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A bem da Nação

AMAZÓNIA – 4

 

O golfinho amazónico tem características diferentes das dos que conhecemos na Europa. Mas em vez de estar para aqui a escrever sobre essas diferenças, mais vale publicar imagens que falem por si e a quem quiser saber mais sugiro que procure na Wikipédia.

 

Roaz corvineiro.jpg

Roaz corvineiro (de água salgada)

 

Boto rosa.png

Boto cor-de-rosa (de água doce)

 

Para nós, leigos na matéria, as grandes diferenças são no focinho e na cor. Mas o amazónico também nasce cinzento e vai mudando de cor à medida que envelhece.

 

Mas se os dos mares inspiraram a imaginação humana com as histórias dramáticas do desaparecimento de marinheiros encantados pelo canto das sereias, os amazónicos arcam com a responsabilidade de ocorrências de cariz bem diferente – não relativas ao desaparecimento de ninguém mas sim ao aparecimento de mais alguém.

 

Durante as festas em honra de S. João, Stº Antonio e S. Pedro, a população ribeirinha – a dos caboclos – celebra com bailes, fogos de artifício, fogueiras e, muito importante, com fartos comes e bebes. Reza a lenda que é nessas alturas (sobretudo nas dos «bebes») que o boto cor-de-rosa sai do rio transformado num jovem elegante e belo, jovial e bom dançarino, muito bem vestido de branco e com chapéu. Esse desconhecido e atraente rapaz conquista com facilidade a mais bela e desacompanhada jovem que se cruze no seu caminho, dança com ela a noite toda, encanta-a e engravida-a.

HSF-Obra do boto.jpg

Afinal, a culpa é do boto. E isto é sendo cor-de-rosa. Imagine-se o que seria se tivesse cor mais viril...

 

* * *

 

Mas as imensas águas amazónicas possuem uma outra maravilha da Natureza, o pirarucu, tema importante da mitologia indígena.

 

Reza a lenda que Pirarucu é o disformismo de um índio que pertencia à tribo dos Uaiás. Bravo guerreiro, tinha, contudo, mau carácter, apesar de ser filho de Pindarô, bom homem e cacique respeitado da tribo.

 

Para além de ter por costume insultar os deuses, era vaidoso, egoísta e excessivamente orgulhoso do poder que se atribuía por ser filho do chefe. Certa vez, enquanto o pai fazia uma visita amigável a tribos vizinhas, Pirarucu aproveitou-se da ocasião para tomar como reféns alguns membros de uma das aldeias visitadas e executou-os sem qualquer motivo.

 

 

Tupã, o deus dos deuses, puniu então Pirarucu e, lançando-lhe o mais poderoso relâmpago, chamou a deusa das torrentes a quem ordenou que provocasse as mais fortes torrentes de chuva sobre Pirarucu que estava então a pescar na companhia de outros índios nas margens do Tocantins.

 

O fogo de Tupã foi visto por toda a floresta. Quando Pirarucu deu conta do fogo e das ondas, fingiu ignorar tudo com uma risada e palavras de desprezo mas, contudo, ainda tentou escapar. Só que, enquanto corria por entre as árvores da floresta, um relâmpago fulminante acertou-lhe no coração. Mas mesmo assim ainda se recusou a pedir perdão.

 

Todos aqueles que se encontravam por ali correram assustados para a selva, enquanto o corpo de Pirarucu, ainda vivo, foi levado para as profundezas do rio e transformado num peixe gigante e escuro. Pirarucu desapareceu nas águas, nunca mais voltou à terra firme mas por um longo tempo foi o terror da região.

 

Esta espécie de peixe, o Arapaima gigas, possui características muito particulares pois tem grande porte (pode crescer até aos três metros e pesar cerca de 250 kgs), tem escamas tão grandes que delas se pode fazer porta-chaves e, mais importante, possui dois aparelhos respiratórios – as guelras para a respiração aquática e a bexiga-natatória modificada especializada para funcionar como pulmão.

 

À semelhança dos golfinhos, também o pirarucu vai adquirindo a cor rosada à medida que envelhece. Está visto que tudo depende de algum alimento existente nas águas amazónicas pois os humanos, as vacas, os macacos e as preguiças da região, vivendo em terra firme, não tendem para a cor rosa.

 

E aqui entra a minha incongruência total pois fez-me muita impressão ver um bicharoco destes em vias de esfola (nem sequer publico as fotos que me deram dessa operação) mas, depois de cozinhado, gostei imenso dele no prato ao jantar.

