símile do Álbum Fontoura, com­posto por 549 fotografias da antiga colónia portuguesa de Timor e depositado no Arquivo de História Social do ICS. Mais tarde, a amizade com Manuel de Lucena levá-la-ia, sob coordenação deste, e em colaboração com Rita Almeida de Carvalho, a acompanhar a transcrição e disponibilização online de fontes escritas e orais preciosas sobre a descolonização portuguesa. Não seria este o último gesto de amizade que teria para com Manuel de Lucena, cuja morte inesperada a abalou profundamente. Dedicou-se, com alguns colegas, à orga­nização da obra colectiva Estados, Regimes e Revoluções. Estudos em Homena­gem a Manuel de Lucena (2012), para a qual contribuiu com um texto sobre “A batalha de Pomigliano d’Arco”.

 

Ao longo da sua carreira, publicou dois livros. Um, já citado, sobre a questão social no salazarismo. O outro chama-se Sindicatos contra Salazar.

 

A Revolta do 18 de Janeiro de 1934, e foi dado à estampa pela Imprensa de Ciências Sociais em 2000. Além disso, cerca de uma vintena de artigos de revista, textos breves, entradas de dicionários. Tratou um dos mais importan­tes documentos que se conhecem sobre a génese do Estado Novo: o “Diário” do chefe de gabinete de Salazar, Antero Leal Marques, que, graças à generosi­dade da família, deu entrada no Arquivo de História Social e daí saiu impeca­velmente transcrito, anotado e apresentado por Fátima Patriarca nas páginas desta revista. Realizou o seu último trabalho – a revisão científica de Cronolo­gias de Portugal Contemporâneo (1960-2015) – de forma tremendamente séria, com o perfeccionismo que decorria do profundo sentido de responsabilidade que colocava em tudo quanto fez em vida.

 

Ao evocar a sua obra, num texto notável lido por ocasião da oportuna homenagem que em 2015 o ICS prestou aos seus historiadores, Álvaro Garrido observou: “Publicou sempre textos amadurecidos e só publicou quando enten­deu que tinha coisas importantes a dizer porque entendeu submeter resultados de investigação ao escrutínio dos pares”.

 

Como também sublinhou Álvaro Garrido, Sindicatos contra Salazar. A Revolta do 18 de Janeiro de 1934 é uma “obra sofisticada, de grande matu­ridade e de culto pela micro-história à Carlo Ginzburg”. Intrigada pelo 18 de Janeiro como um dos mitos fundadores da imagem revolucionária do prole­tariado português, Fátima Patriarca deslinda-o com a exasperante minúcia de um médico legista ou de um detective de romance.

 

Avessa aos desconcertos do mundo, nunca buscou a polémica, ainda que neste seu livro haja desmantelado, pedra a pedra, mitos quase sacrais e cren­ças bem arreigadas sobre o “soviete da Marinha Grande”. A dado passo da Introdução, a autora fornece-nos uma pálida imagem do que foi a dimensão do seu esforço: além de uma cronologia ao minuto de tudo o que se passou em Portugal no dia 18 de Janeiro de 1934, a pesquisa envolveu a elaboração de um ficheiro onomástico de perto de 400 pessoas referenciadas pela imprensa. Depois, com a abertura do arquivo da PIDE/DGS, houve que reabrir o labor de pesquisa, meses a fio.

 

Escrevendo no dia da sua morte, a sua grande amiga Maria de Fátima Bonifácio disse, sagazmente, que “a maior dificuldade da Fátima Patriarca era convencer-se a si mesma”. A humildade era um dos traços mais vincados do seu carácter. Mas foi dessa humildade que nasceu a enorme solidez da sua obra. Nada ousava dizer sem a certeza absoluta de que as suas afirmações eram apoiadas em dados certos, indesmentíveis. Tinha, aliás, a consciência de que, trabalhando com arquivos, estes nem sempre são fiáveis.

 

Deixou-se para último aquilo que é primeiro. Estas linhas foram escritas porque alguém me fez chegar às mãos o curriculum vitae de Fátima Patriarca.

 

Esse alguém tem um rosto e um nome: Jorge Almeida Fernandes. Casaram em 1965, na Igreja de São João de Brito, Lisboa. Estiveram juntos, portanto, mais de cinco décadas. Num sábado de tempo incerto, lançou-lhe as cinzas ao mar – e, com elas, um pouco de todos nós.

 

António Araújo

(FCSH-UNL)

 

in Análise Social, 219, LI (2.º), 2016

MOÇAMBIQUE

 

VELHAS FORTALEZAS

 

As fortalezas mais conhecidas e conservadas são as da Ilha de Moçambique – Fortaleza de São Sebastião (1558), Forte de Santo António (1820) e Forte de São Lourenço (1580?) - e a do Maputo que foi quase sempre uma paliçada de madeira até que em 1946 se construiu em pedra, como monumento, sobre os alicerces originais de madeira.

