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A bem da Nação

BREXIT

FICA, INGLATERRA!

 

Escolho o dia anterior ao referendo britânico sobre o “Fico” ou “Saio” da União Europeia, para me pronunciar sobre o tema. Antes de saber os resultados, desde já declaro, com risco, que creio que vencerá o “Fico!”

 

E creio que será um melhor resultado para os europeus e para o mundo. Creio que também será melhor para os britânicos, mas respeitar as democracias nacionais significa respeitar o que elas decidirem.

 

Antes de mais, aquilo a que os manipuladores de opinião chamam Brexit – termo de si já traiçoeiro – oculta um consenso entre os ingleses pró e contra: não gostam que a democracia britânica receba ordens da burocracia de Bruxelas. É uma premissa maior partilhada pela esmagadora maioria dos ingleses.

 

Mas depois dividem-se, claro, na premissa menor. Os da “Saída” usam toda a casta de argumentos, desde as lamúrias neoliberais e conservadoras à maneira da senhora Thatcher – “Quero o meu dinheiro de volta!” – até ao nacionalismo tacanho do UKIP com medo dos estrangeiros e nostalgias do império, passando pelo racismo e xenofobia que levaram ao tenebroso assassinato da deputada Jo Cox, do “Fico”.

 

Os do “Fico” fazem contas de que abandonar a Europa sairá muito caro - menos 5% do PIB a prazo; falam da responsabilidade social e política da Inglaterra para com o projecto europeu, como Corbin; e, tal como Cameron, falam da instabilidade política. Uns poucos dizem ainda que a Grã-Bretanha fechou o ciclo do império e tem de acolher a Europa, o Erasmus e a mobilidade.

 

Se olharmos para o mapa das sondagens, sabemos que Escócia e Grande Londres votam maioritariamente pelo “Fico” e que Gales o Ulster também assim votam, em menor grau. E que as províncias inglesas votam maioritariamente pela “Saída” com manchas mais difíceis de racionalizar.

 

Os argumentos económicos e financeiros já foram explicados cem vezes. A City dos negócios financeiros gosta da UE. Os exportadores ingleses gostam da UE. Os ingleses das cidades menores e províncias têm medo de perder empregos e pagar impostos para os “ preguiçosos do sul” com quem passam férias sem trabalhar. Os escoceses e, em menor grau, galeses e irlandeses do norte gostam da UE porque assim não estão vinculados apenas à “little England”.

 

Contudo, o tutano dos argumentos de ambos os lados, nas entrelinhas, nos subentendidos, nos understatements de que o ingleses tanto gostam é outro: é a defesa apaixonada da democracia de que os ingleses justamente se ufanam desde a Magna Carta; é o sentido do humanismo individual que vem desde o anónimo de York no séc XI, até Tomás Moro no séc. XVI, e Winston Churchill na segunda Guerra Mundial. “Their finest hour” foi sempre contra os feudais, contra os fundamentalistas, contra Napoleão, contra os nazis. Será que Bruxelas é um papão deste tipo? Ou será que a Inglaterra tem um complexo de superioridade?

 

MCH-brexit.jpg

Fica, Inglaterra!

 

Bruxelas não é papão como os fundamentalistas e os nazis. Mas a enorme propaganda dos tablóides agitados pela sede de poder de Boris Johnson e Nigel Farage e os activistas do Brexit fazem passar essa imagem. Entretanto, os Britânicos com coragem e coração dizem o contrário e não abusam das palavras “independência” e “liberdade”.

 

A tradição das liberdades civis Inglesas tem muito de mito histórico, mas foi narrada tantas vezes que se tornou um acervo real. A Inglaterra fez a revolução há tanto tempo – cortaram a cabeça ao rei em 1640 – antes de 1789, antes de 1820, antes de 1917 – que parece ter tido uma transição gradual para a democracia. Claro que o parlamento do século 18 não era democrático. E o sufrágio só começou a mudar na década de 1880.

 

E assim chegamos à tradição da democracia. Na Inglaterra, a oposição pode levar o governo a renunciar. Na União Europeia, não é assim. O Parlamento Europeu é uma coligação de grandes partidos, o que até evita conflitos. A Comissão que não é eleita faz as vezes de um governo real. Assim, as críticas sobre a natureza anti-democrática da UE são justificadas. Agora só um ingénuo julgaria resolver os conflitos de interesses entre as nações por referendos e decisões de maioria: seria a morte dos pequenos países. Os problemas podem ser resolvidos por negociação e consenso.

