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A bem da Nação

DA CHINA...

 

 

Que a China tem uma cultura milenar, ninguém sabe de quantos milénios, é verdade e não se discute.

 

Para nós, incultos ocidentais, orgulhosos ou soberbos da herança greco-romana, que impusemos os grilhões em todo o canto do mundo, um dia temos que despertar para a imensa cultura de outros povos, mesmo aqueles que durante séculos não nos mereceram mais que desprezo.

 

Hoje, um pequeno passeio pela China.

 

Alguém sabe o que significam estes símbolos?

 

FGA-chinesices.jpg

Reparem bem que o terceiro tem a mistura dos dois primeiros.

 

Vamos ver como no decorrer do tempo, os chineses, com sua tranquila sabedoria, conseguiram transmitir as suas ideias e mensagens com umas “garatujas” (garatujas para nós) que além de inteligíveis, para eles, são bonitas, decorativas.

 

Uma das mais antigas formas de religiosidade chinesa teria sido o culto dos antepassados. Confúcio fez da devoção filial a base da sua filosofia, uma devoção tão rígida que levava alguns discípulos a ponto de esquecerem o seu próprio espírito. Alguns livros escritos há mais de três mil anos – Shijing, Shangshu, Kanggao, Zuo Zhuan, entre outros – contêm impressionantes cenas de devoção filial, como o caso de alguns filhos preferirem morrer a não satisfazer as exigências de seus pais. Todas as histórias levam a concluir que existia uma obediência cega aos progenitores.

 

Um dos exemplos mais antigos, tirado do livro Hou Huanshu (talvez do século IV d.C.) conta a história de um alto funcionário que, para poder cuidar de sua mãe, não tem interes­se pessoal algum na glória que tal cargo pode proporcionar-lhe. Outra, textual: "À época do Imperador An (ano 107 ao 126) vivia em Runan (Henan do Sul) um homem chamado Xue Bao... Estudio­so e sincero, que quando sua mãe morreu se tornou célebre pelo exemplar amor filial de que deu mostras durante o período de luto. Seu pai vol­tou a casar-se e sua esposa, que odiava profun­damente Xue Bao, expulsou-o de casa. Mas ele chorava dia e noite, incapaz de ir-se, até que, golpeando-o com um bastão, obriga­ram-no a alojar-se numa cabana nas proximi­dades. Todas as manhãs Xue Bao vinha varrer o pó da casa de seu pai, até que este, irritado, o ex­pulsou de novo. Xue Bao estabeleceu-se, então, numa outra cabana perto da entrada da pro­priedade, sem jamais deixar de ir saudar seus pais à tarde e pela manhã. Após um ano ou mais, estes sentiram-se envergonhados e fi­zeram-no regressar. Mais tarde, quando morreram seu pai e sua madrasta, Xue Bao duplicou ou até triplicou seu período de luto."

 

Xue Bao é um exemplo característico dos fi­lhos virtuosos mencionados nos textos daquele período. Na realidade, o seu comportamento parece quase normal se comparado com os de outros dois personagens similares que enchem as páginas do Hou Hanshu.

 

Vemos, por exemplo, crianças de quatro anos de idade que se negam a comer e beber quando seus pais estão doentes, ou de um ho­mem que "não comeu carne nem bebeu vinho durante 10 anos depois que seu pai morreu e no aniversário de sua morte ele celebrava jejuando por três dias".

 

Alguns exemplos são ainda mais surpreendentes, como o de Yang Zhen (morto em 124), descendente de uma das famílias fun­dadoras da dinastia Han que, sendo muito jo­vem, preferiu tornar-se professor para poder manter-se afastado da vida política. "Órfão e pobre desde a juventude, vivia so­zinho com sua mãe. Ele havia arrendado uma porção de terra para cultivar e obter assim o seu sustento. Certa vez, um de seus alunos tentou ajudá-lo a plantar couves, porém Yang Zhen arrancava-as e ia plantá-las de novo um pouco mais adiante. Os vizinhos citavam-no como um exemplo de devoção filial." Acreditem ou não, a devoção filial de Yang Zhen está demonstrada pela insistência do personagem em que as couves que sua mãe comeria fossem plantadas pelas mãos do próprio filho!

