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A bem da Nação

O VALIOSO TEMPO DOS MADUROS

 

velhotes.jpg

 

Contei meus anos

E descobri que terei menos tempo para viver daqui para a frente

Do que já vivi até agora

Tenho muito mais passado do que futuro.

Sinto-me aquele menino que recebeu uma bacia de cerejas.

As primeiras ele chupou displicente,

Mas percebendo que faltam poucas, rói o caroço.

Já não tenho tempo para lidar com mediocridades.

Não quero estar em reuniões onde desfilam egos inflamados.

Inquieto-me com invejosos tentando destruir quem eles admiram,

Cobiçando seus lugares, talentos e sorte.

Já não tenho tempo para conversas intermináveis,

Para discutir assuntos inúteis sobre vidas alheias

Que nem fazem parte da minha.

Já não tenho tempo para administrar melindres de pessoas

Que apesar da idade cronológica, são imaturos.

Detesto fazer acareação de desafectos que brigam pelo

Majestoso cargo de secretário-geral do coral.

As pessoas não debatem conteúdos, apenas os rótulos.

Meu tempo tornou-se escasso para debater rótulos, quero a essência,

Minha alma tem pressa...

Sem muitas cerejas na bacia, quero viver ao lado de gente humana,

Muito humana; que sabe rir de seus tropeços,

Não se encanta com triunfos,

Não se considera eleita antes da hora,

Não foge da sua mortalidade.

Caminhar perto de coisas e pessoas de verdade,

O essencial faz a vida valer a pena.

 

Mário de Andrade.jpg

Mário de Andrade

OFF-SHORES – A CANALHA DOURADA

 

 

Ocidentais e outros que tais!

 

Confrontado com o escândalo dos “Documentos do Panamá” o sr. Ramón Fonseca, de 64 anos, banqueiro, novelista, presidente do “partido panamenho” no seu país, co-associado da Mossack Fonseca, e um grande traste, respondeu: “Há duas maneiras de ver o mundo. A primeira é ser competitivo e a segunda criar mais impostos“.

 

Para já, há uma terceira maneira. É dar um pontapé nesta canalha dourada – incluindo a Mossack Fonseca – que tomou conta dos destinos do mundo ocidental e que nos faz passar por menores aos olhos do resto do globo.

 

Mas vamos por partes

O que haverá de comum entre Putin, o rei Saud, o presidente Macri , o primeiro-ministro da Islândia, os familiares de Xi Jining, e pelo menos mais 140 políticos, entre os quais 12 actuais ou antigos chefes de Estado ou de Governo, além de empresários, actores e jogadores de futebol, que se aproveitam das técnicas de fazer dinheiro em off-shores para fugir ao fisco em mais de 200 países ou territórios?

 

Cometeram ilegalidades nestas aplicações? O pensamento único dos mercados financeiros dirá que não. Mas o que está em causa não é ser ou não ser ilegal. O que é chocante é o que foi legalizado: o roubo organizado dos povos através dos off-shores.

 

Praticaram subornos, peculatos, abusos de poder, concussão, favorecimentos pessoais, tráfico de influências? Mais escandaloso do que ser contra a lei, é uma lei escandalosa que não permitirá ir muito longe neste caso.

 

E mesmo se crimes não existiram, nem tudo o que é legal é lícito. Ser ético não é cumprir a lei mas sim criar a lei certa para benefício de todos.

 

Ora os documentos revelados pelo ICIJ desde 3 de Abril mostram como centenas de personalidades usam paraísos fiscais para fugir ao fisco e criar empresas fantasmas de lavagem de dinheiro.

 

Então, sabemos onde reside o mal. Dinheiro sujo. Dinheiro não declarado. Dinheiro não tributado. Dinheiro subtraído ao investimento social. Dinheiro roubado ao Estado Social. Dinheiro que nos faz a todos mais pobres do que já somos.

 

É uma história com barbas

A canalha dourada mundial descobriu há dezenas de anos que os ocidentais têm técnicas de multiplicar o dinheiro. E aproveitam-se enquanto se riem de nós, ocidentais que vendemos a corda com que outros que tais nos enforcam.

 

Niklas Luhmann explicou em A política da sociedade (2000) que as sociedades ocidentais operam em vários sistemas, cada qual com seus valores. Na política, esse meio é o poder legítimo das eleições; na economia, é o dinheiro, desejavelmente transparente; no direito, é a justiça, desejavelmente imparcial; na ciência é o conhecimento insuspeito nas unidades de investigação.

 

Até aqui, tudo muito limpinho. A sociedade seria uma máquina. Mas uma sociedade é também uma comunidade viva. Tem um rosto, um propósito, tem um carácter, tem uma ética, um princípio que ao mesmo tempo mobiliza esses sistemas e os mantém autónomos.

 

Foi com esse propósito de vida em comum para benefício de todos, que o ocidente criou grandes códigos de conhecimento, legalidade, democracia e honestidade que estão na raiz dos subsistemas em que (sobre)vivemos. Foi a esse propósito que o Consórcio Internacional de Jornalistas de Investigação deu vida.

 

MCH-CRIME COM COLARINHO BRANCO.jpg

 

Mas é esse bem comum que é pisado pela canalha de colarinho branco que apaga as fronteiras entre conhecimento, legalidade, democracia e honestidade e deixa à solta a ganância humana.

 

Desde que Sutherland falou em 1939 dos “crimes de colarinho branco” que se estuda como a riqueza conduz a mais crimes que a pobreza. E com a festa dos paraísos fiscais e do dinheiro roubado ao investimento social, vem a orgia da corrupção e a violação dos valores.

 

Aí temos as empresas a comprar decisões políticas e sentenças judiciais; os políticos a obter favores de juízes, empresários e cientistas. Empresários, políticos, cientistas, juízes, académicos, todos se deixam comprar. Em Roma, tudo se vende, escreveu o poeta Juvenal. No Ocidente, também, e sobretudo aos inimigos.

 

Enquanto não reconhecermos o princípio judaico-cristão que exige ao Estado respeitar o mais humilde dos cidadãos, não vamos a sítio nenhum. Enquanto esquecermos que estas coisas foram ditas por uma equipa que dá pelos nomes de Goethe, Cervantes, Morus, Camões, Shakespeare, Dante, Victor Hugo, Melville, e tantos mais, não vamos a sítio nenhum.

 

Na nossa arrogância e condescendência de ocidentais, supomos que o mundo vai abusar dos nossos sistemas maravilhosos e deixar-nos a alma intacta. Não vai. E a nossa alma já está quase perdida.

 

5 Abril, 2016

 

Mendo Castro Henriques.jpg

Mendo Castro Henriques

Faculdade de Ciências Humanas, Universidade Católica Portuguesa

 

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