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A bem da Nação

25 DE ABRIL DE 1974

 murcho.jpg

 

Duzentos capitães! Não os das caravelas

Não os heróis das descobertas e conquistas,

A Cruz de Cristo erguida sobre as velas

Como um altar

Que os nossos marinheiros levavam pelo mar

À terra inteira!

(Ó esfera armilar, que fazes hoje tu nessa bandeira?)

Ó marujos do sonho e da aventura,

Ó soldados da nossa antiga glória,

Por vós o Tejo chora,

Por vós põe luto a nossa História!

Duzentos capitães! Não os de outrora?

Duzentos capitães destes de agora

(pobres inconscientes)

Levando hílares, ufanos e contentes

A Pátria à sepultura,

Sem sequer se mostrarem compungidos

Como é o dever dos soldados vencidos.

Soldados que sem serem batidos

Abandonaram terras, armas e bandeiras,

Populações inteiras

Pretos, brancos, mestiços

(milagre português da nossa raça)

Ao extermínio feroz da populaça.

Ó capitães traidores dum grande ideal

Que tendo herdado um Portugal

Longínquo e ilimitado como o mar

Cuja bandeira, a tremular,

Assinalava o infinito português

Sob a imensidade do céu,

Legais a vossos filhos um Portugal pigmeu,

Um Portugal em miniatura,

Um Portugal de escravos

Enterrado num caixão de apodrecidos cravos!

Ó tristes capitães ufanos da derrota,

Ó herdeiros anões de Aljubarrota,

Para vossa vergonha e maldição

Vossos filhos mais tarde ocultarão

Os vossos apelidos de ignomínia?

Ó bastardos duma raça de heróis,

Para vossa punição

Vossos filhos morrerão

Espanhóis!

 Joaquim Paço d'Arcos.png

Joaquim Paço d'Arcos

10 de Junho de 1975

(antigamente, Dia da Raça)

CARPIR É PERDA DE TEMPO

25Abril74.jpg

 

Sim, todos estamos fartos de saber que o 25 de Abril de 1974 foi um golpe de Estado comunista cujo objectivo foi o de pôr o Império Português na subordinação do Império Soviético e de instalar em Portugal um regime que não fosse hostil à União Soviética.

 

Depois de, pelos nossos próprios meios, termos impedido a concretização das veleidades comunistas em Portugal, não vale a pena continuarmos a carpir sobre o leite derramado, não vale a pena continuarmos a dizer que Mugabe é um malandro e os de Angola e Moçambique – que fizeram precisamente o mesmo que o dono do Zimbabwe – são uns heróis, não vale a pena continuar a sonhar com um regresso a um passado que, por muito confortável que fosse para uns quantos, não podia, globalmente, continuar como estava e tinha que evoluir. Só que com uma evolução que não passasse por mais flagelos, que fosse democrática no sentido humanista, não no sentido soviético, essa fraude.

 

Eu tive uma forte esperança em Marcello Caetano e indigno-me quando me lembro de que foram os ultra-conservadores do Estado que ainda se dizia Novo que impediram a evolução no sentido da Democracia em Portugal e no da autodeterminação das Colónias. Simultaneamente, nunca acreditei no General Spínola como chefe alternativo que nos conduzisse no sentido que eu julgava ser o necessário. A minha solução exigia o afastamento político do Almirante Américo Thomaz e de quem o apoiava, os tais ultras, passava pela criação de Partidos, pelo fim do policiamento político, pela extinção da Censura, etc., tudo aquilo que a União Soviética não queria que acontecesse em Portugal.

 

Mas tudo isso já lá vai, não vale a pena carpir. Para trás é a burra que age.

 

Eis por que não comemoro o 25 de Abril de 1974 e desdenho quem o comemora e porque comemoro, sim, o 25 de Novembro de 1975 e quem o executou.

 Bem comum.jpg

Não perco, pois, o meu tempo com saudosismos balofos e antes me entusiasmo com o que tenho pela frente. O quê? A concretização das relações de paz e em total equidade com todos aqueles povos que alguma vez na História próxima ou longínqua foram governados por nós, a quem legámos valores que eles por lá ficaram a defender tantas e tantas vezes rodeados de hostilidade ou apenas por desdenhosa indiferença. São esses que fazem o meu futuro e creio que muitos de nós, serenamente, havemos de construir uma pluri-nacionalidade lusófila, harmónica, equitativa, de paz.

