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A bem da Nação

BRUXELAS JÁ ESTÁ A ARDER?

 

Bruxelas não está a arder, como não arderam Paris, nem Londres nem Madrid após os atentados de grupos terroristas.

 

Mas boa parte dos europeus sente-se ameaçada por não ver resposta nem fim para a guerra insidiosa movida do interior da Europa por grupos de islâmicos europeus, apoiados por minorias radicalizadas.

 

A guerra assimétrica é de há muito estudada nos estados-maiores. Lenda ou realidade, David lançou uma pedra de funda que acabou com Golias. As guerras de guerrilhas moeram até que foram perdidas nas mesas de negociações. E com a guerra dos grupos terroristas, como será?

 

Nesta fase do séc. XXI, as guerras não nascem da potência mas da fraqueza dos Estados, como demonstrou Philippe Delmas. O fracasso da política é fonte de conflitos. E as guerras em curso são filhas do caos: ou estouram em áreas de poder enfraquecido, como a Síria, ou aproveitam-se de áreas com dificuldades em definir um rumo, como a Europa.

 

Chacina.png

 

Mas por detrás de todas a guerras, o pai de todos os conflitos é o conflito entre a animalidade e a humanidade do homem. Quando este assunto está desaparafusado surgem monstros, como Hitler, Estaline, Mao Zedong e os seus imitadores de tanga como os terroristas. A política é originariamente bio política, como mostrou Giorgio Agamben, em O homem e o animal (2002).

 

Se há coisa que este início do séc. XXI mostrou é que o modo de enfrentar a animalidade humana leva a percepções muito diferentes de segurança para os diversos agentes políticos. As comunidades supra-estatais sabem definir a segurança mas mal a conseguem implementar; veja-se o apagamento da ONU, vejam-se as dificuldades da Europa.

 

Com o fim das rivalidades tradicionais na Europa – efeito benéfico – a classe política europeia perdeu ligação aos povos – défice democrático. E uma classe política só é solidária com uma população quando enfrenta uma ameaça comum e mantém coesão económica no território. Quando, pelo contrário, fica refém de interesses financeiros nómadas, quer lá saber da humanidade e da inclusão social.

 

Os indivíduos, esses procuram a segurança e a humanidade onde ela existir, onde lhes derem pão e paz e abrigo e trabalho, frequentemente fora e por vezes contra o seu Estado. Assim procedem os refugiados económicos e os refugiados de guerra; assim o confirmam os Prémios Nobel da Paz nos últimos 15 anos.

 

Há quem chame a isto a “sociedade de risco”: não podermos eliminar das nossas vidas os imponderáveis que são as catástrofes provocadas por nós mesmos.

 

Mas uma “sociedade de risco” só sobrevive se agir de imediato na segurança e se agir sobre as causas profundas, ou seja: se tiver carradas de bom senso, inclusão social, medidas de segurança e esperança na humanidade.

 

MECA

 

Comecemos pelo mais difícil: a esperança na humanidade. A Europa criou os direitos humanos que são uma forma de ter fé na humanidade: fé sem religião, mas fé. E essa fé é superior aos fundamentalismos. A Arábia Saudita tem três milhões de tendas junto a Meca usadas cinco dias por ano, mas não as oferece para ajudar os refugiados, seus irmãos em Allah, como lembra Frei Bento Domingues.

 

Medidas de segurança. As actuações repressivas que estão a ser feitas, quer sobre as células terroristas, quer na prevenção de novas acções, têm tido êxito. Bruxelas não está a arder. Mas a classe política tem que abandonar o politicamente correcto de fazer pouco, tarde e a medo. E tem que envolver no processo os líderes moderados das comunidades islâmicas.

 

As medidas contra a exclusão social, nomeadamente de cidadãos que chegam à União Europeia, são vitais. Onde houver fome de alimentos ou fome de inclusão, haverá conflito e o animal humano virá ao de cima.