 

O cultivo de couves é uma demonstração bastante inofensiva dos sentimentos filiais, porém há numerosos exemplos até de mortes causadas por um desejo de dar mostras irrefutáveis de ve­neração filial. O exemplo mais famoso é o da jovem Cao E, que vivia em Zhejiang, não muito longe da actual cidade de Shaoxing. Seu pai era um xamã (wu) que se afogou no quinto dia do quinto mês lunar (6 de Junho) do ano 143, enquanto celebrava o culto do Deus das Ondas (possível deificação do movimento das marés). "O corpo não foi encontrado; sua filha Cao E, que tinha na época 13 anos, percorria o rio noite e dia gemendo e chorando sem cessar. Sete di­as depois ela se lançou também ao rio e se afogou."

 

Em Sichuan, do outro lado da China, mais um exemplo de amor filial. Uma outra menina, de nome Shuxian Xiong (ou Shu Xianluo), lançou-se às águas no local onde seu pai se havia afundado e foi achada seis dias depois flu­tuando entrelaçada ao corpo do pai. Citemos ainda o caso de Jiang Shi que se afogou por se ha­ver arriscado demasiadamente ao entrar no rio para buscar água para sua mãe que tinha pre­ferência pela água do rio em vez da de poço.

 

As histórias do Hou Hanshu – assim como toda a história da China – estão cheias de exemplos de abnegação, milagres, sacrifí­cios e perseguições cruéis (geralmente da parte de sogras e madrastas) que são tolerados com uma resignação extática, suicídios inúteis, sem falar de manifestações extraordinárias de amor entre irmãos que se negam a separar-se mesmo que seja para dormirem com suas respectivas mulheres, excepto quando se trata de assegurar a descendência.

 

Como devemos considerar estes actos insóli­tos? Não se trata na verdade de acções que se as­semelham muito ao comportamento dos santos do cristianismo antigo e medieval? Mortificações, beijos em leprosos, jejuns purificadores e outros actos no mesmo estilo nunca foram consi­derados suficientes para provar o amor e a adoração dos santos pelo seu criador. Não es­taríamos diante de um fenómeno similar? A concepção chinesa do mundo, como se tem apontado frequentemente, é muito mais terra-a-terra que a dos ocidentais; a China sempre preferiu a imanência à transcendência e quando um chinês eleva o seu espírito ao criador, nega-se a dar o salto metafísico julgado normal pelos ocidentais e volta-se para aqueles que são seus verdadeiros criadores de carne e osso, ou seja, seus pais.

 

O Livro Da Devoção Filial (Xiaojing), um opúsculo medíocre datado provavelmente do fim da Antiguidade ou do começo da era im­perial e que gozou de grande prestígio durante toda a história da China, reafirma o que disse­mos quase textualmente. No capítulo 9 lê-se: "Não há maior forma de venerar seu pai do que fazê-lo intermediário dos céus.''

 

A palavra em­pregada para significar intermediário (peï), as­sim como o contexto, demonstram que os au­tores do Xiaojing se referem às mais antigas práticas religiosas chinesas de que temos notí­cia: os sacrifícios oferecidos aos ancestrais que, como intermediários, apresentavam ao céu os pedidos de seus descendentes e intercediam em seu favor. Há aí uma concepção mística con­ferida ao pai: a de associá-lo, se não a Deus, pelo menos a uma representação da divindade. Como vemos, os chineses não estão longe de deificarem seus pais; seu comportamento tra­duz simplesmente um esforço, que se encontra também entre os ocidentais, de irem além de si mesmos para glorificar seus criadores, que para eles são, literalmente, seus pais e mães.