 

As que se descrevem são as esquecidas, arruinadas, mas fazem parte da história e do património, mesmo que em ruínas.

 

1.- Praça de S. Caetano de Sofala

 

A fortaleza de Sofala foi fundada em 1505 com a finalidade de monopolizar o tráfico de ouro vindo do interior do Monomotapa, que estava nas mãos dos árabes, “as minas mais ricas que nenhumas outras daquelas partes”, como as classificou El-Rei D. Manuel, que deu ordens para a sua construção.

 

Em 1595 chegou Pêro de Anhaia para dar início à construção, que mandou dizer ao Vice-Rei, na Índia: “parecia escusada ali a fortaleza e gasto de gente, que não senhoreava nada, porque se com paz e amizade se não fizesse o resgate, ninguém lho poderia fazer por força, por a terra ser má de doença”. Em vez de construir algo em pedra, limitou-se a organizar “uma tranqueira” defendida por um fosso.

 

Gaspar Correia quando ali passou em 1512 dá uma visão da obra: “O Capitão mór, com o conselho de todos escolheu o lugar para construir, junto ao rio... e repartiu o trabalho por todos os homens, do qual trabalho, por a terra ser doentia, começou a gente a adoecer e morrer; pelo que houveram por bem acertado em não ter começado a fortaleza; e a tranqueira foi acabada em fim de Outubro, sendo muita gente doente dos maus ares da terra”.

 

Anhaia morreu pouco depois e o feitor, eleito Capitão, Manuel Fernandes construiu dentro da tranqueira um “cubelo de pedra e cal”.

 

Após um ataque movido pelos árabes, “o Capitão, que já nom avia homens doentes abrirão logo os alicerces e começaram a fazer a fortaleza... acabada em 1506”.

 

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Em carta de 1608 el-rei: “... a fortaleza está muito mal provida, sem presídio nem munições e exposta a ser ocupada dos inimigos”.

 

Em 1644 chegou ao reino a notícia de que a fortaleza estava arruinada, tendo o vice-rei D. Filipe de Mascarenhas proposto que fosse desmantelada, mas o rei, D. João IV escreve ao novo vice-rei, Conde Óbidos: “Conde sobrinho amigo... me pareceo dizervos que que não convém ser desmantelada a dita fortaleza, antes tratar-se da sua conservação...

 

Em 1758 Sofala tem a sua antiga fortaleza de pedra e cal, e hoje em partes lhe bate o mar, e a Igreja, da mesma antiguidade está demolida”, e em 1789 já “...a parte do mar está carcomida e muito arruinada.

 

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 Em 1885 – Desenho original de Augusto de Castilho

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1905

 

1906 – Último ano em que a torre de menagem esteve de pé. Poucos anos mais e tudo se afundou nas areias salgadas.

 

2.- Forte Princesa Amélia em Massangano

 

Situado a uma dúzia de quilómetros de Tete, na margem direita do Rio Zambeze, perto da confluência do Rio Luena, no alto da serra Bacampembuzuè (ou Inhampembuzuè), na aringa que foi dos “rebeldes” Bonga, Chatara e Motontora, em 29 de Novembro de 1888, o Governador-Geral de Moçambique, Augusto de Castilho e mais um monte de outra gente, tomou posse solene desta aringa, que ficava ocupava por um destacamento militar, já que a situação geográfica parecia importante para o controle da região. Arvorou-se a bandeira, deram vivas ao rei, etc. e lavrou-se o competente auto.

 

Em Outubro do ano seguinte o governador de Tete propôs que se construísse ali uma fortaleza de pedra e cal.

 

Em 1891 João de Azevedo Coutinho que passou na região, escreveu, dando “a obra em começo, era grandiosa de mais e perfeitamente deslocada para aquelas paragens”.

 

Já guarnecida 1892 só dois anos mais tarde se fez a inauguração solene. Mais autoridades, mais hastear de bandeira, mais vivas e... mais nada.

 

Não tardou muito que tivesse sido abandonada, caiu no esquecimento e em ruinas.

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No topo da serra, os restos, vendo-se o “tambor”, área circular num dos cantos do forte

 

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 Interior do forte sobre o lugar da aringa

 

3.- Fortim de Pemba

 

Terá sido Jerónimo Romero o autor da obra de um pequeno fortim em Porto Amélia, hoje Pemba (aliás nunca deixou de ser Pemba!) em 1857, quando se estabeleceu naquela localidade uma colónia de europeus, chamada “8 de Dezembro”.