 

O restante é a longo prazo , são as causas profundas. Conta a evolução no mundo muçulmano, um exame de consciência que já começou entre Os novos Pensadores do Islão; e conta enfrentar a Arábia Saudita wahabista que financia o terrorismo através das mesquitas e madrassas com que procura travar a decadência intelectual do Islão.

 

A “sociedade de risco” depende de um talvez não numeroso centro, suficientemente grande para jogar em casa, quer nas velhas tradições como nas novas tecnologias e saberes; suficientemente rigoroso para levar a cabo as transições que têm de ser feitas na inclusão social; e suficientemente forte para recusar as meias medidas de segurança e insistir em soluções completas, mesmo que estas tenham que esperar.

 

29 Março, 2016

 

Mendo Castro Henriques.jpg

Mendo Castro Henriques

Faculdade de Ciências Humanas, Universidade Católica Portuguesa

AMAZÓNIA – 4

 

O golfinho amazónico tem características diferentes das dos que conhecemos na Europa. Mas em vez de estar para aqui a escrever sobre essas diferenças, mais vale publicar imagens que falem por si e a quem quiser saber mais sugiro que procure na Wikipédia.

 

Roaz corvineiro.jpg

Roaz corvineiro (de água salgada)

 

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Boto cor-de-rosa (de água doce)

 

Para nós, leigos na matéria, as grandes diferenças são no focinho e na cor. Mas o amazónico também nasce cinzento e vai mudando de cor à medida que envelhece.

 

Mas se os dos mares inspiraram a imaginação humana com as histórias dramáticas do desaparecimento de marinheiros encantados pelo canto das sereias, os amazónicos arcam com a responsabilidade de ocorrências de cariz bem diferente – não relativas ao desaparecimento de ninguém mas sim ao aparecimento de mais alguém.

 

Durante as festas em honra de S. João, Stº Antonio e S. Pedro, a população ribeirinha – a dos caboclos – celebra com bailes, fogos de artifício, fogueiras e, muito importante, com fartos comes e bebes. Reza a lenda que é nessas alturas (sobretudo nas dos «bebes») que o boto cor-de-rosa sai do rio transformado num jovem elegante e belo, jovial e bom dançarino, muito bem vestido de branco e com chapéu. Esse desconhecido e atraente rapaz conquista com facilidade a mais bela e desacompanhada jovem que se cruze no seu caminho, dança com ela a noite toda, encanta-a e engravida-a.

HSF-Obra do boto.jpg

Afinal, a culpa é do boto. E isto é sendo cor-de-rosa. Imagine-se o que seria se tivesse cor mais viril...

 

* * *

 

Mas as imensas águas amazónicas possuem uma outra maravilha da Natureza, o pirarucu, tema importante da mitologia indígena.

 

Reza a lenda que Pirarucu é o disformismo de um índio que pertencia à tribo dos Uaiás. Bravo guerreiro, tinha, contudo, mau carácter, apesar de ser filho de Pindarô, bom homem e cacique respeitado da tribo.

 

Para além de ter por costume insultar os deuses, era vaidoso, egoísta e excessivamente orgulhoso do poder que se atribuía por ser filho do chefe. Certa vez, enquanto o pai fazia uma visita amigável a tribos vizinhas, Pirarucu aproveitou-se da ocasião para tomar como reféns alguns membros de uma das aldeias visitadas e executou-os sem qualquer motivo.

 

 

Tupã, o deus dos deuses, puniu então Pirarucu e, lançando-lhe o mais poderoso relâmpago, chamou a deusa das torrentes a quem ordenou que provocasse as mais fortes torrentes de chuva sobre Pirarucu que estava então a pescar na companhia de outros índios nas margens do Tocantins.

 

O fogo de Tupã foi visto por toda a floresta. Quando Pirarucu deu conta do fogo e das ondas, fingiu ignorar tudo com uma risada e palavras de desprezo mas, contudo, ainda tentou escapar. Só que, enquanto corria por entre as árvores da floresta, um relâmpago fulminante acertou-lhe no coração. Mas mesmo assim ainda se recusou a pedir perdão.