 

Voltemos aos ideogramas. Como eles “nasceram. Veja-se na figura abaixo a evolução dum ancião uma criança e os dois juntos, e reparem, novamente, como a terceira figura é a mistura das duas primeiras.

 

FGA-chinesices 2.jpg

 

Como se vê os chineses têm muito que nos ensinar. E coisas bonitas.

 

Sobretudo a mim, que nada sei de chinês, mas encontrei este trabalho de que fiz um resumo que espero não desgostem.

 

12/02/2016

 

FGA-2OUT15.jpg

Francisco Gomes de Amorim

MEDITANDO...

Quem quiser ser bem sucedido na política, deve manter a sua consciência sob apertado controlo.

 

Frase atribuída a

David_Lloyd_George.jpg

David Lloyd George

(1863-1945)

Primeiro Ministro britânico de 7 de Dezembro de 1916 a 22 de Outubro de 1922 pelo Partido Liberal

 

E DEPOIS DA GERINGONÇA?

 

GERINGONÇA

 

Vários cronistas, sobretudo de esquerda, escreveram e disseram que Pedro Passos Coelho não deveria ter-se recandidatado à liderança do PSD após a “derrota” de 4 de Outubro - e apontam o exemplo de Paulo Portas, que se afastou do CDS.

 

Esta opinião enferma de dois problemas.

 

Em primeiro lugar, não é desinteressada.

 

Quando pessoas de esquerda dizem que Passos Coelho deveria sair, é obviamente porque acham que isso fragilizaria o seu partido.

 

O interesse dessas pessoas não é com certeza que o PSD se fortaleça…

 

E assim, os apelos à saída de Passos acabaram por beneficiá-lo – pois ninguém no seu juízo perfeito segue os conselhos dos adversários.

 

Em segundo lugar, Passos Coelho não ‘perdeu’ as eleições legislativas: ganhou-as.

 

Foi mesmo um dos raros líderes em todo o mundo que venceram eleições depois de terem prosseguido duras políticas de austeridade.

 

Argumenta-se que a maioria dos eleitores votou ‘contra’ a coligação PSD-CDS.

 

Ora, isso não é verdade.

 

Nas eleições legislativas não se vota ‘contra’ isto ou aquilo - vota-se ‘a favor’ disto ou daquilo.

 

Nos referendos é que se vota ‘sim’ ou ‘não’.

 

Nas legislativas, o princípio é outro: vota-se em partidos políticos e em programas – e, de caminho, no líder partidário que se deseja para primeiro-ministro.

 

Ora, em nenhum desses planos a direita perdeu: a força política vencedora foi a PàF, o partido que conquistou mais deputados foi o PSD e o líder com mais votos foi Passos Coelho.

 

Dizer uma coisa diferente é abusivo e pouco sério.

 

A afirmação de que das eleições saiu uma maioria de esquerda também não é verdadeira.

 

O que se diria, por exemplo, se o PS se tivesse aliado ao PSD e fizesse um bloco central?

 

Dir-se-ia, com toda a legitimidade, que o centro ganhou as eleições…

 

E até teria uma percentagem bem maior do que a actual ‘maioria de esquerda’.

 

A artimanha de dizer que a esquerda ganhou foi inventada para permitir a António Costa ser primeiro-ministro e permitir ao Bloco de Esquerda e ao Partido Comunista ganharem influência governativa.

 

Num bloco central, António Costa não seria primeiro-ministro (seria Passos Coelho) e o PCP e o BE seriam perfeitamente irrelevantes.

 

Argumentam, finalmente, os comentadores ligados à esquerda que esta coligação vai durar quatro anos, até porque convém aos três partidos que a sustentam.

 

Isso é parcialmente verdade.

 

Enquanto as questões forem políticas, a coligação irá tapando os buracos e fugindo para a frente, como tem vindo a fazer.

 

Só que o principal problema desta maioria não é a política - é o Orçamento.