 

Quem não concordar comigo, brade pelas «mais amplas liberdades»; quem concordar comigo, defenda a liberdade, essa que, ela sim e só ela, é unicitária.

 

Lisboa 24 de Abril de 2016

 

Henrique Salles da Fonseca, Malta

Henrique Salles da Fonseca

QUINTANARES

 

 

Foi ontem que Carlos Drummond de Andrade me disse que não fora ele mas sim Cecília Meireles a inventar esse enigmático verbo «quintanar». E logo nasceu o substantivo «quintanar» cujo plural é «quintanares».

 

Mário Quintana.jpg

 

E do que se trata? Pois é, trata-se tão simplesmente do modo como Mário Quintana fazia poesia, vivendo e sonhando. Por isso a forma não é certa. Tanto pode ser métrica como livre e até pode mesmo ser prosa. Mas é sempre poesia.

 

 

AH! OS RELÓGIOS

 

Amigos, não consultem os relógios

Quando um dia eu me for de vossas vidas

Em seus fúteis problemas tão perdidas

Que até parecem mais uns necrológios...

 

Porque o tempo é uma invenção da morte:

Não o conhece a vida, a verdadeira,

Em que basta um momento de poesia

Para nos dar a eternidade inteira.

 

Inteira, sim, porque essa vida eterna

Somente por si mesma é dividida:

Não cabe, a cada qual, uma porção.

 

E os Anjos entreolham-se espantados

Quando alguém, ao voltar a si da vida,

Acaso lhes indaga que horas são...

 

 

Bilhete

 

Se tu me amas, ama-me baixinho

Não o grites de cima dos telhados

Deixa em paz os passarinhos

Deixa em paz a mim!

Se me queres,

Enfim,

Tem de ser bem devagarinho, Amada,

Que a vida é breve e o amor mais breve ainda...

 

 

O SILÊNCIO

 

Convivência entre o poeta e o leitor, só no silêncio da leitura a sós. A sós, os dois. Isto é, livro e leitor. Este não quer saber de terceiros, não quer que interpretem, que cantem, que dancem um poema. O verdadeiro amador de poemas ama em silêncio...

 

E para quem foi por três vezes rejeitado pela Academia Brasileira de Letras, não espanta que à quarta vez tenha sido a própria Academia a convidá-lo e ele a rejeitar o convite.

 

Só atrapalha a criatividade. O camarada lá vive sob pressões para dar voto, discurso para celebridades. É pena que a casa fundada por Machado de Assis esteja hoje tão politizada. Só dá ministro – Mário Quintana

 

Se Mário Quintana estivesse na ABL, não mudaria sua vida ou sua obra. Mas não estando lá, é um prejuízo para a própria Academia Luís Fernando Veríssimo

 

 

QUINTANARES - Augusto Meyer e Manuel Bandeira

 

Meu Quintana, os teus cantares

Não são, Quintana, cantares:

São, Quintana, quintanares.

 

Quinta-essência de cantares...

Insólitos, singulares... Cantares?

Não! Quintanares!

 

Quer livres, quer regulares,

Abrem sempre os teus cantares

Como flor de quintanares.

 

São cantigas sem esgares.

Onde as lágrimas são mares

De amor, os teus quintanares.

 

São feitos esses cantares

De um tudo-nada: ao falares,

Luzem estrelas, luares.

 

São para dizer em bares

Como em mansões seculares

Quintana, os teus quintanares.

 

Sim, em bares, onde os pares

Se beijam sem que repares

Que são casais exemplares.

 

E quer no pudor dos lares,

Quer no horror dos lupanares,

Cheiram sempre os teus cantares

 

Ao ar dos melhores ares,

Pois são simples, invulgares.

Quintana, os teus quintanares.

 

Por isso peço não pares,

Quintana, nos teus cantares...

Perdão! digo quintanares.