 

Todos aqueles que se encontravam por ali correram assustados para a selva, enquanto o corpo de Pirarucu, ainda vivo, foi levado para as profundezas do rio e transformado num peixe gigante e escuro. Pirarucu desapareceu nas águas, nunca mais voltou à terra firme mas por um longo tempo foi o terror da região.

 

Esta espécie de peixe, o Arapaima gigas, possui características muito particulares pois tem grande porte (pode crescer até aos três metros e pesar cerca de 250 kgs), tem escamas tão grandes que delas se pode fazer porta-chaves e, mais importante, possui dois aparelhos respiratórios – as guelras para a respiração aquática e a bexiga-natatória modificada especializada para funcionar como pulmão.

 

À semelhança dos golfinhos, também o pirarucu vai adquirindo a cor rosada à medida que envelhece. Está visto que tudo depende de algum alimento existente nas águas amazónicas pois os humanos, as vacas, os macacos e as preguiças da região, vivendo em terra firme, não tendem para a cor rosa.

 

E aqui entra a minha incongruência total pois fez-me muita impressão ver um bicharoco destes em vias de esfola (nem sequer publico as fotos que me deram dessa operação) mas, depois de cozinhado, gostei imenso dele no prato ao jantar.

HSF-pirarucu.jpg

 

(continua)

 

Abril de 2016

 

Algures no Solimões.JPG

Henrique Salles da Fonseca

DINHEIRO NÃO É CAPITAL

 

Poupança.jpg

 

"Em Portugal não há capital". A frase do banqueiro José Maria Ricciardi ao Expresso do passado dia 25 é uma das mais importantes afirmações sobre a economia portuguesa. Só se entende o que se passou e vai passar por cá quem souber que aqui não há capital. Infelizmente muitos, mesmo em posições de topo, ignoram ou tentam esconder esta realidade.

 

A economia cresce pouco ou nada porque não há capital. O país está à venda e as pessoas emigram porque não há capital. Os bancos andam anémicos, a dívida é enorme e as contas públicas não equilibram simplesmente porque não há capital. Isto é assim há décadas. Agora temos um Governo que não gosta do capital, mas já antes não havia. Todos os sintomas que vemos à nossa volta mostram a falta de capital e todas as descrições da nossa crise são formas diferentes de constatar essa ausência.

 

Por que razão não há capital? Não é por sermos um país pobre; primeiro porque não somos e segundo porque quando éramos tínhamos mais capital do que agora. Não há capital por duas razões. A primeira é que o povo não poupa. A taxa de poupança das famílias portuguesas, que no final do ano passado estava em 4,1%, situa-se no registo mais baixo da nossa história e um dos valores mínimos da União Europeia; cerca de um terço dos países com os quais gostamos de nos comparar. Sem ovos não se fazem omeletas, e esta razão chega e sobra para que em Portugal não haja capital. O nosso país, que há duas gerações era campeão mundial da poupança, mudou de hábitos e gasta o que tem e o que não tem, sem pensar no futuro. Assim não pode haver capital.

 

É crucial notar que esta razão, de longe a mais importante, nada tem a ver com políticos, empresários ou banqueiros. É o povo, todo o povo, que toma uma atitude de consumidor e devedor em vez de aforrador e investidor.

 

Existe outro motivo para a nossa situação, que tem a ver com o mau uso do pouco capital que temos. Aí podemos assacar culpas a governos envolvidos em despesas improdutivas, banqueiros que emprestaram a projectos tontos ou especulativos e empresários sem visão ou capacidade. Esses, que tantos acusam dos nossos males, são justamente condenados, mas não constituem o elemento determinante que, de algum modo, está também por detrás deles. Porque foram as populações perdulárias que elegeram e apoiaram os governos esbanjadores e eram clientes dos projectos vácuos de empresários incompetentes. A culpa de Portugal não ter capital é dos portugueses. Todos.