 

Quando passarmos do terreno das palavras para o terreno dos números, a habilidade política já não valerá de nada.

 

Quando se começar a perceber que o Orçamento não é cumprível – e Bruxelas já o percebeu –, quando os parceiros europeus apertarem ainda mais o cerco, quando os parafusos da geringonça começarem todos a ranger, não haverá artifícios que valham.

 

Repito: o Governo não cairá por razões políticas mas por razões económicas e financeiras.

 

E, quando a geringonça se desconjuntar, o poder acabará no colo de Passos Coelho.

 

É por isso que a esquerda o quer afastar.

 

A esquerda sabe que, pela imagem de responsabilidade que construiu, Passos Coelho é o líder mais bem posicionado para suceder a este desvario esquerdista.

 

A sua simples presença paira como um fantasma sobre o Governo.

 

Olha-se para ele e parece que ainda está ali o primeiro-ministro.

 

E depois, se ganhou as eleições com quase 39% após quatro anos de austeridade, que percentagem terá se este Governo cair prematuramente?

 

Dificilmente deixará de ter maioria absoluta.

 

Até porque, nessa altura, estará provado que a ‘alternativa’ à política que vinha a ser seguida por ele era uma miragem.

 

Julgo que o grande problema de Passos Coelho não será, pois, voltar a S. Bento - mas sim o que fazer para remediar os estragos feitos por esta maioria desconexa.

 

António Costa tem vindo a destruir tudo o que o Governo de Passos Coelho fez.

 

Até mete dó.

 

Como os talibãs, a maioria de esquerda, depois de tomar o poder, começou a derrubar implacavelmente o que estava feito, não deixando pedra sobre pedra.

 

Ora, quando voltar a ser primeiro-ministro, Passos Coelho terá o mesmo comportamento?

 

Espero que não.

 

Espero que tenha uma atitude mais civilizada.

 

Portugal não pode estar sempre, desgraçadamente, a voltar ao princípio.

 

Portugal tem de definir um rumo e segui-lo com firmeza.

  • A palavra ‘geringonça’, usada por Vasco Pulido Valente (e popularizada por Paulo Portas) para designar esta solução de Governo, já era usada no século XIX, embora o sentido não fosse bem o mesmo. Escrevia Ramalho Ortigão, n’As Farpas, em Janeiro de 1874: “Esta retórica trôpega, relaxada e senil dos deputados, não podendo criar uma língua forte e digna, deu o ser a um estilo especial de malandragem política, fez a gíria constitucional, a geringonça parlamentar, o calão burguês”.

 

14/03/2016

 

José Antonio Saraiva.jpg

 José António Saraiva

Observador

FORAM ESSAS NINFAS...

 

 P. António Vieira, SJ.png

... acobreadas púbio-alopécicas vivendo em pleno naturismo que por certo impediram António Vieira de subir aos altares mas as sofisticadas industânicas nos seus coloridos saris não tiveram as artes capazes de obstar a essa ascensão a Francisco Xavier.

 

E se Vieira terçou a verve em defesa dos inocentes desnudos perambulando pelo paraíso verde das Índias Ocidentais, foi Xavier que pediu ao Rei que enviasse o inferno inquisitorial para as Índias Orientais.

 

Então, a bondade perdeu os ossos nalguma vala anónima esquecida algures por ali próxima do prosaico Elevador Lacerda ligando o mercado de escravos às alturas da benesse divina destinada aos inocentes ocidentais, na Sé de Salvador da Bahia, mas o promotor do radicalismo torquemadeano recebe culto e grande veneração ao corpo exposto em ataúde dourado na Roma do Oriente.

 

Vá lá a gente perceber isto...

 

Jardim Botânico, Peradeniya, Sri Lanka, NOV15.JPG

 Henrique Salles da Fonseca

GEOPOLÍTICA DA CULTURA LUSÍSTICA

 

Internet.png

 

“Lusística” e “Lusístico” são neologismos.