 

Em 1858 foi encarregado o capitão Luis Feliciano Guerreiro Barradas de dar início às obras “nas pontas Norte e Sul, ou pelo menos um, que deverão ser fortificados com a brevidade possível”. Começou pela ponta de Miranembo, depois ponta Romero, “na praia do desembarque construiu-se uma palhota para agasalho de gente e depósito de materiais”. Logo a seguir mandou-se ao Governador Geral “uma planta para um fortim abaluartado” de traça pentagonal, que nunca obteve resposta.

 

Romero queria um Reduto com capacidade para 20 praças, cozinha, armazém, paiol para munições, etc.

 

Entretanto as intrigas contra a colónia “8 de Dezembro” começaram a vingar e em Setembro de 1861 só restavam cinco colonos e a colona Ana Barbosa.

 

Em 1862 inicia-se “a construção de um pequeno reduto ou parapeito para servir de defesa ao destacamento si estacionado, em forma hexagonal que ficou concluída em 4 de Janeiro seguinte, com uma muralha de 9,5 palmos de altura exterior e 2 palmos de espessura.

 

Em Julho o governador reconhecendo o fundamento reclamações dos sucessivos comandantes do destacamento, para que aos muros do reduto fossem dadas maior consistência e altura. “...porque sendo amiudadas vezes visitado pelo Leão e pelo Tigre resultava não se poderem ali conservar os soldados desde o começo da noite”.

 

Em 1865 o governador interino, Francisco de Paulo de Castro Domingues, escreveu: “Não serve para nada, está construído de tal maneira que tendo três peças montadas só podem fazer fogo para o ar. O quartel do destacamento está fora do forte e está a cair, é preciso construir outro dentro se lá couber”.

 

Hoje lá está um forte, todo remodelado, conforme foto do blog tronco-em-flor.

 

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Forte Jerónimo Romero – Pemba (foto recente)

 

18/06/2016

 

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Francisco Gomes de Amorim

UM SEFARDITA NA AMÉRICA

 

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 Jacob Rodrigues Rivera

(pintado por Gilbert Stuart)

 

A importância da comunidade judaica (em particular a sefardita) na vida económica e cultural das Américas, desde os tempos do descobrimento e ocupação do Novo Mundo, esquecida pela população em geral, vem sendo resgatada pela comunidade académica actual.

 

Fugidos da Inquisição Ibérica, os judeus de origem portuguesa e espanhola (sefarditas) do século XVI ao século XIX encontraram, a principio, no continente americano, um lugar para ganhar a vida e assumir a sua religião.

 

Após a expulsão dos holandeses de Pernambuco em 1654, boa parte dos judeus instalados no nordeste brasileiro fugiram para o interior da província ou partiram para as Colónias Inglesas (Barbados e Jamaica) e Holandesas do Caribe e Suriname, até chegar à Nova Amsterdam (hoje New York). Em geral eram plantadores de cana-de-açúcar, donos de escravos e engenhos, ou comerciantes oriundos da diáspora sefardita portuguesa que dispersados na Europa (Portugal, Espanha, Holanda, França e Inglaterra) haviam encontrado na América Portuguesa a possibilidade de viver, longe da Inquisição.

 

Na nova sociedade americana, esses cristãos-novos e bnei anussim (descendentes de judeus baptizados à força) mesmo sendo elementos estranhos à sociedade local, conseguiram formar uma comunidade cultural, económica e socialmente influente. Assim é que os sefarditas (judeus portugueses e espanhóis) como os asquenazitas (judeus da Europa oriental) sofreram modificações impingidas pelo meio-ambiente, tanto quanto pela religião que os regiam. Como um judeu português é diferente de um judeu Tedesco (alemão), o português católico comporta-se diferentemente de um judeu português.

 

A presença judaica sefardita, de influencia colonial americana, desenvolveu sem muitos escrúpulos o comércio de escravos e a transferência o riquezas (ouro, prata, açúcar, rum, peixe salgado, chocolate,...) de um lado para outro do Atlântico. Plantaram e manufacturaram, comercializaram e distribuíram produtos usando seus próprios navios. Enriqueceram, tornaram-se influentes através de casamentos, actividades culturais, filantrópicas e comerciais. Elevaram-se socialmente, despertaram a cobiça e a inveja em cristãos, holandeses e piratas. Apesar de os reveses, firmaram-se na nova sociedade americana onde contribuíram definitivamente com seu desenvolvimento.

 

A partir do século XVII, Newport progrediu mais fortemente, tanto no sector económico como no cultural, com a chegada da comunidade judaica que ali se instalou. Entre esses indivíduos destacou-se Jacob Rodrigues de Rivera, além de outros das famílias judias Lopez, Seixas, Gomes, de Toro ou Touro, Levy, Hays, Meyers, Hart. Trouxeram consigo tradições e desejos de liberdade que marcaram a identidade do povo americano. Famílias com larga prole, que se relacionavam em redes de negócios e casamentos, propiciaram uma grande influência económica e cultural na sociedade estadunidense.

