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A bem da Nação

NÃO POSSO ADIAR A PALAVRA

 

 

Quando te propus

Um amanhecer diferente,

A terra ainda fervia em lavas

E os homens ainda eram bestas ferozes.

 

Quando te propus

A conquista do futuro,

Vazios eram os mios,

Negro como breu o silêncio da resposta.

 

Quando te propus

O acumular de forças,

O sangue nómada e igual

Coagulava em todos os cárceres,

Em toda a terra

E em todos os homens.

 

Quando te propus

Um amanhecer diferente, amor,

A eternidade voraz das nossas dores

Era igual a

"Deus Pai todo-poderoso, criador dos céus e da terra".

 

Quando te propus

Olhos secos, pés na terra e convicção firme,

Surdos eram os céus e a terra,

Receptivos às balas e punhais,

Amaldiçoavam cada existência nossa.

 

Quando te propus

Abraçar a história, amor,

Tantas foram as esperanças comidas,

Insondável a fé forjada

No extenso breu de canto e morte.

 

Foi assim que te propus

No circuito de lágrimas e fogo.

Povo meu,

O hastear eterno do nosso sangue

Para um amanhecer diferente!

 

Hélder Proença.jpg

(1956 - Bissau, 5 de Junho de 2009)

AMAZÓNIA – 6

 

 

 

Todas as pessoas a quem dizíamos que íamos à Amazónia nos vaticinavam perigosíssimos encontros com o Zika e com outras criaturas medonhas, malvadas e perniciosas.

 

Mas ir à Amazónia e não encontrar mosquitos seria o mesmo que ir a Lübeck e não encontrar Thomas Mann. É que o escritor andou muito por fora e, portanto, o desencontro não seria difícil. Assim terá sido com o velho Zika que deve ter emigrado e não lhe vimos o rasto.

 

Marginalmente interessados no tema, logo à chegada perguntámos por ele e foi-nos de imediato garantido por um taxista – logicamente, profundo conhecedor de Entomologia, um verdadeiro sábio – que não havia por lá qualquer registo de algum turista atacado pelo Zika. Ouvi e calei pois que me senti incapaz de pôr em causa tanta ciência certa e exacta. Limitei-me a pensar (maldosamente, claro) que qualquer turista que se zikasse haveria de ir morrer à sua terra natal e Manaus continuaria imune a tão blasfemo registo. É que o prazo de incubação da moléstia é mais longo do que a estadia normal de um turista naquelas paragens e, portanto, as estatísticas locais apontam para o nihilismo zikal e a propaganda noticiosa é que é torpe e mal intencionada. O bichinho até não faz mal a ninguém desde que se esteja alfeire[1].

 

Na dúvida, cumprimos as sugestões que há anos nos deram na Consulta do Viajante quando fomos a uma zona muito palustre, o Crocodile River no Kruger Park, na África do Sul: alguns dias antes da viagem, começar a tomar um qualquer complexo de vitamina B para exsudarmos ácido e o mosquito não poisar em cima de nós; comprar num qualquer supermercado e usar uma dessas pulseiras que se diz afugentarem a mosquitada; pôr o ar condicionado no máximo do frio enquanto estivéssemos fora do quarto e pô-lo moderadamente quando lá estivéssemos para não apanharmos uma pneumonia e morrermos da cura em vez de por via da moléstia. E assim é que já chegámos a Lisboa há uns quantos dias e de Zika nem sombras.

 

Mas certa manhã fui ver o nascer do Sol à varanda do camarote e notei que houvera durante a noite um suicídio colectivo da mosquitada pois o chão estava quase todo coberto de cadáveres dessas alimárias malignas. Senti-me nas exéquias do escritor alemão mas sugeri às simpáticas faxineiras que fizessem o que melhor achassem. E foram esses os únicos mosquitos de que dei nota em toda a Amazónia que visitei.

 

Macaquinhos no sótão 2.JPG 

Em compensação, vi calmíssimas preguiças, amistosas e sorridentes, que amolecem o coração do mais céptico forasteiro que se lhes junte às cercanias. É fantástico o contraste que essas «tender and sweet creatures» fazem com a macacada saltitante, irrequieta e banano-dependente. Fiquei fã dos “macacos de cheiro” que hão-de ter um qualquer nome científico que ignoro por completo mas que algum leitor encontrará a partir da imagem de um deles em cima da minha cabeça.

 

Amiga preguiçosa.JPG

 

E que mais vi? Muito mais...

 

Houve um filme intitulado «Dança com lobos» (que, afinal, era só um) de que me lembrei quando a cobra sucuri se enrolou à minha volta e me obrigou a trejeitos para me soltar sem repelões e sem ela se afligir.

 

E quanto a bicharada fico-me por aqui pois acabei por não pegar no crocodilo de um metro que estava ali na aldeia cabocla para turista se fazer fotografar e muito menos no paizinho dele que tem «só» quatro metros.

 

Também não nadei com piranhas.

 

(continua)

 

Dança com serpente.JPG

Henrique Salles da Fonseca

 

 

[1] - Não prenhe

PRIMEIRO... EU!

 

Para quem não conhece bem a história, aliás histórias recentes do Brasil, aqui vão algumas.

 

Comecemos pelo futebol.

 

Em 1976, a companhia de tabacos J. Reynolds lançou uma campanha para dinamizar as vendas de mais um “fumo cancerígeno”, o Vila Rica. Contratado para ser o garoto propaganda foi o então muito conhecido (e óptimo) futebolista, Gerson. A mensagem era simples:

 

“Por quê pagar mais caro se o Vila me dá tudo aquilo que eu quero de um bom cigarro? Gosto de levar vantagem em tudo, certo? Leve vantagem você também, leve Vila Rica!”