 

“Lusística e “Lusístico” estão para “Luso” tal como “Helenística” e “Helenístico” estão para “Heleno”.

 

Tal como se fala de “Cultura helenística” (de “Heleno”), falaremos de “Cultura lusística” (de “Luso”)

 

Tal como é possível falar de “Geopolítica da Cultura Helenística”, é possível falar de “Geopolítica da Cultura Lusística”.

 

Álvaro Aragão Athayde.jpg

Álvaro Aragão Athayde

A PROPÓSITO DE CORRUPÇÃO...

 

parlamento-Portugal.jpg

... E DE QUEBRA DA “ROTATIVIDADE” GOVERNATIVA

 

Governo de Costa e os oportunos parlamentares também se alimentam da Crise

 

O rotativismo do arco do governo da corrupção encalhou agora nas mãos da esquerda radical: a rotatividade encalhou mas a corrupção não; a corrupção continua o seu fluxo natural regando agora também os sequeiros da nação. No meu entender só mereceria ser continuado no seu aspecto crítico e mais alargado no que respeita à esquerda radical do Bloco de Esquerda e ao PC para completar a sua objectividade.

 

Urge uma metanóia radical a nível de governantes e de mentalidade popular! De resto, o país encontra-se confiscado e capturado pelas tradicionais oligarquias distribuídas por partidos, organizações secretas, economia e irmandades internacionais. A eficiência e a eficácia do nosso sistema só têm sido legítimas sob a aprovação das cores partidárias e de seus oligarcas.

 

Não há controlo fiável sobre concursos públicos nem projectos nacionais. Não se encontra em nenhuma das cores partidárias uma solução; os partidos são parte do problema! Este porém tem o seu fundamento na mentalidade de um povo que se habituou a pensar pela cabeça dos outros permitindo a corrupção instalada como algo carinhos nosso. Ao título do texto “O novo rotativismo” acrescentaria o subtítulo: O novo regime governamental acentua a realidade do rotativismo da corrupção entre PS-PSD. O novo sistema apenas torna a corrupção multicolor!

 

Antes andávamos atrás do Governo, agora corremos atrás dele!

 

ACDJ-Prof. Justo-1.jpgAntónio da Cunha Duarte Justo

 

REVISITANDO...

 

O CAPITALISMO DO POVO

 

“A coisa mais importante para os governos não é fazer as coisas que os indivíduos já estão a fazer, ou fazê-las um pouco melhor ou pior; é, sim, fazer aquelas que no presente ninguém possa fazer”

Keynes.jpgLord Keynes

 

Para começo de conversa precisamos de uma revolução semântica.

 

A expressão “sector privado” inspira uma conotação de egoísmo e apropriação; a expressão “sector público” transmite a ideia de generosidade.

 

Isso é injusto e inadequado. Mais correcto seria, como sugere o economista paulista Rafael Vechiatti, chamarmos ao sector público “sector coercivo” e ao privado “sector voluntário”.

 

Sempre que se fala em destatização, surge logo a indagação: de onde virão os recursos para o sector voluntário comprar as empresas do sector coercivo?

 

Uma resposta complexa é explicar que:

 

1) O governo não gera recursos e sim administra os recursos auridos do sector voluntário por tributação ou tarifas;

 

2) A poupança do governo é negativa e o défice é coberto mediante sucção da poupança privada;

 

3) Na medida em que o Governo corte as suas despesas, libertando a poupança privada, esta poderia comprar as empresas do “sector coercivo”; estas, aliás, não nasceram do nada e sim de tributos pagos pelo “sector voluntário”.

 

A velocidade de geração de recursos para a privatização dependeria assim apenas da velocidade da redução do défice público e da libertação das poupanças do sector voluntário.

