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A bem da Nação

AI FILIPE, FILIPE!!!...

 

Trinitários.jpg

Tinha a Ordem da Santíssima Trindade[1] por missão principal o resgate de cativos e foi no âmbito das nossas refregas no norte de África que chegou ao Algarve onde, depois de uma relativamente curta experiência em Faro, se mudou para Tavira onde construiu o Hospital do Espírito Santo que em 1430 já funcionava[2] e formalmente ainda hoje existe.

 

Tudo, porque o aprisionamento de indivíduos para futuro resgate surgiu na nossa História como um factor inerente aos conflitos entre cristãos e muçulmanos.

 

O perigo de ataques de corsários[3] e piratas[4], tanto nas grandes embarcações que navegavam no Mediterrâneo como no Atlântico e nos pequenos barcos de pescadores, era também sentido nas povoações costeiras que se viam alvo de assaltos como atestam tantas histórias locais e tradições religiosas.

 

Vinda de Espanha, a Ordem da Santíssima Trindade fixou-se em Portugal logo no início do século XIII e foi sempre ela que procedeu à organização e negociação dos resgates até que D. Afonso V criou o Tribunal da Redenção dos Cativos e o protagonismo trinitário caiu a pique. Também com significativa quebra nas adesões, a Ordem entrou em Portugal numa muito longa agonia. Até que alguém decidiu que algo teria que ser feito para «dar a volta por cima».

 

O quê? A imaginação floresce no silêncio dos claustros...

 

... e se a Ordem já não era chamada a tratar dos cativos, o que havia em Portugal que mais se aproximasse da sua antiga actividade?

 

Às Misericórdias cabia a função assistencial junto de todos os carecidos e, portanto, havia que encontrar uma ligação dessas instituições aos frades trinos. Assim, o tal «alguém» foi Frei Bernardo da Madre de Deus, provincial dos trinitários, que em 1574 pediu à Misericórdia de Lisboa que pintasse a figura de Frei Miguel Contreiras nas bandeiras da instituição. Na falta de resposta, pediu a D. Jorge de Almeida, arcebispo de Lisboa, que determinasse essa inscrição. Assim se fez e a Misericórdia de Lisboa, contrariada, cumpriu.

 

Porquê? Porque o espanhol Frei Miguel Contreras fora contemporâneo da Rainha D. Leonor e seu confessor induzindo-a a fundar as Misericórdias.

 

Destas três razões, apenas a primeira é verdadeira e as outras duas são, com a maior probabilidade, totalmente falsas: Frei Miguel Contreras foi de facto contemporâneo de D. Leonor mas – dizem os estudiosos modernos – não consta da muita documentação coeva conhecida qualquer referência ao seu nome e muito menos que tenha sido confessor da rainha nem sequer que lhe tenha tido acesso directo.

 

Aliás, o frade espanhol dedicava-se sobretudo a pedir esmola e a dar sepultura cristã aos escravos abandonados e a outros miseráveis que morriam nas ruas e nas praias.

 

Mais tarde, em 1627, ocorreu a oficialização e generalização da mentira: um alvará de Filipe III determinou que todas as Misericórdias do reino deveriam pintar as suas bandeiras seguindo o modelo de Lisboa, ou seja, a representação do frade e o emblema «FMI» - «Frei Miguel Instituidor». Assim se fez a castelhanização duma obra genuinamente portuguesa, a das Misericórdias.

 

AI FILIPE, FILIPE!!!... A mentira tem pernas curtas.

 

Abril de 2016

 

Henrique no barco-Israel.JPG

Henrique Salles da Fonseca

 

BIBLIOGRAFIA:

  • «Frei Miguel Contreiras – A construção retórica de um mito fundacional das Misericórdias Portuguesas» – Joana Balsa de Pinho, BROTÉRIA, Fevereiro de 2016, pág. 145 e seg.

 

 

 

[1] - “Orden de la Santísima Trinidad y de los Cautivos” fundada em França por São João da Mata.

[2] - Não se sabe exactamente quando foi construído; tudo o que se sabe é que em 1430 já existia.

[3] - Bandido com autorização régia ou governamental para atacar e pilhar navios de outra nacionalidade.

[4] - Bandido que agia por conta própria atacando navios e populações costeiras.

A ELITE DE ABRIL ATRAIÇOOU...

 

Junta de Salvação Nacional.jpg

 

... O IDEÁRIO UNIVERSAL PORTUGUÊS EM NOME DA LIBERDADE E DO PROGRESSO

 

O Jacinto de “A Cidade e as Serras” é o Protótipo do Português moderno autêntico

 

Eça de Queirós, no romance “A Cidade e as Serras”, revive o espírito luso, ao incarnar-se no seu protagonista Jacinto e defender a reconstrução de uma sociedade tipicamente portuguesa que acompanhe a civilização mas sem se corromper.

 

Jacinto que levava uma vida afrancesada, progressista e artificial transforma-se no símbolo do verdadeiro português, de autoconsciência madura, que integra na natura e na cultura, de maneira criativa, as novidades da civilização sem destruir a própria cultura.