 

Afinal, a autoria da expressão «quintanar» não tem importância nenhuma pois o que conta é a obra de Mário Quintana, esse poeta tão desconhecido fora do Brasil até há relativamente pouco tempo. Eu, por exemplo, só o conheci por volta dos meus 60 anos de idade em vez de o ter lido quando frequentava o ensino secundário.

 

Mas ainda estou a tempo… Espero!

 

Bio-bibliografia

 

 

Mário Quintana, poeta gaúcho nascido em Alegrete a 30 de Julho de 1906, morreu a 5 de Maio de 1994, em Porto Alegre. Trabalhou em vários jornais gaúchos. Traduziu Proust, Conrad, Balzac e outros autores de importância. Em 1940, lançou a Rua dos Cataventos, seu Primeiro livro de poesias. Ao que seguiram Canções (1946), Sapato Florido (1948), O aprendiz de Feiticeiro (1950), Espelho Mágico (1951), Quintanares (1976), Apontamentos de História Sobrenatural (1976), A Vaca e o Hipogrifo (1977), Prosa e Verso (1978), Baú de Espantos (1986), Preparativos de Viagem (1987), além de varias antologias.

 

De Denang para Hué.JPG

Henrique Salles da Fonseca

 

BIBLIOGRAFIA:

Carlos Drummond de Andrade – Auto-retrato e outras crónicas – Ed. RECORD, Brasil

Wikipedia – http://pt.wikipedia.org/wiki/M%C3%A1rio_Quintana

Jornal da Poesia – http://www.jornaldepoesia.jor.br/quinta.html#biografia

 

FACILITANDO…

 

Doutor Salazar.jpg

 

A propósito do projecto de Estatuto do Ensino Superior, escrevia Salazar a Marcello Caetano em 21 de Março de 1956:

 

(…) O projecto é todo informado do espírito da facilidade – exames por cadeiras e não por grupos, interrogatório único, segunda época de exames em Outubro para os reprovados até 2 cadeiras na primeira época, etc., etc. – tudo matérias que antigamente se consideravam muito delicadas. (…) Não me parece bem a orientação seguida (…)

A tendência é para facilitar que se tenha um curso, seja como for. Há vantagem nisso? (…)

 

 

Henrique num templo indú em Goa.jpg

Henrique Salles da Fonseca

(algures em Goa, NOV15)

 

 

BIBLIOGRAFIA:

Freire Antunes, José – SALAZAR – CAETANO cartas secretas 1932-1968; Círculo de Leitores, ed.1993. pág. 375

MALANDROS

 

A História tem pela frente séculos suficientes para deixar a poeira assentar e essa parece razão suficiente para não tecermos juízos de valor sobre ocorrências nossas contemporâneas. A distância no tempo arrefece as paixões e essa tem sido uma condição importante para a observação de factos polémicos, esses que a História regista; os consensuais não se libertam facilmente da lei da morte.

 

Ainda por cima eu acredito que o futuro é muito mais longo que o passado e, portanto, tenho grande sossego quanto à pressa que devemos imprimir à apreciação histórica do nosso tempo. Quero acreditar que vai haver muitos mais historiadores do que todos aqueles que já o foram ou são. 

 

Mugabe.jpg

 

Todos sabemos que Mugabe promoveu uma série de barbaridades contra agricultores brancos no Zimbabwe, que o país deixou de produzir alimentos, que a actividade económica geral se despenhou, que a inflação disparou e tudo quanto há de pior nas perspectivas económicas – e, portanto, financeiras – vem acontecendo naquele que em tempos foi sede do Império do Monomotapa. O fulano é um malandro que parece viver rodeado das maiores mordomias enquanto o povo se debate com problemas diários de sobrevivência.

 

Nesta última perspectiva – a das mordomias presidenciais versus miséria popular – não vejo diferença entre Mugabe e os demais políticos africanos. Portanto, se por isto ele é um malandro, todos os outros o são também mas se ele é um malandro porque promoveu o assassinato de agricultores brancos e a ocupação das terras por negros, não vejo no que o distinguir dos políticos que lideraram Angola e Moçambique nos idos de 1975 e seguintes. E se ele é um malandro porque promoveu a chacina de etnias negras zimbabweanas tradicionalmente adversas à sua própria, não vejo onde possa estar a diferença entre ele e a maior parte dos políticos que alguma vez na História de África se sentaram na cadeira do Poder.