 

Num sentido fundamental, entretanto, o problema é simples e não exige qualquer despesa. Basta uma revolução conceptual, que pode ser feita por definição legal. O importante, num primeiro estágio, é separarmos o conceito de propriedade, do direito de gestão, diferenciando-se “acções de propriedade” de “acções de gestão”. O Governo é gestor das empresas públicas, não precisa ser seu proprietário. As empresas públicas devem ser do público.

 

É esse o objectivo do projecto de lei número 139 que apresentei ao Senado Federal, em Junho de 1983, e que ali dorme o sono dos justos pois as ideias simples são em princípio escandalosas.

 

Nesse projecto prevê-se que o governo devolva aos cidadãos a propriedade das poupanças deles arrecadadas, mediante a transferência gratuita de acções – boas ou más que sejam de propriedade da União, das autarquias e de outras entidades públicas – a um grande fundo de repartição de capital.

 

Todos nós, contribuintes, receberíamos gratuitamente fracções ideais desse fundo. Os dividendos eventualmente resultantes seriam creditados aos quotistas, vale dizer, ao universo dos contribuintes, cujos impostos financiaram originalmente a criação dos elefantes estatais. As acções ficariam em custódia num organismo central, que poderia ser a Caixa Económica Federal, ou qualquer outro órgão suficientemente computorizado, que manteria escrituração da carteira de acções dos beneficiários.

 

Enquanto mantidas em custódia, essas acções seriam títulos de propriedade, porém não de gestão. O poder de voto e de gestão continuaria, como no presente, nas mãos dos administradores governamentais, até que essas acções doadas se transformassem em acções vendidas ou negociadas, através dos mecanismos normais das Bolsas de Valores ou de licitação de acções. O projecto de lei acima citado prevê que a alienação das acções ou a retirada da custódia se faça gradualmente (à razão de 5% ao ano), a fim de não congestionar o mercado de valores.

 

Se a privatização da propriedade pode ser resolvida, resta o problema da privatização da gestão, indispensável para o aumento da produtividade global do sistema. Esta continuaria a ser buscada através dos programas correntes de destatização, por venda em bolsa ou licitação. O importante seria abandonarmos a ideia – usada pelos estatizantes para sabotar a destatização – de que o Governo tem que reaver integralmente o capital investido. Em muitos casos, os investimentos foram super dimensionados, com custos financeiros tornados proibitivos pela lerda execução, de sorte que seria irrealista esperar vendê-las senão pela rentabilidade real ou esperada do património, aferida segundo as regras do mercado.

 

O programa de “repartição do capital” inauguraria imediatamente o capitalismo do povo

 

O programa de “destatização” aumentaria gradualmente a eficiência de gestão, além de trazer receitas que o Governo utilizaria para sanar aflitivas carências básicas – analfabetismo, endemias e epidemias, desnutrição e insuficiência dos serviços básicos de infra-estrutura. Não faz sentido o Governo ter postos de gasolina quando não tem postos de saúde, ou competir na fabricação de computadores quando não tem dinheiro para cuidar da malária...

 

Se há hoje uma constatação universal é a da falência do Estado-empresário. Até mesmo os regimes socialistas sentem a rigidez e o desperdício dos sistemas centralistas.

 

No universo das estatais brasileiras, o julgamento da eficiência é dificultado porque, contrariamente ao previsto no Artº 170, Parágrafo 20 da Constituição Federal, elas desfrutam de privilégios de mercado ou vantagens fiscais inacessíveis às empresas privadas. A Petrobrás, por exemplo, é lucrativa mas desfruta de um monopólio que impede a aferição de eficiência; o Banco do Brasil é lucrativo mas recebe recursos trilionários da Conta de Movimento do Tesouro a juros simbólicos e colecta depósitos compulsórios de entidades públicas, sem ter que pagar os altos custos de captação. A Vale do Rio Doce e Usiminas, que operam super avitariamente e sem subsídio, em mercados competitivos, figuram talvez entre as únicas empresas sobre cuja eficiência não pairam dúvidas. Os grupos Telebrás e Eletrobrás não podem ser julgados porque operam em condições monopolísticas, caso em que o lucro pode resultar de manipulação tarifária e não eficiência competitiva.

