Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

A bem da Nação

A LUSOFILIA NUMA PERSPECTIVA DE FUTURO

 

III

 

Power and Glory.jpg

Chegados à filosofia do poder, deparamo-nos com a anomalia de todos os direitos serem outorgados aos poucos campeões e todas as obrigações serem imputadas a um mar de vencidos.

 

E o que será melhor? Ser-se servo num eldorado ou Senhor num mundo de miséria?

 

A aculturação das populações a um modelo standard e globalizado corta o acesso às raízes culturais mais endógenas e isso anula a ética étnica, essência da cultura mais íntima dos povos. Mas a etnologia é hoje objecto morto de Museu bolorento e escassamente visitado. Em simultâneo, quando esse desenraizamento conduz as pessoas para o mundo da globalização competitiva, então está-se a enviar populações inteiras para um mundo em que não há que olhar a meios para alcançar fins. Se a isto somarmos a atracção que as cidades exercem sobre as populações rurais flageladas pelas guerras, pela inviabilização da ruralidade e pela apologia do urbanismo, compreenderemos a selva urbana em que as nossas grandes metrópoles se transformaram. Pululam os exemplos no espaço lusófono.

 

E como diz Gilles Lipovetsky no seu livro “O crepúsculo do dever”, (...) A sociedade post-moderna ou post-moralista designa a época em que o dever se adocicou e tornou anémico, em que a ideia do sacrifício pessoal se ilegitimou socialmente, em que a moral já não exige que as pessoas se devotem a uma causa superior, em que os direitos subjectivos dominam os mandamentos. (...) o mal transformou-se em espectáculo, o ideal pouco engrandecido. Se perdura a crítica do vício, o heroísmo do bem enfraquece. Os valores que reconhecemos são mais tidos como negativos do que como positivos. (...) triunfa uma moral indolor (...).

 

Neutralizadas tanto a Moral como a Ética clássicas e modernistas, no pós-modernismo promoveu-se a competição em que tudo serve para subir na ostentação. E subir JÁ! A globalização fez isso aos países chamando-lhe competitividade. O que interessa é alcançar os objectivos. Como? Isso é o que menos interessa desde que eles sejam alcançados e, também nesta dimensão macro, JÁ!

 

O hedonismo deixou de ser uma chaga individual para assumir a dimensão plural e, pior, passar a ser considerado «politicamente correcto». O carpe diem horaciano é hoje adubo dos discursos políticos e faz doutrina junto da mole de incautos que ouve, aplaude e, pior que tudo, crê.

 

Podemos, querendo, promover o regresso do discurso da verdade sob pena de, pelo silêncio, darmos guarida a soluções que passem por fora da democracia pluralista em que queremos viver.

 

Aqui chegados, urge perguntar que solução temos à nossa frente. Adoptarmos o imobilismo monástico à espera que a crise passe? Entregarmo-nos, à moda muçulmana, nas mãos do fatalismo indiscutível? Preconizarmos um regresso às origens étnicas, folclóricas?

 

Não nos parece que atitudes de medo, de fatalidade ou de recuo sirvam o futuro por que ambicionamos.

 

Pelo contrário, creio que devemos partir rumo ao futuro pois é natural a ânsia de progresso dos povos a que pertencemos.

 

Sim, temos o direito de subir mas temos a obrigação de promover a subida dos que nos rodeiam para podermos dizer como Nelson Mandela que “a educação é o grande motor do desenvolvimento pessoal. É através da educação que a filha de um camponês se pode tornar doutora, que o filho de um mineiro se pode tornar chefe de uma mina, que o filho de trabalhadores agrícolas pode vir a ser Presidente

de uma grande nação. É o que fazemos do que temos, não o que nos é dado, que distingue uma pessoa de outra.”

 

Mas façamo-lo cumprindo os valores de alguma Ética, aquela que urge reinventarmos.

 

(continua)

 

Bombaim-2008.JPG

Henrique Salles da Fonseca

(em Bombaim, Janeiro de 2008)

A LUSOFILIA NUMA PERSPECTIVA DE FUTURO

II

 

Capacitação.jpg

 

Eis ao que andamos: a puxar as gentes para cima.