 

Segundo a pesquisadora Sandra Malamed, Jacob Rodrigues de Rivera teria nascido em Portugal, em 1717, porém de família originária de Sevilha. Em criança foi para New York com seu pai. Fez carreira mercantil. Chegou a Curaçau onde havia comunidade judaica e entreposto comercial. Ali casou com Hannah Pimentel. Desse enlace nasceram em New York seus filhos Abraham e Sarah Rodrigues de Rivera que se casou com o primo de seu pai, Aaron Lopez (nascido Duarte Lopez, em Portugal), rico comerciante, traficante de escravos e armador de navios em Newport.

 

Naturalizou-se em 1746 (N.Y) e em 1748 mudou-se para Newport, onde, associado a Aaron Lopez, torna-se um dos mais importantes comerciantes da região.

 

Àquela época colonial americana, Newport era um verdadeiro “melting pot” de culturas e etnias, onde se abrigavam cidadãos católicos britânicos, hugenotes franceses, judeus sefarditas (fugidos da Inquisição) e escravos. Nessa cidade foi pioneiro com seu primo na introdução do comercio do espermacete, óleo retirado da cabeça de baleia (cachalote) usado na manufactura de velas ( técnica aprendida em Portugal e transferida para a América) e como lubrificante e combustível para lâmpadas. Com Nicholas Brown de Providence (RI), membro da família Brown, co-fundadora da Universidade de Brown, manteve rentável negócio praticado com as Índias Ocidentais e África, pois os barcos que transportavam as mercadorias (rum, açúcar, escravos, sabão, peixe, farinha, óleo de baleia, velas,...) eram também de sua propriedade ou da sociedade com seu primo Aarão Lopez, um dos mais importantes e ricos comerciantes de Rhode Island.

 

Jacob Rodrigues de Rivera era um cidadão de espírito público. Sua actuação se dava também em âmbito cultural. Além de organizar o Clube Hebraico de Newport, teve seu nome associado com a formação da Biblioteca Red Wood e com a construção da Sinagoga de Yeshuat Israel. Em 1773 foi nomeado administrador do Cemitério Judaico de Savannah.

 

Na ocasião da Revolução Americana, Jacob Rodrigues de Rivera teve que partir para Massachussets em 1777, devido ao bloqueio marítimo britânico à cidade. Esteve em Boston e depois em Leicester, onde sua filha e genro estavam. Mais uma vez ali seu nome aparece ligado à cultura local. Torna-se então um dos benfeitores do Yale College. Ofereceu um quadro do rabi Hajim Issac Carigal ao Colégio, agradando Erza Stiles, teólogo, professor e director da Instituição.

 

No período da Revolução Americana, devido ao tipo de negócio que desenvolvia, teve graves reveses financeiros. Mas o seu espírito, tino comercial, redes e associações fizeram com que ele se recuperasse. Conta-se que, já superadas as dificuldades financeiras, convidou seus antigos credores para um jantar, onde debaixo de cada prato havia a quantia de seu crédito com os seus convidados, com os juros e correcção monetária!

 

Em 1782 retornou a Newport, e passou a residir numa casa hoje referência arquitectónica do período Colonial Americano. Quando morreu em 1789 deixou para os herdeiros um abastado património. Seus livros, a sua Torah, ouro e prata ficaram para seu filho Abraham. Os bens restantes foram divididos entre Sarah, Hannah e Abraham. Gilbert Stuart retratou-o num quadro doado à Redwood Library (Newport).

 

Muitas foram as benfeitorias da comunidade judaica na antiga Colónia inglesa e no desabrochar da identidade da nova nação norte-americana. Universidades, livrarias, sinagogas, lojas maçónicas, entrepostos comerciais, indústrias, bancos, clubes. Instituições hoje reconhecidas mundialmente.

 

No entanto, a diáspora sefardita, o número crescente de consórcios entre judeus e não judeus, as perseguições político-religiosas, as intolerâncias abertas e as veladas, fizeram com que a identidade judaica se diluísse no mundo ocidental. Mas, apesar de tudo, é inegável que a garra desse povo está historicamente presente na cultura e na força financeira dos países onde houve empenho no trabalho e tolerância étnico-religiosa.

 

Uberaba, 21/06/16

Maria Eduarda Fagundes

 Maria Eduarda Fagundes Nunes

 

Dados compilados de:

Mercadores e Gente de Trato ( Dicionário Histórico dos Sefarditas Portugueses). Direcção Científica de A. A. Marques de Almeida. Lisboa 2009. 1ª edição.

Os Judeus, o dinheiro e o mundo (Jacques Attali)

Enciclopédia Judaica 1906 (por Cyrus Adler , L. Hühner)

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