 

Quando não há poupança, a solução é usar crédito. Foi isso que as nossas empresas e famílias, além do governo, fizeram com afinco durante duas décadas, acumulando uma das maiores dívidas mundiais. Crédito parece, mas não é capital. Pode ser uma forma temporária de aceder a fundos que, aplicados de forma produtiva, venham a transformar-se em capital. Mas uma abundância acumulada com dívida tem um perigo evidente. Precisamente aquele que hoje nos assola.

 

Por que razão os portugueses não poupam? Com taxas de juro como as de hoje em dia não espanta que isso aconteça. Os valores miseráveis obtidos nas aplicações de fundos constituem uma vergonha que arruína aforradores, idosos, pensionistas e todos os que vivem do pé-de-meia que honestamente acumularam. No entanto, essas taxas são iguais em toda a Europa, que poupa muito mais do que nós. Além disso, a razão destes níveis doentios, em vários casos até já negativos, está na mesma atitude gastadora que dizimou a poupança. As taxas só estão baixas porque o Banco Central Europeu, contra a opinião da Alemanha parcimoniosa, tem andado a injectar quantidades gigantescas de dinheiro, precisamente para apoiar os países endividados.

 

Aqui aparece de novo a evidência de que dinheiro não é capital. Essa liquidez pode aliviar temporariamente a factura dos devedores, como o Estado português, mas não se transforma em recursos produtivos que gerem crescimento e resolvam a crise. Pelo contrário, serve, quando muito, de anestesia local, mas com o enorme custo de desincentivar a poupança e estrangular a rentabilidade dos bancos. Não é fácil que este clima de taxas de juro ínfimas seja propício ao crescimento sólido e saudável que Portugal e a Europa precisam para vencer definitivamente a crise.

 

Portugal não tem capital porque viveu vinte anos acima das posses. É verdade que em 2008 isso acabou. Desde então anda a apertar o cinto e a vender o capital ao estrangeiro para pagar as contas. Essa austeridade é necessária, mas não é solução. Enquanto a poupança continuar a descer, a situação vai-se agravando.

 

 

31 de Março de 2016

 

 

João César das Neves.png

João César das Neves

 

AMAZÓNIA – 3

 

 

 

Já referi algumas facetas do ambiente político que encontrei no Brasil e de certas particularidades da geografia. Falta agora contar tudo o resto.

 

Tinha pensado deixar para o fim mas acho melhor contar já que alguém deve ter posto o projecto do aeroporto de Manaus ao contrário sobre a mesa de trabalho e tudo foi construído às avessas. Como assim? Exactamente, às avessas.

 

Aeroporto de Manaus.jpg

 

Eu creio que mandaria a lógica pôr a aerogare entre a pista e a cidade e não no meio da selva obrigando a contornar a pista por uma das extremidades para se ir para Manaus num percurso bem mais longo do que o razoável. Numa cidade sem ligações rodoviárias com o exterior, a desculpa de que a intenção era desenvolver a selva parece-me completamente esfarrapada. Sim, os macacos e as preguiças não se desenvolveram mais lá porque lhes puseram a aerogare frente aos focinhos e os homens continuaram a rumar à cidade deixando a selva para a bicharada. Ou terão os «experts» imaginado construir avenidas e arranha-céus na floresta? Imagine-se o que seria então o alarido dos ecologistas por esse mundo além...

 

Deixem-se, pois, de desculpas tolas e assumam que tomaram umas caipirinhas a mais, que o projecto foi posto ao contrário e fiquem-se assim.

 

Mas há mais.