 

Ou seja, Robert Mugabe é de facto um malandro sem sombra de qualquer dúvida mas não há-de morrer de tédio por falta de companhia na classe dos malandros.

 

A questão, no entanto, nada tem a ver com critérios africanos mas única e exclusivamente europeus: os agricultores brancos assassinados ou expulsos do Zimbabwe eram ingleses enquanto os brancos assassinados ou expulsos de Angola e Moçambique eram portugueses. E esta é a única diferença. Portanto, medidas diferentes para casos idênticos.

 

O que se passou no Zimbabwe foi uma barbaridade; o que se passou em Angola e Moçambique foi uma «justiça da História», uma «luta pela autodeterminação» e outras coisas que já nem lembro.

 

Pasme-se.

 

É claro que Mugabe é um malandro mas tão malandro como ele é quem hoje manda escrever a História do lado contrário ao dele.

 

Henrique Salles da Fonseca, Hanói, NOV14.JPG

Henrique Salles da Fonseca

(em Hanói, na casa de Ho Chi Minh)

CONVERSA DE BISTURI

 

bisturi.jpg

 

IPO, Lisboa, anestesia local para tirar uma excrescência com aspecto benigno que sem autorização se me implantara nas costas.

 

Conversa da enfermeira para ver se eu me sentia bem: - Então o Senhor Henrique onde trabalha?

Resposta do Senhor Henrique, eu: - Não trabalho em lado nenhum; estou reformado.

Continua ela: - Tão novo?

Continuo eu: - Obrigado pelo piropo. Sim, reformado. Trabalho só para mim e só faço o que quero.

Diz ela: - Mas que rica vida!

Atalha o cirurgião, meu conhecido da banda de fora do hospital: - Aqui o Senhor Doutor o que gosta é de estudar e escrever.

Continua ela: - Então o Senhor reformou-se para estudar em vez de passear?

Continuo eu: - Ah sim, passeio todos os dias mas a cavalo para não gastar as solas dos sapatos.

Diz ela: - Mas gasta as ferraduras do cavalo… E que estuda o Senhor Henrique?

Digo eu: - Várias coisas. Agora estou a estudar o conhecimento, a certeza e a verdade.

Aflita, acode ela: - O Senhor Henrique está a sentir-se bem?

Descontraído, respondo: - Oh Senhora enfermeira, esteja tranquila. Não estou a entrar em transe nem a tresloucar por efeito da anestesia. Na verdade é isso mesmo que estou a estudar – o conhecimento, a certeza e a verdade.

Atónita, pergunta ela: - Mas isso estuda-se?

Pergunto eu – O que é o conhecimento?

Duvidosa, responde ela: - Os conhecimentos são as pessoas nossas conhecidas…

Quase a rir, digo eu: - Não, o conhecimento, no singular, é o que nós sabemos.

Diz ela: - Ah sim! Eu sei que a vida está cara e que no Sábado fui ao cinema com o meu marido.

Digo eu: - E eu sei que as linhas da oferta e da procura se cruzam num ponto e que é aí que os preços se formam. Está a ver? A Senhora sabe coisas que eu não conseguiria imaginar e eu sei outras que à Senhora não interessam. E, no entanto, estamos aqui na mesma sala, a meio metro de distância um do outro e cada um de nós é o centro dum Universo que cada um de nós julga infinito e que até há momentos se ignoravam por completo…

Desconfiada da minha sanidade mental, diz ela: - E é isso que o Senhor Henrique estuda?

A gostar do rumo da conversa, digo eu: - Isso é o universo do conhecimento mas estudo-lhe também a origem; não a dimensão nem o conteúdo.

Diz ela a gozar dirigindo-se ao cirurgião: - Oh Senhor Doutor. Da próxima vez temos que ter mais cuidado com o tipo de anestesia que damos a este Senhor…

Informa o cirurgião: - Não vai haver mais anestesia porque isto já está a chegar ao fim.

Ainda a tempo, pergunta ela: - E que mais é que o Senhor disse que está a estudar?