 

O fulgor da Lusofilia poderá ser provocado se cada um de nós, os lusófilos, decidir interceder nesse sentido desenvolvendo acções pessoais, locais e regionais para que numa fase mais globalizadora possamos definir as tais complementaridades e estabelecer uma rede de cooperação que promova a língua portuguesa no âmbito duma lusofilia que se irá progressivamente definindo e afirmando.

 

Essencial é que todos saibamos o que cada um faz para que possamos transmitir inspiração, evitar incompreensões e optimizar a acção.

 

Na certeza, porém, de que a língua portuguesa só poderá assumir a relevância que para ela desejamos se for o veículo dos originais de temas que mobilizem a sociedade globalizada, nomeadamente de relevância científica, tecnológica e artística. A divulgação deste tipo de trabalhos é urgente e fundamental para a nossa afirmação no mundo.

 

Noutra dimensão, tenho como fundamental lançar um apelo para a construção de uma Ética Lusófila e para a exigência de um imperativo Sentido de Estado.

 

Herdeiros de um processo de regulação moral da conduta humana necessária ao bem-estar colectivo, deitámos quase tudo a perder e eis-nos chegados à filosofia do poder, aquela em que o objectivo mais elevado é o poder e que resulta claramente de um espírito de permanente competição.

 

Como cada vitória tenderá a elevar o nível dessa mesma competição, o final lógico de tal filosofia é o poder ilimitado e absoluto. Aqueles que buscam o poder podem não aceitar as regras éticas definidas pelos costumes e a tradição enquanto, pelo contrário, adoptam normas próprias e se regem por outros critérios que os ajudam a obter o triunfo. Tentam mesmo convencer as outras pessoas de que são éticos no sentido do objectivo supremo por eles definido tentando conciliar o poder e o reconhecimento da moralidade. Assim foi que se sentam na cadeira do poder muitos daqueles para quem a ética é palavra vã. Daí ao poder absoluto, à ausência de regras consensualmente (leia-se democraticamente) construídas, à ausência de Direito e à dissolução do Estado de Direito, vulgo o fascismo, não dista muito ou não dista mesmo nada. Ignorados os princípios que definem o bem-comum, instala-se o “salve-se quem puder”, sobrepõe-se a razão da força à força da razão.

 

Globalizada a competição e sacralizados os critérios da competitividade, não mais resta qualquer esperança de sobrevivência aos que não sejam campeões. E a alternativa para os não campeões – em que o 2º classificado mais não é do que o 1º vencido – é unicamente a de serem servos. Servos mais ou menos mitigados, mais ou menos engravatados, numa gaiola mais ou menos dourada mas servos e apenas isso.

 

Todos os direitos aos poucos campeões; todas as obrigações ao mar de vencidos.

 

(continua)

 

028.JPG

Henrique Salles da Fonseca

(algures no Sri Lanka em Novembro de 2015)

A LUSOFILIA NUMA PERSPECTIVA DE FUTURO

 I

 

Internet.png

 

Lusofilia – dedicação a tudo que se relacione com a cultura portuguesa e com as culturas dela derivadas.

 


Temos, nós os lusófilos, como motivação principal o estreitamento dos laços entre as várias comunidades de língua portuguesa, pelo que é fundamental procurarmos as complementaridades nacionais que reponham a língua portuguesa na ribalta internacional e façam do espaço lusófono um modelo de facetada erudição, ética e progresso.

 

E se neste momento nos dividimos nas opções ortográficas dando maior ou menor predominância às vias erudita e popular, devemos precaver-nos contra o perigo da deriva populista (já tão em moda na política) que nos poderá conduzir ao desaparecimento do padrão e ao extermínio da via etimológica pela hegemonia da via fónica. Num espaço ainda tão flagelado pelo analfabetismo adulto, não parece ser esta uma opção de valimento porque o futuro não deve ser subjugado pela quantidade em detrimento da qualidade. Apelando à nossa tradição náutica, se desmagnetizarmos a bússola nunca mais encontraremos o rumo.

 

Simultaneamente, em plena crise financeira global resultante do hedonismo reinante e da flagelação da Ética, é imperioso que assentemos nos princípios que possam enformar o futuro de todo o mundo lusófono.