 

A obra “Cidade e as Serras” consegue idealmente integrar e reconciliar Portugal e nele, reconcilia o exterior com o interior, irmana a tradição com o progresso.

 

As nossas elites de Abril, “afrancesadas” e “sovietizadas”, ainda se encontram na fase de Paris, vendendo a alma portuguesa aos demónios socialista e capitalista, mercantilizando o povo e o espírito da sua vida; vivem ainda unilateralmente nos andares da razão do artifício (polar dialéctico) sem se preocuparem pela integração de razão e coração (corpo e alma); aquele modo de estar tem-nos levado à promoção da desconciliação e à alienação do cultural e natural num movimento de entropia contrariador do espírito luso de inclusão.

 

A elite pós-25 de Abril, ao contrário do personagem do romance, Jacinto, iniciou uma viagem já não de Paris para Portugal mas de Portugal (natureza) para as cidades da ideologia sem regressar nem capacidade para renovar Portugal porque apenas lhe oferece os enlatados estranhos que, a nível cultural, não produzem humos alimentícios que alimentem a terra mas apenas entulheiras de enlatados amontoados.

 

“Paris” é a ideologia, é moda que passa em gestos de dançarinos públicos, é espírito que corrompe, se não regressa à frescura e inocência da natureza campestre (o nosso Portugal, que integrou nele o mundo todo não se deixando cativar pelos cantos de sereias nem perder nos extravios de uma Europa decadente porque envelhecida). Enquanto Jacinto moderniza as serras e se junta ao povo, a nossa elite de Abril destrói as serras e desertifica as aldeias; em vez de se casar com a província (Joaninha) prostituem-na com a falsidade e a corrupção de citadinos degenerados e malabaristas sem consciência; em vez de se tornarem no pai dos pobres, tal como fez Jacinto, desprezam e negligenciam o povo e os seus costumes.

 

O Ideal de Jacinto de Tormes deveria consistir em reconciliar a cidade com o campo (a tradição com o progresso) promovendo uma condição digna também para o povo de baixo. As nossas elites atraiçoaram os ideais de Portugal; Jacinto de Tormes é o protótipo do português autêntico, o contrário da nossa elite que figura no palco da nação, uma elite desenraizada sempre atarefada a correr atrás da moda e de olhos fixos no que faz e diz o estrangeiro como se as modernices não fossem apenas fulgores passageiras condenadas a tornar-se velhices. A situação actual, analisada sob a perspectiva característica da identidade portuguesa descrita no romance “A Cidade e as Serras”, tornou-se mais numa tragédia que num romance…

 

Resta-nos agir e esperar que a nossa elite progrida e se desenvolva tal como aconteceu com Eça de Queirós, primeiramente iludido e seguidor incondicional do progresso e depois, mitigado pela naturalidade humana do povo e da natureza, se tornou num grande português como se retrata e descreve no Jacinto, e no grande romance “A Cidade e as Serras”. (Este romance, que revela ainda o génio de Portugal e não as suas ideologias, deveria ser leitura obrigatória para todo o aluno).

 

Não se trata de vendermos a nossa alma ao passado nem ao futuro mas de sermos sempre nós, sempre em processo a tornar-nos nós mesmos, na concretização do presente: um agora feito de passado e futuro. Assim realizaremos a intercomunicação da alma tipicamente portuguesa expressa na saudade, onde ressoa o divino e o humano, a natureza, o tempo e a eternidade.

 

Também Eça, tal como Jacinto, se deu ao luxo de uma vida desregrada em Paris mas amadureceu deixando de ser um eterno adolescente para voltar, tal como o filho pródigo, à casa paterna, à natureza bem portuguesa das terras do Douro.

 

Chegou a hora de a nossa elite pôr de lado o cinismo e a vida irónica e dupla e seguir o exemplo de Eça no seu Jacinto para se reconciliar com o povo, com a natura e com a cultura genuinamente portuguesa: uma natureza aberta ao mar que é parte do seu corpo a abraçar o mundo, uma cultura inclusiva e universal que vê e sente o mundo e a humanidade a partir de dentro porque o génio sinceramente português é feito de terra mar e céu.

 

De facto, seria catastrófico, continuarmos a agir apenas em nome da ganância e do progresso atraiçoando assim o ideal português de ideais éticos e de inclusão numa consciência humilde de complementaridade.

 

Chegou o tempo de parar para reflectir e sentir o mundo nas pegadas de um Afonso Henriques, de um D. Dinis, de um Santo António de Lisboa, de um infante D. Henrique, de um Vasco da Gama, de um Camões, de um António Vieira, de um Fernando Pessoa e de tantas e variadas personalidades portuguesas que se sentiam na missão e tradição de se realizarem, cumprindo Portugal sem que este abandonasse o seu papel de pioneiro na realização da civilização...

 

ACDJ-Prof. Justo-3.jpg

António da Cunha Duarte Justo

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