Já a sentir que me estavam a pôr o penso, respondo: - A certeza e a verdade.

Receosa, diz ela: - Até estou com medo de perguntar o que isso é…

Já de pé e a sorrir, informo: - A certeza é um valor relativo e a verdade é um ponto no infinito.

A caminho da porta e a sorrir, recomenda-me ela quase em surdina: - Olhe! O Senhor trate-se! Conheço uma psicóloga muito simpática.

Disse-lhe eu: - Ah, que bom! Sempre gostei muito de gente simpática.

 

Abraços a quem me fez bem!

 

Isto passou-se em Janeiro de 2010 e o que eu tinha nas costas era mesmo uma simples verruga benigna pelo que se me der a macacoa já não será por causa dela.

 

Continuemos...

 

HSF-Mékong.jpg

Henrique Salles da Fonseca

(algures no Mekong)

O «BLOCO DE ESQUERDA» E O SEXO DOS ANJOS

 

Cartão de Cidadão.jpg

 

 

Algures, numa repartição pública portuguesa:

 

Utente – Bom dia, queria renovar o meu cartão do cidadão.

FuncionáriaJá não se chama cartão do cidadão, agora é cartão da cidadania.

UA sério?

FSim, a designação "cartão do cidadão" não respeitava a identidade de género.

UOK, então queria tirar o meu cartão da cidadania.

FPois, mas isso não é comigo, é ali com o meu colega.

UColega ou colego?

FDesculpe?

UPerguntei se era com uma sua colega ou com um seu colego?

FEstá a gozar comigo?

UDe forma alguma, apenas quero respeitar a identidade de género da pessoa ou pessoo em causa.

FOlhe, tenho mais que fazer do que aturar as suas piadas. Por favor dirija-se ao balcão ao lado para tratar do assunto.

UOK! Só uma última pergunta...

FSim, diga lá.

UBalcão ou balcoa?

 

 

“ESPELHO MEU …

 

ESPELHO MÁGICO

 

… diz-me se no mundo existe alguém mais bonito do que eu”

 

 

Assim pede a másona da história que as avós contam às criancinhas. E o espelho, contrariando as leis da física mas obedecendo à imaginação do narrador e dos ouvintes, responde que a fulana é mesmo a mais bonita que existe e blá, blá, blá …

 

Assim estamos com as estatísticas que são a enumeração fiel das ocorrências ao passo que a interpretação estatística com as médias, desvios e outras modas se compraz amiúde na distorção das realidades “para inglês ver”. A contabilidade também passa muitas vezes por tais vexames pois regista uma realidade e logo aparece um “Xico esperto” a apresentar uns rebuscados rácios que, conforme o interesse do cliente, assim embelezam ou desfeiam a foto inicial.

 

Aquele médico que sofria de esclerose múltipla e que, já terminal, baixou a um hospital público, esteve para ser recambiado para casa pois não havia ciência actual que lhe pudesse valer, porque a cama e maquinaria diversa poderiam ser necessárias para outro “cliente” e porque seria estatisticamente inconveniente registar mais um óbito. Só não teve “alta” por uma questão de solidariedade corporativa sendo entendido que a um colega não se faz uma maldade dessas.

 

Aquele outro que era um alcoólico inveterado a quem fígado e rins haviam entrado em colapso e baixou a outro hospital público à custa da pressão familiar na esperança – vã, aliás – de que ainda houvesse alguma coisa que se lhe pudesse fazer, teimava com o pessoal clínico que estava de perfeita saúde e que queria ir para casa. Com base no argumento de que ninguém pode ser hospitalizado contra vontade, preparavam-se para lhe dar “alta” quando a «dama de branco» chegou com a sua foice.

 

Eis como foram prejudicados os rácios da eficácia hospitalar. E se estes são dois casos meus conhecidos, quantos haverá que desconheço com desfecho fatal, sim, mas em casa e não no hospital?

 

E depois venham-me cá dizer que a população está muito mais saudável pois ocorrem menos óbitos no sistema hospitalar público…

 

Moral da história: não se deve gerir um “negócio” em função das estatísticas.