 

A tradição mercantil portuguesa pode ajudar na busca de soluções para o futuro e se a globalização nos conduz a uma dimensão muito grande, isso não obsta a que não devamos procurar enquadramentos mais à nossa escala. Antes de rumarmos para outros horizontes, dediquemo-nos à promoção das capacidades endógenas para não corrermos o risco de crescimento balofo. Referimo-nos às escalas local, regional e nacional. Na outra dimensão, a internacional, temos a CPLP como o espaço privilegiado para a corporização de uma estratégia de complementaridades de utilidade múltipla, sempre no pleno uso das inquestionáveis soberanias. E esta dimensão lusófona, queremo-la alargada aos «portugueses abandonados», aqueles que algures no Mundo e na História foram bem ou mal governados por Portugal, que absorveram os valores que lhes legámos e que após a nossa retirada – por vontade própria ou alheia – ficaram, contra ventos e marés, a defender esses valores quantas e quantas vezes rodeados de hostilidade ou, no mínimo, de desdenhosa indiferença. Referimo-nos aos lusófonos da Índia, das Celebes, de Malaca, do Sri Lanka, aos Melungos dos Apalaches e a tantos outros que não queremos deixar ao abandono. E porque adivinhamos «portugueses» perdidos por aí além, cremos que a Lusofonia está em crescimento. Crescimento numérico. Preocupemo-nos desde já com a qualidade.

 

Motiva-nos a idealização de todas as vias possíveis e úteis para o progresso da Lusofonia (expressão oral) e do espaço lusófono (expressão material, económica). E pensando nestas vertentes, lemos a História para com ela aprendermos, não a discutindo nem a negando mas reconhecendo que uma repetição não faria hoje qualquer sentido. Procuramos conhecer as questões que se colocaram no passado para melhor compreendermos o presente e, daí, perspectivarmos o futuro. In minime, modernizemos o passado.

 

A título de exemplo e recorrendo apenas a uma cidade, vejamos por onde andou Tavira, actualmente uma pequena cidade portuguesa, ao longo da História: foi sede do primeiro Hospital do Ultramar fundado em 1430 pelos frades trinitários[1] dali irradiando o apoio à Cruzada no Norte de África e à sequente gesta dos descobrimentos; foi pólo pesqueiro de primeira grandeza exportando carne de baleia para o resto da Europa; foi centro mercantil internacional até que a barra assoreou; foi «Madrinha» do Canadá; foi na de Tavira que o Marquês de Pombal se inspirou para decretar a Região Demarcada dos Vinhos do Douro (hoje erradamente considerada a mais antiga do mundo quando essa honra pertence a Tavira). Enfim, foi tanta coisa que podemos inspirar-nos fartamente no passado para imaginarmos o futuro. Mas o Império acabou, a barra não tem calado para os navios modernos, as baleias fugiram e os atuns passam ao largo, o Canadá já não se lembra da existência de Tavira e a vitivinicultura aguarda por ser restaurada.

 

Quantos outros exemplos podem ser identificados? Tantos que não cabem num texto sucinto.

 

Mas quando a análise histórica não sugere modelos pragmáticos para o futuro, resta a solução de cuidar da melhor e praticamente única matéria-prima de que dispomos, as pessoas. Por isso, antes de nos lançarmos a novas campanhas de alvorada, devemos dar prioridade à valorização dos recursos humanos.

 

(continua)

Henrique, Forte Aguada, Goa.JPG

 Henrique Salles da Fonseca

(junto ao Forte Aguada, Goa, Novembro de 2015)

 

[1] Ordem da Santíssima Trindade

Mais sobre mim

foto do autor

Sigam-me

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2019
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2018
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2017
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2016
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2015
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2014
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2013
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2012
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2011
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2010
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2009
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D
  144. 2008
  145. J
  146. F
  147. M
  148. A
  149. M
  150. J
  151. J
  152. A
  153. S
  154. O
  155. N
  156. D
  157. 2007
  158. J
  159. F
  160. M
  161. A
  162. M
  163. J
  164. J
  165. A
  166. S
  167. O
  168. N
  169. D
  170. 2006
  171. J
  172. F
  173. M
  174. A
  175. M
  176. J
  177. J
  178. A
  179. S
  180. O
  181. N
  182. D
  183. 2005
  184. J
  185. F
  186. M
  187. A
  188. M
  189. J
  190. J
  191. A
  192. S
  193. O
  194. N
  195. D
  196. 2004
  197. J
  198. F
  199. M
  200. A
  201. M
  202. J
  203. J
  204. A
  205. S
  206. O
  207. N
  208. D