 

O importante é acentuar que o Ministro Dornelles e Roberto Gusmão, que pregam a privatização por sentirem na carne os abusos dos elefantes enlouquecidos do sector coercivo, não precisam de se preocupar inicialmente com a carência de recursos para a privatização. Podemos privatizar imediatamente a propriedade por transferência gratuita e, mais gradualmente, o voto e a gestão, pela venda convencional das acções à medida que o mercado as absorva.

 

Mas mesmo o primeiro passo tem consequências psicológicas importantes.

 

Sentindo-se proprietário, ainda que em fracções minúsculas, das empresas públicas, os contribuintes interessar-se-iam em fiscalizá-las, na esperança de algum dividendo e para isso organizar-se-iam em associações civis a fim de se manifestarem nas assembleias-gerais. Os gestores, sentindo-se também comproprietários, ainda que microscópios, talvez deixassem de considerar os dinheiros públicos um bem de ninguém. E o lucro da empresa passaria a ser considerado o que realmente é, um prémio do desempenho e não uma secreção de cupidez capitalista.

 

É uma perfeita imbecilidade dizer-se que não se pode privatizar as estatais porque elas são “património do povo”. Precisamente por isso é que devem ser privatizadas, na forma indicada no projecto de lei número 139. Para que sejam do povo. Hoje são dos tecnocratas, que às vezes delas abusam, ou dos políticos, que as desfiguram. O povo não tem voz...

 

(11/08/85)

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Roberto de Oliveira Campos*

* Defensor apaixonado do liberalismo. Economista, diplomata e político também se revelou um intelectual brilhante. De sua intensa produção, resultaram inúmeros artigos e obras como o livro A Lanterna na Popa, uma autobiografia que logo se transformou em best-seller. Foi ministro do Planeamento, senador por Mato Grosso, deputado federal e embaixador em Washington e Londres. A sua carreira começou em 1939 quando prestou concurso para o Itamaraty. Logo foi servir na embaixada brasileira em Washington e, cinco anos depois, participou da Conferência de Bretton Woods, responsável por desenhar o sistema monetário internacional do pós-guerra. Faleceu em 2001.

 

 

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Ricardo Bergamini


A PASSARINHA DA MINHA VIZINHA

 

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Há coisas a que um homem não consegue mesmo resistir. Por exemplo, à passarinha da minha vizinha.

 

Ela sai de casa sorrateiramente e entra pela minha janela (Primavera adentro e eu durmo sempre de janela entreaberta), acorda-me cedo pela manhã a roçar-se toda por mim a pedir que lhe satisfaça os apetites. Mas se eu resisto, logo ela se põe aos saltos em cima de mim até que não consigo resistir e levanto-me. E satisfaço-lhe todos os pedidos com tanto prazer que só eu sei como devo agradecer à minha vizinha por ter uma passarinha tão livre, tão bela, com uma penugem tão suave que me apetece lambê-la inteirinha.

 

E, satisfeita, lá vai ela toda contente por ali fora... e eu deito-me novamente e viro-me para o outro lado.

 

Haverá melhor maneira de começar o dia?

 

Há coisas a que um homem não consegue – nem quer – resistir!

 

Março de 2016

 

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Henrique Salles da Fonseca

A IGREJA CATÓLICA ALEMÃ...

 

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... APOIA A POLÍTICA DE REFUGIADOS DE ÂNGELA MERKEL


O cardeal Reinhard Marx, presidente da Conferencia dos Bispos Alemães, apoia a política de boas vindas aos refugiados, iniciada na Alemanha por Merkel. Alega que é necessário mais solidariedade mais comunidade e luta contra a xenofobia. Para o cardeal, a misericórdia não conhece fronteiras e “quem pisa território europeu tem que ser tratado com decência e obter um processo justo”.

 

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António da Cunha Duarte Justo

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