 

Mas a questão pode ser vista numa perspectiva mais longa e recordemos o atraso com que sempre eram publicadas as estatísticas no tempo do Doutor Salazar. Dizia-se que elas só eram publicadas depois de o Presidente do Conselho emitir o respectivo “nihil obstat”. E mesmo assim, admito que o Chefe do Governo já recebesse matéria muito “lavada” por diversos crivos técnicos, políticos e tecno-políticos tais como Conselhos Superiores disto e daquilo. O que interessava era que as estatísticas que viessem a ser publicadas fossem conformes aos interesses do Regime. Mais valia o silêncio do que algum número politicamente incómodo.

 

Tempos houve – menos antigos que os do Doutor Salazar – em que a taxa de inflação só era divulgada depois de circulada pelos Ministros…

 

Na certeza, porém, de que “malgré tout”, o INE lá foi conseguindo conquistar fiabilidade e as estatísticas portuguesas conquistaram uma credibilidade ímpar na Europa austral.

 

O que convinha agora era podermos acreditar minimamente na plausibilidade das afirmações socialistas relativamente à contenção da despesa pública, ao não aumento da carga fiscal, ao equilíbrio orçamental, ao fim da máxima esquerdina de serem os ricos a pagar a crise.

 

Contudo, o máximo do espanto seria ouvir os socialistas afirmarem que o consumo deixaria de ser o motor do «modelo de desenvolvimento» deles.

 

Mas isto são esquisitices de quem não tem mais nada que fazer do que esperar pelo próximo resgate.

 

 

Tamil Nadu, NOV15.JPG

Henrique Salles da Fonseca

(na Índia, tirando o cavalinho da chuva)

MIGUEL DE CERVANTES NO SEU 4° CENTENÁRIO

 

cervantes_tumba.jpg

 

UM CRENTE DA FANTASIA QUE INVERTE A FIGURA DO HERÓI NO ROMANCE

DOM QUIXOTE (IDEALISTA) E SANCHO PANÇA (REALISTA) TORNAM-SE ARQUÉTIPOS DO HOMEM E DA SOCIEDADE A CAMINHO DE SI MESMOS

 

 

Miguel de Cervantes morreu há 400 anos no dia 23.04.1616 (1). Publicou, em 1605, o romance “Dom Quixote da Mancha” com 640 páginas e em 1615 a sua continuação (2).

 

Cervantes, com o “Dom Quixote”, criou o melhor romance de todos os tempos. A sua luta contra os moinhos de vento inclui uma missão de resgate do mundo, criando um novo tipo de herói (herói é o que perde, o fracassado a viver à margem de uma realidade que para o ser inclui o ideal) que, no seguimento do Crucificado, passa a inspirar também outros géneros de arte. O escritor Cervantes compreendeu bem a mensagem cristã ao fazer do derrotado o herói num mundo de alucinados de um combate em torno do sucesso. Acaba com a primariedade de uma visão que fazia do herói um protagonista infalível. Com Dom Quixote, Cervantes inicia assim uma nova forma de fazer romances ao inverter-lhe os termos. O fidalgo Dom Quixote afronta o escárnio e o ridículo de sociedades renitentes incapazes de compreenderem o seu ideal.

 

Passados quatro séculos, a obra continua a ser o testemunho de um idealismo perene que não se deixa apagar pela sombra da História. Ontem como hoje constata-se a mesma queixa de Cervantes: uma sociedade perdida no dinheiro e no mercantilismo de interesses e de arbitrariedades.

 

Opta pela vida de cavaleiro andante, movido pela crença num mundo caldeado de fantasia criativa e de abertura ao diferente. Recalca a outra parte de si (o companheiro Sancho Pança) para afirmar a sua parte mais nobre (o Dom Quixote) e assim fugir à banalidade do factual habitual. Dom Quixote sobrevive ao tempo por ter um ideal, uma vontade e uma missão envolventes. Deste modo sobrevive a todos os que se amarram na defesa de interesses próprios (dinheiro e sucesso) e por isso não passam de meros sucessores da lista da história numa tarefa de adiadores e enegrecedores do horizonte social.