HSF-pirarucu.jpg

 

(continua)

 

Abril de 2016

 

Algures no Solimões.JPG

Henrique Salles da Fonseca

DINHEIRO NÃO É CAPITAL

 

Poupança.jpg

 

"Em Portugal não há capital". A frase do banqueiro José Maria Ricciardi ao Expresso do passado dia 25 é uma das mais importantes afirmações sobre a economia portuguesa. Só se entende o que se passou e vai passar por cá quem souber que aqui não há capital. Infelizmente muitos, mesmo em posições de topo, ignoram ou tentam esconder esta realidade.

 

A economia cresce pouco ou nada porque não há capital. O país está à venda e as pessoas emigram porque não há capital. Os bancos andam anémicos, a dívida é enorme e as contas públicas não equilibram simplesmente porque não há capital. Isto é assim há décadas. Agora temos um Governo que não gosta do capital, mas já antes não havia. Todos os sintomas que vemos à nossa volta mostram a falta de capital e todas as descrições da nossa crise são formas diferentes de constatar essa ausência.

 

Por que razão não há capital? Não é por sermos um país pobre; primeiro porque não somos e segundo porque quando éramos tínhamos mais capital do que agora. Não há capital por duas razões. A primeira é que o povo não poupa. A taxa de poupança das famílias portuguesas, que no final do ano passado estava em 4,1%, situa-se no registo mais baixo da nossa história e um dos valores mínimos da União Europeia; cerca de um terço dos países com os quais gostamos de nos comparar. Sem ovos não se fazem omeletas, e esta razão chega e sobra para que em Portugal não haja capital. O nosso país, que há duas gerações era campeão mundial da poupança, mudou de hábitos e gasta o que tem e o que não tem, sem pensar no futuro. Assim não pode haver capital.

 

É crucial notar que esta razão, de longe a mais importante, nada tem a ver com políticos, empresários ou banqueiros. É o povo, todo o povo, que toma uma atitude de consumidor e devedor em vez de aforrador e investidor.

 

Existe outro motivo para a nossa situação, que tem a ver com o mau uso do pouco capital que temos. Aí podemos assacar culpas a governos envolvidos em despesas improdutivas, banqueiros que emprestaram a projectos tontos ou especulativos e empresários sem visão ou capacidade. Esses, que tantos acusam dos nossos males, são justamente condenados, mas não constituem o elemento determinante que, de algum modo, está também por detrás deles. Porque foram as populações perdulárias que elegeram e apoiaram os governos esbanjadores e eram clientes dos projectos vácuos de empresários incompetentes. A culpa de Portugal não ter capital é dos portugueses. Todos.

 

Quando não há poupança, a solução é usar crédito. Foi isso que as nossas empresas e famílias, além do governo, fizeram com afinco durante duas décadas, acumulando uma das maiores dívidas mundiais. Crédito parece, mas não é capital. Pode ser uma forma temporária de aceder a fundos que, aplicados de forma produtiva, venham a transformar-se em capital. Mas uma abundância acumulada com dívida tem um perigo evidente. Precisamente aquele que hoje nos assola.

 

Por que razão os portugueses não poupam? Com taxas de juro como as de hoje em dia não espanta que isso aconteça. Os valores miseráveis obtidos nas aplicações de fundos constituem uma vergonha que arruína aforradores, idosos, pensionistas e todos os que vivem do pé-de-meia que honestamente acumularam. No entanto, essas taxas são iguais em toda a Europa, que poupa muito mais do que nós. Além disso, a razão destes níveis doentios, em vários casos até já negativos, está na mesma atitude gastadora que dizimou a poupança. As taxas só estão baixas porque o Banco Central Europeu, contra a opinião da Alemanha parcimoniosa, tem andado a injectar quantidades gigantescas de dinheiro, precisamente para apoiar os países endividados.

 

Aqui aparece de novo a evidência de que dinheiro não é capital. Essa liquidez pode aliviar temporariamente a factura dos devedores, como o Estado português, mas não se transforma em recursos produtivos que gerem crescimento e resolvam a crise. Pelo contrário, serve, quando muito, de anestesia local, mas com o enorme custo de desincentivar a poupança e estrangular a rentabilidade dos bancos. Não é fácil que este clima de taxas de juro ínfimas seja propício ao crescimento sólido e saudável que Portugal e a Europa precisam para vencer definitivamente a crise.

 

Portugal não tem capital porque viveu vinte anos acima das posses. É verdade que em 2008 isso acabou. Desde então anda a apertar o cinto e a vender o capital ao estrangeiro para pagar as contas. Essa austeridade é necessária, mas não é solução. Enquanto a poupança continuar a descer, a situação vai-se agravando.

 

 

31 de Março de 2016

 

 

João César das Neves.png

João César das Neves

 

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