 

Não é que durante a presidência do cefalópode se construiu uma ponte sobre o rio Negro ligando Manaus a... nenhures? Pois é isso mesmo: partindo do pressuposto discutível de que aquela belíssima ponte começa em Manaus e acaba do outro lado, ela começa numa cidade importante que actualmente tem um pouco mais de dois milhões de residentes e acaba numa floresta onde residem algumas centenas de pessoas dispersas por inúmeras pequenas aldeias sendo que a maioria dessa pouca gente vive em regime de auto-suficiência não precisando de Manaus praticamente para nada, a não ser em casos de emergência médica. E num caso destes, a ambulância demora cerca de 30 a 40 minutos a chegar junto do paciente para depois demorar outros 30 a 40 minutos a chegar ao hospital enquanto a «ambulancha», sempre presente na outra margem, demora não mais que 30 minutos a percorrer a distância mais longa entre o extremo dos caminhos que podem ser percorridos por uma ambulância e o cais de Manaus. E a pergunta é: justificava-se construir uma ponte (que tem a fama de ser a ponte mais cara do mundo, tal a corrupção que rodeou a sua construção) para acorrer a casos de excepção?

 

HSF-ponte de Manaus.jpg

 

E se a outra margem se começar a desenvolver com avenidas e arranha-céus, lá teremos de novo os ambientalistas a berrarem urbi et orbe e os políticos verdes a legislarem proibições sucessivas de tudo o que possa ser o derrube de uma árvore ou a destruição de um ninho.

 

Mas é claro que estes são problemas que uma qualquer boa dose de corrupção resolverá com presteza. E no Carnaval seguinte o samba soará na mesma.

 

Este, o ambiente moderno, dito civilizado, do branco. No próximo texto vou abordar alguma mitologia indígena.

 

Até logo.

 

Março de 2016

 

Manaus 1.JPG

Henrique Salles da Fonseca

DA INTOLERÂNCIA DE UMA REPÚBLICA CIUMENTA

 

Marcelo-e-o-Papa.jpg

 

ATEUS PROTESTAM CONTRA O GESTO PROTOCOLAR DO BEIJO DO ANEL DO PAPA PELO PRESIDENTE DA REPÚBLICA

 

O nosso Presidente visitou o Papa Francisco e no acto da recepção beijou o anel do sucessor de Pedro. Isto que muitos outros estadistas não portugueses também fazem tornou-se em cavalo de batalha e motivo de protesto e indignação da AAP (Associação Ateísta Portuguesa). Reagem de maneira azeda contra o que tenha a ver com a crença dos outros (em especial a católica). Alegam que o beijo do anel "é sinal de submissão"; a sua insatisfação é tanta que lembra uma reacção recalcada a ponto de ver no gesto um acto de subjugação à “teocracia europeia”, como relata o DN (1). Enfim, uma tomada de posição jacobina com que muitos ateus sensatos não concordam.

 

Penso que o que está por trás do protesto será um complexo de inferioridade ou a necessidade de auto afirmação do próprio ego à custa do maldizer de uma sensibilidade altamente pessoal (PAS). A questão passaria desapercebida se não fossem os cães de guarda de uma república, sujeita à imagem e semelhança da sua opinião.

 

O problema não está no Presidente ir à mesquita ou em beijar protocolarmente a mão do Papa ou de uma mulher (Também o facto de o Prof. DR. Rebelo de Sousa ir à mesquita na qualidade de PR não revela um acto de identificação ou subjugação ao Islão). O problema está em fazer-se de um acto protocolar um motivo de protesto para os que não vêm com bons olhos, um católico assumido à frente dos destinos da nação e façam tudo por tudo para o desmontar! A coscuvilhice vive bem do falar mal de pessoas da direita e da esquerda em vez de se ocupar com o que estas fazem ou deixam de fazer em bem do país e do povo.

 

Críticos alegam que querem um presidente sem rosto em questões de representação da República. Será que o Estado terá de professar a sua crença laica tendo, para isso, de negar todas as outras crenças, não podendo suportar o convívio de umas com as outras? Muitos ainda não notaram que a "religiosidade" (crenças, ritos e rituais laico-religiosos) são comuns e subjacentes aos crentes laicos e aos crentes religiosos! Querer ver-se o Homem nu e submeter-se tudo só ao metro da razão (sem corpo) significaria desconhecer a realidade e negar o circunstancial em nome de um absoluto abstracto que não pode existir circunstancialmente. O problema está na percepção e na linguagem que lhe dá forma!