 

Brincando com essa publicidade, a verdade é que toda a gente sabia já, de há muito, que era preciso levar vantagem SEMPRE. Da constante repetição desta frase publicitária, nasceu aquilo que ficou conhecido como a Lei de Gerson: Levar vantagem em tudo, o que, como se está bem a ver, a grossa maioria da politicada levou tão a sério que hoje o Brasil está semi falido. Económica e politicamente. E se não 100%, aí uns 99,99% dos brasileiros consideram que “levar vantagem”, só trouxa é que não leva: na “conversa” com o guarda de trânsito, com os falsificadores de cartas de condução – aos milhares, todo o ano, no Brasil – mais uma graninha para que a repartição pública despache logo o pedido de qualquer documento, o preenchimento de cargos “convidados” e mais acima, sem falar no PT e nos políticos, até por estas bandas existem muitos juízes metidos em venda de sentenças. E por aí vai o Levar Vantagem!

 

Historinha simples mas bem endémica! Mais ou menos, porque o “vírus” já está por toda a parte!

 

Podemos aqui recordar mais uma frase de Confúcio: “Não te preocupes por não teres emprego, mas tem antes o cuidado de te tornares capaz de o ter; não te preocupes por não seres conhecido, mas tem antes o cuidado de te tornares digno de o ser.”

 

Mas não se fica por aqui o “Levar Vantagem”. Há formas sofisticadas de levar TODA a vantagem.

 

Em 2005 faleceu um grande músico, sambista, Bezerra da Silva, que cantava um sambinha, que muito tem ajudado a “turma do andar de cima”, e que se chama “Meu pirão primeiro”.

 

FGA-Bazerra da Silva.jpg

 

Ouçam bem a música enquanto acompanham o cantor com a letra que aqui vai e por fim iremos aos finalmentes, para ver como o Levar Vantagem e O Meu Pirão Primeiro, dominam o comportamento da infâmia e, por exemplo dos (ir)responsáveis, da colectânea.

 

Meu Pirão Primeiro

https://www.youtube.com/watch?v=9YfTuIPwhMY

 

Farinha pouca,

Meu pirão primeiro.

Este é um velho ditado,

Do tempo do cativeiro.

E a chica assim dizia,

Na hora de preparar.

Pró pirão ficar gostoso,

Tem que saber temperar.

Eu falei pra você,

Se a farinha é pouca,

Meu pirão primeiro

Este é um velho ditado,

Do tempo do cativeiro.

Olha que o pirão da tia Chica

Todos queriam comer

Porque era preparado

No azeite de dendê

Tô dizendo a você!

Se a farinha é pouca,

Meu pirão primeiro.

Este é um velho ditado,

Do tempo do cativeiro.

Olha que preto velho Benedito,

Dizia pra tia Inês.

Quem comer o pirão da Chica,

Fica sem comer um mês.

Eu falei pra você,

Se a farinha é pouca,

Meu pirão primeiro.

Este é um velho ditado,

Do tempo do cativeiro

 

FGA-Metralhas.png

 

Com o país à beira da falência técnica, sobretudo o Estado do Rio de Janeiro, cuja folha de pagamento dos funcionários, conforme é público, é igual a 110% do total da arrecadação... o Governador tem que andar a mendigar empréstimos e a adiar o pagamento dos salários! Habituado a contar com o ovo no c... da galinha petrolífera, agora que o petróleo foi por água abaixo, os royalties estão na base da amargura.

 

Até há pouco o Estado do Rio vivia dando risada com sobra de grana e agora...

 

Nunca ouviram a fábula da Cigarra e da Formiga!

 

Mas há muitos gersons em posição de super mando: entre eles destaca-se o judiciário! Pelo segundo mês consecutivo, o tribunal emite uma ordem – sentença? – mandando que o Governo lhes pague integralmente na data estabelecida, mesmo que os restantes funcionários tenham que esperar... meses.

 

Coisa a que eles chamam, eufemisticamente, de Justiça!

 

Isto não chega a ser infâmia. A palavra mais apropriada seria ESCULHAMBAÇÃO! Já ouvi dizer que se chama de democracia. Dos Três Poderes! Pudera.

 

O total desprezo pelo Outro.

 

Deviam mudar a bandeira do Brasil. Para isso atrevo uma solução alternativa:

1.- substituir as estrelas, todas, por moedas de ouro;

2.- tirar a “Ordem e Progresso” e escrever “MEU PIRÃO PRIMEIRO”, mandando hastear esta nova versão, em tamanho gigante, em todo o lugar.

 

E mais uma vez uma “lembrança” da Velha China, com este poema, a propósito, de Lao Tsé:

 

Favor e desfavor geram angústia.

Honras geram dissabores para o ego.

Por que é que favor e desfavor geram dissabores?

Porque quem espera favor paira na incerteza,

Sem saber se o receberá.

Quem recebe favor também paira na incerteza:

Não sabe se o conservará.

Por isto causam dissabor

Tanto o favor como o desfavor.

Por que é que as honras geram dissabor?

Todo dissabor nasce do fato

De alguém ser um ego.

E não é possível contentar o ego.

Se eu pudesse libertar-me do ego,

Não haveria mais dissabores.

Por isto:

Quem se mantém liberto de favores e desfavores

Liberta-se da idolatria do ego

Só pode possuir o Reino

Quem está disposto a servir desinteressado,

A esse se pode confiar o Reino.

 

Também se atribui a Lao Tsé esta verdade, fria e cortante como aço: Quanto maior o número de leis, tanto maior o número de ladrões.


Resumo: “É difícil viver com as pessoas porque calar é muito difícil.” (Nietzsche)

 

03/04/2016

FGA-2OUT15.jpg

Francisco Gomes de Amorim

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