 

Ficando a Inglaterra na UE a 23 de Junho, nada fica resolvido dos podres de Bruxelas. O euro é cada vez mais uma fonte de divisão europeia. O euro dos credores vale mais que o euro dos devedores e o BCE não só não resolve esta divisão como a agrava. O euro empurra para a união monetária e esta empurra para um estado confederal. Com o “Fico”, ou com a “saída”, este problema continua em cima da mesa.

 

Mas com o “Fico”, há uma grande diferença que todos os europeus saberão saber apreciar. Com o “Fico”, a Grã-Bretanha terá dado um enorme sinal de que quer continuar a contribuir para domesticar os ímpetos burocráticos de Bruxelas, em vez de deitar a toalha ao chão: e que pretende continuar a alimentar a seiva democrática.

 

A permanência da Grã-Bretanha será um sinal para todos os Europeus que Ingleses, Escoceses, Galeses e Irlandeses do Norte não querem ser substituídos pelos mecanismos de tomada de decisões em Bruxelas. Que poderemos contar com eles, para organizar a vida em comum do século XXI e acolher o mundo numa fase de grandes desafios.

 

Por isso, do alto lugar da minha insignificância, eu apelo: Fica, Inglaterra!

 

22 Junho, 2016

 Mendo Castro Henriques.jpg

Mendo Castro Henriques

Faculdade de Ciências Humanas, Universidade Católica Portuguesa

NÃO TRAZ O DESASTRE

 

tranquilidade.jpg

 

Correm os jornais, rádios e televisões a inventar escândalos, guerras e flagelos ou será que tais fenómenos ocorrem efectivamente hoje e antigamente nada acontecia? Ou será que antigamente as ‘coisas’ aconteciam como hoje mas actualmente sabemos delas na hora enquanto antigamente demoravam meses e anos a cá chegar? Mas quer elas sejam reais ou inflacionadas, hoje andamos a saber de tudo ‘no quente’ enquanto que antigamente já a febre da ocorrência esfriara quando a notícia chegava ao conhecimento dos nossos antepassados.

 

O que não merece dúvidas é que, comparando com os antigos, hoje vivemos muito mais velozmente e o stress é estado típico do estilo de vida que de nós tomou conta.

 

O imediatismo sensacionalista do conhecimento global é certamente algo do interesse dos cardiologistas, dos psiquiatras, dos psicólogos clínicos, dos fabricantes de ansiolíticos. Não esquecer os órgãos da comunicação que se regem pelas audiências, alavanca dos preços da publicidade que facturam. A exploração do antigo brado dos ardinas “traz o desastre!!!”, a denúncia e exploração mediática do vício alheio e da morbidez típica dos pobres de espírito que se querem tantos quantas as ambições dos títeres, eis a época do tele-massacre que nos devora a paciência. Pior ainda quando a demagogia dos caciques na Oposição – sejam eles quem for – leva as plateias a crerem que tudo lhes é devido, que tudo devem exigir enquanto os caciques no Poder – sejam eles quem for mas em alternância com os anteriores – só pedem apertos de cinto para que algo lhes sobre com que realcem o brilho.

 

E enquanto o mundo passa duma era de energia barata para a da cara ou vice-versa, eis que no “A bem da Nação” tratamos serenamente, sem precipitações nem alarme, de temas que não enchem as parangonas do jornalame por esse planeta além... E fazemo-lo com tranquilidade, a tal que não é compatível com pressas, alarmismos, gritos.

 

Mas também não temos a preocupação da originalidade.

 

Conhecemos a frase de Hölderlin quando ele, queixando-se da grande ignorância dos seus contemporâneos acerca do que tinham dito e feito os antepassados, afirmava que “somos originais porque não sabemos nada”.  

 

Nós sabemos ir buscar à História os ensinamentos. Nós conhecemos as fontes. Nós não discutimos a glória desportiva e outras alienações. Nós somos serenos. E só.

 

Por isso não corremos a trás dos acontecimentos mais ou menos trágicos ou mais ou menos escandalosos. Pensamos por nós próprios mesmo sem nos outorgarmos o monopólio da razão. Ficamos satisfeitos ao levantarmos questões originais propondo-lhes as soluções que consideramos correctas. Soluções tão simples quanto possível, mesmo que não originais.

 

Eis o que respondo a quem acha que o “A bem da Nação” devia ser mais escaldante: abrimos aceiros e definimos rumos; não ateamos fogos nem somos bombeiros.

 

E fazemo-lo “a bem da Nação”.

 

Henrique no parlamento de Anuradhapura, Sri Lanka.

Henrique Salles da Fonseca

(no Sri Lanka)

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