 

O autor que não se contenta com a leitura/feitura de romances numa vida desafogada

 

Cervantes nasceu em 1547 nas redondezas de Madrid; estudou teologia na universidade de Salamanca e na idade de 22 anos torna-se serviçal do Cardeal Giulio Aquaviva. Pouco tempo depois abandona Roma para seguir a voz da aventura, distinguindo-se como soldado na defesa da cristandade contra o poder muçulmano. Depois da batalha naval de Levanto, com a mão mutilada, inicia o regresso a Espanha; com o romance pronto a ser publicado, foi aprisionado por corsários argelinos e depois já em fuga oferece-se como fiel penhor dos companheiros. O governador de Oran condenou o poeta a duas mil chicotadas; Cervantes volta a fugir sendo depois resgatado por monges com os 300 ducados dados em resgate pela mãe e a irmã; finalmente volta a Espanha depois de 5 anos de escravidão e prisão. Depois combateu ainda como soldado em Portugal (o Prior do Crato oferecera resistência a Filipe II de Espanha!). Cervantes regressa depois a Espanha continuando a ser malfadado pela sorte.

 

Cervantes, como a sua figura Dom Quixote, combate contra moinhos de vento. Isto não é apenas uma mania sua porque ele estará consciente que os gigantes que combate fazem parte de uma realidade feita de factual e fantasia, não hesitando em deixar-nos hesitantes da realidade da sua crença: se o real do factual se o real da fantasia. A vida é feita de mistério e como tal fermentada pela fantasia num moer de moinhos e vento.

 

Cervantes criou magistralmente os arquétipos Sancho Pança – o realista com os pés bem assentes na terra - e Dom Quixote - o idealista que quer antecipar o futuro (num presente a fazer-se de passado e futuro). São dois polos de uma dinâmica de que é feita a vida. Cervantes dá preferência à fantasia na figura do fidalgo Dom Quixote (que no cavalo segue a aventura) ao colocar como servidor deste o fiel escudeiro Sancho Pança (realista e pragmático que, seguindo em cima do seu burro, não compreende idealismos nem teorias que complicam). Sancho Pança revela-se bom conselheiro mas só segue o caminho na esperança de alguma promessa.

 

A caminho de si mesmo

 

O caminheiro, se observa bem as caminhadas da natura e da cultura, encontra-se a si mesmo em percursos de vidas, todas elas a jorrar na procura da mesma meta; o caminheiro redescobre-se então em novos panoramas de alma que se abrem nos ecos do mesmo silêncio que bate e o acompanha nas pegadas do coração; neste peregrinar chegamos assim à vivência do ritmo universal de uma inspiração e expiração que ilustra e inspira novas orientações e novos caminhos.

 

Dom Quixote (idealista) e Sancho Pança (realista) são paradigmas do Homem a caminho de si mesmo. (Em termos da metáfora cristã dir-se-ia que estes modelos do mesmo ser se realizam no caminho e na meta JC, o protótipo do caminhar num processo de reunião de todo o ser e na união de todas as paisagens materiais e imateriais numa mesma existência).

 

ACDJ-Prof. Justo-1.jpg

António da Cunha Duarte Justo

 

  1. No mesmo dia fenece também um outro grande luzeiro da literatura mundial: Shakespeare o maior dramaturgo da humanidade. Este é lembrado por todos no seu mote “Ser ou não ser, esta é a questão” onde se reconhece a pergunta que ultrapassa a questão da vida e da morte e reconhece a existência como feita de bem e de mal, de intrigas e confusões amorosas, de ganância e desespero.
  2. A vida e a obra de Cervantes têm ressaibos da odisseia de Ulisses. Personalidades como Camões, Shakespeare e Cervantes marcam e perpetuam o Renascimento!

 

A ORDEM DOS FACTORES…

 

 

… não é arbitrária.

 

Quentura de alma e queixume de corpo” é uma frase que ouvi há tempos na Antena 2 da RDP.

 

Se a ordem dos factores fosse arbitrária, a frase transformar-se-ia em “quentura de corpo e queixume de alma” o que, convenhamos, adquire um significado bem diferente do da frase original.

 

Continuemos…

 

Henrique-piscina dos monges em Kandy, Sri Lanka.JP

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