 

O problema virá da interpretação ao querer-se confundir gestos protocolares com a honra ou desonra da nação. A consequência lógica seria exigirmos dos representantes da nação uma atitude virgem sem crenças nem ideologias, o que é impossível. A República tem de aprender a viver na tolerância de todos os crentes acreditem eles na existência ou não existência de Deus sejam eles agnósticos, monárquicos, republicanos, comunistas ou capitalistas. Torna-se estranho que uma minoria que se reporta tanto aos direitos da democracia não aguente com a realidade de se encontrar numa cultura de reminiscências católicas maioritárias e queiram para si – em nome de uma república laica intolerante – encarcerar toda a gente no seu cerco ideológico de uma visão republicana redutora.

 

Em tal situação o único meio de evitarmos guerras e guerrilhas será investirmos mais na tolerância. As diferentes crenças e ideologias terão de compreender-se como complementares e como tal organizar a vida de maneira harmónica, como os diferentes animais no “paraíso terreal”. A intolerância de um lado alimenta a intolerância do outro.

 

O azedume chega a não compreender gestos de cortesia, como se a neutralidade religiosa do PR fosse questionada com isso.

 

De facto, quando mulheres representantes de Estado vão à Arábia Saudita e colocam um lenço na cabeça isso não constitui um acto de submissão de um Estado em relação ao outro (apenas uma questão de delicadeza protocolar). O Papa quando foi à América Latina e colocou as penas indianas na cabeça não significou um acto de submissão mas apenas respeito por uma cultura; o mesmo se diz quando um Papa ao poisar o território beijava o solo. Tenho vários amigos ateus e sempre constatei neles muita tolerância; no caso da AAP chega a ter-se a impressão que querem ter o rei na barriga necessitando para isso de um cavalo de batalha no seu território contra o catolicismo, como se tem observado em outras reacções. Se este campo de batalha de muitos servisse de tubo de escape para as próprias desilusões e agressões, o facto até seria desculpável se na própria vida do dia-a-dia isto os ajudasse a ser muito bons maridos, bons amantes, bons pais, bons companheiros e amigos! Os condicionalismos humanos são muito complicados!

 

Os estadistas, nos seus contactos com outros povos e culturas, assumem atitudes de respeito porque sabem que cada cultura constitui apenas uma complementação da outra. As leis da cortesia são muitas vezes sábias porque sabem distinguir entre o que é individual e o que é oficial, entre o subjectivo e o objectivo. A fé na república, que diferentes grupos reclamam para si, é também ela insuficiente, dado a república não ser um neutro nem a sua crença nela constituir um absoluto; ela é constituída pelo emaranhado de pessoas de diferentes crenças sejam elas católicas, ateias, morais ou políticas, sejam elas de tendência mais ou menos republicanas ou mais ou menos monárquicas. Todas são necessárias! Tudo o que levasse à imposição de uma ideia meramente secularista ou religiosa seria tendencioso e perigoso. Uma filosofia dialéctica exclusivista conduz à guerra e à intolerância.

 

O problema vem do facto de, do alto do nosso trono individual, nos armarmos em juízes dos outros, sofrendo da ilusão de que a própria opinião é sentença aplicável aos outros. Em nome dos ideais e das boas opiniões se justificam as guerras e o desprezo pelos outros! A tua e a minha opinião são apenas pontos de vista de uma janela mais ou menos larga mas sempre incapaz de abranger o todo do panorama.

 

Há gente que até dá largas aos seus rumores viscerais pelo facto de um político ou outro se apresentar em representações de Estado sem gravata, hábito que o protocolo contemplava. Quem quiser implicar encontra sempre razões para isso.

 

ACDJ-Prof. Justo-3.jpg

António da Cunha Duarte Justo

 

 

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